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quarta-feira, agosto 08, 2012

Portugal: participação olímpica e desenvolvimento económico e social

Portugal participou pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em 1912, em Estocolmo, e ganhou a sua primeira medalha em 1924, em Paris (hipismo). Desde essa sua primeira participação até 1976, nos Jogos de Montreal, todas as medalhas conquistadas o foram naquilo que poderíamos chamar a área dos desportos aristocrático/militares (hipismo, esgrima e vela), que, aliás, tiveram grande importância na génese dos Jogos Olímpicos, numa época em que apenas as elites sociais e económicas tinham condições (tempos livres e dinheiro) para a prática desportiva, para se tornarem verdadeiros "sportsmen". O Portugal da 1ª República e, depois, da ditadura era um país demasiado pobre, onde qualquer disseminação da prática desportiva era impossível, sem uma classe média digna desse nome, em número e poder, e onde as Forças Armadas e a aristocracia fundiária foram sempre, aliás,  dois dos apoios mais incondicionais do regime que governou o país entre 1926 e 1974.

É já depois do 25 de Abril, com uma democratização que abriu finalmente algumas portas a uma massificação da actividade desportiva já timidamente ensaiada nos finais da ditadura, com o crescimento económico dos anos 60, que o estado de coisas começa a mudar; e muda por onde podia mais facilmente fazê-lo num país ainda a caminho do desenvolvimento e do estatuto europeu: pelas corridas de fundo, onde o investimento em infraestruturas e metodologias de treino é reduzido e basta uma estrada e vontade de correr para se conseguir progredir. É a partir da medalha de prata de Carlos Lopes nos 10 000 metros, em Montreal, que começa a época da dominação portuguesa nas provas de fundo do atletismo. E é também após a democratização começada com o 25 de Abril, com o seu espírito igualitário, que as mulheres conquistam as suas primeiras medalhas (Rosa Mota na maratona de Los Angeles).

Vamos ter de esperar por Sydney e por um Portugal já membro de pleno direito da UE, um país já terciarizado, com uma classe média em expansão e integrado no primeiro mundo desenvolvido, para que a distribuição de medalhas atinja desportos mais sofisticados e onde o investimento é maior (judo, triatlo, ciclismo e, agora, canoagem), ou provas de atletismo integradas nas chamadas disciplinas técnicas, muito graças aos portugueses imigrantes africanos de primeira ou segunda geração. No fundo, também um sinónimo de desenvolvimento, pois apenas os países mais desenvolvidos são estruturalmente destino de emigração.

Como se pode ver, percorrer a história da participação olímpica portuguesa é também visitar a evolução do país nos últimos quase 100 anos. O que virá agora e no futuro, quando a política de "empobrecimento" parece ter sido erigida em desígnio nacional?

segunda-feira, agosto 15, 2011

Televisão e família: o que sugere uma foto


Fotografia bem representativa (retirei-a do "Abrupto" de JPP) da família e da função da televisão nos seus primórdios, nos anos 50 do século XX.
  1. Em primeiro lugar, a televisão ainda é um equipamento colectivo, que junta toda a família a sua volta, contribuindo assim para a coesão da família enquanto "célula base" da organização social (era assim que se dizia). Hoje, como sabemos, tornou-se um bem pessoal, existindo duas, três ou quatro por cada casa, e só em ocasiões muito excepcionais (os jogos de futebol da selecção nacional, por exemplo) é capaz de voltar a reunir a família à sua volta.
  2. O homem, o chefe de família, é o único que, na fotografia, assume uma atitude activa, sintonizando o televisor e escolhendo o programa que toda a família irá ver.
  3. A "hierarquia" continua presente na mãe, que tem direito a estar sentada no sofá e lê o jornal, enquanto os mais novos, presume-se que filhos, se sentam no chão e uma delas segura uma garrafa de refrigerante, símbolo dos consumos emergentes.
Tudo isto nos faz entender como a individualização dos consumos agiu também sobre a família, pôs em causa a dominância do seu modelo tradicional e a sua homogeneidade de comportamentos. Hoje, cada um, ou cada subgrupo dentro do grupo que constitui a família, tem a sua própria televisão e escolhe os programas que quer ver. Cada um tem o seu computador pessoal onde selecciona a informação que pretende. O próprio telefone familiar deixou de existir com o aparecimento e democratização do telemóvel, correio electrónico, Facebook, Skype, etc. Muitas vezes, pelo menos nas famílias da classe média-alta, é já o conceito de "automóvel familiar" que começa a desaparecer. Enfim, a fotografia é bem demonstrativa de como a "revolução electrónica" e a democratização dos que eram, até há bem pouco tempo, considerados equipamentos colectivos facilita o primado do individual, tende a fragilizar alguns dos momentos que funcionavam como afirmação da hierarquia familiar tradicional e obriga esta a procurar novas formas de coesão no seu interior. Porventura, bem mais saudáveis...

