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segunda-feira, dezembro 02, 2013

Os estaleiros de Viana e a intervenção de um sindicalista

Podemos ter as maiores dúvidas sobre o modo como foi conduzido o processo que agora culminou na sub-concessão dos Estaleiros de Viana do Castelo, e eu, que por princípio não vejo razão para o Estado ser dono da empresa, até tenho algumas que gostava de ver esclarecidas em sede própria, isto é, na Assembleia da República. Sou mesmo de opinião que, caso se detectem quaisquer indícios que apontem para a possibilidade de terem existido comportamentos criminalizáveis, desta ou de anteriores administrações, deste ou de qualquer dos anteriores governos, deve o assunto ser entre à Procuradoria Geral da República, para investigação. Mas tendo dito isto, depois de ouvir a desastrada intervenção de hoje, no "Fórum TSF" (ouvir a partir dos 6'), do coordenador da União dos Sindicatos de Viana do Castelo, quase me apetece "comprar", de imediato e sem hesitar, a versão do governo. Ou outra qualquer, excepto a dos sindicatos.

Quando é que esses mesmos sindicatos entendem que para fazerem valer as suas ideias - admito que muitas vezes justas, principalmente nos tempos que vão correndo - num país hoje em dia já bem mais "letrado" e maioritariamente não muito inclinado a demasiadas simpatias pela actividade sindical, não bastam meia-dúzia de ideias e frases feitas e a utilização de um estilo mais ou menos "troglodita", e que isso pode mesmo ser contraproducente? Segundo o coordenador da União dos Sindicatos, existe muita demagogia à volta do assunto. Concordo, mas tenho pena quem o diz não resista à tentação de a alimentar.

quarta-feira, novembro 27, 2013

Um aviso ao governo

A ocupação de ministérios por alguns sindicalistas, a subida da escadaria da Assembleia da República por manifestantes das forças de segurança e a tentativa de desfile pela ponte 25 de Abril, organizada pela CGTP, têm todas elas a mesma raiz: a constatação de que mais uma manifestação ou greve como as outras, sem que nada de essencial as distinga, se transformaram em acontecimentos banais, sem grandes resultados práticos ou repercussões mediáticas, e que é pois necessário, também neste campo da luta sindical e das acções de rua, inovar, fazer diferente. Em certa medida, podemos dizer que o recurso a estas novas formas de actuação é consequência da constatação de um fracasso, ou pelo menos do impasse a que conduziram as repetitivas actuações anteriores. Resta saber até onde poderão ir a tentação e/ou a necessidade de fazer diferente, e tendo isto em atenção fácil é concluir que os últimos acontecimentos constituíram um importante aviso ao governo.

domingo, outubro 20, 2013

A CGTP e a "manif" de ontem

Reconheçamo-nos ou não neste governo (e eu não me reconheço) e gostemos ou não de o ver combatido (e eu acho é necessário fazê-lo), temos de concluir que a manifestação de ontem da CGTP, não tendo constituído um passo em frente ou representado uma subida de tom na contestação ao actual "estado de coisas", antes pelo contrário, se terá saldado por um semi-fracasso. Aliás, ao "jogarem as fichas quase todas" no espectáculo que poderia constituir uma passagem a pé pela ponte 25 de Abril, Arménio Carlos e a direcção da CGTP reconheciam à partida as hipóteses de fracasso (ou semi-fracasso) de "mais uma manifestação como as outras" seriam muitas, e a marcação, no local e na hora, de mais uma acção para o dia 1 de Novembro, frente à Assembleia da República, é prova provada de que nem tudo terá corrido pelo melhor dos mundos.

