Domingo, Outubro 18, 2009

Os 100 anos do Liceu Camões e o reitor Joaquim Sérvulo Correia

Fui, embora episodicamente, aluno do Liceu Camões, o qual esta semana comemorou 100 anos da sua existência. Terá o Liceu, certamente, amplos motivos com os quais se regozijar: em cem anos acontece muita coisa, de bom e de mau. Mas a efeméride fez-me lembrar um elogio fúnebre em que do defunto apenas se lembram as qualidades, mesmo que raras e ralas, e se escondem os defeitos, mesmo que demasiado evidentes ou até prevalecentes. É que, convém não esquecer nesta ocasião, durante décadas o Liceu Camões foi dirigido por um sinistro personagem, de seu nome Joaquim Sérvulo Correia, que impôs no Liceu um reino de terror que ele confundia, claro está, com disciplina; pedagogias retrógradas e autoritárias, apesar de alguns intelectuais prestigiados (Bénard da Costa, Vergílio Ferreira e outros) que por lá exerciam a profissão de professor; um sem número de proibições, a maioria delas ridículas, que propositadamente reproduziam, a nível do Liceu, os valores da ditadura salazarista; um ambiente cujo resultado prático, declarado ou não como objectivo, era a despersonalização do aluno, algo com o qual o meu individualismo de sempre e rebeldia de adolescente nunca conseguiram lidar.

Poderá argumentar-se que este era o “caldo de cultura” de então, e que, de um ou outro modo, o ambiente em outros Liceus de Lisboa não seria muito diferente. Não é verdade! Frequentei posteriormente o Liceu D. João de Castro, durante algum tempo dirigido por José Hermano Saraiva, o mesmo que foi ministro da ditadura durante a crise académica de 1969, e o contraste não poderia ser mais evidente, o que prova que, mesmo em circunstâncias idênticas e difíceis, as pessoas podem fazer a diferença mesmo quando provêm de áreas políticas idênticas. O D. João de Castro era, por contraste com o Camões, um espaço de pedagogia e liberdade (a liberdade possível à luz dos valores e restrições da época, claro) que desenvolvia e potenciava as capacidades dos seus alunos, que os responsabilizava pelos seus actos e onde estes, na sua maioria, se sentiam bem e integrados, se sentiam parte de um projecto colectivo que não sufocava a expressão da sua individualidade. Recordo isso com gratidão.

O Liceu Camões comemorou os primeiros 100 anos da sua existência. Como disse, terá certamente muitos motivos dos quais se pode orgulhar. Outros, como tentei explicar, nem tanto assim. A mim e a muitos outros da minha geração (a dos "baby boomers" do pós guerra), deve desculpas pelo modo como nos tratou, não sabendo compreender os novos valores emergentes de uma geração de mudança. Gostaria de sobre isso ter ouvido ou lido uma palavra que fosse, um assumir de erros, o reconhecimento de que terão sido tempos infelizes e difíceis, e não o apagar de um passado. Ingenuidade minha...

4 comentários:

Teresa disse...

Temos pontos de vista diferentes, JC :)

Já lhe respondo na Gota.

JC disse...

Pontos de vista diferentes são a essência da democracia, Teresa.

Rui disse...

Andei sempre num Liceu, com um reitor muito severo, a quem nunca lhe foi visto um sorriso... Evidentemente que podia ter sido melhor e ter tido um reitor firme mas simpatico e humano.Os tempos eram de ditadura...Apesar de tudo e estamos a falar de tempos dos anos 50 e 60, um aluno saído do Liceu chegava à Universidade com a cabeça razoalvelmente arrumada...Não vou comparar com o que se passa hoje,descanse...mas tenho a agradecer o que o Liceu fez por mim.

JC disse...

Tb eu, Rui. Mas refiro-me ao D. João de Castro, cujo reitor, felizmente ainda vivo (José Hermano Saraiva), provava que a ditadura (e Saraiva era um salazarista) não era totalmente incompatível com alguma liberdade e modernidade pedagógica. Que até chegava a convidar alunos (eu era um deles, por vezes) para serões culturais na sua casa do Restelo. Exactamente o contrário do que se passava no Camões, que reproduzia o que de pior tinha o salazarismo.
Quanto ao que se passa hoje, Rui, por muito que as condições gerais sejam mtº diferentes (e são), não é exemplo para ninguém. Como deve calcular, é tb algo com o qual não pactuo!