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quinta-feira, novembro 14, 2013

A miragem do "pós-troika"

Posso estar enganado, mas não me parece o FMI e a "troika" sejam assim tão estúpidos que pretendam a economia portuguesa se torne mais competitiva através da redução dos salários mais baixos. Assim sendo, o efeito pretendido parece-me ser bem outro: reduzir a procura interna de modo a gerar um excedente nas nossas contas com o exterior, diminuindo e endividamento. Como é óbvio, tal estratégia implica a manutenção de um desemprego estrutural a níveis relativamente elevados, funcionando a emigração não só como uma válvula de escape que impeça a implosão do sistema, mas também como uma contribuição para a redução dessa procura interna. Resulta daqui que toda e qualquer medida que possa, mesmo que de forma ténue, significar alguma pressão no sentido de uma alta de salários, principalmente dos mais baixos onde a propensão para o consumo é maior (subida do salário mínimo, alargamento da contratação colectiva, limitação aos despedimentos, investimento em formação e qualificação e outras do mesmo tipo), será sempre recebida com desconforto, ou até mesmo com um esgar de desaprovação, pela "troika" e pelo actual governo. Como também será fácil de entender, com um mercado interno anémico, sem investimento significativo na formação e requalificação e não constituindo a redução salarial panaceia que possa tornar as empresas exportadoras mais competitivas, é mais do que provável o investimento e algum possível crescimento económico tendam a acontecer principalmente no sector turístico, onde o flexibilidade, a precariedade laboral e o valor da mão de obra no custo total dos serviços prestados possam  jogar papel mais relevante. Vistas as coisas deste modo, tudo parece fazer mais sentido, apesar desta leitura enegrecer ainda mais as já de si muito pouco risonhas perspectivas. O "empobrecimento" proposto desde o início pelo actual governo - prova-se - veio mesmo para ficar, e o tão propagandeado "pós-troika" não passa de uma miragem.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

E o que propõe o PS?

Faz bem o PS em recusar-se a integrar uma comissão eventual parlamentar sobre a reforma do Estado? Enfim... pelo modo como a discussão foi armadilhada pela maioria e pelo governo, não me parece restar-lhe melhor alternativa. Mas, ao recusar, deveria deixar bem claro em que parâmetros e condições, baseado em que princípios e com que objectivos aceitaria integrar uma qualquer comissão no parlamento com tais desígnios e, inclusivamente, apresentar algumas propostas concretas com as ideias do partido sobre o assunto. É que do "outro lado", bom ou mau, bem feito ou mal feito, existe um documento escrito que reflecte uma atitude ideológica e uma intenção política sobre o assunto, apresentando propostas, ideias e soluções, e discutir as funções do Estado em abstracto, sem uma base ou um ponto de partida, até mesmo sem algumas propostas concretas em cima da mesa, é mais ou menos como discutir o sexo dos anjos, como aliás se tem visto até aqui. Penso que o PS, como partido que se reclama da herança da social-democracia europeia e num momento em que a deriva radical do PSD está mesmo a deixar quase orfãos os portugueses que se reconhecem na democracia-cristã, está aqui a perder uma boa oportunidade para se afirmar ideologicamente, pela afirmativa e não apenas pela recusa. Se o partido quiser perceber porque não descola nas sondagens, não terá que ir muito longe. 

Duas perguntas...

