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quarta-feira, abril 25, 2012

Os cravos e o governo

Sim, eu sei que vão ser acusados de oportunismo e o que mais adiante se verá. Mas gostei de ver os membros do governo ostentando cravos encarnados (mas atenção, manda o "dress code" ser na lapela e não no bolso) na sessão comemorativa de hoje da Assembleia da República. Já há muito teria sido tempo de todos aqueles que se reconhecem na liberdade e na democracia assumirem o 25 de Abril e o seu símbolo mais emblemático também como seus. Espero que um dia todos decidam também associar-se às comemorações de rua, retirando ao PCP e seus vários "compagnons de route" de ocasião o respectivo monopólio.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (6). "Fraque" e camisa

Nos meus tempos de final de adolescência e início de idade adulta, a maioria dos casamentos "era de fraque" (para os homens, claro). Problema grave, pois acontecendo tal coisa, por norma, no Verão e sendo o fraque uma indumentária quente e pesadona (ainda não existiam estes fraques de agora, feitos de materiais mais "leves"), "rapava-se" um calor de morte. Lembro-me de ir uma vez, com os meus pais e restante família, a um casamento em Coimbra, num mês de Junho ou Julho e aí pelo início dos anos 70, quando os carros não tinham ar condicionado e auto-estrada chegava até... Vila Franca. Pois como estava um dos tais "calores de ananases", para não chegarmos em estado calamitoso lá tivemos, à entrada de Coimbra, de arranjar um sítio para vestirmos os fraques e nos apresentarmos, frescos que nem "alfacinhas", ao dito cujo enlace... Depois, com o 25 de Abril e a liberalização dos costume, o "dress code" dos casamentos aligeirou e, hoje em dia, apenas a pais dos noivos e padrinhos é requerida normalmente tal indumentária. E como há muito o "fraque" deixou de ser obrigatório nos enterros e em Portugal (apesar de alguns monárquicos "patuscos") não há rei nem o "royal enclosure" de Ascot, as coisas ficam-se por aí.

Não, mas não vou dizer como e com quê se deve usar "fraque": qualquer manual barato de etiqueta e boas maneiras refere tal coisa. Há no entanto um erro, ou omissão habitual, quanto a tal coisa: contrariamente ao que se pode ler em tais manuais, não é absolutamente necessário usar uma camisa branca. Uma camisa de cor clara (azul-clara ou cor de rosa, por exemplo), ou até de riscas leves com essas mesmas cores, desde que com colarinho e punhos brancos, é muito mais "catita" do que uma simples camisa branca. E marca, claro, bem a diferença.

terça-feira, julho 19, 2011

Ainda o "dress code" da UC

Tal como disse, não gosto de me repetir, e, por isso, não me vou debruçar sobre a questão das normas de vestuário da Universidade Católica. Quem tiver paciência para ler o que escrevi e "linkei" no "post" anterior entenderá facilmente a minha opinião genérica sobre a questão dos "dress codes", assunto que em Portugal insiste em levantar tanta desnecessária celeuma.

Mas, tendo dito isto, talvez seja interessante irmos um pouco mais longe e interrogar-mo-nos sobre quais as motivações e objectivos últimos da "Católica" ao estabelecer tais normas - aliás, bastante flexíveis e aligeiradas - para os seus alunos e professores. O que a UC, que alcançou merecido prestígio numa época pós-revolução em que as universidades do Estado viviam período de alguma agitação, pretenderá não é mais do que acentuar algum carácter elitista (a palavra é aqui usada sem qualquer sentido pejorativo, note-se) da instituição, tentando assim marcar a diferença e assumir um "posicionamento"que lhe permita aumentar a sua quota de mercado face à cada vez maior concorrência e prestígio de algumas universidades do Estado, principalmente a Clássica e a Nova.

