Desde o primeiro momento, António Costa declarou que o PS só avançaria com uma moção de rejeição ao governo PàF se tivesse uma alternativa maioritária. Fez bem: apresentou essa alternativa maioritária, aprovou uma moção de rejeição e formou governo. Agora, PSD e CDS apresentam uma moção de rejeição ao governo PS sem apresentarem, como alternativa, uma maioria de suporte governativo, o que levará ao seu "chumbo" na AR. É perfeitamente legítimo, mas pergunto: afinal quem é radical, quem é?
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
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terça-feira, dezembro 01, 2015
terça-feira, novembro 10, 2015
PáF: "coligação de centro-direita" ou "frente de direita"?
Para além do equívoco de chamar de "centro-direita" à denominada coligação PáF, que, na realidade, e a linguagem e argumentação usados no debate de ontem e de hoje bem o mostram, é de direita radical, outro erro comum é os "media" referirem-se ao conjunto PSD/CDS como "coligação". De facto, estamos, isso sim, perante algo bem mais parecido com uma "frente", no sentido marxista-leninista do termo e em tudo semelhante, embora de sinal contrário, às formadas no pós-guerra em alguns países do extinto Pacto de Varsóvia, em que alguns partidos de origem não-comunista, por motivos de sobrevivência política (e não só política), se diluíam sob a liderança e hegemonia comunista. Neste caso, foi o CDS, após a "demissão irrevogável" de Paulo Portas e por questões de pura sobrevivência política, que acabou por perder qualquer autonomia para se diluir numa frente de direita liderada e hegemonizada pelo PSD. Algum rigor de linguagem e alguns conhecimentos de História seriam bem-vindos a muitos jornalistas e comentadores da "nossa praça".
quarta-feira, setembro 30, 2015
O PS vai perder as eleições? A direita já tem a uma "narrativa".
A actual direita que nos governa, dominada pela teoria do "pensamento único" e acolhendo-se sob a sigla TINA (there is no alternative), já criou a narrativa que mais lhe convém para o caso de uma cada vez mais provável derrota eleitoral do Partido Socialista e de António Costa: "o PS perde porque alienou o centro político e se aproximou dos partidos situados à sua esquerda". Demasiado simplista (como o prova aqui, e muito bem, Pedro Magalhães), errado (basta ler o programa eleitoral do partido), mas sem dúvida eficaz, como o são também, nesse seu simplismo, as narrativas e explicações vindas dos sectores mais extremistas: ela permite, desde já, começar a tornar dominante um discurso político que abra caminho no PS a uma personalidade como Francisco Assis que reconduza o partido ao redil do pensamento único e a um compromisso com um governo minoritário PSD/CDS e que, como parece claro, outro resultado não terá senão tornar o PS politicamente irrelevante e conduzir a prazo a uma maioria absoluta da actual coligação. Que esta narrativa, com o apoio maioritário dos "media" e a inépcia do PS, possa vir a fazer o seu caminho é coisa que já não me surpreenderá demasiado.
quinta-feira, setembro 10, 2015
Um debate clarificador
- Talvez mal aconselhado pelos seus "spin doctors" - uma espécie de "jovens turcos" voluntaristas e radicais -, talvez também influenciado pelas redes sociais onde esse radicalismo, a par do primarismo ideológico e do raciocínio imediatista, dominam, Pedro Passos Coelho ainda não percebeu as limitações do "efeito Sócrates", isto é, que ao invocar os "medos sócratistas" está a falar quase exclusivamente para o núcleo duro dos seus votantes, já que a maioria dos eleitores já percebeu que não só o perfil pessoal de António Costa está nos antípodas do de Sócrates, como não existe semelhança alguma entre o voluntarismo e até irascibilidade política do ex-primeiro- ministro e as cautelas e contenção, por vezes até em excesso, do actual líder do Partido Socialista, expressas de forma clara no programa eleitoral apresentado. Que Pedro Passos Coelho continue a insistir no "efeito Sócrates" é tudo o que o PS e Costa podem desejar.