  1. O já muito celebrado estudo do FMI sobre o corte de 4 mil milhões de euros pretende, entre outras coisas - diz - tornar o Estado mais eficiente. Ok, certo, todos sabemos que, com cortes ou sem eles, existe com certeza espaço para tornar alguns sectores do Estado mais eficientes; nada disto é teórico e, apesar do enorme progresso verificado (saliente-se), defrontamo-nos todos os dias com situações onde a eficácia de funcionamento da chamada máquina do Estado deixa algo a desejar. Mas se uma sua maior eficiência de funcionamento é importante, o objectivo do Estado é, fundamentalmente, prestar serviços aos cidadãos: promover o seu bem-estar, individual e colectivo, assegurar a segurança, a saúde pública, o desenvolvimento das capacidades de cada um e de todos em conjunto, promover a coesão social e por aí fora. E agora pergunto: e se, aqui e ali, e não sendo a eficiência uma noção abstracta nem o Estado uma empresa, para cumprir cabalmente com esses objectivos o Estado tiver que sacrificar, por vezes, alguma dessa chamada eficiência, da optimização dos recursos que os cidadãos lhe disponibilizam? Acho vale a pena pensar um pouco sobre o assunto.
  2. Já alguém (jornalista, acrescento) se lembrou de perguntar ao secretário de Estado Carlos Moedas, ao ministro Vítor Gaspar ou até ao primeiro-ministro (caso o encontrem por aí...), qual o cenário político, económico e social que traçariam para o que seria o país daqui a dois, cinco ou dez anos se a grande maioria das propostas do estudo do FMI fosse implementada? Talvez não fosse má ideia...

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Um governo em forma de McKinsey?

O facto de ter como autor o FMI constitui simultaneamente a força e a fraqueza do estudo que está a pôr o país (quase) em estado de sítio. Expliquemo-nos...

Ao contratar o FMI - uma das instituições que compõem a "troika", recorde-se - para a execução deste estudo, o governo quis dar-lhe a força e a intenção políticas que ele não teria caso tivesse sido adjudicado a uma das grandes consultoras mundiais, qualquer delas mais do que apta a realizar um trabalho deste tipo. O problema é que neste caso tal seria visto apenas como mais um devaneio tecnocrático, sem qualquer força política ou relação com a realidade, onde o governo teria resolvido esbanjar algum do nosso já pouco dinheiro. Não teria direito, pois, a grandes títulos nem a ocupar muito tempo nas análises de jornalistas, politólogos e comentadores. Mas o problema é que, levantando algumas questões pertinentes e que merecem discussão séria (ninguém negará que vale a pena discutir e reavaliar a dimensão e composição das forças armadas e de segurança, a idade da reforma, a número de professores e de funcionários públicos, o papel das avaliações e do mérito nas carreiras ou até algumas - nem todas nem optando pelos co-pagamentos - taxas moderadoras da saúde), o documento, pelo seu radicalismo, voluntarismo ideológico e completa falta de noção da realidade económica e social (as medidas mergulhariam o país numa tremenda espiral recessiva e no caos social), falha pela total ausência de sensibilidade e sentido políticos, algo que o governo, cuja função é exactamente "fazer política", deveria ter tido em atenção e corrigido antes do documento ter sido tornado público. O problema é que, com Gaspar, Moedas e Borges (pelo menos estes), parece temos um governo em forma de McKinsey, onde essa coisa da política é uma chatice que só serve para atrapalhar. Ou então, e vou ser benevolente, talvez a intenção fosse mesmo o "choque e pavor", o que pode convir à estratégia de "toca e foge" habitual no governo, de avaliar primeiro o impacto do bombardeamento massivo para depois recuar aqui e ali, mas envenena à partida qualquer discussão política séria das várias propostas.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

"Choque e pavor"? Sim, mas a proposta do FMI merece mesmo um debate

Depois de ter lido "de fio a pavio" o que o Jornal de Negócios publica sobre a proposta do FMI para a redução dos tais quatro mil milhões de euros na despesa pública, tenho de concluir que, concordando-se ou discordando-se das medidas propostas, parcialmente ou na sua totalidade, o documento levanta algumas questões pertinentes e merecia por isso uma discussão aprofundada e um debate sério. Não tem em consideração a existência de condições políticas e sociais necessárias à implementação das medidas que propõe? Claro, mas nem tem que ter: a análise e preocupação com esse tipo de questões é da responsabilidade dos orgãos de soberania: governo, Assembleia da República, Presidente da República e Tribunal Constitucional, e o problema é que aí qualquer possível debate começou desde logo a ser afastado pela estratégia de "choque e pavor" escolhida pelo governo, já que só a este podem ser atribuídas responsabilidades pelo modo como foi divulgado. O seu conteúdo, mesmo não vindo a ser implementado, é potencialmente recessivo? Sem dúvida que sim, é deitar gasolina no fogo; mas o que está aqui em causa, muito antes desta proposta poder ser discutida e considerada, é a justeza da política de austeridade e "empobrecimento" para a resolução da crise portuguesa e europeia, da qual este documento é apenas mais um instrumento. 

