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segunda-feira, janeiro 12, 2015

Paris e o "aftermath"

Como sou optimista, talvez até ingénuo, acho que a nível oficial nada de essencial irá mudar em questões como as liberdades e o controlo de fronteiras após os atentados de Paris, isto depois de alguns desabafos mais ou menos securitários e de alguma retórica de circunstância destinados a satisfazer as emoções de momento e minimizar a capacidade de atracção dos diversos populismos e da extrema direita europeia. Em minha opinião (sou optimista, repito), tudo se irá limitar - e ainda bem - a uma melhoria da eficácia e colaboração entre os vários serviços de informação - que falharam redondamente neste caso - e a algumas medidas acrescidas de controlo que não afectarão no essencial a liberdade de circulação no espaço Schengen.  Por grande apego das actuais lideranças europeias à tolerância e às liberdades? Por crença profunda das mesmas na necessidade de mudanças na atitude e atenção dos governos face às minorias étnicas? Por concluírem da necessidade de moderação ou mesmo de mudança nas políticas económicas actualmente dominantes? Infelizmente (e vamos lá temperar o optimismo com algum realismo) não me parece. Mais porque a liberdade e facilidade de circulação são hoje em dia um pilar importante no funcionamento da economia europeia (e ainda bem que assim é) e as políticas securitárias custam o muito dinheiro que, para além da mais do que duvidosa relação custo/benefício, ninguém está verdadeiramente disposto a pagar. Antes assim.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Terrorismo(s) e políticas

Para não corrermos o risco de confundir as estratégias políticas e de segurança que devemos definir e pôr em prática para combatermos o terrorismo radical islâmico, convém ter em atenção que, de um modo geral, podemos dividir as suas acções em dois grupos fundamentais:
  1. Os grandes atentados, como o das Torres Gémeas, do metropolitano de Londres e da estação de Atocha, que envolvem meios consideráveis e uma logística e capacidade financeira só ao alcance de organizações relativamente sofisticadas. Aqui, claro está, não podemos falar de problemas de integração, austeridade e desemprego, até porque muitos dos seus executores são gente aparentemente integrada e com meios de vida, no mínimo, razoáveis. Estamos a falar de um problema em cuja resolução a política internacional e a geo-estratégia têm de assumir um papel fundamental.
  2. As pequenas acções (nos meios, que não nas consequências) como a de Paris (e outras), que, embora reivindicando-se e mergulhando as suas raízes numa ideologia islâmica radical, são executadas, essas sim, por gente demasiado marcada por problemas de integração económica, social e cultural, que as políticas europeias têm vindo a agravar e as torna alvos preferenciais do recrutamento jihadista. Não estará aqui todo o problema, nem sequer na desintegração mergulha a totalidade da sua raiz, mas apenas uma sua parte importante. Isso significa que o assunto é suficientemente grave para que, digo-o sem esperança, já que me parecem ser este tipo de acções encaradas pelos actuais dirigentes da UE um pouco como "efeitos colaterais" da política actualmente definida pela e para a Europa, os cidadãos europeus se recusem a enfrentar e resolver com coragem o problema.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Uma nova "Idade das Trevas"?

Em Espanha aprova-se uma das leis mais restritivas de que tenho memória sobre a IVG. Em Portugal aprova-se o recurso ao referendo sobre um direito de uma minoria que viola grosseiramente o bem-estar e o futuro de muitas crianças e adultos. Em França, Hollande dá uma de "Pétainzinho" e adere às teses alemãs sobre a economia e a Europa. Decididamente, a Europa e a UE aceleram o seu caminho para uma nova Idade das Trevas. Que desilusão.

terça-feira, julho 09, 2013

A perda de soberania

Quando um país perde a sua soberania, em parte ou na totalidade, existem duas atitudes a tomar. Uma é o conformismo, ou até o entusiasmo perante a nova situação porque isso nos convém, por afinidades ideológicas e programáticas com o novo "poder" ou porque dessa perda de soberania julgamos poder tirar algumas vantagens materiais. Outra é tentarmos lutar contra isso mesmo que tal nos pareça inútil, as oportunidades sejam escassas, os sacrifícios muitos, os ganhos nos pareçam irrelevantes e o resultado final duvidoso. A Europa do século XX está cheia de exemplos de povos que perderam essa soberania e de cidadãos que escolheram uma ou outra dessas opções. Hoje, sabemos de que modo a História valoriza uns e outros, uma ou outra atitude.

segunda-feira, outubro 01, 2012

Esta é a Europa que nos dá alegrias!


