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quinta-feira, dezembro 03, 2015

António Costa e a "Caras"


Alguém terá convencido António Costa de que aparecer na "Caras" com a família iria contribuir para lhe dar uma imagem de "moderado", de "homem do sistema", contrabalançando a imagem de "radical" de esquerda que, por via dos acordos com o BE e o PCP, a direita teima em lhe querer colar. Ou então António Costa ter-se-à ele próprio convencido de tal coisa. Pelo menos, estas são as únicas explicações plausíveis que encontro. Enorme erro. Primeiro, porque António Costa não chegou hoje à política: foi ministro e presidente do maior município do país e a sua imagem sempre foi tudo menos a de um radical, mas sim de um "moderado", um homem de negociação e de compromisso. Digamos que "não havia necessidade". Segundo, porque tentando a direita colar-lhe o rótulo de alguém capaz de tudo para conquistar o poder, a reportagem da "Caras", revista onde têm lugar cativo os putativos "ricos e famosos", apenas vem reforçar essa falsa ideia de associação ao poder não importa como ou a que preço. Terceiro, porque o passado, o perfil e até a herança familiar de António Costa se situam nos antípodas da futilidade associada às revistas "cor de rosa". Digamos, querendo ser benigno e pela consideração que António Costa me merece, ter-se tratado de um infeliz "faux pas". Mas depois dos também eles infelizes cartazes da desastrosa campanha eleitoral, é bom este estes "faux pas" não se tornem num repetitivo mau hábito.

segunda-feira, novembro 30, 2015

A principal tarefa de António Costa

Não pode existir uma democracia estável e saudável onde as desigualdades sociais e de rendimentos sejam demasiado elevadas. Onde não exista uma vasta classe média com aspirações e poder de compra. Onde não sejam assegurados suficientes mecanismos de ascensão económica e social. Por alguma razão, ou seja, por todas estas razões, foram o desenvolvimento e a criação de uma classe média fortalecida, que no tempo da ditadura era apenas embrionária, as grandes preocupações do regime saído do 25 de Abril. Umas vezes tal correu bem; outras menos bem. Mas ninguém poderá, de boa fé, negar que os objectivos foram alcançados: com a opção europeia o país desenvolveu-se e conseguiu fazer crescer e fortalecer a sua classe média, assegurando as necessárias possibilidades de ascensão social e a estabilidade democrática ao centro (esquerda e direita).
Foi este "status quo" que as políticas dos últimos quatro anos puseram em causa, enfraquecendo e empobrecendo a classe média e substituindo as possibilidades reais de ascensão social, para muitos, mesmo os mais "remediados", pelo aconselhamento à emigração, enfraquecendo assim as estruturas económicas e sociais garantes da democracia e do bem -estar. Com elas gerou-se o radicalismo e a desertificação de um centro político que até aí tinha assegurado a governabilidade.
Ora, é pois a recuperação desses valores perdidos, que foram sempre os que asseguraram a estabilidade democrática, a principal tarefa do actual governo. António Costa e o PS parecem tê-lo compreendido, optando por pôr de parte os radicalismos, por definir um programa social-democrata moderado e por construir um governo composto por nomes sem grandes cedências à sua esquerda. Que PCP e BE tenham aceitado juntar-se à tarefa e que PSD e CDS, nas suas críticas, não consigam ultrapassar a "vulgata" é bem sinal do grau de destruição e de radicalismo em que uma direita, que nem sequer consegue compreender os mecanismos que asseguram a democracia, fez cair o país.

terça-feira, novembro 24, 2015

António Costa merece uma enorme chapelada


Simpatize-se ou não com o homem (eu simpatizo), goste-se ou não do político e da solução de governo encontrada (gosto só "assim, assim" e o programa de governo envolve riscos sérios), tenham-se ou não todas as legítimas dúvidas sobre a solidez do acordo alcançado (tenho as de muita gente e só um louco não as tem) e tudo o mais o que se quiser chamar à discussão, um António Costa derrotado a 4 de Outubro e para muitos destinado à demissão do cargo de secretário-geral do PS consegue quebrar um tabu de 40 anos com um acordo à esquerda, submete Cavaco Silva a um enorme vexame (Cavaco pôs-se a jeito) e acaba primeiro-ministro indigitado. Para quem ainda tinha dúvidas, convenhamos que estamos perante um político que deve ser levado a sério e alguém que merece uma enorme chapelada. Está dada.

segunda-feira, novembro 23, 2015

As "exigências" de Cavaco Silva

Independentemente da minha concordância ou discordância com as questões levantadas pelo Presidente da República a António Costa - nas quais reconheço alguma relevância - fica a minha pergunta: tendo algumas delas conteúdo programático, tem o PR poderes constitucionais para exigir o seu cumprimento? Se amanhã existir na Assembleia da República uma maioria que, por exemplo, advogue a saída da UE, da zona euro ou se recuse a cumprir o Tratado Orçamental, pode o Presidente da República, do qual os governos não dependem, recusar-se a dar-lhe posse?

