sexta-feira, junho 18, 2010

Frivolidades: alpercatas, ou como ganhei um problema de consciência que quase me vai estragar o Verão!


Ele há objectos assim: feitos de materiais humildes, assim nascem – humildes – destinados aos mais pobres. Mas, por um qualquer golpe de magia, há um momento da sua vida em que, adoptados, vá lá saber-se porquê, por “trend setters” e apenas com um pequeno toque aqui ou ali, se transformam em ícones de moda e mudam a sua personalidade.

Bom, nada de mistérios, estou a falar das humilissimas alpercatas (“espadrilles”, em castelhano e já explico o porquê do termo “aqui do lado”), de sola de juta e “parte de cima” de lona, nascidas para calçar os mais pobres dos pobres, ou, de entre estes, aqueles que, pelo menos, podiam aspirar a andar calçados, mas que, vá lá saber-se porquê e apenas desdobrando as originárias cores sombrias em novas tonalidades berrantes, se transformaram em objecto de culto e estilo adoptado nas praias e “resorts” por quem se pode dar a luxos e bom gosto. Não, e não passaram, pelo menos muitas delas que doutras se não distinguem, a ter a “griffe” de costureiros famosos, Armani ou Versace; continuam, agora em paletas de todas as cores e tons que lhes mudam a personalidade, a ter o mesmo aspecto de antanho e preços convidativos.

Bom, mas a que vem isto a propósito? Muito simples: há anos que aderi ás ditas alpercatas e não há Verão que se preze que não tenha ali umas poucas, no armário dos sapatos, que uso com bermudas ou apenas com o fato de banho nas manhãs de praia ou de piscina ou, pura e simplesmente, durante todo o dia “veraniego” que dura até ao duche antes de jantar. Mal meu, pois parece que, ao contrário do que acontece no país aqui do lado onde existem centenas de lojas que as vendem, entre as quais a mais do que célebre Casa Hernanz da madrilena Calle Toledo (não levo nada pela informação e custam cerca de €5 cada par) que até chega a ter “bicha” à porta a dar a volta à esquina, em Portugal as tais alpercatas são objecto em vias de extinção, mais difíceis de encontrar do que um bom jogo da selecção portuguesa. E, quando as há, parece que foi decidido que são coisa de “gaja”, pois para encontrar o nº 41 é melhor darem-se alvíssaras, sendo caso para telefonema imediato a amigos que, tal como eu, aderiram ao conceito.

Mas... tan, tan, tan, tan, eis senão quando, num qualquer dia dos idos de Maio e por um mero acaso proporcionado pela minha velha mania de andar a pé por Lisboa, lá dei com uma daquelas lojas modernaças, que vende tudo a baixo preço (não, não é chinesa...), onde se vendiam, fabricadas no Bangladesh, a... €1 cada par!!! Atónito, esfreguei os olhos para acreditar e, depois de um sorriso de alegria triunfante pela conquista, lá comprei todas as cores que existiam com o nº41 tendo, de seguida, tratado logo de avisar da descoberta a “troupe” habitual dos meus amigos da "confraria das alpercatas".

Bom, mas isto foi a parte boa do acontecimento. A má? Esta foi começar a pensar quanto receberiam os pobres operários do Bangladesh para um loja de Lisboa poder vender tal coisa a €1 cada par, tendo em atenção o custo do material, o transporte (“chiça”!, o Bangladesh fica do outro lado do mundo!) e as margens de lucro de fabricante, importador e lojista. Confesso, fiquei com suficientes problemas de consciência que hoje, quase dois meses depois da compra e com o Verão a andar já por aí, ainda não decidiram largar-me e me moem a consciência nos momentos mais pacatos do dia. É assim ou pouco com o anjinho bom e o diabinho mau: o primeiro penaliza-me por ter colaborado com tal exploração infamante; o segundo alerta-me em como comprei o que queria sem ter de ir a Espanha e, pior ainda..., por dinheiro quase nada. Uma chatice que nem me deixa gozar em paz tão faustoso acontecimento.

Acho nunca irei resolver este dilema!

8 comentários:

ié-ié disse...

Também sou fã! No meu tempo as solas eram de corda!

LT

JC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JC disse...

E agota tb; de corda de juta. Tenho uma coleção...

Rui Cartaxo disse...

Bom dia Gato Maltês, seria abusar muito da sua paciência pedir-lhe que nos indicasse onde fica essa loja? Se há coisa que detesto é o chinelar das havaianas...Obrigado

JC disse...

Av. Marquês de Tomar, Lisboa. Chama-se Loja "Low Cost".
Cumprimentos

Rui Cartaxo disse...

Obrigado pela dica. passei lá e confirmei que só há até ao nº 41, e eu calço 42...O sortido já era pouco...Já agora, concordo em absoluto com a sua análise ao CQ, assim como discordo do que diz sobre a ACAM. Um serviço público tem que ser inclusivo, e, neste caso, dar uma alternativa a quem não tem tm, ou esgotou o saldo, ou ficou sem bateria. Cmptos, RC

JC disse...

Caro Rui Cartaxo: mas quem, num carro, não tem tm? E quantos ficam sem saldo e sem bateria? A inclusão tem um custo, um valor que pode ser investido nessa ou em outras acções. Será que, neste caso, a relação custo/benefício da inclusão, para um nº limitadíssimo de cidadãos, justifica o investimento na rede SOS? Quer-me parecer que não.
Quanto ás alpercatas, tente em Espanha. Encontra c/ certeza e é pretexto para um bom passeio.

Rui Cartaxo disse...

Obrigado por mais essa dica. RC