- Situação idêntica funciona (ou não funciona, para Pedro Passos Coelho) no caso Syriza. Se a eleição do Syriza significou alguma esperança, saudada por todos os que, à esquerda e à direita, se opõem ao actual e "quase único" pensamento dominante, cedo ficou também claro para todos, incluindo para o PS e até mesmo, por outros motivos, para a esquerda radical do "Bloco", que a estratégia estaria condenada ao fracasso. E isso mesmo se reflecte no programa eleitoral do PS, que vai tão longe quanto o actual "estado da arte" da UE o permite, sem pôr frontalmente em causa, ao estilo "derrubar o muro à cabeçada", os seus fundamentos. Na realidade, estamos perante uma estratégia cautelosa, claramente oposta à do Syriza, e muito fácil será para António Costa, que tem fama de tudo menos de ser um temível radical, explicá-la aos eleitores.
- O debate de ontem provou que basta a António Costa, que tem "lastro" enquanto pessoa, cidadão e político, ser um pouco mais autêntico e menos defensivo, pondo de lado as demasiadas cautelas, o estilo quase evangélico de quem pede desculpa por estar ali, o medo de ser visto como"radical" e optando por uma atitude mais pro-activa e por afirmações mais claras, para colher dividendos políticos. Espero o tenha percebido e aprendido a lição.
- Devo dizer que não entendo a opinião dos que afirmam o debate não terá sido esclarecedor. Pelo contrário, desde o PREC e do célebre debate Soares/Cunhal que não me lembro de estarem "frente a frente" duas propostas tão claras e antagónicas. De um lado, o de António Costa, aquela de todos os que se reconhecem nos valores tradicionais da social-democracia, da democracia-cristã e do liberalismo social que criaram a UE e construíram as modernas sociedades e democracias europeias do século XX e do pós-guerra; do outro, o de Pedro Passos Coelho, o lado onde se acolhem todos o que perfilham o conservadorismo mais retrógrado e as emergentes ideologias neo-conservadoras e ultra-liberais, incluindo as suas franjas mais radicais. Depois do debate de ontem, ninguém se pode queixar de não poder escolher com clareza o seu lado.
quarta-feira, agosto 12, 2015
Incompetência
- Incompetência do PS ao desenvolver uma campanha com cartazes que bem poderiam ser da IURD ou da Igreja Maná em vez de potenciarem o seu principal activo: o secretário-geral António Costa que aparece em todas as sondagens com valores muito positivos, superiores aos do partido que dirige, e contrastantes com os dos líderes da coligação.
- Incompetência do mesmo partido ao não se assegurar da concordância dos fotografados para integrarem a campanha de "outdoors" e confirmarem que o seu perfil real se coadunava com a mensagem transmitida.
- Incompetência da coligação Portugal à Frente por não ter verificado o passado publicitário dos modelos utilizados na sua campanha e por, provavelmente (mas quase de certeza), não se ter assegurado de que não iram participar num futuro próximo (dois ou três anos, pelo menos) em acções incompatíveis ou de algum modo conflituantes com a actual campanha política (podem ainda vir a ter desgostos por isso).
Embora estejamos a falar de planos diferentes, como podem deste modo convencer os cidadãos que têm as qualidades necessárias para a tarefa bem mais complexa que é dirigir o país?