Em minha opinião, as chamadas "exigências" da Cavaco Silva destinam-se apenas se não a salvar-lhe a face", o que neste momento já é impossível, mas a limpá-la um pouco perante o povo de direita. 

quinta-feira, outubro 15, 2015

Deve o PR indigitar Passos Coelho?

A questão é bem interessante e não consigo ter uma posição fechada sobre o assunto. Como defensor de um regime parlamentar puro - que sou -, sem Presidente da República eleito por sufrágio directo e universal e com redução dos seus poderes (como em Itália, Alemanha, Grécia ou nas monarquias constitucionais), tendo a simpatizar mais com a ideia do PR indigitar Pedro Passos Coelho e este submeter-se à decisão soberana da Assembleia da República. Mas e se Passos Coelho declarar à partida que não tem condições para fazer passar o seu governo no parlamento e António Costa lhe apresentar uma alternativa sólida? Digamos que em termos genéricos, não vejo como os defensores do actual regime semi-presidencialista e  do estilo de presidência de Cavaco Silva, maioritariamente situados à direita, pudessem negar ao PR essa prerrogativa. Enfim... alguma coerência, se fazem favor.

António Costa traz a política de volta. Ainda bem.

Ao optar pela negociação à esquerda, tentando alcançar uma maioria por si liderada da Assembleia da República, António Costa, derrotado nas eleições, está também a lutar pela sua sobrevivência política? Óbvio que sim, e, sendo a natural vocação dos partidos e dos seus líderes ascenderem ao poder, ninguém poderá considerar tal coisa ilegal, ilegítima ou ainda menos uma subversão das regras democráticas. Mas ao fazê-lo, convém também que se diga que António Costa está simultâneamente a lutar pela sobrevivência do PS enquanto grande partido com aspirações de governo e, quiçá mesmo, pela manutenção e alargamento do sistema partidário herdado da revolução de Abril. 

Se ao trazer o PCP e o BE para a mesa das negociações (veremos com que sucesso - ou insucesso), Costa está a aprofundar a integração dos dois partidos  no jogo institucional e democrático, onde, em certa medida, principalmente o PCP já se podia considerar incluído, ao colocar enormes reticências a um qualquer tipo de acordo à direita, ou mesmo a viabilizar um governo PÁF, o actual secretário-geral do PS tenta evitar aquilo que pareceria muito provável, a prazo, com um acordo deste tipo: com a possível conivência de um Presidente da República oriundo da direita, mesmo de um sempre imprevisível e não demasiado dado a alinhamentos Marcelo Rebelo de Sousa, ter de enfrentar, sob a "velha e relha" alegação das "forças de bloqueio", eleições no prazo de um ano, eleições essas onde o risco da direita alcançar uma maioria absoluta e PCP e BE melhorarem as suas votações, em prejuízo do PS, seria tudo menos negligenciável, podendo, no limite, levar os socialista a uma espécie de "pasokização".

Ok, certo, estamos conversados sobre os perigos do acordo à direita. Mas à esquerda eles não existem, incluído a fragilidade de um governo sem a presença ou o apoio do partido vencedor das eleições? Claro que sim, enormes, e escuso de enumerá-los, embora, no caso de acordo à esquerda, o PCP ofereça sempre garantias que me parece nenhum outro partido do espectro político, de esquerda ou de direita, pode conseguir reunir. Mas neste caso, isto é, no caso de PCP ou BE forçarem uma ruptura, interrompendo a legislatura e obrigando a eleições antecipadas, será António Costa, e não a direita, a poder responsabilizar as forças à sua esquerda, reclamando que só uma maioria absoluta do PS poderá impedir a direita de governar, o que levará a uma concentração dos votos da esquerda no partido, fortalecendo-o.