Dir-me-ão, talvez, que o que interessa fundamentalmente para estabelecer um "ranking" universitário é a qualidade de ensino e o modo como isso se reflecte no mercado de trabalho. Claro. Mas não existindo, pelo menos nas áreas de Economia e Gestão, as que conheço melhor, uma diferença significativa que justifique o custo acrescido, um pequeno empurrão em termos de "imagem" não deixará de dar um bom contributo e, para além de tudo o mais, talvez não seja assim tão mau que também aqui, na questão das indumentárias, os alunos ganhem alguma experiência que lhes será com certeza muito útil para o resto das suas vidas.

sábado, junho 25, 2011

"Económica" ou "executiva"? Uma questão política

Confesso estar demasiado farto de ver a discussão sobre a classe em que viaja o governo quase só centrada no que se poupa ou não poupa, isto é, reduzida às questões económicas (apetecia-me mais dizer de "economia de dona de casa"). Independentemente de se poupar mais ou menos (e aproveito para dizer que um bilhete de tarifa económica normal, isto é, não-reduzida e com as limitações que este último tipo de tarifas impõe à sua utilização, custa em muitos voos praticamente o mesmo do que um voo em executiva), trata-se de um assunto de natureza política e como tal deve ser analisado. Assim sendo, a pergunta que faço é a seguinte: "devem os membros do governo viajar em classe executiva ou em classe económica, mesmo na Europa". E aqui a minha resposta só poderá ser que o devem fazer em "executiva". Porquê? Por um conjunto de razões que passo a enunciar:
  1. As viagens oficiais de membros do governo assumem sempre um carácter de representação de Estado. É por essa mesma razão - de dignidade de representação - que as viaturas oficiais dos membros do governo são carros com um certo estatuto, pintados de cor sóbria, e não Fiats Punto ou descapotáveis pintados de cor de rosa ou "azul cueca"; que existe um "dress code" determinado para o seu trabalho diário e actos oficiais; que não se serve "Porta da Ravessa" ou Teobar nas refeições oficiais e assim sucessivamente. Enfim, que existe uma certa coisa que dá pelo nome de "protocolo de Estado". Já agora, não sei se viajando em "económica" os membros do governo também terão de abdicar dos "batedores", da sala VIP da Portela, do "executive lounge", terão de esperar pela bagagem ou irem para a "bicha" no "check in" se o não fizeram na "net.
  2. Para não falar dos membros de governos de outros Estados-membros da UE - que obviamente viajam em "executiva" - a grande maioria dos executivos, directores e administradores das principais empresas viajam em classe executiva, o que coloca os membros do governo numa posição de inaceitável subalternidade perante eles. 
  3. Mesmo na Europa, em voos de relativa curta duração, as viagens são frequentemente aproveitadas para trabalhar (consultar relatórios, trocar impressões, preparar reuniões futuras, etc). Só quem nunca viajou poderá ser de opinião que tal é possível na balbúrdia da "económica".
  4. Por muito que seja impopular dizê-lo, os membros do governo trabalham muito e têm agendas carregadas. Uma viagem, por muito curta que seja (duas ou três horas), pode muitas vezes ser aproveitada para uns minutos de descanso e descontração, uma refeição, leitura da imprensa, etc. Afigura-se difícil tais tarefas possam ser realizadas numa classe económica a abarrotar. 
  5. Por último, e como aqui já afirmei, viajar em classe económica constitui uma inaceitável cedência à demagogia populista mais rasteira dominante nas opiniões expressas pelos sectores menos intruídos e mais retrógrados dos portugueses nos "fóruns de opinião" e nas caixas de comentários. Ora não é isso que espero de um governo democrático de um país civilizado. Pelo contrário: espero elevação e bom senso na escolha das políticas e uma atitude pedagógica no modo como são explicadas aos cidadãos.

terça-feira, setembro 15, 2009

"Gato Fedorento": um José Sócrates sem "panache"

Confesso vi os “Gato Fedorento” á “vol d’oiseau”, e mesmo assim só na parte reservada a José Sócrates: uma final de Flushing Meadows não há todos os dias e programas do “Gato Fedorento”, mesmo com o primeiro-ministro, bem podem esperar. Devo dizer, no entanto - e do que vi -, achei deprimente a participação de José Sócrates. Esteve correcto, não cometeu “gaffes”? Mas a um político profissional, com o traquejo do actual primeiro-ministro, só se poderia exigir como serviços mínimos que estivesse correcto e não escorregasse - e para “gaffeuse” já nos basta Ferreira Leite. Fasquia muito baixa, portanto.

