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quarta-feira, janeiro 14, 2015

Manuel Valls por maus caminhos

Numa democracia digna de si própria, se alguém fizer em público ou difundir, de algum modo, comentários racistas, segregacionista, anti-semitas ou quaisquer outros do mesmo género contra um povo ou uma religião, estamos apenas, em minha opinião, perante um cretino, um energúmeno, desde que essas suas atitudes, na prática, não violem as leis da igualdade, isto é, não discriminem ninguém em função da raça, sexo ou nacionalidade, leis essas estruturantes de qualquer democracia. Se o fizerem, estará a violar a lei e terá então, mas só então, de responder por tal acto. Enquanto tal não acontecer, deverá ter todo o direito a exprimir a sua opinião, por mais abjecta que seja: confiemos a sociedade saberá julgar tais atitudes. Aliás, recorrendo à irreverência extrema e a um tipo de humor iconoclasta que torna sempre mais integrável e até mesmo bem vindo algum radicalismo, no limite, alguns mais susceptíveis podem mesmo considerar que o "Charlie Hebdo" não terá andado demasiado longe de algumas das categorias acima mencionadas.

O mesmo deve acontecer com quem difunde ideologias contrárias ao Estado Democrático, quaisquer que elas sejam, incluindo o nazismo e o apelo ao terrorismo, desde que não utilizem a violência na sua acção política. Se estivermos perante alguém que defenda o negacionismo, para além das características acima elencadas estamos também na presença de um ignorante, pelo menos em termos históricos, mas que tem pleno direito a ser cretino, enegúmeno e a fazer gala da sua ignorância. É isto que justifica a superioridade da democracia sobre todos os outros sistemas políticos.

Por isso mesmo, vejo com especial preocupação acontecimentos como este, e afirmações como a de Manuel Valls referindo que "é preciso não confundir a liberdade de opinião e o anti-semitismo, o racismo e o negacionismo”. Perante reacções deste tipo - que infelizmente não me espantam - o único comentário que posso fazer é que estamos (ou a França está) a ir por muito mau caminho.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Paris e o "aftermath"

Como sou optimista, talvez até ingénuo, acho que a nível oficial nada de essencial irá mudar em questões como as liberdades e o controlo de fronteiras após os atentados de Paris, isto depois de alguns desabafos mais ou menos securitários e de alguma retórica de circunstância destinados a satisfazer as emoções de momento e minimizar a capacidade de atracção dos diversos populismos e da extrema direita europeia. Em minha opinião (sou optimista, repito), tudo se irá limitar - e ainda bem - a uma melhoria da eficácia e colaboração entre os vários serviços de informação - que falharam redondamente neste caso - e a algumas medidas acrescidas de controlo que não afectarão no essencial a liberdade de circulação no espaço Schengen.  Por grande apego das actuais lideranças europeias à tolerância e às liberdades? Por crença profunda das mesmas na necessidade de mudanças na atitude e atenção dos governos face às minorias étnicas? Por concluírem da necessidade de moderação ou mesmo de mudança nas políticas económicas actualmente dominantes? Infelizmente (e vamos lá temperar o optimismo com algum realismo) não me parece. Mais porque a liberdade e facilidade de circulação são hoje em dia um pilar importante no funcionamento da economia europeia (e ainda bem que assim é) e as políticas securitárias custam o muito dinheiro que, para além da mais do que duvidosa relação custo/benefício, ninguém está verdadeiramente disposto a pagar. Antes assim.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

Terrorismo(s) e políticas

Para não corrermos o risco de confundir as estratégias políticas e de segurança que devemos definir e pôr em prática para combatermos o terrorismo radical islâmico, convém ter em atenção que, de um modo geral, podemos dividir as suas acções em dois grupos fundamentais:
  1. Os grandes atentados, como o das Torres Gémeas, do metropolitano de Londres e da estação de Atocha, que envolvem meios consideráveis e uma logística e capacidade financeira só ao alcance de organizações relativamente sofisticadas. Aqui, claro está, não podemos falar de problemas de integração, austeridade e desemprego, até porque muitos dos seus executores são gente aparentemente integrada e com meios de vida, no mínimo, razoáveis. Estamos a falar de um problema em cuja resolução a política internacional e a geo-estratégia têm de assumir um papel fundamental.
  2. As pequenas acções (nos meios, que não nas consequências) como a de Paris (e outras), que, embora reivindicando-se e mergulhando as suas raízes numa ideologia islâmica radical, são executadas, essas sim, por gente demasiado marcada por problemas de integração económica, social e cultural, que as políticas europeias têm vindo a agravar e as torna alvos preferenciais do recrutamento jihadista. Não estará aqui todo o problema, nem sequer na desintegração mergulha a totalidade da sua raiz, mas apenas uma sua parte importante. Isso significa que o assunto é suficientemente grave para que, digo-o sem esperança, já que me parecem ser este tipo de acções encaradas pelos actuais dirigentes da UE um pouco como "efeitos colaterais" da política actualmente definida pela e para a Europa, os cidadãos europeus se recusem a enfrentar e resolver com coragem o problema.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Nem tudo começa e acaba em Paris

Independentemente do nojo, do repúdio, da revolta que sentimos e da concordância no facto dos assassinos de Paris deverem ser julgados como quaisquer outros criminosos de delito comum, "serial killers", que sem dúvida o são (inclusivamente com todos os direitos destes, é importante dizê-lo), nem sequer, nos nossos piores sonhos, pensando em lhes conceder o estatuto de "combatentes", "resistentes" ou lá o que quer que seja, convém, do ponto de vista político e para termos a noção de como devemos agir no médio-longo prazo, lembrar onde e como tudo começa. E para isso temos de voltar às velhas questões políticas, ao "eterno" conflito israelo-palestiniano, à declaração Balfour, ao acordo Sykes-Picot e a uma questão que, com Arafat e sem Arafat, com o Hamas e eventualmente sem este, parece irresolúvel.  Mas também à queda da URSS, que abriu caminho ao fim das ditaduras nacionalistas árabes e criou o vazio onde o islamismo radical viu a sua oportunidade, se infiltrou e tem vindo a ocupar. E nestas duas importantes áreas da política internacional e da geo-estratégia convém reconhecer que aqueles que nós, ocidentais, que nos revemos na democracia, na tolerância e nas liberdades, temos vindo a eleger e mandatámos nem sempre terão estado à altura e agido com as necessárias prudência e sabedoria políticas. Essa é também uma nossa responsabilidade, mas, infelizmente, tenho pouca ou nenhuma esperança as coisas venham significativamente a mudar.

quarta-feira, janeiro 07, 2015