Digamos que numa posição difícil, politicamente quase insustentável, António Costa, um político experiente, escolhe a que lhe poderá render, a si e ao seu partido (mas também, em certa medida, à sobrevivência do regime tal como o conhecemos), maiores dividendos. Isto, meus senhores, principalmente para os que andavam esquecidos ou nunca souberam o que isso era, é a política. Seja bem-vinda.

segunda-feira, outubro 12, 2015

A direita, o primado da política e a essência do PCP

Tenho estado fora do país estes dias, acompanhando o que se passa apenas via internet. Mas já deu para perceber que esta direita radical que nos tem governado, escudada na inevitabilidade das soluções económicas, no "there is no alternative", revela enorme dificuldade em entender a essência da democracia liberal, o seu funcionamento e o primado da política. Quando tudo tende a inclinar-se para esse lado, o seu incómodo para lidar com a situação é por demais evidente.

Independentemente do que vier a acontecer, de qualquer que venha a ser o novo governo e concorde eu ou não com os acordos que se vierem a estabelecer (quaisquer que sejam), o que António Costa está a fazer, qualquer que seja o resultado das negociações em que se envolveu, é a dar uma lição de como se actua num regime democrático, de que em democracia não se podem excluir partidos e soluções, de que cada voto é individual e tem uma intenção própria, apenas conhecida por quem o decidiu, de que não existem votos nem cidadãos de primeira e de segunda. No fundo, de que, em caso de necessidade e de poder resultar daí algo de positivo, até com o Diabo se podem fazer compromissos. Como um dia disse Churchill, que Paulo Portas e a direita gostam tanto de citar, "If Hitler invaded hell I would make at least a favourable refererence to the devil in the House of Commons"). Aprendam!

Nota final - já agora: quem disse e afirmou repetidamente que o PCP era um "partido de protesto"? Com certeza, alguém sem qualquer formação política ou desconhecedor da História. O PCP é e sempre foi (e até o provou com a sua atitude cautelosa no 25 de Novembro de 1975), um partido de poder, como também sempre o foram os partidos comunistas que se inseriam na mesma linha política, o PCE de Carrillo, o PCI de Berlinguer ou o PCP de Marchais, entre outros. 

quinta-feira, setembro 17, 2015

Um Passos Coelho em crescendo

Três notas:
  1. Fiquei com a sensação de que Passos Coelho tinha conseguido colocar António Costa demasiado na defensiva e que, com isso, conseguiu assumir a liderança do debate e colocar algumas dificuldades a António Costa.
  2. A questão da condição de recurso das prestações não contributivas, a que António Costa não soube dar a resposta directa que se impunha, vai acabar por marcar o debate. Uma coisa é ter razão - e o PS, na sua essência, tem-na - outra, bem diferente, é conseguir demonstrá-la, e António Costa não o conseguiu. Estejamos atentos ao modo como os "media", na sua maioria favoráveis à coligação, e as redes sociais o vão explorar, mas António Costa não sai bem na fotografia.
  3. Ter um programa estruturado, em certa media complexo e valorizado é um ponto positivo para o Partido Socialista e inovador em eleições legislativas. Mas a complexidade de algumas das suas propostas acaba por ser um problema para as explicações simples e claras que um debate entre candidatos normalmente exige.