E que poderia eu então exigir a José Sócrates? Bom, algum sentido de humor, uma dose certa de ironia, um mínimo de "panache", até talvez mesmo, aqui e ali, conseguisse chegar a ser um pouco cáustico. No fundo, que não estivesse tanto na defensiva; que, sem perder pose de estado, percebesse que estava num programa de humor – onde era um dos participantes – e não, qual "Vasquinho da anatomia", sujeito a um qualquer exame oral do qual, se tudo decorresse com normalidade e se portasse como vem nos livros, sairia com um suspiro de alívio e a estafada frase “vamos embora Bobby que já enganámos mais estes...”

Por exemplo - e para entrar nos casos concretos que ajudarão e entender o que digo - que tivesse tido o à vontade e grandeza de espirito suficientes para entrar no jogo quando Ricardo Araújo Pereira lhe pediu uma “cunha” para conseguir lugar para o carro. Aí, por exemplo, José Sócrates deveria ter aproveitado a "deixa" para brincar com a situação e as analogias a que se prestava, inclusivamente, fazendo em directo, e em tom de brincadeira, o pedido a Clara de Sousa, talvez mesmo usando de algum “charme” e fazendo reverter, com ironia e algum "non-sense", a situação a seu favor. No fundo, pedia-se a José Sócrates aquilo que ele e a maioria da sua geração de políticos não tem: uma certa concepção aristocrática do mundo e da política que não se adquire nas “jotas” mas vem do “berço”, do mundo, da cultura e da vida. Que o diga Mário Soares, não é assim?

É que o ar “à vontade” e descontraído não é só dado (muito longe disso!) por um “dress code” informal e uma pequena anedota ensaiada sobre Berlusconi. Há, muito para além disso, o “saber estar” em qualquer situação. José Sócrates não sabe (não soube), e quando o quer fazer soa a falso. Não terá talvez perdido votos, mas, sem que desse por isso e até pensando o contrário, também não terá ganho foros de estadista.

terça-feira, agosto 25, 2009

Da ideologia das cores: das bandeiras aos "dress codes"

Todos, os da minha geração do baby boom do pós-guerra, crescemos aprendendo a ideologia das cores, nos símbolos e bandeiras, do encarnado proletário ao negro da luta contra a fome. Em Portugal, do azul da monarquia ao verde e encarnado republicanos. Por mim, por via de algumas origens hexagonais, também do significado da tricolor, da liberdade, da igualdade e da fraternidade, que me ensinaram desde sempre ter sido o acontecimento histórico mais importante da marcha da humanidade. Se o foi ou não pouco importa, já que o que se quer ilustrar com estes exemplos nada mais é do que essa ideologia colorida presente nos símbolos pelos quais lutamos e com os quais nos identificamos.

Que as cores do vestuário tenham também esse significado, ou mesmo uma conotação de classe, era algo que desconhecia. Aqui há uns tempos, e a propósito de “dress-codes”, escrevi por aqui que achava curioso os homens do Bloco de Esquerda o assumissem (ao “”dress-code) de modo muito estrito: na permanente ausência de gravata; naquele segundo botão da camisa tão inesteticamente apertado. Mas, concluí, também naquela horrível paleta de cores oscilando entre o “beige” e o castanho, o cinzento e o verde azeitona, tudo muito pouco contrastante e a tresandar àquilo que a minha mãe denominaria de “encardido”. Percebi então que no PCP a paleta de cores pouco diferia, com excepção – honra lhe seja feita - daquela gravata berrante, de um encarnado bem proletário, ostentada orgulhosamente por um Jerónimo de Sousa com quem, divergências à parte, apetece ir ver o “glorioso”, beber umas imperiais” e petiscar uns carapaus de escabeche. Confesso, nunca percebi a razão para tais cores “encardidas”, até porque, durante muito tempo, mais propriamente até aos anos 60 do século XX, os burgueses da cidade e os operários das fábricas pouco variavam e se distinguiam na cor taciturna dos trajes (as distinções de vestuário eram outras), pertencendo aos camponeses ricos em festa o colorido dos cromos das “Raças Humanas” da minha infância.