Uma coisa é bem evidente: ao contrário de algumas propostas de carácter exclusivamente populista, congeminadas e "paridas" pelo governo, como pôr os desempregados a tratar dos "velhinhos", viajar em "económica", andar de Renault Clio, não usar gravata, optar por um governo "mínimo" ou cortar nas "gorduras do Estado", este é um documento sério e que, por isso, levanta e analisa um conjunto relevante de questões. As divisões que parece estar a suscitar no governo, com o grupo mais radical Gaspar/Moedas para um lado e CDS e ministros do PSD tradicional para o outro, só provam mesmo a sua importância.

Proposta do FMI ou da JSD?

O FMI é frequentemente tido pelos comentadores como o parceiro da "troika" mais preocupado com o crescimento, com a coesão, menos entusiasta com a austeridade recessiva, em suma, manifestando maior abertura e menor ortodoxia na "receita" para Portugal. Agora, perante a proposta de que se faz porta-voz privilegiado e que, independentemente de concordâncias ou discordâncias com cada uma das medidas sugeridas, pode ser considerada, no seu conteúdo e expectativas que gera, hiper-recessiva e destrutiva de qualquer ideia de coesão social, pelo menos no curto/médio prazo, pergunto-me se alguns dos alertas que habitualmente nos habituámos a ouvir na voz de Christine Lagarde são mesmo para levar a sério em face de um documento que, pelo seu voluntarismo, radicalismo ideológico e  modo como divide os portugueses entre "bons" e "maus", mais parece saído de um qualquer congresso ou reunião da JSD. Aguardemos... 

quinta-feira, novembro 01, 2012

A "assessoria" do FMI

Não deixo de achar "tocante" a ingenuidade de Constança Cunha e Sá quando afirma (hoje, nas notícias da 21h, na TVI 24) que "o governo não é capaz de cortar na despesa e precisa da assessoria técnica do FMI". Vamos ser claros: o governo não precisa da assessoria técnica do FMI para coisa nenhuma, muito menos para os tais cortes na despesa; precisa é do respaldo do FMI (1/3 da "troika") e, se possível, do BCE e da Comissão Europeia (os restantes 2/3), para mais facilmente conseguir impor aos portugueses, como se de uma inevitabilidade se tratasse, os tais cortes de quatro mil milhões de euros na despesa. Não se trata, portanto, de uma questão de incapacidade técnica, mas de um confesso acto de cobardia política. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Do "manicómio em auto-gestão" ao laboratório do Dr. Frankenstein

Lembro-me, no chamado Verão Quente de 75, quando em Portugal tudo mudava diariamente ao sabor de mais uma manifestação ou de uma qualquer afirmação, mais ou menos radical, de um também qualquer pensador, escritor ou filósofo de visita, normalmente ligado à chamada "esquerda festiva", de se afirmar que o país se tinha transformado num manicómio em auto-gestão. Era o tempo da "via portuguesa para o socialismo", da "experiência portuguesa", dos SUV, das "armas em boas mãos", da "sociedade sem classes" (proposta também pelo CDS, em que todos seriam proprietários) do "socialismo sim, ditadura não", do "último a sair que apague a luz" e lembro-me eu sei lá mais do quê. Mas, no fundo, existia em tudo isso uma naiveté que, se acabava por nos envolver e se tornar entusiasmante, acabava também, por via disso, por definir os próprios limites da sua validade temporal e da sua exequibilidade: sabíamos que, mais mês menos mês, para um lado ou para outro, da democracia ou de uma qualquer ditadura, tudo acabaria por se resolver e a normalidade regressaria.