Seria talvez tempo da CGTP concluir, numa situação em que teria tudo a seu favor, que talvez esteja a conduzir o movimento sindical e o seu combate ao "empobrecimento" e ao actual governo a um impasse, um beco do qual não se vislumbra saída possível. Em nome de quê e de quem, isso já serão "outros quinhentos".



domingo, outubro 13, 2013

O impasse da CGTP

Tenho a sensação de que a CGTP, com o seu braço de ferro com o governo por causa de uma ponte, em vez de estar a alargar a sua base de apoio e a chamar às iniciativas sindicais mais gente na luta contra o "empobrecimento", está a fazer exactamente o contrário, afastando desta luta e das suas iniciativas muita gente que, não integrando o grupo de habituais participantes, poderia, aqui e ali, a elas aderir, dando-lhes mais força e um maior significado. Para além disso, ao dar tanto ênfase ao local da realização do evento, acentuando a vertente do espectáculo em detrimento da "luta", dá a todos um sinal de fraqueza e transmite a imagem de quem parece ter caído num impasse tal que não pode prescindir do "espectáculo", da encenação e da "novidade" como elementos essenciais das suas acções. Mas, como não acho a direcção da CGTP seja assim tão estúpida, resta saber qual será na realidade o seu verdadeiro objectivo.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Ainda a CGTP e a ponte

Tenho o maior respeito pela capacidade de organização normalmente manifestada pela CGTP e também sei, desde o 25 de Abril, que em tudo o que desta central sindical depender poderemos estar certo as manifestações decorrem pacificamente e na maior ordem. Sem dúvida que sim. Mas tendo dito isto, e também já me tendo pronunciado sobre a "vertigem do espectáculo" que parece ter-se apoderado de CGTP e PCP, pergunto-me: e se algumas dezenas ou até centenas de pessoas, nada tendo a ver com a CGTP, decidem, como já aconteceu em uma ou outra das últimas manifestações sindicais, provocar distúrbios e pôr em risco a segurança de pessoas e bens na Ponte 25 de Abril? Num espaço e numa estrutura com as características desta via, pode a CGTP ter a certeza que os seus serviços de segurança conseguem manter a ordem entre TODOS os manifestantes? E caso não o consigam, podem a PSP e, se isso se revelar necessário, os serviços de emergência médica, actuar rapidamente e com a eficácia? E caso as coisas corram mal, quem será responsabilizado? Por mim, se tivesse que decidir em nome das autoridades competentes para o fazer - e como "tudo o que pode correr mal, se arrisca mesmo a correr mal - optaria por aconselhar a CGTP a realizar a manifestação noutro local.  

terça-feira, outubro 08, 2013

A CGTP e a sociedade do espectáculo

Perante os actuais níveis de desemprego e de redução de salários, pensões e subsídio de desemprego; face ao "enorme aumento de impostos", ao "empobrecimento", ao aumento da precariedade do emprego e à incerteza (ou má certeza) sobre o futuro, a CGTP, por certo com o beneplácito do PCP, seu suporte, não arranjou ideia melhor para defender os seus associados e lutar contra a estratégia do governo do que aderir à sociedade do espectáculo,  propondo-se organizar uma manifestação na ponte 25 de Abril. Para isso, lá vai gastando o seu tempo e energias num "braço de ferro" com o governo sobre o seu direito a tal coisa, não hesitando, na sua argumentação, em comparar uma manifestação/acção de luta a um espectáculo/festa/prova desportiva. Claro que não percebe sequer como esta comparação a apouca, bem como esta sua adesão à sociedade do espectáculo, em detrimento de outro tipo de acções e escolha de locais porventura mais consentâneos com os objectivos a atingir, corresponde a uma verdadeira declaração de fraqueza ou a um claro sinal de desistência. 

quarta-feira, setembro 25, 2013

E como vamos de política?