Finalmente fez-se luz ao ler, em um dos últimos exemplares do “Público”, que algo que muito atraía os cidadãos da extinta RDA no ocidente, mais propriamente na RFA, era, para além dos sacrossantos jeans Levi’s, a variedade de cores vivas disponibilizadas no vestuário, algo inexistente do lado de lá do muro onde o colorido se limitava á tal paleta entre os “beige” e os castanhos, o “terra-sena” e o verde tropa. A questão, claro, nada tinha a ver com a ideologia, mas, isso sim, concluí utilizando uma linha de pensamento bem marxista, com questões económicas e de produção: na fabricação em série de uma economia planificada, seria bem mais económico produzir apenas meia dúzia de cores de cada peça e, por isso, tal como a comida dos aviões não é boa nem má mas apenas desenxabida para poder ser tragável por todos, o ideal era que as cores também o fossem, dando origem àqueles tons mais ou menos “encardidos”, como se toda a roupa fosse lavada em conjunto na máquina de debotasse, o que, last but not least, também serviria às mil maravilhas para acentuar o carácter igualitário das gentes e do regime.

Se sempre tinha dado uma boa quota-parte de razão a Marx quando este afirmava que o económico é determinante em última instância, esta constatação veio corroborar dessa minha quase certeza: eis senão quando, algo que tinha apenas que ver, na sua origem, com questões de racionalização da produção - um pouco como uma lição tardia aprendida da corriqueira história do modelo “T” de Henry Ford - se tinha rapidamente transformado em bandeira ideológica e de agitada pertença de classe. Por mim, se o BE se quisesse mesmo afirmar na sua essência como pós-moderno, bem mais gostaria de ver Louçã e companheiros de cores e trajes bem garridos, multicolores e até um pouco ousados, bem ao espírito gay pride ou do saudoso flower power. Caso contrário, isto é, caso insistam nas suas actuais cores insípidas, não me parece a sua conversão ideológica possa ser levada demasiado “à séria”. Haverá, no "Bloco", sempre uma RDA de má memória que espera por nós...

quinta-feira, maio 21, 2009

O "Bloco" e os "dress codes".

De cada vez que se fala na adopção de um qualquer “dress code” o “Bloco de Esquerda” reage como vampiro que viu alhos, ou como qualquer cura de aldeia perante criança “possessa”, t‘arrenego Satanás. Ele foi na Loja do Cidadão de Faro e, no caso último de uma qualquer escola, o assunto chegou mesmo a assumir foros políticos que o levaram a ser debatido na Assembleia da República, tal como crime de lesa-pátria se tratasse e uma escola, dentro dos limites da legalidade, do bom senso e dos usos e costumes da época, não pudesse ter autonomia para determinar que alunas e alunos não se poderiam apresentar-se vestidos como quem vai para a praia, para um "rave-party", para um jogo de futebol ou curtir uma de sexo na boa. A escola não pode mesmo ser o lugar sisudo das minhas infância e adolescência, mas é um lugar de estudo e aprendizagem (também de aprendizagem dos códigos e valores da sociedade) que se deve querer ver reflectido num ambiente geral de descontração, sim, mas também de sobriedade e seriedade que favoreça, e não contribua para fazer esquecer, a prossecução do seu objectivo último. Também de convívio e socialização, mas este enquadrado, claro está, naqueles que são os seus valores básicos de preparação para uma vida que consagra direitos, mas também impõe regras e deveres. Códigos!

O mais estranho disto tudo é que se olharmos para a bancada no Bloco de Esquerda na Assembleia da República, e também para outros dos seus dirigentes excepção feita a alguns do sexo feminino, deparamos com aquilo que parece ser um “dress code” estrito e monocórdico: na ausência de gravata em qualquer situação; nas cores do vestuário sempre oscilando entre uns “beije” que parecem ter sido indevidamente adquiridos na máquina de lavar, uns verdes do tipo camuflado militar e uns castanhos e cinzentos um pouco desbotados que tingem uns fatos que parecem ter pertencido ao irmão mais gordo; naquele 2º botãozinho da camisa sempre apertado a sentir saudades do primeiro e da gravata que nunca usam. Daqui que se depreende facilmente que o problema do “Bloco” poderá não ser com os “dress codes”, com algumas práticas sociais que teimam em ser pouco libertárias, mas com a adopção de comportamentos diversos daquele que determinaram como sendo o seu estilo e gosto. Oficial, pois claro!

