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segunda-feira, maio 25, 2015

O "call center" de Vieira do Minho e o país

Não, não se trata de uma nova fábrica, seja de automóveis, lacticínios ou simples transformação de produtos agrícolas; da reabertura de uma mina há muito abandonada; até de um empreendimento turístico que requalificou o hotelaria da região e valorizou os seus recursos naturais e humanos; em última análise, de uma nova dependência bancária ou de uma seguradora. Não, não se trata de nada disso, mas de um "call center" gerido por uma empresa de trabalho temporário, supostamente criando postos de trabalho igualmente demasiado temporários, pagos a preços de saldo e destinado a emigrantes em países francófonos ou luso-descendentes que queiram regressar, já que é preciso ser fluente em francês. Mais ainda: deve-se tal iniciativa ao investimento de um empresário, grupo de empresários ou de empresas que arriscaram o seu dinheiro ou o da Banca que os financiou? Não, quem investiu cerca de 200 milhões de euros foi a autarquia de Vieira do Minho, a quem a Altice, nova dona da PT e empresa que irá explorar o tal "call center" (é assim, à americana, ou "centre", à inglesa?), pagará uma renda durante cinco anos. É esta a iniciativa empresarial que a TSF nos apresenta como exemplo, em grandes parangonas, e que o ministro Pires de Lima se prepara para ir hoje inaugurar, certamente com alguma pompa e muita circunstância já que estamos em pré-campanha eleitoral.

Mas, perguntarão: melhor do que nada? Sim, melhor do que nada, seria desonesto não o dizer. Mas este é um bom (ou mau) exemplo do que a estratégia da coligação PSD/CDS tem a oferecer ao país: trabalho demasiado precário, desqualificado, não estruturante e que não valoriza os recursos locais e a iniciativa empresarial autónoma. É a Índia, meus senhores, é a Índia. Mas esses, pelo menos, falam inglês, não precisam de importar quem o fale!

terça-feira, outubro 21, 2014

"Cá vamos, cantando e rindo"...

Resultado dos últimos anos de governação (e não estou só a falar deste governo) em áreas importantes do tecido empresarial português: EDP, REN e Fidelidade vendidas ao Estado chinês, TAP um pouco ao "Deus dará" (género, "privatiza agora, afinal  não privatiza") grupo BES falido, PT a implodir e uma boa parte da comunicação social e da energia (Amorim Energia/Galp) nas mãos da cleptocracia angolana. No entretanto, o ministro Álvaro era gozado na imprensa e nas redes sociais por causa dos "pasteis de nata" e o seu sucessor, Pires de Lima, que, vá lá saber-se porquê, até tem "boa imprensa", anda desaparecido em combate ou entretido numas diatribes contra António Costa. Enfim... "cá vamos, cantando e rindo".

quarta-feira, agosto 08, 2012

Portugal: participação olímpica e desenvolvimento económico e social

Portugal participou pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em 1912, em Estocolmo, e ganhou a sua primeira medalha em 1924, em Paris (hipismo). Desde essa sua primeira participação até 1976, nos Jogos de Montreal, todas as medalhas conquistadas o foram naquilo que poderíamos chamar a área dos desportos aristocrático/militares (hipismo, esgrima e vela), que, aliás, tiveram grande importância na génese dos Jogos Olímpicos, numa época em que apenas as elites sociais e económicas tinham condições (tempos livres e dinheiro) para a prática desportiva, para se tornarem verdadeiros "sportsmen". O Portugal da 1ª República e, depois, da ditadura era um país demasiado pobre, onde qualquer disseminação da prática desportiva era impossível, sem uma classe média digna desse nome, em número e poder, e onde as Forças Armadas e a aristocracia fundiária foram sempre, aliás,  dois dos apoios mais incondicionais do regime que governou o país entre 1926 e 1974.