  1. Passo no Rossio quando na placa central se realiza uma manifestação de aposentados da Função Pública com gente afecta ao PCP e "compagnons de route". Poucas centenas de manifestantes, mesmo muito poucas e ainda menor combatividade. Tantas vezes PCP e CGTP convocaram os seus filiados apenas "porque sim", por vezes por puro conservadorismo outras, simplesmente, para testar e manter viva a sua capacidade de mobilização, sem conseguirem alcançar nenhum resultado assinalável, que agora, quando o governo põe em causa o valor da pensão que muitos deles já há anos recebem, quando o "lobo mau" parece ter finalmente chegado, já poucos acreditam a sua mobilização conseguirá inverter o estado actual das coisas. 
  2. António Costa tem tudo para alcançar um resultado retumbante em Lisboa: boa imagem junto de muito do eleitorado de centro-direita e direita, com excepção da "vanguarda revolucionária" "passista"; capacidade de diálogo à esquerda" numa cidade onde PCP e "Bloco de Esquerda" contam; um trabalho visto como razoável à frente da autarquia; uma candidatura PSD/CDS, com Seara, Carlos Barbosa e Teresa Leal Coelho, desastrada e que mais parece um péssimo filme de terror da "série B" (sem ofensa para estes); por último, a crença de que o voto em Costa é também, pelo menos em alguma medida e para além de um voto contra o governo, um voto contra António José Seguro, ou pelo menos um aviso à sua liderança. O seu único adversário sério será mesmo a abstenção, mas até S. Pedro parece estar a dar uma ajuda. 

sexta-feira, maio 24, 2013

A CGTP e a "greve conjunta"

A CGTP é o "braço" do PCP no movimento sindical. Assim sendo, e arvorando-se o PCP em partido/vanguarda da classe operária e atribuindo  o marxismo-leninismo a esta classe o papel histórico do derrube do capitalismo, tal como o "partido" não se dilui na "frente" e esta só tem sentido se por ele hegemonizada, também a CGTP tem como objectivo dominar a cena sindical e fazer com que esse mesmo movimento sindical reflicta, a cada momento, as posições do "partido". E para que o PCP assuma esse papel histórico, atinja esse objectivo, nada pior do que uma UGT autonomizada do poder, mais independente, reformista e que insira a negociação na sua estratégia, não como um objectivo em si mesmo, mas como uma meio para conseguir alcançar alguns objectivos importantes para os trabalhadores e para o movimento sindical. E bastou a mudança do secretário-geral da UGT, cedendo o inconsequente João Proença o seu lugar a um Carlos Silva que, pelo menos, tenta parecer mais independente do poder, para fazer soar as campainhas de alarme e lançar a confusão na Vítor Cordon. 

Digamos que é a esta luz, e acho que apenas a esta, que se deve analisar a reacção de Ana Avoila (assim a modos que um ersatz de Heloísa Apolónia no movimento sindical) à hipótese de uma greve geral conjunta da função pública, tal como é esta mesma estratégia que tem estado na base das recorrentes tentativas do PCP para boicotar o trabalho da comissão de trabalhadores da AutoEuropa, dos poucos, ou talvez o único caso de sindicalismo reformista sério em Portugal. Ignorar isto é ignorar os fundamentos do marxismo-leninismo, a "natureza de classe" do PCP e as práticas que a ambos se subordinam. Difícil é perceber como que vem da esquerda comunista parece não o entender na plenitude. 

terça-feira, janeiro 29, 2013

Arménio Carlos para o MDP/CDE. Já!

Arménio Carlos não é um qualquer cidadão: é o secretário-geral da maior central sindical portuguesa e membro do Comité Central do PCP. É, portanto, um sindicalista reputado e um político com notoriedade. Mais, não estava a conversar com os seus amigos e/ou correligionários no bar da Soeiro Pereira Gomes ou da Vítor Cordon, entre um café com "cheirinho" e uma "Macieira" em balão. Arménio Carlos estava num evento organizado pela central sindical a que preside e dirigia-se, em discurso oficial e no exercício das suas funções de secretário-geral, aos que a esse acontecimento se tinham querido juntar no exercício dos seus direitos de cidadania, na sua maioria professores, o que não é indiferente para a gravidade do que se passou. Assim, ao designar Abebe Selassie por "escurinho", e embora não acreditando Arménio Carlos seja racista, estava a transmitir aos manifestantes sinais errados e que poderiam ser interpretados como manifestação de xenofobia ou intolerância étnica. Para além disso, o modo como se referiu ao membro do FMI foi de mau gosto e roçou (ou ultrapassou, mesmo) a grosseria, mesmo descontando as liberdades de linguagem compreensíveis numa manifestação de protesto. Arménio Carlos também não poderia ignorar que estava a dirigir-se a uma manifestação de professores, o que só agrava o seu comportamento até porque é de admitir muitos dos participantes possam ter sido reconhecidos, via TV, pelos respectivos alunos. Por ter contado em público e no exercício das suas funções uma anedota de mau gosto sobre alentejanos, aceitável numa mesa de café, um ministro já foi demitido e por uma piada de idêntico teor sobre o presidente Obama já o inenarrável Berlusconi foi, com toda a razão, "grelhado" na praça pública. No mínimo, Arménio Carlos deveria vir a público pedir desculpa a todos, incluindo a Abebe Selassie, e talvez não fosse má ideia o PCP tomar em relação a este seu militante e membro do comité central decisão idêntica à que, em tempos, era regra para os militantes com comportamentos considerados "menos dignos" de um comunista: enviá-lo de castigo para um qualquer MDP/CDE. "Bora" lá, Jerónimo?