Bom, posto isso que mais posso dizer em jeito de moral da história, que todas elas a devem ter mesmo que não em jeito de fábula? Apenas isto: no dia em que eu vir na bancada do “Bloco” alguém vestido com o bom gosto inglês e aristocrático de um Paulo Portas, o “panache” europeu continental de José Sócrates, a sóbria elegância de executiva de Manuela Ferreira Leite ou o alegre contraste de gravata encarnada e fato azul escuro de Jerónimo de Sousa, ostentado com o orgulho da classe operária a que pertence, acho poderei finalmente acreditar que o “Bloco” optou pela pluralidade e não pelo monocromatismo, pelo campo libertário em vez do da moral repressiva e, para o partido, a questão dos “dress codes” passou finalmente do campo da religiosidade a algo tão mais comezinho como os usos e costumes de cada um. A acontecer, não deixarei de saudar tal evento, está bem de ver.

sexta-feira, abril 10, 2009

Ainda os "dress codes": o bom exemplo da Loja do Cidadão

Na maioria das grandes organizações – quando não exista a obrigatoriedade de uso de farda - existem “dress codes”, escritos ou não, explícitos ou tácitos, que tentam normalizar a imagem da organização internamente e para o exterior e dependem da sua “cultura” e tradições, da área de negócio ou actuação, do local onde se encontram as suas instalações (neste ponto, esse “dress code” pode mesmo variar dentro de uma mesma organização), do tipo de funções (por exemplo, ter ou não contacto com o público e/ou clientes), do acontecimento (pode não ser o mesmo para o trabalho interno e para quando exista necessidade de reuniões com o exterior), até do clima e dos dias da semana... Mais ainda, existe frequentemente, para além desse “dress code”, um código de conduta que, como o próprio nome indica, define os comportamentos que os colaboradores, sejam eles o director-geral ou o porteiro, devem assumir nas diversas situações, desde o modo de atender do telefone ao modo de se apresentarem em público.

Inclusivamente, naquelas organizações cujas instalações são múltiplas e se distribuem geograficamente por um ou vários países e onde existe o hábito de se efectuarem reuniões periódicas com todos esses colaboradores, é habitual, com o programa de viagem, de trabalho e social, indicar-se o “dress code” aconselhado para cada ocasião, desde o “smoking”, “fato escuro” e “fato e gravata”, até ao informal e informal elegante (“smart casual”), passando pelo intermédio “casaco e gravata”. Tudo isto tem por função conferir uma certa “unidade” ao grupo, evitar que quem não conheça tão bem as regras de etiqueta ou venha de uma região onde elas sejam diferentes se sinta deslocado, contribuir para que se gerem menos equívocos e embaraços. Também, claro, algumas indicações sobre os hábitos mais comuns do país onde se efectua a reunião, com o objectivo de se evitarem mal entendidos ou atitudes consideradas ofensivas para a cultura e hábitos locais.

No caso de funcionários que tenham contacto com o público, o “dress code”, normalmente sóbrio e tanto quanto possível elegante ou normalizado com recurso a farda, acentua uma imagem de seriedade e evita que se possam ferir susceptibilidades naqueles com quem se contacta: brancos, pretos e mestiços; portugueses ou estrangeiros; católicos, hindus ou muçulmanos; ricos ou pobres; bem ou mal nascidos; cultos ou analfabetos; da cidade ou da província. Um pouco como a tão mal afamada comida dos aviões, normalmente pouco condimentada e sensaborona para que, independentemente de existirem opções vegetarianas ou kosher, seja “tragável” pela grande maioria, evitando reclamações e problemas.

Que algo deste tipo, que se pretende implementar numa loja destinada a servir os cidadãos, visitantes e imigrantes que acolhemos e que sempre tem sido apontada – e bem – como um caso de sucesso, possa ser considerado como notícia relevante para os “media”, objecto de comentários chocarreiros para certos comentadores, apenas revela o provincianismo e atraso civilizacional ainda característicos da sociedade portuguesa e o estado deprimente, direi mesmo alarve, a que terá chegado a cena mediática.

Poupem-nos!