quarta-feira, maio 06, 2015
A "roupa suja" Coelho/Portas, a política e a oposição
A primeira consequência da discordância entre Passos Coelho e Paulo Portas sobre o modo como se processou a demissão "irrevogável" deste último é, claro, mais uma humilhação infligida a este último. Mas é também claro que este autêntico "lavar de roupa suja", não afectando a solidez da coligação governamental (os casamentos duram para sempre quando, mesmo apesar de um eventual ódio, não existe melhor opção do que partilhar a casa comum), não deixa de causar algum embaraço entre PSD e CDS e, pior, de transmitir ao respectivo eleitorado potencial uma imagem negativa, de alguma fragilidade, o que se pode revelar decisivo para o resultado das legislativas. Digamos que até aqui tudo é demasiado óbvio. O pior, o pior ainda, é que é preciso ir um pouco mais longe e constatar que tudo isto não deixa de se reflectir na imagem que a chamada "classe política" e a própria política, no seu conjunto, projectam nos cidadãos, infantilizando-as e reduzindo a política, não a um confronto de ideologias e conceitos de vida, que se materializam nas propostas de governação, mas a uma actividade onde o que está essencialmente em causa são "tricas", "casos", desaguisados pessoais, vinganças mesquinhas, zangas de comadres e "tutti quanti". Digamos que é demasiado mau e com atitudes deste tipo a coligação até pode estar a prestar, no curto-prazo e para quem tem vistas curtas, um excelente serviço ao PS - e Passos Coelho, para gáudio dos seus apaniguados, um bom serviço ao PSD. Mas o que acontece, acima de tudo e na realidade, é que PSD e CDS estão, com este tipo de atitudes perigosamente perto do grau zero da política, a prestar um péssimo serviço ao país, do qual, da direita à esquerda, ninguém sai ileso. E por isso mesmo é bom que a oposição, antes de não resistir a entrar no jogo do "maledicência", perca alguns minutos a pensar no assunto .
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segunda-feira, abril 27, 2015
A questão-chave da coligação eleitoral
A questão-chave (haverá outras, como o que fará na sequência das eleições caso não consiga maioria absoluta, mas esta é a essencial) de PSD e CDS terem decidido ir a votos coligados (uma espécie de segredo de polichinelo) é em que medida isso poderá criar uma dinâmica eleitoral que faça a coligação valer mais do que a soma dos votos dos dois partidos, considerados isoladamente, ou se, pelo contrário, isso levará alguns eleitores potenciais de PSD e CDS com poucas simpatias pelo outro partido da coligação ou ciosas da identidade partidária a refugiarem-se na abstenção ou no voto em branco. As próximas sondagens darão já algumas indicações sobre o assunto.
Já agora, com alguma dose de ironia: como vai chamar-se a coligação? "Compromisso Portugal"?
sexta-feira, novembro 01, 2013
O PS e os "cantos da sereia"
Não me parece que este género de direita que agora nos (des)governa seja assim tão estúpida que queira mesmo "amarrar" o PS a um qualquer acordo em torno das suas ideias de governo, deixando a oposição reduzida a PCP, BE, movimentos inorgânicos e abstenção e/ou voto em branco. Sabendo que o PS jamais poderia aceitar este "canto da sereia" sem risco de implosão dele próprio e quiçá, com ele, o do actual regime político, os apelos, quase diria lancinantes, de governo, Presidente da República, PSD e CDS (e de quem os apoia) têm apenas como objectivo desgastar e enfraquecer o PS, de modo a limitar o seu crescimento nas sondagens e o modo como se apresentará a eleições nas "europeias" e nas próximas legislativas. E se o PS não quiser cair nesta armadilha terá de autonomizar o seu discurso, a todos os níveis, tornando-o claramente distinto tanto do dos partidos do governo e seus acólitos, como do conservadorismo ou imobilismo dos partidos situados à sua esquerda. Foi isto que esta direcção do PS até agora não conseguiu, nem me parece seja capaz de o vir a fazer.