quarta-feira, novembro 14, 2012

Reflexão em torno da greve geral

Posso até estar enganado, mas sinto existir um cada vez maior distanciamento entre uma boa parte dos cidadãos, mesmo o que vêm com simpatia e estarão mesmo dispostos em participar em acções contra este governo e a sua hiper-austeridade recessiva, e as direcções sindicais, tanto a da radical CGTP como a da negociadora UGT. E em ambos os casos porque, mesmo que existentes, não são visíveis nem palpáveis os resultados das suas acções. Aliás, mesmo que essas acções se reflictam numa posição de força negocial em sede de concertação, com resultados positivos, esses resultados são de tal modo diferidos no tempo que a maioria dos portugueses acaba por não conseguir estabelecer uma ligação causa/efeito. O que fica, portanto, e no caso das greves gerais, por exemplo, é uma realidade imediata, visível e palpável, de um país apenas afectado pela ausência de transportes e o fecho ou funcionamento a meio-gás de alguns serviços públicos, longe da imagem que a História nos transmite do que aprendemos ser uma greve geral e nada de substancialmente diferente das habituais greves da Função Pública. No fundo, um déjá vue que, pela repetição, se arrisca a perder crescentemente força e eficácia e, de seguida e como consequência lógica, a constatação de que os interesses em presença serão bem outros. 

Já no caso da actuação negociadora da UGT, note-se que foi necessário a central sindical vir a terreiro agitar nervosamente a tal vitória, mais ou menos pírrica, sobre a proposta "meia-hora de trabalho para a nação" para justificar essa sua actuação negociadora. Digamos que é e foi muito pouco, se tivermos em linha de conta o autêntico tsunami que caiu de seguida sobre o mundo do trabalho em contraste com a enorme eficácia demonstrada pela manifestação de 15 de Setembro no recuo da mirabolante proposta do governo sobre a TSU. E esse tal "muito pouco" claro que não deixa também de pôr em questão, tal como acontece no caso da CGTP, o papel real e efectivo da UGT, os interesses que defende ou as contradições que a cruzam e nas quais se deixa demasiado enredar. Falta, portanto, em Portugal um verdadeiro sindicalismo reformista, autónomo e independente, capaz de representar com eficácia um sentimento cada vez maior de contestação ao "empobrecimento" e à hiper-austeridade recessiva. Ou então não falta, e terá de ser fora dele, infelizmente, que os portugueses terão de encontrar resposta para os seus problemas e aspirações. É que a História é o que é, e são razões históricas que, essencialmente, conduziram o sindicalismo em Portugal a este impasse. Com pouca esperança de mudança ou talvez mesmo sem ela.

sábado, setembro 29, 2012

A "manif", Borges e Teixeira da Cruz

Apesar do número e determinação dos manifestantes, não me parece, e ao contrário do que ouvi dizer a Jerónimo de Sousa, que a manifestação de hoje da CGTP tivesse constituído um "salto qualitativo" na luta contra o governo. Para tal deveria ter acrescentado algo de significativo à manifestação de 15 de Setembro, e não me parece tal tenha acontecido, tendo-se constituído bem mais numa acção da CGTP para lhe permitir, a si e ao PCP, controlar e enquadrar o actual movimento popular de contestação do que uma qualquer tentativa para o fazer evoluir.

