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segunda-feira, maio 25, 2015

O "call center" de Vieira do Minho e o país

Não, não se trata de uma nova fábrica, seja de automóveis, lacticínios ou simples transformação de produtos agrícolas; da reabertura de uma mina há muito abandonada; até de um empreendimento turístico que requalificou o hotelaria da região e valorizou os seus recursos naturais e humanos; em última análise, de uma nova dependência bancária ou de uma seguradora. Não, não se trata de nada disso, mas de um "call center" gerido por uma empresa de trabalho temporário, supostamente criando postos de trabalho igualmente demasiado temporários, pagos a preços de saldo e destinado a emigrantes em países francófonos ou luso-descendentes que queiram regressar, já que é preciso ser fluente em francês. Mais ainda: deve-se tal iniciativa ao investimento de um empresário, grupo de empresários ou de empresas que arriscaram o seu dinheiro ou o da Banca que os financiou? Não, quem investiu cerca de 200 milhões de euros foi a autarquia de Vieira do Minho, a quem a Altice, nova dona da PT e empresa que irá explorar o tal "call center" (é assim, à americana, ou "centre", à inglesa?), pagará uma renda durante cinco anos. É esta a iniciativa empresarial que a TSF nos apresenta como exemplo, em grandes parangonas, e que o ministro Pires de Lima se prepara para ir hoje inaugurar, certamente com alguma pompa e muita circunstância já que estamos em pré-campanha eleitoral.

Mas, perguntarão: melhor do que nada? Sim, melhor do que nada, seria desonesto não o dizer. Mas este é um bom (ou mau) exemplo do que a estratégia da coligação PSD/CDS tem a oferecer ao país: trabalho demasiado precário, desqualificado, não estruturante e que não valoriza os recursos locais e a iniciativa empresarial autónoma. É a Índia, meus senhores, é a Índia. Mas esses, pelo menos, falam inglês, não precisam de importar quem o fale!

sexta-feira, janeiro 16, 2015

Pires de Lima e Álvaro Santos Pereira

Juro não tenho qualquer procuração para defender o ex-ministro Álvaro Santos Pereira, nem sequer o conhecendo pessoalmente ou, muito menos, tendo com ele qualquer ligação. Acrescento que nem sequer achei a sua acção à frente do Ministério da Economia especialmente competente, ou incompetente. Santos Pereira limitou-se a "pôr-se a jeito" com aquelas histórias do "Álvaro" e dos "pastéis de nata" e como teve o azar de ficar responsável pelo Ministério em tempo de vacas esqueléticas, não tinha experiência ou peso políticos que se visse e vinha "de fora", foi trucidado por um jornalismo cobarde sempre pronto a fazer "pushing ball" dos mais fracos. Como conclusão, e isto apesar do disparatado livro de "memórias" que escreveu sobre os seus tempos de ministro, muito dificilmente alguém, nas circunstâncias, teria tido hipótese de fazer muito melhor. "Álvaro", um accadémico vindo de uma outra cultura e talvez não sendo demasiado esperto ou inteligente, expôs-se, e isso foi-lhe fatal.

Vem isto a propósito da autêntica "barracada" do ministro Pires de Lima sobre o acordo com os sindicatos da TAP e que levou ontem à incredulidade o seu companheiro de partido Lobo Xavier ("Quadratura do Círculo") e hoje a um categórico desmentido do primeiro-ministro em pleno parlamento. É que, convenhamos, não estamos aqui perante uma "boutade" (essa já Pires de Lima tinha ensaiado com as "taxas e taxinhas" e não se saiu demasiado bem), um pequeno lapso ditado pela inexperiência política, uma afirmação sem ou com irrelevantes consequências; estamos perante um acto político importante que, surpreendentemente, revela uma total falta de tacto político e de bom senso e um desconhecimento completo da legislação do trabalho inadmissível num ministro da Economia. Mas, ao contrário de Santos Pereira ("o Álvaro"), Pires de Lima, talvez por via da imagem de competência construída ao longo da sua carreira de gestor e da sua importância como putativo número dois do CDS, talvez também por, com a sua experiência e origem social, ter aprendido a "resguardar-se, sabe-se lá se também por compromissos e cumplicidades com os "media" que soube construir e gerir durante anos, tem aquilo que se chama de boa imprensa. E, convenhamos, é isto que faz toda a diferença.

domingo, novembro 09, 2014

Do circunspecto ministro Pires de Lima

Não sou dos que acham a Assembleia da República deva ser um conjunto de meninos de coro, aprumados, bem afinadinhos, angelicais, onde o recurso a alguma palavra ou expressão tida como mais ousada possa ser motivo de escândalo. Aliás, qualquer país com cultura democrática a tradição parlamentar é exactamente o contrário de tal coisa, não sendo raro o recurso aos radicalismo e violência discursivas, às expressões irónicas e jocosas, aos risos e pateadas e aos apartes com maior ou menor sentido de humor. Apesar de tudo, vamos já longe das "bengaladas" e das polémicas que se arriscavam a acabar num qualquer descampado no dia seguinte pela alvorada. Quem não tem capacidade ou poder de encaixe para tal, melhor será que se dedique a outras áreas da política ou a "caçar gambozinos". 

Exactamente por isso, e sendo dos que consideram grave falta desrespeitar o parlamento (por exemplo, mentindo, como manifestamente o fez a actual ministra das Finanças, ou prestando falsas declarações) não sou dos que pensam o ministro Pires de Lima, pese embora o inequívoco mau gosto revelado na forma escolhida para se expressar e que nada tem a ver com a sua habitual imagem de pessoa circunspecta, faltou ao respeito à Assembleia da República com aquela sua cena das "taxas e taxinhas". Terá, isso sim, contribuído para criar uma pior imagem de si próprio, alguém que me parece nada acrescentou no cargo ao tão vilipendiado ministro Álvaro mas que, ao contrário do seu antecessor, tem beneficiado daquilo a que se convencionou chamar "boa imprensa". Digamos que Pires de Lima, um membro do governo que, como disse - e beneficiando dos favores mediáticos - tem sabido resguardar-se, escolheu mal o "mood & tone" da sua intervenção e, muito justamente, está e virá a pagar o preço justo por essa sua escolha. Tanto pior para si e para o governo de que faz parte.