segunda-feira, julho 22, 2013
Ainda 2 notas sobre o tal "compromisso"
- Tenho ouvido frequentemente como justificação para a bondade do tal compromisso de "salvação nacional" o argumento que a maioria dos portugueses o desejaria. Por exemplo, Paulo Baldaia afirmou-o ontem na sua TSF. Partindo do princípio que tal é verdadeiro, isto é, que a maioria dos portugueses desejaria tal acordo se concretizasse, convém lembrar que, felizmente, não vivemos numa democracia plebiscitária ou referendária, mas representativa, na qual, portanto, os cidadãos delegam, em função dos programas políticos apresentados, os seus poderes naqueles que pretendem assumir essa sua representação. Ora não me parece qualquer dos partidos representados na Assembleia da República assumisse esse compromisso como parte do seu programa eleitoral. Já agora: se a maioria dos cidadãos fosse a favor da introdução da pena de morte ou da prisão perpétua (e não estou certo o não seja), isso justificaria tais penas fossem adoptadas? É que uma das razões para a existência da democracia representativa, em que a vontade popular é, digamos assim, mediatizada, é exactamente evitar pulsões populistas e decisões apenas conjunturais, impulsivas ou demasiado ditadas pelas emoções do momento.
- Também não me parece colha a ideia de que se António José Seguro terá forçosamente de adoptar, quando for governo, algumas das políticas agora defendidas pela coligação PSD/CDS, devesse subscrever desde já um compromisso onde essas medidas constassem. Em primeiro lugar, porque até 2015 muita água irá correr sob as pontes e, assim, não podemos ter a certeza de qual a correlação de forças a nível europeu nessa data. Em segundo lugar, é diferente o PS ceder agora a PSD e CDS ou apresentar-se ao eleitorado em 2015 com as suas ideias, que negociará com os credores e seus representantes, mesmo que, como se prevê, seja então obrigado a recuar em algumas das propostas que tem apresentado. Desde que o explique convenientemente, claro.
quinta-feira, julho 04, 2013
Pedro e Paulo ou o único racional possível
Recusando-me a acreditar tudo não passa de uma birra entre adolescentes, de "catraios" ou de "gaiatos", como se diria no vernáculo "tripeiro" muito adequado para definir certo tipo de situações, não retiro nem uma linha ao raciocínio que aqui exprimi. Acontece que a estratégia de Portas não terá sido bem compreendida ou, o que é bem mais provável, não terá sido bem recebida pelos orgãos dirigentes do CDS, que não terão querido correr os riscos inerentes, e Paulo Portas viu-se assim obrigado a recuar nas suas intenções. O problema é que se a estratégia inicial de Portas comportava riscos, mas também, se bem gerida, continha potencialidades para uma afirmação do CDS como partido preferencial do voto da direita, o actual recuo arrisca-se a arrastar o CDS num muito possível processo de "pasokização" do PSD, comportando enormes riscos para a democracia e para o regime. Veremos o que nos reservam as próximas sondagens.
quarta-feira, julho 03, 2013
Paulo Portas e o cenário de "pasokização" da direita.
Pode Paulo Portas ser acusado, como o faz a facção mais radical dos apoiantes do actual governo moribundo, de ter pensado mais nos seus interesses e nos do partido a que preside do que num qualquer "interesse nacional" identificado com a manutenção do "status quo"? Mais devagar, e principalmente não entremos por raciocínios simplistas e redutores que só menorizam quem os produz, embora seja esse o caminho que mais favorece a ainda actual "vanguarda" dirigente.
Como qualquer general competente que vê dificilmente as suas forças conseguirão vencer a batalha em curso, desde a chamada crise da TSU, de Outubro de 2012, que Portas percebeu que o governo tinha entrado na sua curva descendente, decidindo então afastar-se dele o suficiente e tentando assim, recuando em boa ordem, salvaguardar o máximo possível do seu exército e dos seus homens, reservando-os para batalhas futuras travadas em condições mais favoráveis. Os sinais foram muitos e bem evidentes e o demolidor comunicado das associações patronais contra o governo, em conjunto com um quase-apelo à greve geral e com a aproximação entre a UGT e a CGTP, foi visto - e bem - por Paulo Portas como o toque a finados pelo governo em exercício. Faltava - tal como nos rompimentos conjugais - um pretexto, mesmo que fútil, e esse foi a nomeação de Maria Luís Albuquerque, como poderia ter sido qualquer outro. A decisão estava tomada.