Não sendo de desprezar o valor da "manif" de hoje, quer-me no entanto parecer que as afirmações de António Borges (como é possível?) e as de ontem ou anteontem da ministra Teixeira da Cruz, atentando contra o Estado de Direito, foram bem mais prejudiciais para a imagem e vida, presente e futura, do actual governo do que a "manif" da CGTP. Digamos que com ministros e para-ministros deste calibre, o governo quase dispensa adversários. 

quinta-feira, março 22, 2012

A greve (2)

CGTP acusa Governo e patrões de pressão para não se exercer direito à greve

Desculpem lá qualquer "coisinha", mas o normal num estado democrático, e desde que dentro da lei, não é governo e patrões pressionarem os trabalhadores para não fazerem greve e os sindicatos actuarem junto dos seus filiados e simpatizantes em sentido contrário? Não é assim - repito: desde que respeitando a legalidade e os respectivos direitos - que as coisas saudavelmente se processam? Se calhar, há qualquer coisa que me está a escapar, mas não me parece.

A greve...

Pelo que já me foi dado ver, esta greve geral, suscitando a indiferença ou uma compreensão distanciada da maioria dos portugueses e afectando apenas áreas muito circunscritas da economia e do país, arrisca a transformar-se num "boomerang", tornando-se arma de arremesso político nas mãos daquele contra o qual foi decretada - o governo - e voltando-se contra os seus promotores, fragilizando-os e isolando-os. Nada que não se esperasse, claro, por isso me interrogando qual a sua utilidade. E não vale a pena a CGTP invocar as dificuldades de mobilização, pois também tal era mais do que expectável. Não ter tido em conta essas dificuldades, isto é, não ter levado em consideração as condições concretas do momento, chamava-se em tempos "aventureirismo", e o PCP, o verdadeiro promotor desta greve, sempre foi dele feroz crítico. Mudam-se os tempos...   

Entre uma greve geral aventureira e um pacto social capitulacionista, assim vai o movimento sindical em Portugal... Depois queixem-se.

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

A "manif"

Em Portugal, parece que o êxito ou fracasso de uma manifestação se mede apenas pelo número de participantes que consegue reunir, gerando-se assim discussões intermináveis sobre o rigor dos números apresentados. Uma estupidez, pois o êxito ou fracasso de uma manifestação mede-se, fundamentalmente, pela sua capacidade para conseguir alcançar os objectivos a que se propõe (ou contribuir decisivamente para tal) e se tal depende, em parte, do número de participantes, está muito longe de se esgotar nesse ponto. Depende, também, da capacidade para mobilizar gente fora do habitual círculo do PCP e CGTP, tal como aconteceu, por exemplo, nas manifestações de professores durante o Governo de José Sócrates ou, até, da "Geração À Rasca". Da conjuntura política e das fragilidades do governo (se a manifestação for contra este) na área que é especialmente visada. Dos apoios, explícitos ou implícitos que consegue granjear no aparelho de Estado (foi importante para os organizadores o apoio do PR à "manif" da "Geração À Rasca"). Do sector que se mobiliza (uma manifestação da Função Pública, por habitual, terá sempre menor impacto que uma outra de um conjunto de empresas do sector privado). Do modo como decorrer a manifestação e do respectivo impacto mediático - e tal depende muitas vezes de acontecimentos imprevisíveis. Etc, etc, etc.