quinta-feira, setembro 10, 2015

Um debate clarificador

  1. Talvez mal aconselhado pelos seus "spin doctors" - uma espécie de "jovens turcos" voluntaristas e radicais -, talvez também influenciado pelas redes sociais onde esse radicalismo, a par do primarismo ideológico e do raciocínio imediatista, dominam, Pedro Passos Coelho ainda não percebeu as limitações do "efeito Sócrates", isto é, que ao invocar os "medos sócratistas" está a falar quase exclusivamente para o núcleo duro dos seus votantes, já que a maioria dos eleitores já percebeu que não só o perfil pessoal de António Costa está nos antípodas do de Sócrates, como não existe semelhança alguma entre o voluntarismo e até irascibilidade política do ex-primeiro- ministro e as cautelas e contenção, por vezes até em excesso, do actual líder do Partido Socialista, expressas de forma clara no programa eleitoral apresentado. Que Pedro Passos Coelho continue a insistir no "efeito Sócrates" é tudo o que o PS e Costa podem desejar.
  2. Situação idêntica funciona (ou não funciona, para Pedro Passos Coelho) no caso Syriza. Se a eleição do Syriza significou alguma esperança, saudada por todos os que, à esquerda e à direita, se opõem ao actual e "quase único" pensamento dominante, cedo ficou também claro para todos, incluindo para o PS e até mesmo, por outros motivos, para a esquerda radical do "Bloco", que a estratégia estaria condenada ao fracasso. E isso mesmo se reflecte no programa eleitoral do PS, que vai tão longe quanto o actual "estado da arte" da UE o permite, sem pôr frontalmente em causa, ao estilo "derrubar o muro à cabeçada", os seus fundamentos. Na realidade, estamos perante uma estratégia cautelosa,  claramente oposta à do Syriza, e muito fácil será para António Costa, que tem fama de tudo menos de ser um temível radical, explicá-la aos eleitores.
  3. O debate de ontem provou que basta a António Costa, que tem "lastro" enquanto pessoa, cidadão e político, ser um pouco mais autêntico e menos defensivo, pondo de lado as demasiadas cautelas, o estilo quase evangélico de quem pede desculpa por estar ali, o medo de ser visto como"radical" e optando por uma atitude mais pro-activa e por afirmações mais claras, para colher dividendos políticos. Espero o tenha percebido e aprendido a lição. 
  4. Devo dizer que não entendo a opinião dos que afirmam o debate não terá sido esclarecedor. Pelo contrário, desde o PREC e do célebre debate Soares/Cunhal que não me lembro de estarem "frente a frente" duas propostas tão claras e antagónicas. De um lado, o de António Costa, aquela de todos os que se reconhecem nos valores tradicionais da social-democracia, da democracia-cristã e do liberalismo social que criaram a UE e construíram as modernas sociedades e democracias europeias do século XX e do pós-guerra; do outro, o de Pedro Passos Coelho, o lado onde se acolhem todos o que perfilham o conservadorismo mais retrógrado e as emergentes ideologias neo-conservadoras e ultra-liberais, incluindo as suas franjas mais radicais. Depois do debate de ontem, ninguém se pode queixar de não poder escolher com clareza o seu lado.

quinta-feira, agosto 20, 2015

O PS e António Costa no "labirinto" da sua linguagem

"O PS não "promete criar 207 mil empregos"! Apresentou sim o estudo técnico que estima impactos económicos do seu programa" - António Costa no Twitter.

Por muito que António Costa possa ter razão - e acredito o modelo esteja correcto, embora não deixe de ser aquilo que de facto é: um "modelo" - como 99.9% dos portugueses, nem sequer a maioria dos jornalistas fora da área económica irão entender a "nuance", o PS arrisca-se a uma de duas coisas (ou ambas):
  1. Uma esmagadora maioria dos portugueses irá entender esta afirmação como mais uma promessa eleitoral sem qualquer valor, encolhendo os ombros e, escaldados com as mentiras grosseiras de Pedro Passos Coelho na campanha anterior, irão concluir que "os políticos são todos iguais", tal em nada contribuindo para um acréscimo de credibilidade de Costa, do PS e até do regime.
  2. Caso venha a ser governo, e por muito que tente esclarecer o seu conteúdo, o PS irá ser permanentemente confrontado, principalmente nas redes sociais, onde o imediatismo e o primitivismo de raciocínio são lei, com esta "promessa", de nada valendo o impacto negativo nos seus resultados que possa advir de quaisquer variações nos outros parâmetros mesmo que fora do âmbito e da possibilidade de controle governamental.
António Costa tanto se preocupa - e bem - com a credibilidade e com o crescimento da votação no partido que essa preocupação acaba, por vezes, por ter um efeito ridículo (caso dos cartazes "evangélicos") e, por outras, o que é bem mais grave, por ter mesmo um resultado político contraproducente.

terça-feira, junho 30, 2015

Uma pergunta a António Costa sobre o "caso" José Sócrates

É óbvio que ninguém pode esperar de António Costa outra resposta ao "caso Sócrates" senão o habitual "à justiça o que é da justiça, à política o que é da política". Com o seu ex-líder detido preventivamente, os graves problemas que afectam a social-democracia europeia e o drama grego, António Costa e o Partido Socialista já têm problemas de sobra com que se debaterem e Costa, com razão ou sem ela nesta sua habitual resposta, é um homem sensato e não tem vocação suicidária. 