Mas atenção: se esta decisão pretende salvaguardar Paulo Portas e o CDS de um desastre mais do que anunciado, tentando salvar o que resta do partido para futuras batalhas e assim prejudicando o PSD e Passos Coelho, ela tem um objectivo bem mais vasto e consequente: perante um possível cenário de "pasokisação" do PSD, que poderia arrastar consigo o CDS caso este se mantivesse em comunhão plena com Passos Coelho, evitar uma enorme crise de representação política na direita portuguesa, o que seria dramático para o regime e para a democracia. Tendo isto em atenção, embora neste momento, numa reacção primária e ainda demasiado a quente, alguns possam ver em Paulo Portas o carrasco executor do actual projecto político, a prazo, o espaço ideológico que normalmente se reconhece na direita, mas também todos os outros, à esquerda ou á direita, que se revêem no actual regime, ainda um dia se mostrarão gratos à inteligência e perspicácia políticas reveladas pelo cidadão Paulo Sacadura Cabral Portas. veremos se tenho razão.
terça-feira, julho 02, 2013
Paulo Portas: a oportunidade de uma vida
No fundo, é assim: Pedro Passos Coelho tenta a todo o custo evitar que Paulo Portas e o CDS retirem dividendos políticos e eleitorais da demissão deste último de ministro um governo impopular e sem apoio social. Com este sua atitude, bem patente na comunicação de hoje ao país, o actual líder do PSD tenta simultaneamente minimizar futuras perdas eleitorais do partido, lutando assim contra a fuga de votos dos eleitores de direita para o CDS e, simultaneamente, pela sua sobrevivência política. Mas existe uma diferença entre ambos: Passos Coelho talvez não o reconheça, mas está politicamente morto; Paulo Portas e o CDS, se gerirem bem a situação, podem ter aqui a oportunidade de uma vida.
segunda-feira, maio 13, 2013
CDS: o fim de uma história "bonita"
Numa coligação, o papel fundamental dos partidos mais pequenos e a mais valia que podem representar, para além da soma dos votos e dos deputados, é trazerem para o governo de que fazem parte a representação de grupos minoritários, alargando assim a base de apoio desse mesmo governo. Claro que o risco de alguma conflitualidade no executivo pode assim aumentar, mas o alargamento da sua base social de apoio e um certo "arejamento" de ideias, evitando o "enquistamento", que esses partidos minoritários possam trazer consigo parece-me, numa maioria dos casos, compensar esse tal risco de alguma conflitualidade acrescida. O CDS de Paulo Portas tem percebido isso e, desse modo, foi tentando, na sua história recente, arvorar-se em defensor e representante privilegiado de alguns desses grupos e dos seus interesses e reivindicações mais imediatos. Ele foram os "lavradores", os "antigos combatentes", os "pescadores", os "pensionistas" e mais alguns que não recordo. No fundo, uma pequena-burguesia digamos que esquecida pelo poder, nele pouco representada ou deixada para trás pelo desenvolvimento, pela integração europeia e globalização da qual o CDS se quis fazer representante. A inteligência e habilidade políticas de Paulo Portas, em conjunto com o seu indiscutível carisma e, porque não dizê-lo, alguma falta de escrúpulos, foram dando o seu contributo e o CDS lá se foi mantendo na sua quota eleitoral de dois dígitos.