Por isso mesmo me parece inútil saber se na manifestação do último sábado estiveram presentes 100 000, 200 000 ou 300 000 pessoas. Restringido o seu âmbito aos habituais CGTP, PCP e BE, sem nenhuma novidade mobilizadora na sua organização e sem grandes apoios visíveis fora desse sector bem definido, sem objectivos tangíveis alcançáveis no curto-prazo, enfim, sem qualquer novidade no seu conteúdo, estejamos a falar de 100 000 ou 300 000 pessoas, limitou-se a mostrar a já conhecida capacidade de mobilização dos seus organizadores e apoiantes e a manter nestes a "chama viva". Parece-me bem que por aqui pode estar o governo descansado.

terça-feira, janeiro 17, 2012

O acordo (para já)

Para já, e antes de conhecer em detalhe informação mais completa, o acordo de concertação social permite ao governo ganhos importantes do ponto de vista propagandístico: no exterior, perante a "troika" e o eixo franco-alemão (os mercados são outra conversa e aí a "coisa" fia mais fino), e, internamente, quando, fruto das polémicas nomeações para a EDP e Águas de Portugal e dos reflexos do fundo de pensões da Banca na execução orçamental, parecia estar a perder o seu "estado de graça" e a gerar alguma contestação. Quanto à eficácia do acordo, mais tarde se verá, acrescentando, no entanto e como afirmação de princípio, não deve o governo nem ninguém no seu perfeito juízo pensar que a desvalorização do trabalho, o tal "empobrecimento", possa levar o país a parte alguma, no sentido positivo do termo. Muito menos ao aumento de competitividade de um número significativo das suas empresas. Por vezes, questiono que empresas estão maioritariamente representadas nas confederações patronais, e se é com esse tipo de empresas que o país pretende de facto progredir e aproximar-se de padrões civilizacionais avançados.

Uma nota para a CGTP: não contestando possam existir razões atendíveis e de peso para se ter posto antecipadamente à margem, o facto de ser esta a sua atitude sistemática retira qualquer peso a esta sua decisão.  

quinta-feira, novembro 24, 2011

À atenção de CGTP e UGT

O sucesso ou insucesso de uma greve geral não se mede pelo número elevado ou escasso dos que a ela aderem. Nem sequer, a não ser que seja esse o seu objectivo último, como acontece nas greves gerais revolucionárias, pela sua capacidade para paralisar um país ou região. Mede-se, ou deverá medir-se, como um pouco tudo na vida, pela sua adequação e capacidade para atingir os objectivos a que os seus promotores se propõem. Caso os objectivos enunciados pelas centrais sindicais para esta greve geral sejam efectivamente os verdadeiros (gostaria de pensar que sim), acho que CGTP e UGT deveriam reflectir um pouco sobre isto.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Contestação em Setembro?

Oiço e leio frequentemente que a ausência de contestação a algumas medidas do governo se ficará a dever ao período de férias. Tenho algumas dúvidas, embora não descarte sejam as férias pouco amigas da contestação. Parece-me mais evidente que essa ausência de tal contestação se ficará mais a dever ao facto de, até agora, não terem sido atingidos de modo notório, específico e exclusivo os interesses de algumas das corporações dominantes e que estiveram na vanguarda das acções contra o anterior governo, tais como, por exemplo, professores, autarcas, magistraturas, forças de segurança, camionistas, médicos, etc. Enquanto tudo se resumir a uns cortes salariais e das transferências sociais, mais ou menos universais pelo menos para quem vive ou sempre viveu do seu trabalho, a contestação, mesmo chegado Setembro, ficará reduzida apenas a umas poucas e institucionais manifestações do costume a cargo dos organizadores habituais, CGTP, PCP e BE. Digamos que pelo menos neste ponto a gestão do governo tem sido inteligente.

quinta-feira, setembro 30, 2010

A manif. da CGTP

Fiquei ontem bloqueado no trânsito por causa da manifestação da CGTP, o que me “obrigou” a assistir à passagem de grande parte do cortejo o que fiz com natural curiosidade. Para além da clara falta de combatividade que transparecia da atitude dos participantes – o que deve ser suficiente, nesta área, para dar vida descansada ao governo – era também notório que uma parte significativa dos manifestantes pertenceria a um conjunto que poderemos, sem demasiadas preocupações de rigor, denominar como "marginalizados" pelas transformações económicas e sociais do Portugal pós-UE: trabalhadores pouco qualificados, professores proletarizados pela democratização do ensino, servidores do Estado que encontram no vínculo à função pública a única defesa contra a sua falta de competitividade, pensionistas de idade avançada, etc.