"Dress codes", uma vez mais

A propósito desta notícia, algo que aqui escrevi a 12 de Maio de 2008:
"Os dress codes estão, hoje em dia, bastante aligeirados, mas independentemente de questões práticas (não dá jeito nenhum ir para a praia de fato e gravata ou jogar ténis de sobretudo), eles têm permitido, ao longo dos anos, marcar a importância e solenidade dos acontecimentos.
Vestimo-nos de modo mais formal para um casamento ou um enterro, por exemplo, porque são considerados, cada um de seu modo, acontecimentos únicos e solenes, e o próprio traje utilizado contribui para essa solenidade, conferindo-lhe, inclusivamente, um mood and tone adequado. Vestimos fato e gravata para trabalhar em certas profissões, porque estamos num terreno de relações formais, mas se essa profissão se exercer numa área onde o relacionamento é mais informal (nas áreas “criativas”, por exemplo) o nosso dress code acompanha essa maior informalidade, dispensando o fato completo e gravata. Do mesmo modo, o dress code é mais conservador e formal na banca e na advocacia, porque estamos em terrenos tradicionalmente considerados mais “sérios”, onde os negócios têm a ver com o dinheiro e a liberdade (ou a sua restrição) e onde, por isso mesmo, devemos inspirar confiança e “solidez” e não “ir com a moda do momento”.
Noutra vertente, é um valor assumido que a solenidade dos acontecimentos aumenta com o decorrer do dia. Por isso, em termos gerais, é comum um dress code mais formal para um jantar do que para um almoço, o mesmo acontecendo para uma festa à noite se comparada com um cocktail ao fim da tarde.

Tendo dito isto, e mesmo correndo o risco de me chamarem conservador ou elitista, até talvez arrogante que é o pior insulto que pode vitimizar um português, alguém me explica porque fui hoje atendido na Repartição de Finanças aqui do bairro por um funcionário de jeans? Eficiente, até mesmo simpático e colaborante, mas envergando uma muito proletária camisa aos quadrados e um algo coçado par de jeans? Será assim tão difícil, já não digo exigir fato e gravata, um casaquito de tweed, vá lá, que os há a preço bem módico, pedir aos senhores das Finanças que, se não se importarem, deixem os jeans para os seus fins de semana em família, com sogra, canário e cão?
Pois é, eu sei, sou isso tudo que disse e ainda por cima um empedernido reaccionário. Um careta, claro! Mas, humilde contribuinte, quer queiram quer não, não vou tratar de assuntos com o fisco vestindo um par... de jeans! Dignidade e respeito por quem me cobra e representa: o Estado... Importam-se de retribuir?"

terça-feira, setembro 16, 2008

O discurso do PR no Supremo Tribunal

A propósito do discurso do Presidente da República na cerimónia comemorativa dos 175 anos do Supremo Tribunal de Justiça, que subscrevo top to bottom sem qualquer hesitação, repito um post recente e bem a propósito, publicado no dia 3 de Setembro último.

"Por alguma razão os julgamentos adoptam um certo ritual e não se realizam, por exemplo, sentando todos os intervenientes à volta de uma mesa redonda, cada um pedindo a palavra quando lhe aprouver. A disposição da sala está sujeita a um planeamento pré-definido, concedendo aos juizes, que administram a justiça em nome do Estado, única entidade que o pode fazer, um lugar de proeminência face a todos os outros intervenientes; sujeitando estes e advogados a um dress code específico (“toga” e “”beca”); todos os presentes a um grau elevado de decoro e respeito, que vai desde as formas de tratamento à ocasião própria para usar da palavra passando pela atitude de respeito, levantando-se, quando se inicia e encerra a sessão com a entrada e saída dos juizes, etc, etc. Tudo isto não acontece por acaso ou meramente por tradição, mas no sentido de conceder solenidade a um acto em que o Estado administra justiça em nome de todos os cidadãos, podendo dispor, em nome desses mesmos cidadãos, de todos nós, do indivíduo, da sua liberdade, do seu património, julgando da licitude ou ilicitude dos actos praticados.

Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.

Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?

Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham."

quarta-feira, setembro 03, 2008

Juizes, jornalistas, rituais e normas

Por alguma razão os julgamentos adoptam um certo ritual e não se realizam, por exemplo, sentando todos os intervenientes à volta de uma mesa redonda, cada um pedindo a palavra quando lhe aprouver. A disposição da sala está sujeita a um planeamento pré-definido, concedendo aos juizes, que administram a justiça em nome do Estado, única entidade que o pode fazer, um lugar de proeminência face a todos os outros intervenientes; sujeitando estes e advogados a um dress code específico (“toga” e “”beca”); todos os presentes a um grau elevado de decoro e respeito, que vai desde as formas de tratamento à ocasião própria para usar da palavra passando pela atitude de respeito, levantando-se, quando se inicia e encerra a sessão com a entrada e saída dos juizes, etc, etc. Tudo isto não acontece por acaso ou meramente por tradição, mas no sentido de conceder solenidade a um acto em que o Estado administra justiça em nome de todos os cidadãos, podendo dispor, em nome desses mesmos cidadãos, de todos nós, do indivíduo, da sua liberdade, do seu património, julgando da licitude ou ilicitude dos actos praticados.

Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.

Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?

Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham.

segunda-feira, maio 12, 2008

"Dress codes" e as Finanças cá do bairro

Aqui há uns tempos escrevi isto sobre a questão dos Dress Codes.
"Os dress codes estão, hoje em dia, bastante aligeirados, mas independentemente de questões práticas (não dá jeito nenhum ir para a praia de fato e gravata ou jogar ténis de sobretudo), eles têm permitido, ao longo dos anos, marcar a importância e solenidade dos acontecimentos. Vestimo-nos de modo mais formal para um casamento ou um enterro, por exemplo, porque são considerados, cada um de seu modo, acontecimentos únicos e solenes, e o próprio traje utilizado contribui para essa solenidade, conferindo-lhe, inclusivamente, um mood and tone adequado. Vestimos fato e gravata para trabalhar, em certas profissões, porque estamos num terreno de relações formais, mas se essa profissão se exercer numa área onde o relacionamento é mais informal (nas áreas “criativas”, por exemplo) o nosso dress code acompanha essa maior informalidade, dispensando o fato completo e gravata. Do mesmo modo, o dress code é mais conservador e formal na banca e na advocacia, porque estamos em terrenos tradicionalmente considerados mais “sérios”, onde os negócios têm a ver com o dinheiro e a liberdade (ou a sua restrição) e onde, por isso, devemos inspirar confiança e “solidez” e não “ir com a moda do momento”. Noutra vertente, é um valor assumido que a solenidade dos acontecimentos aumenta com o decorrer do dia, por isso, em termos gerais, é comum um dress code mais formal para um jantar do que para um almoço, o mesmo acontecendo para uma festa à noite se comparada com um cocktail ao fim da tarde."
Tendo dito isto, e mesmo correndo o risco de me chamarem conservador ou elitista, até talvez arrogante que é o pior insulto que pode vitimizar um português, alguém me explica porque fui hoje atendido na Repartição de Finanças aqui do bairro por um funcionário de jeans? Eficiente, até mesmo simpático e colaborante, mas envergando uma muito proletária camisa aos quadrados e um algo coçado par de jeans? Será assim tão difícil, já não digo exigir fato e gravata, um casaquito de tweed, vá lá, que os há a preço bem módico, pedir aos senhores das Finanças que, se não se importarem, deixem os jeans para os seus fins de semana em família, com sogra, canário e cão? Pois é, eu sei, sou isso tudo que disse e ainda por cima um empedernido reaccionário. Um careta, claro! Mas, humilde contribuinte, quer queiram quer não, não vou tratar de assuntos com o fisco... de jeans! Dignidade e respeito por quem me cobra e representa: o Estado... Importam-se de retribuir?

quinta-feira, abril 03, 2008

Juizes

Em Portugal, qualquer acontecimento, qualquer afirmação ou decisão, mesmo quando, segundo o bom senso mais evidente, aparentaria ser de aceitação tácita e consensual, serve de pretexto para infindáveis discussões sobre si próprias e o seu contrário ou, até, no limite, sobre o mais profundo sentido de toda a vida.

