sexta-feira, novembro 07, 2008

Ainda a avaliação dos professores

Claro que, oportunisticamente, Manuela Ferreira Leite já fez suas as “dores” de David Justino, logo as do Presidente da República. Ou terá sido ao contrário? É que, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, “isto anda tudo ligado”.


Aproveito a oportunidade para, a propósito dos modelos de avaliação, transcrever um excerto de um post que aqui publiquei a 15 de Março deste ano.

"Só existe uma maneira de, em cada escola, avaliar os respectivos professores: através da respectiva hierarquia e por meio de modelos de avaliação pré definidos utilizando critérios vários, subjectivos uns e objectivos outros, pré determinados e cada um deles com a sua valência específica (acrescento: com definição de quotas). Tudo o resto, em maior ou menor grau, nada mais é do que uma fraude. A hierarquia, os “avaliadores” foram seleccionados por critérios contestáveis? Certamente menos contestáveis do que aqueles que permitem a actual situação de não diferenciação, nunca posta em causa por sindicatos e professores que agora provam do seu próprio veneno.

Claro que os modelos utilizados devem ser suficientemente perfeitos para evitar a aleatoriedade ou o demasiado peso específico atribuído a critérios puramente subjectivos; claro que seria ideal que o modelo fosse suficientemente flexível e as escolas tivessem autonomia suficiente para que a valência de cada critério, o seu peso no total, variasse em função dos objectivos de cada uma, o que não sei se acontece; claro que uma avaliação deste tipo é tanto mais complexa quanto maior for a sua preocupação com o rigor e justiça dos resultados, o significa trabalho acrescido e explica a aparente dificuldade de entendimento do modelo proposto; mas não me parece possa existir qualquer outro sistema credível que se afastasse decisivamente do que aqui descrevo e que é, com variações, o universalmente utilizado nas organizações. Significa isto que os professores não têm razão na sua contestação? A resposta é sim: de um modo geral, não têm. Significa isto que todos, ou a maioria, estarão mal intencionados na sua contestação? Sou levado a pensar que não, não estarão. O que se passa é que viciados num modelo de funcionamento promovido durante anos pelo ministério e que lhes criou uma mentalidade e um way of doing the things muito particulares, encapsulando-os e, assim, os protegendo da realidade do mundo e da vida, os professores são agora, de chofre, confrontados com um mundo que não compreendem e para o qual não foram preparados. E, claro está, isso magoa e afastará muitos deles: os menos preparados."

5 comentários:

CB disse...

O autor deste texto revela enorme desconhecimento daquilo que efectivamente está em causa, tal como a maior parte dos "fabricantes de Opinião" da nossa paróquia. Não conheço os modelos/processos de avaliação de desempenho nas organizações empresariais de referência, mas tenho a convicção que não terão nada a ver com a monstruosidade burocrática que constitui este: reuniões inumeráveis e infindáveis, fichas e fichas, grelhas e grelhas para preencher, criação de um ambiente hostil ao trabalho de equipa, institucionalização do individualismo puro e duro... É assim que se trabalha em empresas privadas de topo? Estou seguro que não. Nestas organizações, a criação de um ambiente amigo para os seus funcionários desenvolverem as tarefas com eficiência máxima constitui uma das suas prioridades de gestão dos seus recursos humanos. Veja-se o caso da Microsoft Portugal! Nas escolas, com este abjecto modelo de avaliação dos docentes pretende-se precisamente o contrário: envenenar irremediavelmente o ambiente de trabalho dos docentes, afogá-los em tarefas burocráticas completamente inúteis, deixando para secundaríssimo plano a função principal de qualquer professor, que é ensinar e formar os nossos jovens.
Ao autor deste texto faço uma recomendação: não faça juízos de valor apressados e infundamentados. A larga maioria dos professores não tem medo da avaliação. Exigem, tão somente, que seja equilibrada, sensata, justa e que não impeça de os professores desenvolverem plenamente a sua actividade fundamental: educar.

JC disse...

Obrigado pelo seu comentário, CB. Devo dizer-lhe que numa empresa americana em que trabalhei a avaliação era feita, inclusivamente, com recurso a um modelo informático, e até estarmos familiarizados com ele chegámos a trabalhar, nós gestores, um ou dois dias, até às 7 da manhã!!!
Admito o actual modelo esteja longe da perfeição, mas é seguramente melhor que a não avaliação actual e o que oiço, não é a contestação do actual, é a recusa de quotas e o apelo a uma avaliação externa, ambas sem qualquer sentido. Mas, meu caro CB, acha que na Microsoft existe algum modelo de avaliação semelhante ao actual dos professores e todos chegam ao topo da carreira? E que não existe trabalho burocrático a realizar? Pf informe-se.
Cumprimentos

VdeAlmeida disse...

É mais que evidente que o que era válido na altura em que o post foi escrito, se mantém.
Diga-se o que se disser, os professores não querem qualquer tipo de avaliação.
Quando se falou em avaliações no meu local de trabalho, houve reacções semelhantes - e eu sei que corrente política mais renitente em relação a elas - (eu próprio não concordava com alguns dos tópicos de avaliação, como no caso das cotas), mas como não mamávamos na teta do Estado, houve que aceitar, e a verdade é que o sistema tinha mais virtudes que defeitos, uma vez que se acabou de vez com a má prática de premiar todos por igual.
Meu caro JC, todos sabemos quem manobra este tipo de contestação. Os autocarros que hoje desceram (ou subiram) até Lisboa, são os mesmos que despejam "voluntários" para a montagem da festa do Avante. Só é pena que alguns, certamente fora dessa órbita, por oportuunismo, se deixem envolver nestas manobras, que nada de bom trarão ao ensino.

Abraço

VdeAlmeida disse...

P.S.- Ah! pois, a nós também nos dava um trabalhão dos demónios a fazer as avaliações. Mas nunca foi por isso que se atrasou o trabalho que havia a fazer...

JC disse...

Uns por oportunismo e outros por ignorância, comodismo, etc. Mas enquanto não for possível alterar o modo como se organiza e estrutura a função pública e os professores, responsável pelo domínio que o PCP ainda exerce nesses sectores, não será possível levar de vencida os tais "voluntários". É aí que o "combate" se tem de travar, portanto. Nada mais acrescento, meu caro VdeAlmeida.