sexta-feira, março 21, 2008

Indisciplina na escola e comportamentos sociais

Tentação fácil responsabilizar a política “facilitista” do Ministério da Educação, nos últimos decénios, pelo clima de indisciplina e violência nas escolas. Tentação fácil responsabilizar os professores e a sua má ou inexistente preparação pela incapacidade de lidar com ela. Tentação também fácil apelar ao regresso impossível de uma disciplina “pura e dura”, do “antigamente é que era”, como solução para o problema. Significa isto que o Ministério e a dita política “facilitista”, os professores e a sua incompetência fruto de uma preparação inexistente, não terão a sua quota parte de responsabilidade neste estado de coisas? Claro que têm. Significa isto que regras mais rígidas de disciplina (por exemplo, deixar o telemóvel identificado em local apropriado à entrada de cada aula) não serão indispensáveis e bem vindas? Claro que sim. Mas a questão é um pouco mais funda e assim deve ser analisada.

Quando eu andava no Liceu os liceus eram frequentados por uma elite (a não-elite ficava na 4ª classe ou ia para a Escola Técnica) e os professores constituíam, eles próprios, uma outra elite respeitada enquanto tal. Era por isso relativamente fácil manter alguma disciplina nas escolas, já que ela era, em certa medida e variando de família para família, um prolongamento como que natural dos valores de ordem e disciplina, de “respeito”, vigentes na sociedade, mesmo para quem nasceu, cresceu e viveu numa família relativamente liberal, como foi o meu caso. Para além das saudáveis manifestações de irreverência e rebeldia, tanto no Liceu como em casa, era absolutamente natural os alunos levantarem-se quando entrava o professor, porque também em casa, na maioria das famílias, nos levantávamos quando chegava ou cumprimentávamos alguém mais velho. Era também natural ir de gravata para o liceu (em alguns liceus isso era obrigatório), pois esse era o dress code habitual fora do período de brincadeira, quer fosse para ir “à baixa”, ter com o pai ao escritório ou até ao cinema. Não era nada forçado pedir ao professor licença para entrar na sala de aula, se também pedíamos aos mais velhos para nos levantarmos da mesa no final do jantar. Para os professores a questão era igualmente fácil de gerir, pois também eles provinham da mesma elite que formava o grupo de alunos e, enquanto tal, eram respeitados de acordo com os valores vigentes na época. A ditadura “ajudava”, claro, mas, com ou sem ela, estes eram os padrões de comportamento, que só começaram a alterar-se, lenta e conroladamente, na segunda metade dos anos sessenta. A Escola, o Liceu, não estava, como não poderia nunca estar, desfasada daquilo que era a sociedade de então, pelo menos da sociedade que a frequentava e constituía.

A democratização da Escola, ajudada pela democratização e massificação da sociedade (o fim da sociedade de classes, estanque como a conhecíamos) alterou todo este estado de coisas, do lado dos alunos e do lado dos professores. Mesmo sem a desautorização destes e o “facilitismo” das políticas do Ministério (que são e foram reais), como explicar e fazer aceitar por um aluno, sem que este se sinta demasiado violentado nos seus valores e direitos, sem que este considere a sua imposição como uma arbitrariedade, determinadas regras de conduta que ele nunca seguiu na sua vida fora da escola e que lhe são completamente estranhas, e até anómalas, no seu dia a dia na família e no “bairro”? Como explicar-lhe que não deve usar boné ou capuz na sala de aula se isso é comum na sua casa e no seu ambiente familiar? Como explicar que não pode usar o seu telemóvel na mesma sala de aula se, provavelmente, o faz permanentemente durante as refeições em família – se é que, eventualmente, algo de semelhante existe na sua em casa – ou se fecha no quarto horas a fio a enviar SMS’s ou numa sala de chat? Como incutir-lhe códigos de linguagem que não são habitualmente os seus, deles diferindo dramaticamente? Mais ainda, como conseguir tudo isto através de professores que, também eles, se proletarizaram e para os quais muitos destes valores, se não estranhos, são, pelo menos, práticas pouco comuns e habituais na sua vida fora da escola, nas suas famílias? Para quê maçarem-se muito se, muitos deles, já escolheram o ensino porque assumiram, à partida, a sua incapacidade ou desinteresse perante a competitividade a que seriam obrigados numa outra profissão, no “mundo exterior”? Mais uma vez, a Escola não pode constituir - porque não só “não pode” como isso não é possível de acontecer - algo de exterior à sociedade que a compõe e onde se insere, onde vivem os seus agentes, alunos, professores e funcionários.