É já depois do 25 de Abril, com uma democratização que abriu finalmente algumas portas a uma massificação da actividade desportiva já timidamente ensaiada nos finais da ditadura, com o crescimento económico dos anos 60, que o estado de coisas começa a mudar; e muda por onde podia mais facilmente fazê-lo num país ainda a caminho do desenvolvimento e do estatuto europeu: pelas corridas de fundo, onde o investimento em infraestruturas e metodologias de treino é reduzido e basta uma estrada e vontade de correr para se conseguir progredir. É a partir da medalha de prata de Carlos Lopes nos 10 000 metros, em Montreal, que começa a época da dominação portuguesa nas provas de fundo do atletismo. E é também após a democratização começada com o 25 de Abril, com o seu espírito igualitário, que as mulheres conquistam as suas primeiras medalhas (Rosa Mota na maratona de Los Angeles).

Vamos ter de esperar por Sydney e por um Portugal já membro de pleno direito da UE, um país já terciarizado, com uma classe média em expansão e integrado no primeiro mundo desenvolvido, para que a distribuição de medalhas atinja desportos mais sofisticados e onde o investimento é maior (judo, triatlo, ciclismo e, agora, canoagem), ou provas de atletismo integradas nas chamadas disciplinas técnicas, muito graças aos portugueses imigrantes africanos de primeira ou segunda geração. No fundo, também um sinónimo de desenvolvimento, pois apenas os países mais desenvolvidos são estruturalmente destino de emigração.

Como se pode ver, percorrer a história da participação olímpica portuguesa é também visitar a evolução do país nos últimos quase 100 anos. O que virá agora e no futuro, quando a política de "empobrecimento" parece ter sido erigida em desígnio nacional?

terça-feira, julho 10, 2012

Pequena nota sobre o relatório do Banco de Portugal

O Banco de Portugal prevê para este ano um recessão de 3%, inferior em 0.4 pp à sua anterior previsão. Ok, digamos que são menos péssimas notícias. Mas o BdeP também afirma - algo que toda a gente sabe - que podem vir a ser necessárias novas medidas de austeridade, necessariamente recessivas, para cumprir as metas do "déficit" acordadas para o ano em curso, o que não terá sido tido em consideração nas suas estimativas. Mais: o anúncio das medidas "alternativas" ao corte nos 13º e 14º meses dos funcionários públicos e pensionistas, em 2013, terá de ser feito ainda este ano, quando da discussão do Orçamento de Estado para o próximo ano, e, embora essas medidas venham a ser apenas implementadas em 2013, tal anúncio não deixará de ter um efeito igualmente recessivo já em 2012, num trimestre essencial para o consumo privado. Conclusão? Enfim, já que no governo parece existir gente com fé, talvez seja mesmo este o momento para encomendarem umas missas.

segunda-feira, julho 02, 2012

Três euros e noventa e seis cêntimos

Sejamos rigorosos ou tentemos sê-lo. O escândalo não é existir oferta de emprego para enfermeiros a €3.96/hora: se as entidades empregadoras os podem contratar a esse preço não há razões para o fazerem com custos mais elevados. Ao colocarmos a questão deste modo, focada essencialmente na "oferta", estamos apenas a penalizar a entidade empregadora, mesmo que esta seja, directa ou indirectamente, o Estado. O escândalo, e vista agora a situação do lado da "procura" estamos a centrar a nossa crítica na actividade governamental, é o país ter chegado a uma situação social e económica em que existem profissionais qualificados que se dispõem a trabalhar por esse preço. Parece-me esta "precisão" faz toda a diferença.

segunda-feira, março 26, 2012

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Da demagogia dos industriais de panificação

Confesso estar demasiado farto do choradinho demagógico dos industriais de panificação sobre a diminuição do consumo de pão. Para além do que aqui escrevi em 2008, de modo mais desenvolvido, a crise actual só poderia ter como consequência, não uma diminuição do consumo de pão, mas um seu aumento, bem como dos bens mais essenciais, já que os portugueses com menores rendimentos tenderiam a fazer o "trade down" de produtos alimentares mais sofisticados. Se o consumo de pão decresce, tal só poderá ficar a dever-se a uma de duas coisas, ou à acção combinada de ambas: apesar da crise, os portugueses, em média, melhoraram a sua dieta alimentar, diversificando-a, e a crise ainda não chegou ao ponto de os obrigar a modificar radicalmente este estado de coisas; uma parte da venda e consumo de pão tem vindo a escapar, de modo crescente, à contabilização da associação do sector, o que pode ter a ver com a diversificação, nos últimos anos, da sua produção e venda. Por exemplo, a crescente importância que as as grandes superfícies e outros locais de produção e venda de pão não integrados, eventualmente, na associação do sector podem estar na base de uma distorção dos números apresentados. 