A Europa venceu "fora" (Illinois) os USA (14 1/2-13 1/2) na edição deste ano da Ryder Cup, um dos cinco acontecimentos desportivos mais importantes a nível mundial. Foi uma "remontada" sensacional (os "sites" desportivos estrangeiros falam em "milagre") depois de, no sábado, a equipa europeia ter estado a perder por 10-4. Em Portugal, apesar do país ser um destino de golfe reconhecido internacionalmente, o acontecimento passou praticamente despercebido, e apenas o "Público" e o canal especializado, e pago, da Sport TV (transmitiu em directo) lhe dedicaram a mais do que merecida atenção. De resto, estou certo os bares do Algarve abarrotaram com turistas e residentes estrangeiros para verem em directo mais uma grande vitória da equipa europeia capitaneada por José Maria Olazábal.

A Ryder Cup disputa-se de dois em dois anos, alternadamente nos USA e num país europeu, no sistema "match play", isto é, em que cada jogador ou equipa competem com o(s) seu(s) adversário(s) directos e não contra o campo, e nas variantes "individual" (cada jogador compete contra o seu adversário directo), "foursomes" (equipas de dois jogadores com uma só bola por equipa) e "fourball" (equipas de dois jogadores jogando cada um a sua bola).

sábado, setembro 15, 2012

A redução da TSU e o "empobrecimento"

Sobre o disparate que constitui a redução da TSU já praticamente tudo foi dito. Mas convém acrescentar uma coisa: ao reduzir de forma brutal e dramática os salários no sector privado (onde não cabe o argumento da redução da despesa pública), transferindo valor do empregado para o empregador, ela é a medida que melhor exprime a estratégia de "empobrecimento" que está no âmago da única ideia consistente deste governo para sociedade portuguesa. Significa isto que não é possível ver a árvore e não ver a floresta, isto é, que não é possível, ou é pelo menos insuficiente, argumentar de forma consistente e sustentada contra a redução da TSU sem pôr em causa a própria estratégia de "empobrecimento" que lhe está na base e a justifica. Sem pôr em causa o governo.

Em certa medida, mesmo que de forma subliminar, parece-me ter sido a constatação brutal dessa estratégia de "empobrecimento" que a redução da TSU veio evidenciar que levou de repente, num abrir e fechar de olhos, a um certo "choque e espanto" em muitos sectores da sociedade portuguesa. Pior, acordou os portugueses para o facto de ser este o primeiro governo depois da normalização constitucional a pôr em causa, senão mesmo a quebrar, não direi um consenso, mas um entendimento largamente maioritário existente na sociedade portuguesa e que esteve na base do 25 de Abril, do 25 de Novembro e da adesão à então CEE: a aproximação aos valores e padrões económicos, sociais, culturais e civilizacionais da Europa desenvolvida. É exactamente por recusar a Portugal esse lugar no seio da civilização e do desenvolvimento que este governo deve e tem de ser combatido.    

quarta-feira, maio 16, 2012

A crise da UE e algumas questões geo-estratégicas fora de moda

Estou muito longe de ser um especialista em questões geo-estratégicas; por isso não deixo respostas. Mas como cidadão interessado nestas coisas da política e - permitam-me - com alguns conhecimentos da História europeia, não deixo de me questionar sobre este assunto e de me permitir levantar algumas questões desta ordem num tempo em que os economistas parecem monopolizar a política e secar tudo à sua volta. Pois aí vão, "politique d'abord" (sim, sei que o autor da frase não é "flor que se cheire", mas a expressão dá jeito):

