quinta-feira, março 04, 2010

Os deméritos das audições da "Comissão de Ética"

Ao contrário do que é voz corrente, as audições da Comissão de Ética da Assembleia da República sobre a tão propalada “liberdade de expressão" tiveram pelo menos dois méritos (talvez fosse de maior rigor chamar-lhes deméritos):
  1. Demonstrar má preparação dos deputados para o papel que lhes competia nessas mesmas audições, embora parte da responsabilidade possa também ser atribuída ao autêntico disparate que constitui o próprio objecto de investigação (é difícil alguém, mesmo que bem preparado, conseguir escapar incólume a tal cretinice).
  2. Pelo triste espectáculo protagonizado por Mário Crespo, Felícia Cabrita e Manuela Moura Guedes - embora, pelo seu percurso enquanto jornalista, eu ainda insista em fazer alguma distinção entre Mário Crespo e as duas jornalistas citadas - confirmar o perfil daqueles a quem tem estado entregue o papel dinamizador da agit-prop (é disso mesmo que se trata) da acção política da oposição, principalmente do seu maior partido, nos tempos mais recentes.

Como se pode concluir, nada disto contribui para o prestígio das instituições e da democracia. Também, claro está, do jornalismo, se é que tal coisa ainda existe e resiste.

2 comentários:

ié-ié disse...

Basicamente de acordo, excepto num ponto: não considero que os deputados estejam mal preparados.

Por interesse próprio, tenho assistido às audições na íntegra pelo Canal Parlamento. Gosto de julgar por mim próprio e não pelo que os jornais ou as televisões escolhem para nos relatar.

E digo que não estão mal preparados, porque os deputados estão ali a fazer tão-só o papel de advogados de acusação (aliás, quase todos são mesmo advogados).

Parece o famoso julgamento de Zé Diogo. Estão mesmo muito bem documentados para o que lhes interessa.

Os deputados acusam, acusam, de nada valendo os esclarecimentos dos "audicionados". Não têm outro fito. Já têm tudo na cabeça, a sentença já está escrita.

Mesmo que, aqui e ali, os convidados da sua côr contrariem os seus pontos de vista, como já aconteceu, por exemplo, com Pinto Balsemão, Henrique Monteiro, Alfredo Maia ou mesmo Manuela Moura Guedes, não importa, insistem todos na mesma tecla.

Não estão ali para serem esclarecidos, mas para acusar. OK, estão no seu papel, mas então não lhes chamem Comissão de "Ética".

O que me custa ali, para dizer a verdade, é a parcialidade do Presidente da Comissão. Porta-se como o maestro da orquestração acusatória, em vez de tentar conduzir as sessões com rigor e imparcialidade. Até mete dó. Se fosse comigo, não me conseguiria conter...

É pena que ninguém ainda se tenha lembrado da "asfixia democrática" que Cavaco impôs aos seus "ajudantes".

Sorry, sempre que surge este tema roubo-te imenso espaço.

LT

JC disse...

1. Não roubas nada; é sempre um prazer ter por aqui a comentar quem percebe do que está a falar.
Posto isto...
2. Como podes ler no meu texto - e, embora sem a tua assiduidade, tb lá fui seguindo as audições em directo sempre que pude - tb atribuo parte da responabilidade à cretinice destas audições e ao seu objecto, e digo mesmo que seria difícil qualquer boa preparação resistir-lhe.
3. De qualquer modo, e mesmo estando de acordo contigo quanto ao veredicto estar já ditado, algumas das questões colocadas e o modo como alguns deputados se comportam denota falta de conhecimentos ou de preparação para lidarem com o tema, e nada isso nada ajuda o seu próprio objectivo, à partida já enviesado. tu próprio mtº bem o referes. Daí eu ter falado na falta de preparação, que foi especialmente visível na audição a Francisco Balsemão, que não depende de ninguém e tudo isso conhece por dentro e por fora.
4. Bem fez Teresa de Sousa, que não pôs lá os pés!...
Abraço e obrigado.