terça-feira, março 25, 2008

As pulsões autoritárias ("there's something in the air")

Já não é só um rumor surdo, mas um clamor em crescendo (there's something in the air), aquele que se começa a ouvir em defesa de soluções musculadas, do retorno a uma velha ordem autoritária num mundo que se fez novo. E o que é curioso é que esse rumor, agora clamor, não parte do governo, tantas vezes acusado de autoritarismo e arrogância, do “quero, posso e mando”, mas de instituições do Estado ou até da chamada sociedade civil - que se “enxofra” por um simples polícia idiota ter visitado um sindicato mas que é capaz de apoiar posições “trauliteiras” quando se imagina ameaçada - apoiadas na demagogia populista de alguns e nas pulsões securitárias de outros, explorando, até à medula e por via mediática, a predisposição de um povo que, tendo passado da ruralidade ao estado urbano em apenas uma geração – ou pouco mais –, vê na cidade e na sua vivência, por vezes pouco acolhedora e, necessariamente, sem um polícia em cada esquina, um espaço anónimo que a violenta e oprime. Já não são só a OSCOT e o general Garcia Leandro, com as suas declarações quase decalcadas do Carmona da “Sala do Risco”, os sindicatos da polícia e da GNR apelando ao reforço de meios e lançando anátemas sobre os juizes que “libertam os criminosos” que eles tão valentemente prendem (às vezes matam...), os comentadores ex-estalinistas, ex-maoistas e ex-marxistas-leninistas, com laivos de Enver Hoxhismo, de súbito convertidos ao ultra-liberalismo militante na economia mas menos liberal... nas liberdades, sem esquecer o divertido João Gonçalves do “Portugal dos Pequeninos que, esse, pelo menos nos diverte a sério. Já não nos bastava o eco que tudo isso produz nos fóruns de opinião pública das diversas rádios e televisões, não. Agora, a propósito da cena do Carolina Michaelis, temos também o Sr. Procurador - Geral Pinto Monteiro, incapaz de resistir a um microfone no exacto momento em que devia estar calado (e devia-o estar quase sempre, pois é isso que se pede a quem exerce essas funções) para que o assentar do ruído e da demagogia permitissem encarar com bom senso as soluções que urgem, a prestar declarações, apelando à autoridade, sobre um assunto que, por ser do estrito foro educativo e não se podendo tipificar como criminalidade, a ele não lhe diria para já respeito. Sendo assim, que nos falta? Nada, excepto todos aqueles que prezam a liberdade, a democracia e a modernidade louvarem o momento de inspiração que tocou os que que decidiram a União Europeia deveria ser o nosso caminho. É isso que estou agora aqui a fazer. Nunca será demais.

5 comentários:

NP disse...

Só haverá liberdade, democracia e modernidade com ordem, respeito pelas regras sociais e mais "ética da responsabilidade"... até por parte dos alunos de uma qualquer EB 2,3 deste país... onde já acontecem, às centenas, cenas semelhantes às que se passaram na Escola Secundária Carolina Michaelis. :)

O sr. Pinto Monteiro tem recebido inúmeras descrições desses "belos momentos"... daí a sua enorme preocupação. :)

Nota breve: até já nas EB's 1 há cenas de violência.

JC disse...

Claro que sim NP, sem dúvida. Tem toda a razão: direitos e deveres. Mas assim como não se pode subvalorizar a questão, como muitos, dentro e fora do ME, o têm feito e fazem, também é contraproducente sobrevalorizá-la até ao ponto de ser objecto de declarações por parte do PGR, cujas preocupações deveriam ser bem outras e que, mais do que ninguém, deveria manter a cabeça fria quando a maioria a tem bem quente.Se tem acompanhado o que escrevi, considero bem grave o que se passou no Carolina Michaelis e deve ser objecto de medidas rápidas. Mas daí até ser algo de natureza criminal grave que deva envolver o PGR... Acho que se está a perder a justa medida das coisas.
JC

NP disse...

O Procurador já se explicou, ele melhor do que eu o poderia fazer. A base da explicação tem a ver com o facto de aquela agressão se ter tornado pública... e de ser, na prática, um crime público (com ou sem aspas).

Sabe qual o problema? É que nós não podemos ficar à espera que um aluno tresloucado pegue numa arma e mate um professor e uns tantos colegas, como tem acontecido com alguma regularidade nos EUA, por exemplo. Se calhar é isso que o PGR gostaria de evitar... e ele deve achar que já se esteve mais longe disso.

Há dias vi no Youtube um pequeno clip onde se via um carro a arder, à porta de uma escola. Se calhar o PGR também o viu... e esse deve ser um dos muitos casos de agressões que ele tem em cima da sua mesa de trabalho. :)

Cumprimentos

JC disse...

Meu caro:
Não existe, no caso Carolina Michaëlis, uma situação de agressão tipificada, mas um acto mtº grave de indisciplina, o que faz toda a diferença. Misturar as coisas (carros a arder, violência, etc) não ajuda nada á resolução do problema. Nem propostas do tipo "guerra preventiva".
Claro que, no caso de agressões na escola, devem ser tratadas como qualquer situação idêntica fora dela, para além das punições puramente escolares. Mas não foi esse o caso do Carolina Michaëlis.
Já agora, "crime público" ou o crime ter-se tornado público não são a mesma coisa. Não sou jurista, mas sem grandes preocupações de rigor (linguagem jurídica, como dizia um velho professor de Direito Civil na minha faculdade de Economia), crime público é aquele que não depende da apresentação de queixa.

NP disse...

Ainda há pouco ouvi o PGR dizer que o que tem dito... já o faz há 1 ano... e que o caso do video apenas veio "provar" o que ele dizia. Ou seja: o PGR apenas usou o mediatismo do caso para reafirmar o que já vinha dizendo.

Não discuto os termos jurídicos... e daí ter falado nas aspas. :)

O caso do Carolina Michaëlis não deve ser visto como "o" caso que preocupa o PGR... mas sim como "o mote" para uma discussão que era urgente acontecer. E nisso foi importante a sua intervenção... como serão importantes outros contributos, venham eles de Daniel Sampaio, do Eduardo Sá, do JC ou do NP ou do chefe da polícia da nossa cidade. :)

Cumprimentos