quinta-feira, novembro 06, 2008

A propósito de Obama: América e Europa

Muitos comentadores têm aproveitado a eleição de Barack Obama, um afro-americano (embora um afro-americano muito particular, não um descendente da escravatura mas um filho de um emigrante queniano), para presidente dos USA para realçarem o facto de algo de semelhante ser remoto na Europa, deste modo partindo para uma conclusão fácil sobre a superioridade da sociedade americana e dos seus valores. Penso que semelhante conclusão é injusta para a Europa – comparando o incomparável - sendo apenas justificada por opções e preconceitos ideológicos apriorísticos. Senão vejamos.

Admiro os USA e a sua sociedade aberta, principalmente as suas facetas descomprometidas e despreconceituosas que fazem com que sempre nos tratem como iguais seja na loja, no restaurante ou na rua em que nos abordam e “metem conversa” apenas porque algo em nós lhes despertou curiosidade. Gosto de muito do seu sentido prático de vida, da forma como tornam simples o que, à partida, teria todas as condições para ser a sua antítese, algo que só alguns poderiam dominar. Sou sempre o primeiro a afirmar que, com excepção do Maio de 68, tudo o que fez realmente avançar o mundo de um ponto de vista social nos últimos 60 anos (direitos cívicos, luta contra a guerra do Vietnam, movimento hippie, rock and roll, queda do Muro de Berlim e fim da guerra fria, pop art, beat generation, etc, etc e estou com certeza a esquecer-me de algo) se passou nos USA ou aí, de uma forma ou outra, teve origem ou incitamento. Mas grande parte disso só é possível porque, ao contrário da Europa, os USA foram uma sociedade constituída e moldada pela imigração, por vagas sucessivas de gente com tradições, línguas e religiões diferentes num território sem escassez de terra e onde não pré-existiam formas de organização social e económica consistentes. É isso que, apesar da escravatura e da discriminação - que ainda hoje se reflectem no nível cultural e socio-económico da maioria da sociedade negra descendente de escravos – tornou a sociedade americana extraordinariamente aberta ao empreendorismo, à inovação tecnológica, a novas ideias e expressões artísticas e culturais que fazem a sua riqueza. A um certo ambiente de descontracção que muito a caracteriza. Por último, formaram-se enquanto colónia e por oposição a um império colonial, o que penso fez toda a diferença no modo como se encararam nos seus valores originais.

Tudo foi diferente do lado de cá do Atlântico, onde a sociedade industrial e burguesa - e com ela a democracia - se edificou na sucessão mais ou menos conflitual da antiga sociedade aristocrática, definida pelo nascimento e baseada na posse da terra – bem escasso, cuja influência e valores, que não renego e contêm em si uma herança com muito de positivo que faz parte do nosso património e ajuda a formar a nossa personalidade enquanto europeus, se estende até aos dias de hoje, criando sistemas próprios de organização política, moldando hábitos e formas de estar e proceder, comportamentos e uma amálgama de valores que ainda hoje prevalece. Acresce que, com poucas excepções até aos anos do pós-guerra, nunca foram a Europa ou cada uma das nações que a compõem sociedades de imigração massificada, antes terra de origem de emigrantes. Nunca foram colónias, mas impérios coloniais impondo a sua dominação. Tudo isso torna a sociedade europeia mais fechada, mais classista e menos aberta à mudança e ao empreendorismo, menos individual e mais colectiva. Também menos desigual e mais solidária. E, ao contrário dos USA onde, pela distância e pelo facto de ser uma nação em construção, o estado estava tantas vezes ausente, uma sociedade mais dele dependente e que nele, em última instância, se habituou a confiar. São esses os nossos valores; o “heritage” que molda uma personalidade europeia formada por séculos de História comum hoje em dia cada vez mais enriquecida e diversificada pela influência trazida pela emigração dos últimos decénios. È sobre eles e deles evoluindo que a Europa deve edificar o seu futuro. Qualquer imitação da América ou do que quer que seja, que não tenha em conta uma herança histórica e valores que nos são próprios, será sempre bem pior - sabemos - do que a versão original que admiramos.

2 comentários:

VdeAlmeida disse...

Bom, meu caro JC, deixe-me dizer que a minha visão da sociedade norte-americana não é tão benevolente quanto a sua, embora concorde com muito do quue diz. Mas acho que esse "retrato" pode assentar ao cidadão médio das grandes cidades (e mesmo assim, não todas), mas está muito longe do pensamento do americano que vive na América profunda.
De qualquer forma o que eu queria referir sobre o assunto, era a visão de JPP (desculpe não lhe ter respondido ao que escreveu sobre ele, mas na altura não tive tempo, e agora, já acho o assunto um pouco requentado, mas concordo no essencial com a sua perspectiva)sobre este assunto, e expresso ontem na quadratura do círculo, em que referiu - para enaltecer, como habitualmente, a supremacia dos EUA - que uma eleição assim nunca poderia acontecer na Europa - aqui, coincidia consigo - e apontava aquilo que lhe pareciam ser os óbices a que tal se verificasse.
Resumia tudo, dizendo que em Inglaterra, França, Portugal, Espanha ou Itália, nunca poderia ser eleito um negro, e que estes, em qualquer dos países citados, o cidadão de cor não acede a lugares de destaque, e que mesmo na política, poderá chegar a deputado com papel secundário, e a nada mais poderia aspirar.
Ora, esquece JPP que, pelo menos em Portugal, não há uma franja de sociedade descendente de escravos. Na verdade, a chegada de negros ou mulatos ao nosso país (em massa, diga-se), é recente, uma vez que o antigo regime, eles permaneciam nos países de origem (Angola e Moçambique, principalmente), a não ser em casos excepcionais e elitistas, como no caso de Agostinho Neto, Rui Mingas e, obviamente, os futebolistas.
Mas o que achei mais curioso foi que, estando ele a frente a um eminente cidadão que por acaso até é miscigenado, ele não desse conta, e com uma insensibilidade que lhe é muito característica, fruto da sua ostentada superioridade intelectual, assim o depreciasse, dizendo, sem lhe dizer, que ter chegado a Presidente da CML já era mais do que aquilo a que deveria aspirar.
Prudente e educadamente, António Costa não lhe lembrou a sua condição racial. E fez bem.

Abraço

JC disse...

Bom, meu caro, tb há muita coisa que não gosto na América, mas por cá ainda existe um pouco a tendência para ver nos USA um certo "Grande Satã", o que tb não corresponde à realidade que é bem mais complexa. Não conheço mtº da América (apenas NY, Washington, South Carolina, Califórnia, Nevada e New Orleans), mas o suficiente para ficar com uma ideia relativamente completa e entender quão complexo é o país. O que escrevi não pretende ser um retrato: limitei-me a enumerar algumas coisas de que gosto. Outras, naqueles estados repúblicanos do mid-west, são mesmo para esquecer.
Quanto ao JPP coincidir comigo na opinião de um negro não poder ser eleito na Europa, concordo, mas, como pode ler no que escrevi, considero isso apenas fruto das circunstâncias e especificidades, diferentes na Europa e nos USA, e não um qualquer sinal de superioridade americana. Aliás o que escrevi pretende mesmo ser uma resposta a essa tal propalada superioridade americana.
Muito sinceramente, acho que o António Costa lhe devia ter respondido à letra, e só não o terá feito por ter alguns complexos culturais face à "bagagem" de JPP, uma constante visível na sua participação na "Quadratura". Teria subido na minha consideração, já que, se como tudo indica o S. Lopes for candidato, lá terei que votar no Costa para evitar o "cataclismo"!!!
Abraço e obrigado pelo comentário.