Não estão obviamente em causa o agradecimento, respeito e solidariedade que todos – repito, todos -, enquanto sociedade, lhes devemos; mas estamos aqui longe, muito longe da mensagem de progresso e de futuro de que eram portadoras, nas suas demonstrações públicas de luta, a burguesia revolucionária do início do século XIX ou o proletariado das primeiras décadas do século XX.

quarta-feira, setembro 15, 2010

As notícias que chegam de Cuba e o PCP

Perante o despedimento de 1/2 milhão de funcionários públicos em Cuba (mesmo com as “nuances” com que a decisão é comunicada), o PCP, CGTP e “ofícios correlativos” têm ,a partir de agora , de optar por uma de duas soluções: admitem que os despedimentos - mesmo na função pública - perda de vínculo, mobilidade, restruturação das carreiras, etc, etc, podem ser uma solução para resolver alguns problemas da economia e das finanças públicas portuguesas, ou deixam de considerar Cuba como socialista e a defesa da sua “revolução” como uma bandeira, transformando Fidel Castro um renegado a soldo da CIA e admitindo a “revolução” ter sido traída. Aguardo com enorme curiosidade desenvolvimentos futuros. Como é que dizia “o outro”? “Que mais lhes irá acontecer?!...”

terça-feira, abril 27, 2010

Greve...

Francamente, e ressalvando o facto de não conhecer “por dentro” as empresas e processos de negociação em curso, não vejo razão sólida, laboral e directa, para as greves de hoje no sector dos transportes e correios. Não me parece, para quem tenha um vínculo não provisório, os postos de trabalho possam estar em causa, quem é trabalhador precário por certo não ousa entrar em greve (ora aqui está um direito constitucional e democrático na prática negado a quem dispõe apenas de um contrato de trabalho precário) e o congelamento ou aumento salarial reduzido é compensado pela baixa inflação e queda da taxa de juro dos últimos anos – e quase todos os portugueses têm um empréstimo a amortizar. Porquê então?

Bom, existindo, com muita ou pouca razão isso é irrelevante, algum ambiente geral de descontentamento, ampliado e tornado mais visível pela democratização da informação dos últimos anos (“blogues”, comentários on line, fóruns de opinião, tabloidização dos “media”, etc), o que facilita a simpatia com que este tipo de acções é recebida pelos intervenientes mas também por terceiros, mais do que alcançar qualquer benefício directo para os trabalhadores envolvidos neste tipo de movimentações periódicas – o que dificilmente tem acontecido ou acontecerá - elas têm os seguintes e principais objectivos em vista:
  1. Manter alguma mobilização sindical e política em sectores onde o PCP e a CGTP têm alguma influência, capitalizando o descontentamento existente em seu favor. Tal como nenhum exército se pode manter demasiado tempo inactivo, o tipo de sindicalismo desenvolvido por PCP e CGTP não pode manter-se, crescer ou fortalecer-se sem este tipo de iniciativas, independentemente dos resultados alcançados.
  2. Criar dificuldades a um governo, já de si e muito por culpa própria, frágil e numa situação interna e externa muito difícil e delicada. Mais, criar também dificuldades à execução do PEC e contribuir para fragilizar o país, o euro e a UE perante os mercados e a especulação financeira.
  3. Tendo escolhido efectuar a paralização em sectores estratégicos (comunicações), onde mesmo uma pequena mobilização (e em alguns casos – CP – ela foi mesmo significativa) causaria sempre inconvenientes não negligenciáveis a uma boa parte da população e com visibilidade assegurada nos “media”, responsabilizar a política do governo por esses problemas, aumentando o já existente sentimento geral de descontentamento.

O problema para o PS - partido que apoia o governo - é ter deixado que este “programa de actividades”, que, em última análise, configura uma autêntica mobilização anti-regime, tenha transcendido as fronteiras restritas onde habitualmente se acolhia e comece a estender-se a sectores da sociedade onde era tradicionalmente rejeitado. Digamos que governo e Partido Socialista, mas também PSD e CDS, podem vir a ter aqui um problema...