Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
quinta-feira, outubro 30, 2008
"Rankings" e "chumbos"
sexta-feira, março 21, 2008
Indisciplina na escola e comportamentos sociais
Tentação fácil responsabilizar a política “facilitista” do Ministério da Educação, nos últimos decénios, pelo clima de indisciplina e violência nas escolas. Tentação fácil responsabilizar os professores e a sua má ou inexistente preparação pela incapacidade de lidar com ela. Tentação também fácil apelar ao regresso impossível de uma disciplina “pura e dura”, do “antigamente é que era”, como solução para o problema. Significa isto que o Ministério e a dita política “facilitista”, os professores e a sua incompetência fruto de uma preparação inexistente, não terão a sua quota parte de responsabilidade neste estado de coisas? Claro que têm. Significa isto que regras mais rígidas de disciplina (por exemplo, deixar o telemóvel identificado em local apropriado à entrada de cada aula) não serão indispensáveis e bem vindas? Claro que sim. Mas a questão é um pouco mais funda e assim deve ser analisada.
Quando eu andava no Liceu os liceus eram frequentados por uma elite (a não-elite ficava na 4ª classe ou ia para a Escola Técnica) e os professores constituíam, eles próprios, uma outra elite respeitada enquanto tal. Era por isso relativamente fácil manter alguma disciplina nas escolas, já que ela era, em certa medida e variando de família para família, um prolongamento como que natural dos valores de ordem e disciplina, de “respeito”, vigentes na sociedade, mesmo para quem nasceu, cresceu e viveu numa família relativamente liberal, como foi o meu caso. Para além das saudáveis manifestações de irreverência e rebeldia, tanto no Liceu como em casa, era absolutamente natural os alunos levantarem-se quando entrava o professor, porque também em casa, na maioria das famílias, nos levantávamos quando chegava ou cumprimentávamos alguém mais velho. Era também natural ir de gravata para o liceu (em alguns liceus isso era obrigatório), pois esse era o dress code habitual fora do período de brincadeira, quer fosse para ir “à baixa”, ter com o pai ao escritório ou até ao cinema. Não era nada forçado pedir ao professor licença para entrar na sala de aula, se também pedíamos aos mais velhos para nos levantarmos da mesa no final do jantar. Para os professores a questão era igualmente fácil de gerir, pois também eles provinham da mesma elite que formava o grupo de alunos e, enquanto tal, eram respeitados de acordo com os valores vigentes na época. A ditadura “ajudava”, claro, mas, com ou sem ela, estes eram os padrões de comportamento, que só começaram a alterar-se, lenta e conroladamente, na segunda metade dos anos sessenta. A Escola, o Liceu, não estava, como não poderia nunca estar, desfasada daquilo que era a sociedade de então, pelo menos da sociedade que a frequentava e constituía.
A democratização da Escola, ajudada pela democratização e massificação da sociedade (o fim da sociedade de classes, estanque como a conhecíamos) alterou todo este estado de coisas, do lado dos alunos e do lado dos professores. Mesmo sem a desautorização destes e o “facilitismo” das políticas do Ministério (que são e foram reais), como explicar e fazer aceitar por um aluno, sem que este se sinta demasiado violentado nos seus valores e direitos, sem que este considere a sua imposição como uma arbitrariedade, determinadas regras de conduta que ele nunca seguiu na sua vida fora da escola e que lhe são completamente estranhas, e até anómalas, no seu dia a dia na família e no “bairro”? Como explicar-lhe que não deve usar boné ou capuz na sala de aula se isso é comum na sua casa e no seu ambiente familiar? Como explicar que não pode usar o seu telemóvel na mesma sala de aula se, provavelmente, o faz permanentemente durante as refeições em família – se é que, eventualmente, algo de semelhante existe na sua em casa – ou se fecha no quarto horas a fio a enviar SMS’s ou numa sala de chat? Como incutir-lhe códigos de linguagem que não são habitualmente os seus, deles diferindo dramaticamente? Mais ainda, como conseguir tudo isto através de professores que, também eles, se proletarizaram e para os quais muitos destes valores, se não estranhos, são, pelo menos, práticas pouco comuns e habituais na sua vida fora da escola, nas suas famílias? Para quê maçarem-se muito se, muitos deles, já escolheram o ensino porque assumiram, à partida, a sua incapacidade ou desinteresse perante a competitividade a que seriam obrigados numa outra profissão, no “mundo exterior”? Mais uma vez, a Escola não pode constituir - porque não só “não pode” como isso não é possível de acontecer - algo de exterior à sociedade que a compõe e onde se insere, onde vivem os seus agentes, alunos, professores e funcionários.
Significa isto “atirar a toalha” e capitular perante este estado de coisas? Claro que não, e é absolutamente necessário, de imediato, definir e fazer cumprir um plano de crise que inclua algumas regras básicas de comportamento, até porque, para além da questão do aproveitamento escolar, isso é indispensável ao papel da Escola como instituição integradora na sociedade. Mas a sua resolução global e de fundo parece-me ser bem mais complicada do que o simples regresso à “boa ordem” do antigamente, por muitos demagogicamente agitada como panaceia para todos os males do mundo.
sexta-feira, novembro 02, 2007
Classes sociais e escolha da escola
O panorama, no que diz respeito à decisão sobre a frequência de uma escola, não se terá alterado assim tão radicalmente, apenas com a diferença de que a escolaridade obrigatória é agora de nove anos, o que “estende” até ao 9º ano a equação dantes enfrentada e resolvida para apenas quatro anos. Por exemplo, os meus filhos frequentaram colégios privados até ao 9º ano e, de seguida, completaram o secundário e a universidade em escolas públicas, num caso (UCP - Lisboa), digamos, semi-pública.
Reduzir a decisão de “escolha” da escola apenas à questão da “qualidade” do ensino de per si – como se essa qualidade constituísse uma entidade teórica isolável de todos os outros parâmetros -, expressa através da respectiva posição nos rankings (atenção: não sou contra a sua existência), sem ter em conta todas as outras questões em que uma decisão desse tipo normalmente se baseia, a maioria delas de carácter "social", é portanto uma falácia, tanto quanto o será pensar que uma escola pública onde a qualidade de ensino assim considerada seja excelente, independentemente de onde se localize ou quem maioritariamente a frequente, verá a si acorrerem milhares de alunos, oriundos das classes altas, ansiosos por tal experiência.
Os "rankings", o "estatuto do aluno" e o "cheque-ensino"
sexta-feira, outubro 26, 2007
"Opus Dei" e "ranking" das escolas
Funciona? Parece que sim, mas dentro das premissas indicadas, tudo dependendo do que se entende por educação e de quais os seus objectivos, já que esta não é politica nem socialmente neutra. Mas sejamos claros: quando a esquerda e a República colocaram a educação como prioridade fizeram-no apenas com objectivos filantrópicos e altruístas ou também tendo como objectivo a reprodução dos seus quadros e o crescimento da sua base eleitoral, ou seja, a sua perpetuação no poder?