Esta foi, para o CDS, uma história mais ou menos bonita, mas que me parece ter acabado num domingo véspera de um treze de Maio. Agora, se aos portugueses ainda lhes restar alguma memória ou discernimento político, nem uma oração, ajoelhado junto ao túmulo da irmã Lúcia, poderá salvar Paulo Portas do descrédito e o CDS de se limitar a fazer número no governo, acrescentando-lhe os seus votos e deputados. Vítor Gaspar ganhou mais uma batalha.
quarta-feira, outubro 31, 2012
Onde se fala da proposta "refundadora" e da sua semelhança com a Batalha das Ardenas
Parece-me ser visível algum desconforto do PS face ao convite de Pedro Passos Coelho para uma "refundação" do MoU, o que, como aqui disse, significa, em versão descodificada, uma proposta para reduzir drasticamente o Estado Social, uma conquista civilizacional de todos os europeus (socialistas, sociais-democratas, conservadores, cristãos-democratas, liberais e comunistas). Por um lado, o PS não pode recusar-se ao diálogo sob pena de ser acusado por PSD e CDS de tudo o que o profeta Maomé disse do porco (escuso-me de exemplificar); mas deve também convencer-se que essa cedência ao diálogo pode, de imediato, ser vista, logo à partida, como indício de fragilidade e possível sinal de capitulação. De igual modo, caso se mantenha intransigente na defesa das suas posições em favor do Estado Social será acusado pela actual maioria governamental de ser o responsável pela manutenção de um nível de impostos acima do suportável, arriscando-se a assistir a uma possível erosão, no mínimo, a algumas hesitações ou até enfraquecimento sério das suas bases de apoio social e eleitoral, onde a classe média tem enorme relevância e a cultura política está longe e ser sólida. Por outro lado, a mínima transigência para com as propostas de PSD e CDS, para além de também não ser isenta de riscos em termos eleitorais, principalmente na perspectiva do PS poder vir a reconquistar eleitores perdidos para o BE ou potenciais abstencionistas, será vista por muitos sectores do partido e da sociedade como inaceitável e colocará a frágil liderança de Seguro em perigo e até o partido em sério risco de desagregação.
Digamos que é entre estes dois parâmetros que o PS terá, com inteligência e tacto político, de fazer o seu caminho, mas convém admitir desde já que esta proposta de PSD e CDS é assim um pouco a modos que a "Batalha das Ardenas" do governo: apanha o adversário relativamente desprevenido e distraído no seu impulso atacante, fá-lo abanar e hesitar e, não chegando para ganhar a guerra, poderá atrasar o seu fim e, entretanto, causar-lhe alguns importantes dissabores. Convém portanto que o PS não menospreze o assunto.
quinta-feira, outubro 18, 2012
O dilema do CDS (2)
Entre duas possibilidades extremas, o CDS tenta viver no melhor de dois mundos: comer o bolo e ficar com ele. Digamos que no curto-prazo a opção tem potencialidades, mas a prazo arrisca-se a ser desastrosa, já que "é possível enganar alguns todo o tempo ou todos durante algum tempo", mas "é impossível enganar todos todo o tempo". Paulo Portas sabe-o bem, mas a tentação de adiar é grande e "enquanto o pau vai e vem"...
quarta-feira, outubro 17, 2012
O dilema do CDS
O CDS está perante um dilema: por um lado, tem perante si a melhor "oportunidade de negócio" da sua vida com Paulo Portas, podendo aproveitar a actual extrema fragilidade do PSD, maior partido de um governo que bate recordes de impopularidade, para crescer como nunca o fez, embora para tal tivesse de abandonar esse mesmo governo; por outro, receia que a quebra da coligação possa ser tomada pelo país e por uma parte do seu eleitorado tradicional como causa de uma indesejável crise política que mergulhasse o país na incerteza, com as respectivas consequências penalizadoras em futuras eleições. No fundo, serão estes dois parâmetros extremos, em conjunto com os interesses empresariais mais directos de alguns dos seus dirigentes (Pires de Lima, por exemplo), que irão definir qualquer decisão do CDS sobre a sua continuidade no actual governo. Aceito seja para Paulo Portas uma decisão muito difícil.