quinta-feira, janeiro 19, 2012

O Compromisso para o Crescimento, Competitividade e Emprego como instrumento do empobrecimento

Parece-me ser incompatível defender, por um lado, que a política de "empobrecimento" nunca será o caminho para o desenvolvimento do país e sua aproximação ao mundo mais civilizado e, por outro, tecer simultâneamente louvores ao chamado Compromisso Para o Crescimento, Competitividade e Emprego e à sua aprovação pela UGT e confederações patronais. Se o documento contém algumas disposições positivas, mormente na flexibilização e organização do trabalho ("banco de horas"), e outras não excessivamente gravosas para os trabalhadores ou até já praticadas ("pontes" e férias, principalmente), na sua globalidade e naquilo que lhe é essencial, através da redução de salários e prestações sociais, trata-se, fundamentalmente, de um instrumento que tem como fim último pôr em execução essa política de empobrecimento. Aliás, parece-me que, no essencial, e com honrosa excepção das já citadas questões relacionadas com a organização e flexibilização do trabalho, o CCCE se dirige muito mais ao sector mais "atrasado" (digamos assim) do tecido empresarial, fomentando um certo imobilismo, do que se constitui num apoio ao crescimento e dinamização dos sectores mais competitivos da economia, aqueles de onde poderá esperar, de facto, algum crescimento sustentado.

O que acima digo leva-me a colocar duas questões:
  1. Em primeiro lugar, quem, de facto, representam as associações patronais.
  2. Em segundo lugar a constatar a ausência de um verdadeiro sindicalismo reformista e autónomo em Portugal, face a uma CGTP radical, umbilicalmente ligada ao Partido Comunista, e a uma UGT criação artificial dos partido do chamado "arco governamental". Nada de novo, e que se deve à tradicional inexistência histórica na Península Ibérica de um movimento operário de raiz social-democrata e trabalhista (ao contrário do que acontece no norte da Europa) ou democrata-cristão, como durante largo tempo existiu em Itália.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Alguma coerência, sff

Será com certeza muito popular protestar pelo facto da Sociedade Francisco Manuel dos Santos ter transferido uma parte significativa das acções que detinha no grupo Jerónimo Martins para a sua subsidiária na Holanda. Mas o que também me parece é que não se pode passar a vida a apelar - e bem - à competitividade das empresas portuguesas e à sua internacionalização e depois protestar ou acusar de "vende pátrias" os accionistas e empresas que resolvem tomar aquele tipo de decisões, algo que já li no "twitter" vindo de gente responsável. Alguma coerência, precisa-se.

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Sinal dos tempos...

Quando, nos dias seguintes à tomada de decisão sobre a privatização da EDP, resolvi trocar umas impressões sobre o assunto com pessoas da geração a seguir à minha (agora nos trinta e tais) e que se interessam por este tipo de assuntos, amigos e familiares com formação e actividade nos negócios e gestão, o racional que me era apresentado incluía, invariavelmente, apenas argumentos de natureza económica e financeira, estando ausente qualquer pensamento político, mesmo que pouco estruturado, sobre o assunto. Não deixei, claro, de estabelecer o contraste com a minha própria geração, onde as questões de ordem política, mesmo em gente com formação na mesma área, teriam assumido, certamente, um carácter bem mais vincado. Mau sinal dos tempos, e de uma geração que nasceu e cresceu de costas voltadas para a política. Culpa da minha geração, provavelmente, mas cumpre-me pensar que "não há mal que sempre dure"...