Lembrei-me disto hoje a propósito das inúmeras propostas, muitas delas a roçar o delirante e até incompatíveis entre si ou com os objectivos propostos, agora já não de filósofos, pensadores ou ensaístas políticos sonhadores, mas de organizações tidas por social e cientificamente responsáveis como o FMI, UE, OCDE e BCE, para a economia portuguesa. Não direi que estejamos de volta ao "manicómio em auto-gestão" do ano de 1975, até porque a apatia, quase uma paz de "zombieland", substituiu o frenesim e a actividade fervilhante de então. Mas direi que Portugal mais parece um daqueles laboratórios onde, em inesquecíveis filmes "série B" dos fifties, cientistas loucos efectuavam estranhas experiências que, uma vez falhadas, davam origem a monstros e criaturas bizarras que acabavam por se voltar contra o seu criador e, até, ameaçavam pôr em perigo toda a humanidade. O problema, o problema mesmo, é que desta vez, ao contrário do que acontecia em 74/75, não sabemos quando ou como regressará a normalidade, ou mesmo  qual será o seu aspecto e se tal coisa ainda existe no nosso horizonte.

terça-feira, maio 29, 2012

Lagarde e os miserabilismos

Arriscando ser politicamente incorrecto, que me atirem ovos podres e etc e tal, devo dizer que não acho nenhum escândalo Christine Lagarde, enquanto responsável máxima de uma instituição como o FMI, ganhe 380 mil euros líquidos por ano. Confesso estar farto de miserabilismos e de tudo ser medido pelo seu custo e não em função de uma análise custo-benefício, das responsabilidades que cada um assume e lhe são pedidas, dos resultados alcançados e por aí fora. Digo mais: fiquei estarrecido quando li nos jornais, em títulos mais ou menos acusatórios, o facto do Estado português ter gasto meia-dúzia de milhões de euros para assegurar o repatriamento dos seus nacionais no caso do conflito na Guiné-Bissau ter dado ainda mais "para o torto". Se isso tivesse acontecido e os nossos concidadãos tivessem sido abandonados à sua triste sorte, gostaria de ver o que se não diria.

Mas voltando a Christine Lagarde... Escandalosas são as suas afirmações demagógicas e populistas a propósito da Grécia, dos gregos e dos seus impostos. Escandalosas, populistas e, pior, politicamente desadequadas para a resolução da crise da UE. Mas, devo também dizer, tal coisa tem a ver com o cargo que exerce e é independente do ordenado que ganha, o que significa essas afirmações seriam igualmente censuráveis e politicamente inadequadas se Lagarde ganhasse mil, cem ou trabalhasse "pro bono": com elas apenas demonstrou não estar à altura das responsabilidades do cargo para a qual foi nomeada. Portanto, se for necessário pagar um ou dois milhões para a substituir por alguém competente, façam favor. Já tarda.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Caro Jürgen Kröger: "boa" era a sua tia!

Bem ou mal - para o caso pouco ou nada interessa - os portugueses elegeram no início deste Verão um parlamento onde o PSD, liderado por Pedro Passos Coelho, detém a maioria. Para conseguir formar um governo com apoio maioritário, o PSD decidiu coligar-se com o CDS, constituindo-se como governo legítimo da nação. É assim em democracia.

Como governo legítimo do país compete-lhe prestar contas dos seus actos aos cidadãos, tendo estes o direito de lhes exigir todos os esclarecimentos necessários sobre a governação. Tal é feito fundamentalmente no parlamento, perante e a solicitação dos deputados eleitos por sufrágio popular. Quer isto dizer que o governo tem um mandato para negociar com terceiros todos os actos que julgue necessários ao governo do país, devendo ser ele, e apenas ele e não qualquer outra entidade, a explicar aos que o elegeram, sempre que ache tal necessário ou a isso seja solicitado, a actividade em curso referente à governação.