  1. A queda do Muro de Berlim como que empurrou a centralidade europeia para leste, tornando os países do sul/sudoeste mais periféricos. De que modo, em termos também ele geo-estratégicos mas também económicos, pensam esses países, entre eles Portugal e Espanha, responder a esse desafio? Uma resposta, no caso de Portugal e Espanha, privilegiando o "eixo atlântico", numa aproximação à América do Sul e África Ocidental, poderia minimizar o problema ou arriscar-se-ia a aprofundar essa condição periférica? E o fortalecimento do chamado "Bloco Ibérico", caminhando no sentido de uma federalização da Península? Assistiremos a uma certa centrifugação europeia com Itália e França sugestionadas pelo Magreb?
  2. Se a Grécia sair do Euro e da UE, enfraquecendo a sua posição face ao tradicional inimigo turco, qual a sua futura relação com a Rússia, em certa medida derrotada na guerra civil grega de 1946/49? E poderíamos assistir à constituição de um bloco balcânico Grécia/Sérvia sob a influência russa? E o frágil equilíbrio de Chipre no meio de tudo isto?
  3. Será que esta nova Alemanha reunificada a leste estará mesmo interessada na UE ou a sua prioridade não estará antes  na reedificação da sua tradicional esfera de influência, uma nova versão do Lebensraum englobando Polónia, Áustria, República Checa, Hungria, Eslováquia, Croácia e Eslovénia?
  4. E os USA, tradicionais aliados de UK e França em duas guerras contra a Alemanha, que pensarão sobre tudo isto e como irão agir? De que modo a presidência ser ocupada por democratas ou republicanos, com pensamentos estratégicos eventualmente diferentes sobre as questões internacionais e europeias,  influenciará as suas decisões neste campo?
Pois, tendo dito isto, apetece-me dizer que há muito mais vida antes e depois da economia. E era bom que quem de direito pensasse um pouco sobre este tipo de assuntos antes de se decidir a abrir a caixa da tal Pandora... 
 

quinta-feira, novembro 10, 2011

Portugal e a Europa

Ao contrário de Espanha, que teve um império europeu e, ao longo da sua História, foi quase sempre uma potência continental a ter em conta, Portugal nunca foi verdadeiramente um Estado europeu e, exceptuando pequenos períodos e de forma marginal,  nunca se envolveu de forma determinante nos conflitos que edificaram aquilo que é a Europa de hoje em dia. Claro que Aljubarrota pode - e deve - ser considerada como um episódio da Guerra dos Cem Anos; houve as invasões de Napoleão, uma guerra mais travada por ingleses em solo luso do que outra coisa qualquer; e  tivemos ainda o CEP, um exército composto por camponeses analfabetos que desconheciam qualquer tipo de estrutura organizativa, sendo que muitos deles nunca tinham visto sequer um automóvel, que lá se desenrascou como pôde (e pôde mal), nos campos da Flandres, naquela que foi a primeira guerra da era industrial. Encostados entre aquilo que viria a ser a Espanha e o mar, a expansão fez-se primeiro para os campos de cereais do norte de África e, depois, para as rotas marítimas das sedas e especiarias e para o ouro do Brasil.

Derrubado o Império pelos ventos da História, Mário Soares, um político culto e cosmopolita, na sua essência mais um europeu do que um português, abriu ao país as portas da Europa, um pouco contra a vontade, ou pelo menos com a desconfiança, de uma boa parte de um empreendorismo sempre muito pouco empreendedor e órfão do proteccionismo do Estado Novo. Esses "empreendedores", ou, para ser mais correcto, uma sua maioria, os verdadeiros velhos do Restelo do século XX, encontraram então no conforto do Estado "cavaquista" e no aconchego dos "fundos estruturais" um novo modo de vida, algo que os governos seguintes, salvo pequenas, honrosas e insuficientes excepções, não tiveram vontade e coragem de mudar.

São agora os portugueses, perante uma crise global da zona euro que tornou os problemas de alguns Estados mais agudos, postos perante a eventualidade de falharem o "seu" projecto europeu, que não é mais do que a oportunidade de estarem onde nunca estiveram e participarem onde nunca o tinham feito: no centro e na construção da velha Europa. Caso tal venha a acontecer, será sem dúvida um dos maiores fracassos da História de Portugal, condenando o país ao empobrecimento e a uma melancólica existência periférica. Mário Soares, um português felizmente bem maior do que o mesquinho país onde nasceu, não merece esse destino. Infelizmente, acho não se poderá dizer o mesmo da maioria dos seus concidadãos

domingo, junho 12, 2011

Mais uma lição de Mário Soares

Mário Soares em entrevista o "i": "o patriotismo é o patriotismo europeu". Muito bem! Haja quem tenha a coragem de o afirmar "alto e bom som".

quinta-feira, novembro 06, 2008

A propósito de Obama: América e Europa

Muitos comentadores têm aproveitado a eleição de Barack Obama, um afro-americano (embora um afro-americano muito particular, não um descendente da escravatura mas um filho de um emigrante queniano), para presidente dos USA para realçarem o facto de algo de semelhante ser remoto na Europa, deste modo partindo para uma conclusão fácil sobre a superioridade da sociedade americana e dos seus valores. Penso que semelhante conclusão é injusta para a Europa – comparando o incomparável - sendo apenas justificada por opções e preconceitos ideológicos apriorísticos. Senão vejamos.