quinta-feira, outubro 04, 2012
CDS: um péssimo serviço à democracia
O facto de o CDS ser apenas uma espécie de "partido muleta", de "verdes" do PSD disposto a tudo para se manter no poder, acrescenta um problema à democracia portuguesa: o partido não constitui alternativa para aqueles que, situando-se politica e ideologicamente à direita, não se reconhecem no PSD e governo actuais de Passos Coelho, Gaspar, Borges e Moedas. Contribui assim, em conjunto com a inexistência de um partido à esquerda capaz de dialogar e estabelecer acordos com o PS, para um bloqueamento do actual sistema partidário e até do próprio regime. Paulo Portas está a prestar um péssimo serviço à democracia.
terça-feira, julho 17, 2012
CDS esquizofrénico e Relvas em Angola
- O CDS parece um partido atacado de esquizofrenia: está no governo e não quer que se saiba, disfarçando o melhor que pode, sabe e vai conseguindo; na Madeira, critica e recusa a mesma política de austeridade que o governo de que faz parte vai tratando de defender e implementar no continente. Está a precisar de um "shrink".
- O ministro Miguel Relvas vai a Angola numa missão de carácter económico e Álvaro Santos Pereira não o acompanha. Estranho, no mínimo. Bom, mas isto de Angola parece ser em exclusivo um assunto de Miguel Relvas, que até toma medidas punitivas contra quem, em Portugal, ousa desagradar à cleptocracia angolana. Os bons espíritos...
domingo, abril 22, 2012
O "cavaleiro andante" Paulo Portas
O golpe de estado na Guiné-Bissau caiu como sopa no mel a Paulo Portas e ao CDS. Permite-lhes assumir protagonismo político fora das questões de ordem económica que quase hegemonizam a actividade governamental e penalizam os portugueses, desvia as atenções do recente "faux pas" (diria mais, "trambolhão") do ministro Mota Soares a propósito da segurança e social e, "last but not least", transforma o Ministro dos Negócios Estrangeiros numa espécie de "cavaleiro andante" de armadura reluzente na defesa da democracia, honra, justiça e paladino do "império do bem". Vendo bem, até é um fato feito à medida do ministro Portas.
quinta-feira, setembro 01, 2011
Duas notas na "rentrée"
- Até admito assista ao primeiro-ministro alguma razão no que diz respeito ao chamado imposto sobre as "grandes fortunas". Pelo menos, antes de qualquer decisão é assunto que merece ser pensado com maior atenção e mais profundidade do que os permitidos pela demagogia e populismo reinantes. Por mim, digamos que tenho dúvidas não inteira e cabalmente esclarecidas. Mas por muita ou apenas alguma razão que possam assistir a Pedro Passos Coelho neste assunto, depois de conhecido o desvario madeirense e do anúncio de mais um aumento de impostos, tal de pouco ou nada lhe servirá. Como político experimentado, Passos Coelho sabe que não é a razão que faz mover o mundo, nem sequer o ter razão é condição necessária, muito menos suficiente, para se ser bem sucedido.
- Não foram apenas os políticos "à direita", de PSD, CDS ou das suas áreas ideológicas, que fizeram crescer aquilo que está prestes a transformar-se em mais um "mito urbano": as célebres "gorduras do Estado". Para a difusão de tal "mito" muito contribuíram jornalistas e comentadores de assuntos económicos, bem como outros que, não sendo da especialidade, partilhavam das mesmas opções ideológicas. Perante as evidências, quase me apetecia sugerir se retratassem, apresentando desculpas por se terem enganado. Mas, pensando melhor, sabemos não se tratou fundamentalmente de um engano: qualquer cidadão razoavelmente informado sabia o que estava em causa e o que, na realidade, valiam tais "gorduras". Tratou-se, isso sim, talvez da maior campanha mediática alguma vez conduzida neste país para levar alguém ao poder.
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