Exactamente por isso, porque assim entendo a democracia, estou de acordo com os que afirmam deveria a "troika" abster-se de falar directamente aos portugueses. Muito menos de "mandar palpites" sobre questões de governação, sejam elas correctas ou incorrectas, tenham elas mais adeptos ou detractores. É com o governo e/ou com as entidades e instituições que este indicar que devem os representantes do FMI, BCE e UE entender-se; é ao governo que devem comunicar as suas ideias, discuti-las, analisá-las e é a este e ao parlamento que compete aprová-las ou rejeitá-las, em nome dos que o elegeram. Se assim tivesse sido não estaríamos agora a assistir a este triste espectáculo de ver o governo legítimo do país, a reboque de tudo e todos, discutindo uma hipotética e idiota desvalorização dos salários, que, pelo menos para já, não passa de uma mera opinião atirada para o ar por um ou vários burocratas da dita "troika" (a opinião do governo parece ser "nim"); se assim acontecesse não estaríamos agora colocados em cheque perante os nossos concidadãos gregos, que connosco partilham a cidadania europeia (ou o que resta dela), por via das afirmações idiotas de um burocrata cretino de nome Jürgen Kröger que, qual capataz valorizando a qualidade dos seus escravos, acha que "Portugal não é a Grécia porque há estabilidade e as pessoas são boas" (quereria dizer "dóceis"?).

Por muito que as opiniões dos representantes do FMI, BCE e UE possam refletir ou encontrar eco correspondente nos desejos e ideias do governo (ou deverei dizer do Ministro das Finanças?), por muito relevantes que possam ser para a governação do país (e são-no), pelo menos por enquanto (e veremos quanto dura este "enquanto") para o bem e para o mal existe um governo legítimo, eleito pelos portugueses, e é este que deve prestar contas aos eleitores pelos actos governativos e será a ele que os cidadãos devem exigir esclarecimentos. Pelo menos enquanto não pudermos também eleger quem substitua "Frau" Merkel, o que já tarda. 

quinta-feira, setembro 15, 2011

Poul Thomsen

Sindicatos e associações patronais discordam da redução da Taxa Social Única. Comentadores de economia dividem-se entre a discordância e, no mínimo, o pouco ou quase nenhum entusiasmo (a excepção é Camilo Lourenço, o que não é mesmo nada entusiasmante e dá para ficar de "pé atrás"). O próprio ministro da Finanças parece torcer o nariz, e somos levados a crer só não é mais explícito por razões do cargo que ocupa. No meio tudo isto, há um estudo que conclui pelas cautelas e caldos de galinha. No fundo, das duas uma: ou Poul Thomsen é ele próprio o génio, o super-herói que nos vem salvar, ou, então, apenas um vulgar aprendiz de feiticeiro, correndo o risco de lançar a fagulha que pode vir a incendiar a pradaria.

domingo, junho 12, 2011

O excelente exemplo do sector do calçado

O sector do calçado, que, segundo o "Público", "contabiliza 1354 empresas, que empregam cerca de 32700 trabalhadores, com uma produção anual de 62 milhões de pares, dos quais mais de 95 por cento se destinam à exportação para 132 países", decidiu, após negociações com os sindicatos do sector (aleluia!: para além do caso da AutoEuropa ainda há sindicatos e associações patronais que negoceiam e conseguem chegar a acordo), aumentar os seus trabalhadores em 2%. Pelos vistos, aqui está um bom exemplo de um sector exportador que não tem problemas de competitividade que obriguem a uma redução na Taxa Social Única. Por todas estas razões, um excelente exemplo que deve levar quem ainda não o fez o repensar a questão da TSU.

Nota: sobre este assunto, ler o excelente pequeno artigo de Ferreira Fernandes no DN.

segunda-feira, maio 16, 2011

"Kiss and jail"

Como é óbvio, Dominique Strauss-Kahn é inocente até prova em contrário deduzida por tribunal competente. Ponto final: os tribunais esclarecerão o assunto.