Admiro os USA e a sua sociedade aberta, principalmente as suas facetas descomprometidas e despreconceituosas que fazem com que sempre nos tratem como iguais seja na loja, no restaurante ou na rua em que nos abordam e “metem conversa” apenas porque algo em nós lhes despertou curiosidade. Gosto de muito do seu sentido prático de vida, da forma como tornam simples o que, à partida, teria todas as condições para ser a sua antítese, algo que só alguns poderiam dominar. Sou sempre o primeiro a afirmar que, com excepção do Maio de 68, tudo o que fez realmente avançar o mundo de um ponto de vista social nos últimos 60 anos (direitos cívicos, luta contra a guerra do Vietnam, movimento hippie, rock and roll, queda do Muro de Berlim e fim da guerra fria, pop art, beat generation, etc, etc e estou com certeza a esquecer-me de algo) se passou nos USA ou aí, de uma forma ou outra, teve origem ou incitamento. Mas grande parte disso só é possível porque, ao contrário da Europa, os USA foram uma sociedade constituída e moldada pela imigração, por vagas sucessivas de gente com tradições, línguas e religiões diferentes num território sem escassez de terra e onde não pré-existiam formas de organização social e económica consistentes. É isso que, apesar da escravatura e da discriminação - que ainda hoje se reflectem no nível cultural e socio-económico da maioria da sociedade negra descendente de escravos – tornou a sociedade americana extraordinariamente aberta ao empreendorismo, à inovação tecnológica, a novas ideias e expressões artísticas e culturais que fazem a sua riqueza. A um certo ambiente de descontracção que muito a caracteriza. Por último, formaram-se enquanto colónia e por oposição a um império colonial, o que penso fez toda a diferença no modo como se encararam nos seus valores originais.

Tudo foi diferente do lado de cá do Atlântico, onde a sociedade industrial e burguesa - e com ela a democracia - se edificou na sucessão mais ou menos conflitual da antiga sociedade aristocrática, definida pelo nascimento e baseada na posse da terra – bem escasso, cuja influência e valores, que não renego e contêm em si uma herança com muito de positivo que faz parte do nosso património e ajuda a formar a nossa personalidade enquanto europeus, se estende até aos dias de hoje, criando sistemas próprios de organização política, moldando hábitos e formas de estar e proceder, comportamentos e uma amálgama de valores que ainda hoje prevalece. Acresce que, com poucas excepções até aos anos do pós-guerra, nunca foram a Europa ou cada uma das nações que a compõem sociedades de imigração massificada, antes terra de origem de emigrantes. Nunca foram colónias, mas impérios coloniais impondo a sua dominação. Tudo isso torna a sociedade europeia mais fechada, mais classista e menos aberta à mudança e ao empreendorismo, menos individual e mais colectiva. Também menos desigual e mais solidária. E, ao contrário dos USA onde, pela distância e pelo facto de ser uma nação em construção, o estado estava tantas vezes ausente, uma sociedade mais dele dependente e que nele, em última instância, se habituou a confiar. São esses os nossos valores; o “heritage” que molda uma personalidade europeia formada por séculos de História comum hoje em dia cada vez mais enriquecida e diversificada pela influência trazida pela emigração dos últimos decénios. È sobre eles e deles evoluindo que a Europa deve edificar o seu futuro. Qualquer imitação da América ou do que quer que seja, que não tenha em conta uma herança histórica e valores que nos são próprios, será sempre bem pior - sabemos - do que a versão original que admiramos.

domingo, junho 15, 2008

Um país vulnerável ou sociedades vulneráveis?

O primeiro-ministro declarou no final da paralisação dos camionistas ter sentido o país vulnerável. É uma mera constatação que qualquer um pôde fazer. Mas de onde vem e onde nasce essa vulnerabilidade? É o país que está vulnerável ou isso acontece com todas as sociedades modernas em virtude da forma e do modo como se organizam e estruturam? Bom...