Mas se "à justiça o que é da justiça e à política o que é da política", alguém já deveria ter perguntado ao líder do PS o que acha de um ex-primeiro ministro e líder partidário ter aceite dinheiro emprestado, favores ou benesses de um accionista (ou dono, se quiserem) de uma empresa grande fornecedora do Estado. Estamos aqui no âmbito estrito da política e não perante qualquer tipo de especulação ou afirmação retirada cirurgicamente do processo, mas perante algo José Sócrates já declarou ter efectivamente acontecido. Claro que seria uma pergunta de certo modo embaraçosa para António Costa (ou até talvez o não fosse), mas para isso existe o jornalismo e não para fazer fretes ou propaganda política repetindo "ad nauseam" a "vulgata" da direita sobre a origem da crise e a situação na Grécia e na UE.

sexta-feira, abril 10, 2015

Passos Coelho, os custos do trabalho e a não-resposta do PS

Estas afirmações e propostas de Pedro Passos Coelho sobre a redução dos custos do trabalho para as empresas constituem, por si sós, todo um programa político que a actual coligação, com o apoio do pensamento político e económico actualmente dominante na UE, deseja levar por diante caso vença as próximas eleições legislativas. Em face delas e do programa político que encerram, nos antípodas da ideologia e da herança social-democrata europeia, seria de esperar uma reacção crítica violenta (no bom sentido, claro), directa e bem vincada, por parte da direcção do PS, eventualmente tendo como porta-voz o próprio secretário-geral e com ampla difusão mediática. Estranhamente, e embora tenha estado atento aos "media", nada disso aconteceu e o PS perdeu assim mais uma excelente oportunidade de marcar a sua diferença em relação ao seu adversário político. É que não basta afirmar, em abstracto, que o seu projecto político é outro, baseado na qualificação e valorização do trabalho: é preciso estar atento às questões concretas, às oportunidades, e responder de imediato e em conformidade. Não sendo assim...

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Costa, Alfredo Barroso e a social-democracia no seu labirinto

Estas afirmações de António Costa talvez não sejam mais do que um "fait divers" criador de um "soundbite" tão do agrado mediático, e a tal "gota de água" que fez transbordar o copo de Alfredo Barroso, levando-o à demissão. Mas sendo-o, não se podem reduzir a tal: são acontecimentos que revelam uma dificuldade e um mal estar bem mais profundos e estruturais, que se vêm arrastando há longos anos e que resultam da incapacidade da social-democracia europeia em se afirmar como alternativa à ideologia e práticas políticas e económicas dominantes. Este é de facto o verdadeiro problema, a parte submersa do "iceberg" que impede a social-democracia de se constituir num projecto político mobilizador, perdendo-se no labirinto que a queda do "Muro de Berlim", o fim da "Guerra Fria", a unificação alemã e o Reaganismo e Thatcherismo souberam construir. 

quinta-feira, janeiro 29, 2015

E entretanto a Grécia?

E entretanto a Grécia? Bom, o Syriza e a Alemanha marcam cada um o seu território: de um lado, numa estratégia de "front loading", Tsipras aprova uma série de medidas desafiadoras e "pisca o olho" a Putin, colocando a política e a geo-estratégia no centro do problema e, do outro, a Alemanha, por ela própria ou através de terceiros que lhe são fiéis, vai avisando um pouco ao estilo "ou se portam bem ou vou-me a eles". Diria, sem ofensa para nenhum dos citados, estarmos perante um processo de negociação clássico, embora um pouco ao estilo regateiro (ou" marroquino", se quisermos), cada um jogando as armas que tem e não hesitando no "bluff". 

Para o PS e para António Costa é que me parece uma situação desconfortável: devem e têm de se distanciar do Syriza, pelas suas diferenças ideológicas, estatuto enquanto partidos e prevendo as coisas na Grécia possam correr mal e marcar as habituais distâncias face ao actual governo luso/germânico de Passos Coelho e à estratégia europeia que conduziu a social democracia a uma crise. De qualquer modo, ao PS (e, já agora, também aos europeus que ainda não perderam completamente o juízo) só convém mesmo tudo se vá resolvendo na Grécia com compromissos e uma solução negociada e equilibrada: com quaisquer outras, mais drásticas ou extremadas, vitórias retumbantes de um ou outro dos lados (Syriza e Alemanha), o PS só pode perder o seu espaço e a Europa seguir por maus caminhos.

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Porque sobe o PS nas sondagens?