segunda-feira, novembro 21, 2011

À atenção dos adeptos da redução salarial

Não é apenas uma efectiva diminuição dos salários que é recessiva. O simples facto de quem trabalha por conta de outrem, quer no Estado quer no sector privado, saber que em qualquer altura o seu salário pode ser reduzido, ou ter grandes probabilidades de ser obrigado ao desemprego com redução significativa dos seus rendimentos, contém em si mesmo, principalmente em economias em que o crédito tem uma função relevante, enorme potencial recessivo, fomentando a poupança e penalizando demasiado o consumo. Portanto, não é apenas por pressão dos sindicatos ou razões de ordem e coesão sociais que a diminuição de salários não é habitual, ou até nem é constitucionalmente permitida, e o desemprego obriga a indemnizações e à atribuição de um subsídio nos países mais desenvolvidos e com economias mais sofisticadas. Tal releva também, e muito, da necessidade de manter essas economias a funcionar.

quarta-feira, outubro 26, 2011

Equidade? Talvez seja melhor avaliar os interesses...

Ora vamos lá ver... Analisando as coisas friamente e com rigor, substituir, total ou parcialmente, o corte de salários na Função Pública (através do não pagamento dos 13º e 14º mês) por um imposto que abarcasse sectores público e privado (a tal equidade...) seria algo que interessaria apenas... aos funcionários públicos, eles mesmos, que assim veriam o seu esforço aligeirado.
  1. Não interessaria demasiado a este governo, que tem como objectivo principal diminuir os custos dos serviços prestados aos cidadãos e o peso da despesa pública no PIB.
  2. Não interessaria ao sector privado em geral: aos trabalhadores, que assim veriam o seu rendimento disponível "encolher"; aos empresários, que não só não veriam diminuir os seus custos de produção (continuavam a pagar salários idênticos) como arriscavam, principalmente os que vendem os seus produtos no mercado interno, a enfrentarem ainda um maior retraimento da procura.
O que interessa mesmo a alguns empresários de alguns sectores, e já ouvimos por aí uns "zunzuns" da parte de alguns economistas e representantes patronais, é aproveitar a embalagem do corte dos 13º e 14º meses no sector público e negociar uma redução de salários nas empresas (ou em algumas empresas), o que permitiria, isso sim, reduzir custos. Mas, claro, isto também não interessará demasiado ao Estado, pois iria cobrar menos IRS. Conclusão: irá ficar tudo como está e o funcionalismo público fará de mexilhão: "lixa-se"!

Nota: no meio de todo este panorama nada animador, houve pelo menos espaço para uma boa ideia: António Saraiva, da CIP, propôs transformar a "1/2 hora de trabalho diário para a nação" num banco de horas a gerir (se entendi bem) em concertação entre empregadores e empregados. Se assim fôr, sempre prevalecerá algum bom-senso e a medida, permitindo alguma flexibilização na utilização do factor trabalho, poderá vir a ter, aqui e ali, alguma utilidade.

terça-feira, outubro 18, 2011

Os "subsídios" de férias e Natal

  1. Contrariamente ao que afirma, um trabalhador assalariado não trabalha 11 meses e recebe 14. Trabalha 335 dias (menos dias feriados, fins de semana e eventuais "pontes") e recebe 365 dias divididos por 14 meses. Mais ainda, adianta 30 dias de trabalho à sua entidade empregadora, pois só recebe ao fim de um mês de trabalho. Na prática, os chamados subsídios de férias e Natal não existem: fazem parte do salário anual de um trabalhador assalariado que, por questões históricas, o recebe dividido em 14 prestações (durante muito tempo, no UK recebiam à semana, por exemplo). Ao contrário do que é habitual, neste caso estou em desacordo consigo.
  2. Outra coisa bem diferente é esse salário anual passar a ser pago em 12 prestações, eliminando assim que se sobrecarregue a tesouraria das entidades empregadores no período de férias e no Natal e, ainda, passando os trabalhadores a receber logo a partir do final de Janeiro a prestação correspondente aos actuais 13º e 14º meses. Se é isso que propõe no seu "post", tal tem desde já a minha concordância (e penso a terá também de sindicatos e associações patronais), e já algures neste "blog" o defendi.
De um "blogger" que o lê sempre com interesse e habitualmente até consigo concorda.
JC