O PCP veio "a correr" afirmar que essa vulnerabilidade se devia à opção pelo transporte rodoviário em detrimento do ferroviário. Tem alguma razão, mas essa é apenas a parte que mais lhe interessa, já que o transporte ferroviário está, na maior parte das vezes, entregue a empresas públicas ou onde o Estado detém importantes poderes de controle. Mas, como disse, tem aí um ponto importante a seu favor, já que esse controle permite também aos governos prever, evitar e gerir melhor eventuais conflitos e, mesmo que essas empresas fossem maioritariamente privadas, é sempre mais fácil ter como interlocutor uma ou meia dúzia de grandes empresas estruturadas e dirigidas por gente mais preparada (o governo lá foi negociando com a ANTRAM) do que uma multitude de micro e pequenas empresas empresas entre o familiar e o quase, passando pelo "mais ou menos" e também pelo "assim-assim". Só que o problema é mais vasto, e o transporte ferroviário não só não faz o transporte door to door como, por isso e pelas necessidades logísticas das sociedades e empresas actuais, dificilmente pode preencher, por menor flexibilidade, todos os requisitos exigidos. Vamos um pouco atrás, aos tempos pré-históricos da 1ª metade do século XX.

Há 50 ou 60 anos, em Portugal, vivia-se maioritariamente no campo, uma boa parte da economia era de subsistência e de trocas locais e as pequenas vilas e pequeníssimas cidades eram, em grande parte, abastecidas por produtores locais. Mesmo as cidades como Lisboa ou Porto, sem as grandes áreas suburbanas de hoje em dia e onde as pessoas viviam maioritariamente perto do seu local de trabalho, eram abastecidas em frescos pelas zonas rurais circundantes (no caso de Lisboa, pela região saloia, por exemplo) e a composição da procura de produtos alimentares ou de higiene era muito menos segmentada e sofisticada do que hoje em dia, mesmo nas classes mais altas. A distribuição, essa, era assegurada por uma multidão de pontos de venda, pelo comércio tradicional que maioritariamente comprava a armazenistas e distribuidores que formavam stocks elevados, muitas vezes cobrindo várias semanas ou meses de necessidades de consumo. Por isso mesmo e pela pouca importância que então assumia o transporte individual privado, pela organização das empresas em que a interdependência era infinitamente menor obrigando a muito menos deslocações dos seus funcionários e pela quase ausência de viagens aéreas, as necessidades urgentes de combustível (gasolina e gasóleo) eram bem menores e menos prementes. Acresce que a internacionalização da empresas era fraca, a grande maioria sendo locais ou até mesmo regionais, e a existência de fronteiras e deficientes vias de comunicação obrigava as empresas internacionais a produzirem ou, pelo menos, "stockarem" localmente. Assim, e como o transporte de mercadorias raramente assumia foros de urgência extrema, o caminho de ferro podia, por conseguinte, assumir um papel bem mais relevante, Estávamos, portanto, perante um país muito menos vulnerável a interrupções de abastecimento e distribuição de produtos essenciais.

Escusado dizer como tudo isto mudou radicalmente, vulnerabilizando a sociedade a interrupções de fornecimento mesmo que de poucos dias. Portugal (e com ele a maioria dos países europeus) é, hoje em dia, uma sociedade terciarizada, com uma rede urbana e suburbana complexa e deslocações casa-trabalho de vários quilómetros, empresas que funcionam sem stocks (cuja existência teria hoje em dia custos insuportáveis), na base do "just in time", esses mesmos stocks centralizados em Espanha, Alemanha ou Polónia, por exemplo, por via da racionalização de custos permitida pela livre circulação, com empresas interdependentes obrigando a deslocações frequentes dos seus trabalhadores e gestores. Por sua vez, a distribuição é assegurada por hiper e supermercados, cash & carries, que não constituem stocks e compram frequentemente a fornecedores geograficamente situados em zonas longínquas. A procura segmentou-se e sofisticou-se e, simultaneamente, muitos dos fabricantes de produtos hoje em dia de primeira necessidade e quase desconhecidos há 50 ou 60 anos (basta olhar para as prateleiras de “higiene e limpeza”) centralizaram a sua produção em um ou dois países europeus. A agilização e flexibilização necessárias, do lado da distribuição, para prover a este tipo de requisitos é, muitas vezes, incompatível com uma maior rigidez do caminho de ferro quando comparada com o transporte rodoviário, em modernas e rápidas auto-estradas, com distribuição door to door, horários muito mais flexíveis e cargas menores. Isto não impede, claro está, um maior aproveitamento do combóio e um aumento da sua quota de mercado no transporte de mercadorias, mas é insensato pensar que ele resolverá maioritariamente o problema, já que a essência está, isso sim, na forma e no modo como se estruturam as sociedades e que nada tem a ver com o que se passava no passado. Isso torna-as mais vulneráveis? Sem dúvida, mas será bom também, pelo menos de vez em quando e se não se importam, dar uma espreitadela para o lado dos benefícios. Talvez isso nas torne um pouco mais felizes...