Porque é que o PS sobe nas intenções de voto apesar do "caso Sócrates"? Bom, o que até agora a sondagem nos diz não é conclusivo, mas os índices de popularidade alcançados por António Costa e as respostas positivas ao modo como este geriu a crise provocada pela prisão do ex-primeiro-ministro parecem indicar que tal subida está bastante ligada à imagem que António Costa soube construir para si mesmo, juntamente com a extrema "fulanização" em que caiu a política em Portugal. De facto, Costa tem sabido construir para si uma imagem que está nos antípodas dos "políticos de plástico" que associamos a Durão Barroso,  José Sócrates, Passos Coelho e António José Seguro (ou Blair, ou Sarkozy), usando para tal, com a propósito, o seu lugar de presidente da CML e o facto de ter nascido numa família na qual a política e a cultura andavam e mãos dadas; conseguiu construir para si uma imagem de cidadão comum, mas, correspondendo isso ou não à realidade, projectando simultâneamente uma densidade política e cultural  que é raro encontrar nos líderes políticos da actualidade. De alguém que está na política mas "não é como os outros".  

Será essa imagem suficiente para ganhar eleições? Depois de parecer ter superado a "prova Sócrates", tudo leva a crer que sim, mas o verdadeiro desafio - esse - começará no dia em que entrar em São Bento ou na Gomes Teixeira, quando for obrigado a demonstrar em situação muito difícil a sua capacidade política para governar.

quinta-feira, novembro 20, 2014

O que move Francisco Assis

Devo dizer, antipatizo solenemente com Francisco Assis (o do PS, não o santo), e esta minha antipatia pouco ou nada tem a ver com razões ideológicas. Tal acontece desde aquela sua ida a Felgueiras, na qual - e não nutrindo eu qualquer simpatia por aquilo que a ex-autarca Fátima representa -  Assis mais parecia um "chefe de turma" ressabiado, tentando repor a ordem que o senhor reitor lhe tinha encomendado, do que um político lutando pelas suas ideias e ideais; alguém que viu na situação a oportunidade para os seus cinco minutos de fama e para uma espécie de vingança dos fracos que, num país de vistas curtas e ideias vagas, haveriam de o catapultar para a ribalta. Depois, a partir daí, sempre me pareceu bem mais um género de aspirante a António Vitorino de província: sempre sem uma ideia clara e com um pé no PS e outro no PSD, mas sem o à-vontade, a bagagem cultural, o cosmopolitismo e a tarimba política do "autêntico". Uma espécie de "copycat" em versão "low cost".

Tendo dito isto, reconheço Assis terá sem dúvida razão em alguns dos pontos que enuncia na sua entrevista ao "Observador", mas como não é a razão que faz mover o mundo e essa mesma razão não basta para caucionar uma atitude, as suas afirmações "nesta altura do campeonato", o "timing" escolhido, o interlocutor (Maria João Avillez) e o "media" ("Observador") seleccionados são tudo menos ingénuos e constituem uma autêntica punhalada cravada à traição na liderança de António Costa e na estratégia do partido. Uma punhalada que poderá custar alguns pontos percentuais nas próximas sondagens e talvez mesmo uns milhares de votos nas próximas legislativas. Mas, no fundo, é esse o verdadeiro objectivo de Assis: dificultar a obtenção de uma maioria clara ou até absoluta pelo PS forçando um quase inevitável governo do "Bloco Central" mas em condições bem mais desvantajosas para o seu partido. Porquê? Porque é nesse terreno, um pouco pantanoso e indistinto, sem fronteiras muito claras entre os dois partidos, que Assis encontra o seu terreno de eleição, aquele de onde sempre esperou retirar vantagens. É isso que sempre verdadeiramente o moveu.

terça-feira, novembro 11, 2014

Taxas de turismo na Europa

Para tentar acabar com a demagogia: taxas de turismo nas cidades italianas

Idem em França


É que colocar a discussão do assunto ao nível dos bebés "traidores à Pátria" por poderem ir nascer a Badajoz é, no mínimo, desonesto.

sexta-feira, novembro 07, 2014

António Costa disse 130 páginas?

Apresentar uma moção de estratégia com 130 páginas é um convite a que ninguém a leia e um sintoma de que estaremos perante generalidades mais ou menos avulsas e não perante uma estratégia consequente. É que para apresentar uma estratégia não são necessários mais do que dois ou três parágrafos, curtos (e estou a ser generoso), seguidos de uma meia dúzia de medidas emblemáticas - ou "planos de acção" - que expliquem como a pôr em prática. Ou será que a intenção é mesmo ninguém leia a tal moção ou apresentar um documento que dê para (quase)tudo?