Tendo dito isto, não sei se conhecem aquele conceito "kiss and tell", corrente no UK, em que uma rapariga é paga para se envolver sexualmente com alguém "famoso" para depois vir contar como foi para os tablóides. Pois esta história de DSK parece-me ter alguns contornos semelhantes, só que em versão "hard core". Ou melhor, "kiss and jail".

sexta-feira, maio 06, 2011

Catroga...

Não contente com as sondagens pouco favoráveis, Eduardo Catroga lá veio mais uma vez ameaçar "que faz e acontece", que vai fazer uma "revolução" no "Estado gordo" (não diz o que acontece ao magro...), que o PSD "irá muito mais longe" que a "troika", que as empresas públicas etc e tal e assim sucessivamente. O que Eduardo Catroga ainda não terá percebido é que depois esperarem medidas mais radicais e penalizadoras no curto-prazo, os portugueses, por muitos sacrifícios que tenham de vir a enfrentar, suspiraram agora de alívio e vêem o "memorando de entendimento" como uma bóia, uma tábua de salvação a que se podem agarrar para não se afogarem já e terem algumas hipóteses de sobrevivência futura, uma garantia de que nada de pior lhes irá acontecer. Por isso mesmo, querem ouvir falar de tudo menos de "revoluções", "medidas que vão mais longe", confusões acrescidas e coisas do género. Querem segurança, e neste momento, por muito penalizador que ele seja, essa mesma segurança é-lhes garantida pelo acordo de resgate e por quem não levante muitas ondas. Paulo Portas e o CDS já perceberam isso há muito, mas parece que a S. Caetano entrou em paragem cerebral. Tanto pior para eles. 

quinta-feira, maio 05, 2011

Pedro Santos Guerreiro e o "Memorando de Entendimento"

Pedro Santos Guerreiro elogia hoje no seu Jornal de Negócios as medidas liberalizantes do "Memorando de Entendimento" não resistindo a soltar, a dada altura, a exclamação "Volta, Compromisso Portugal; estás perdoado".

Peço desculpa ao Pedro, mas não estou de acordo com ele. Sendo de saudar o carácter liberalizante de muitas das medidas (sou o primeiro a fazê-lo e até a soltar um "uff"), será bom lembrar que nenhuma das propostas mais emblemáticas e polémicas do "Compromisso Portugal/Mais Sociedade" (despedimentos na função pública - chegaram a falar em 200 000 - , fim da exigência de justa causa para os despedimentos, plafonamento das contribuições para a segurança social, cheque-ensino e "liberdade de escolha" na educação e na saúde, diminuição do valor das reformas para quem usufruiu do subsídio de desemprego, etc) estão contempladas no Memorando. Aliás, aquilo que me parece constituir o elemento-chave e que melhor caracteriza o programa (trata-se efectivamente de um programa de governo com metas fixadas, objectivos a atingir e calendarização, a lembrar por vezes um verdadeiro "business plan" de uma empresa), a sua verdadeira e efectiva mais-valia, é mesmo o facto de, tratando-se de um programa liberalizador da economia e da sociedade (e ainda bem que assim é!), manter as suas propostas dentro do que se poderiam chamar os limites do bom-senso político e salvaguardar, apesar de algumas medidas penalizadoras, as características essenciais definidoras do Estado-Social. Podendo discordar de uma ou outra medida (isso não está em causa), é exactamente esse seu compromisso global entre liberalismo e Estado Social que o torna num plano inteligente e numa oportunidade talvez única.

"Memorando de Entendimento" e TGV


Não é exactamente isto que está escrito no "memorando de entendimento" (não se fala, concretamente, de qualquer TGV ou  sequer da alta-velocidade ferroviária) mas a interpretação do "Público", contudo, parece-me correcta. Acontece, no entanto, que o governo já tinha suspendido a linha de alta-velocidade Lisboa-Porto até 2017, muito para além do prazo do programa de ajuda, e, ao contrário do que já por aí se diz, nada do que é mencionado no "memo" parece impedir a continuidade da construção da linha Lisboa-Madrid, a única ligação que por aqui sempre tenho defendido e considerado mesmo indispensável.