Significa isto “atirar a toalha” e capitular perante este estado de coisas? Claro que não, e é absolutamente necessário, de imediato, definir e fazer cumprir um plano de crise que inclua algumas regras básicas de comportamento, até porque, para além da questão do aproveitamento escolar, isso é indispensável ao papel da Escola como instituição integradora na sociedade. Mas a sua resolução global e de fundo parece-me ser bem mais complicada do que o simples regresso à “boa ordem” do antigamente, por muitos demagogicamente agitada como panaceia para todos os males do mundo.

terça-feira, março 11, 2008

O impossível regresso das ideologias

Volta e meia escuto e leio, por aí, apelos ao regresso da ideologia, como se de um retorno purificador às origens se tratasse depois do mergulho no pântano do “centrão”, num magma viscoso e sujo que se nos cola e que se opõe ao “puro e cristalino” do passado. Ignorância pura e simples daqueles que o “propõem”.

A actual tendência para um centro de ideologia difusa não nasceu do nada, muito menos do espírito oportunista de uns tantos políticos “construídos” pela comunicação e pelo marketing político, e, como tal, não se altera por qualquer via semelhante. Os tradicionais partidos “ideológicos” (partindo do errado princípio que os actuais o não são – mas isso é outra conversa), de “classe”, nasceram da sociedade dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX, correspondendo, tal como a ideologia que veiculavam, às principais classes sociais de então: comunistas, socialistas e sociais-democratas como partidos operários, propondo, em maior ou menor grau, a nacionalização das principais empresas industriais e da Banca a elas “associadas” - pondo assim fim à relação assalariada, democracia-cristã e conservadores como representantes de agricultores e empresários para quem a noção de propriedade tinha uma importância decisiva e pequenos partidos liberais e radicais, ao centro, correspondendo basicamente aos interesses de uma pequena e média burguesia urbana, de profissões liberais e dos serviços. Este era, a traços largos, o retrato das sociedades das primeira e segunda vagas industriais, das grandes concentrações fabris de que em Portugal são exemplo o Barreiro e a Marinha Grande, mas onde a agricultura tinha ainda uma importância significativa.

Se algo marca indelevelmente a nossa sociedade pós-moderna isso é, sem dúvida, a terciarização, o domínio da sociedade urbana, dos serviços, influência que se estende também às novas formas de funcionamento e organização industriais, também elas se “terciarizando”, o que, por sua vez, se vai reflectir decisivamente nas ideologias e, logo, nas organizações partidárias. Nos países desenvolvidos, os “excluídos”, os “explorados” já não são maioritariamente os operários, os antigos “proletários”, nem a sua relação com o trabalho terá as mesmas características de “alienação” do passado. A sociedade rural, pelo menos tal como a conhecíamos, da pequena e média agricultura familiar, também desapareceu. A terciarização gerou a massificação. É este o retrato e, com possíveis excepções em países onde questões políticas de outra ordem possam gerar tensões importantes, como em Espanha com a questão das nacionalidades, a convergência ao centro é apenas uma sua consequência. É também esta nova estrutura social a responsável pela mudança na base social de apoio do PCP - do operariado para o funcionalismo - ou pela emergência de novas organizações partidárias como o Bloco de Esquerda, representante de novas expressões sociais e culturais de uma juventude urbana e suburbana.

Claro que, por vezes, nem tudo se passa assim de forma tão linear, pois sabemos que o domínio das ideias subsiste muito para além da mudança das estruturas e formas de organização da sociedade. Daí algum incómodo e alguma crise de representação; daí algumas tentativas de lançamento de novas organizações partidárias ou de “cidadãos”, fundamentalmente à esquerda, com uma ideologia que apela ao passado; daí a emergência, aqui e ali, de alguns populismos, tentativa de representação dos novos “excluídos” e “alienados” ou sentindo-se como tal.

Mas nada de ilusões: o passado não volta por obra de uma qualquer atitude voluntarista, de um grupo ou de um iluminado. Podem apenas acontecer, aqui e ali, fogos fátuos, mesmo que, alguns, ainda cheguem para fazer sonhar.