Vamos lá ver uma coisa: quando se fala em "mais do mesmo" não estamos apenas a falar em manter a mesma política; estamos, também, a falar em manter os mesmos vícios e os mesmos métodos, já que os processos não são estanques. E se falamos em "abrir os partidos à sociedade civil" (seja lá o que isso for - com "primárias", "partidos de eleitores", etc), de certeza não será como moções de 130 páginas, mas com ideias claras e sucintas, que se avançará o que quer que seja nesse sentido. Vale?

quinta-feira, novembro 06, 2014

António Costa: um bom sinal

O PS de António José Seguro deveria, a seu tempo, ter negociado com o actual governo a reforma dos tribunais (novo mapa judiciário); este era um daqueles pontos em que seria indispensável um compromisso e o PS/Seguro poderia desse modo ter feito valer alguns dos seus pontos de vista sobre a matéria (se é que os tinha). Preferiu António José Seguro jogar a cartada populista para obter mais uns votos, prometendo tudo voltaria à "primeira forma" logo fosse governo. Agora, e muito bem, independentemente dos pontos positivos e negativos da actual reforma, António Costa assume a herança, evitando o "faz e desfaz" tão frequente e, eventualmente, também as habituais e inerentes confusões. Da parte de António Costa é um bom princípio, de quem sabe o que é governar, sendo pena que não assuma também o erro que seria baixar o IVA da restauração para 13%. Mas para já estamos perante um bom sinal. Esperemos tenha continuidade.

quinta-feira, outubro 09, 2014

A sondagem Aximage

Notas sobre a sondagem da Aximage:
  1. Independentemente das suas qualidades e da imagem que consegue projectar, o "score" de António Costa deve-se também ao efeito positivo da "novidade", do contraste, mais a mais quando chega a uma liderança reforçada pelas "primárias" e derrotando um inexpressivo Seguro. Tenderá a sofrer algum desgaste e, assim, Costa e o PS terão alguma dificuldade em subir, ou até mesmo em manter até às eleições, o "score" agora conseguido.
  2. Espantam-me os valores obtidos por um "Bloco de Esquerda" em desagregação e a voltar ao radicalismo da extrema-esquerda do PREC. Custa-me a acreditar venha a conseguir, em futuras legislativas, sequer metade da percentagem alcançada nesta sondagem. Disso poderá vir a depender também o futuro resultado do PS, que tem aí um "source of business" a explorar.
  3. Mesmo sabendo da tradicional fidelidade do eleitorado do PCP, do seu "núcleo duro", em que medida os votantes ocasionais do partido (que existem) se deixarão atrair pelo PS de Costa, por Marinho e Pinto ou pelo "Livre"?
  4. É provável que os "efeitos" Costa e "primárias" estejam a influenciar, no curto-prazo, a diminuição da abstenção. Serão esses efeitos sustentáveis? Tenho dúvidas. 
  5. As pré-campanha e campanha - penso - tenderão a favorecer Marinho e Pinto, pelo que a tendência será para fazerem crescer os escassos 1.1% agora alcançados. Onde irá buscar os seus votos? O PS que se cuide.
  6. Em que medida algum aligeiramento da "austeridade", principalmente entre os pensionistas, e uma eventual remodelação governamental, com a saída dos ministros mais impopulares, irão beneficiar PSD e CDS? De notar que apesar do "furacão" Costa, o PSD, mais do que o CDS, consegue resistir sem grandes perdas.
  7. De notar o valor de 52.6% de intenções de voto em António Costa, o  parece indiciar que Costa é bem mais abrangente do que o partido que lidera, o que já tinha sido comprovado nas últimas autárquicas. Algo que ambos, o PS e António Costa, deverão ter em conta ao delinearem a sua estratégia.
Conclusão: Demasiadas dúvidas, ainda, e uma só certeza: António Costa vale bem mais do que o partido e o efeito conjugado "Costa/primárias" mudou radicalmente as intenções de voto no PS em Outubro de 2014, o que, a ser aproveitado, pode vir a criar uma dinâmica de vitória. Mas estamos a falar de Outubro de 2014 e falta quase um ano para as legislativas num cenário de enorme volatilidade política e partidária.