Quanto ao novo aeroporto, duvido, nas condições actuais, algum privado queira abalançar-se ao empreendimento. Direi que ainda bem!

quarta-feira, maio 04, 2011

Afinal sempre há mais vida para além do "déficit"

Lembram-se de Jorge Sampaio ter dito que havia mais vida para além do "déficit"? Muita gente o criticou e eu próprio, lembro-me, torci na altura um pouco o nariz à oportunidade de tal afirmação. Mas depois de ler o "memorando de entendimento" com o FMI/BCE/CE, que não deixando de colocar o acento tónico na correcção do "déficit" enuncia e impõe uma série de reformas estruturais necessárias para tornar o país mais competitivo e fomentar, a prazo, o crescimento económico, talvez perceba melhor o que o então Presidente da República pode ter querido dizer. É um documento inteligente que vale bem uma leitura.

quinta-feira, abril 07, 2011

O CDS e a ajuda externa"

Quer-me parecer que o pedido de "ajuda externa" deixa o CDS em maus lençóis, entalado entre a necessidade de integrar o leque de partidos garante do cumprimento do acordo subsequente a esse pedido e o interesse em se demarcar q.b. do PSD, capitalizando o descontentamento à direita. Para já, a demora na reacção do partido ao anúncio de ontem do primeiro-ministro significa certamente alguma coisa: a dificuldade em definir e afinar uma estratégia adequada. Aguardemos os próximos episódios.

terça-feira, março 29, 2011

O relatório do Banco de Portugal e a "ajuda externa"

Bem mais importante que o corte de 0.1pp na previsão de crescimento do PIB para 2011 - que me desculpem mas pouco ou nada relevante quando é feita com um histórico de apenas dois meses do ano e numa situação de enorme incerteza nacional e internacional - é esta a afirmação-chave que me parece destinada a condicionar fortemente o comportamento dos mercados e a colocar em risco a garantia do não recurso à “ajuda externa”: “persistem riscos de implementação não negligenciáveis”, decorrentes do “grau de consolidação orçamental numa magnitude sem precedente” (retirado do “Público” on line).

Ou seja, o que o Banco de Portugal afirma é a sua desconfiança na capacidade do governo (ou dos governos, já que teremos um novo lá para Junho) em implementar as medidas necessárias à redução do “déficit” para os valores acordados em 2011. Descodificando ainda um pouco mais: se isto não é um verdadeiro apelo a uma intervenção externa no controle das nossas contas públicas, não sei muito bem o que será.

Nota: com estas afirmações não pretendo dizer que não existam fortes razões para as dúvidas e incertezas manifestadas pelo nosso Banco Central. Direi mesmo que só um louco não partilha de tais dúvidas (e dúvidas não são certezas, note-se). Estou apenas a tentar descodificar uma afirmação (vulgo: "chamar os bois pelos nomes") tal como o farão todos aqueles, cidadãos e instituições, interna e externamente, a quem ela se destina.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O FMI e o mito sebastianista

Para muitos portugueses, o FMI começa a encarnar uma espécie de mito sebastianista pós-moderno, do século XXI e sob a forma de “sociedade anónima” substituindo a até aqui tradicional “em nome individual”. Tornando os actuais tempos inviáveis as soluções caudilhistas do tipo clássico - “sidonista” (“morro bem, salvem a pátria” é uma bela frase para substituir a “morrer sim, mas devagar”), “salazarista”, “spinolista” e por aí fora – e tendo Cavaco Silva recusado assumir o papel para o qual alguma direita em “plano inclinado” e Manuel Villaverde Cabral o empurravam e lhe atribuíam no “script” por eles escrito para o Portugal presente, resta a solução sebastiânica “colectiva e institucional”, sem rosto ou “encoberta”, assumida por um FMI tornado messiânico e que vai “pôr isto tudo na ordem”. Uma tristeza de ideias, a desta gente!