Como prova, hoje de manhã o Fórum TSF resolveu questionar os portugueses sobre a decisão do Conselho Superior da Magistratura de não permitir aos juizes comentários públicos sobre as decisões e acordãos dos seus pares, algo que, perante o que se passou nos últimos casos mais mediáticos (Mc Cann, Casa Pia, etc), deveria ser de um linear entendimento, evitando que dos juizes florescessem, repentinamente, uma plêiade de Moitas Flores de toga. É que, para memória futura, já me bastou um juiz de T-shirt e ténis saltitando no passeio, alegremente, a caminho do ginásio na sua hora de almoço. Mesmo que à hora de almoço, mas num dia de trabalho, terá ele ouvido alguma vez falar em dress code?

sexta-feira, março 21, 2008

Indisciplina na escola e comportamentos sociais

Tentação fácil responsabilizar a política “facilitista” do Ministério da Educação, nos últimos decénios, pelo clima de indisciplina e violência nas escolas. Tentação fácil responsabilizar os professores e a sua má ou inexistente preparação pela incapacidade de lidar com ela. Tentação também fácil apelar ao regresso impossível de uma disciplina “pura e dura”, do “antigamente é que era”, como solução para o problema. Significa isto que o Ministério e a dita política “facilitista”, os professores e a sua incompetência fruto de uma preparação inexistente, não terão a sua quota parte de responsabilidade neste estado de coisas? Claro que têm. Significa isto que regras mais rígidas de disciplina (por exemplo, deixar o telemóvel identificado em local apropriado à entrada de cada aula) não serão indispensáveis e bem vindas? Claro que sim. Mas a questão é um pouco mais funda e assim deve ser analisada.

Quando eu andava no Liceu os liceus eram frequentados por uma elite (a não-elite ficava na 4ª classe ou ia para a Escola Técnica) e os professores constituíam, eles próprios, uma outra elite respeitada enquanto tal. Era por isso relativamente fácil manter alguma disciplina nas escolas, já que ela era, em certa medida e variando de família para família, um prolongamento como que natural dos valores de ordem e disciplina, de “respeito”, vigentes na sociedade, mesmo para quem nasceu, cresceu e viveu numa família relativamente liberal, como foi o meu caso. Para além das saudáveis manifestações de irreverência e rebeldia, tanto no Liceu como em casa, era absolutamente natural os alunos levantarem-se quando entrava o professor, porque também em casa, na maioria das famílias, nos levantávamos quando chegava ou cumprimentávamos alguém mais velho. Era também natural ir de gravata para o liceu (em alguns liceus isso era obrigatório), pois esse era o dress code habitual fora do período de brincadeira, quer fosse para ir “à baixa”, ter com o pai ao escritório ou até ao cinema. Não era nada forçado pedir ao professor licença para entrar na sala de aula, se também pedíamos aos mais velhos para nos levantarmos da mesa no final do jantar. Para os professores a questão era igualmente fácil de gerir, pois também eles provinham da mesma elite que formava o grupo de alunos e, enquanto tal, eram respeitados de acordo com os valores vigentes na época. A ditadura “ajudava”, claro, mas, com ou sem ela, estes eram os padrões de comportamento, que só começaram a alterar-se, lenta e conroladamente, na segunda metade dos anos sessenta. A Escola, o Liceu, não estava, como não poderia nunca estar, desfasada daquilo que era a sociedade de então, pelo menos da sociedade que a frequentava e constituía.

A democratização da Escola, ajudada pela democratização e massificação da sociedade (o fim da sociedade de classes, estanque como a conhecíamos) alterou todo este estado de coisas, do lado dos alunos e do lado dos professores. Mesmo sem a desautorização destes e o “facilitismo” das políticas do Ministério (que são e foram reais), como explicar e fazer aceitar por um aluno, sem que este se sinta demasiado violentado nos seus valores e direitos, sem que este considere a sua imposição como uma arbitrariedade, determinadas regras de conduta que ele nunca seguiu na sua vida fora da escola e que lhe são completamente estranhas, e até anómalas, no seu dia a dia na família e no “bairro”? Como explicar-lhe que não deve usar boné ou capuz na sala de aula se isso é comum na sua casa e no seu ambiente familiar? Como explicar que não pode usar o seu telemóvel na mesma sala de aula se, provavelmente, o faz permanentemente durante as refeições em família – se é que, eventualmente, algo de semelhante existe na sua em casa – ou se fecha no quarto horas a fio a enviar SMS’s ou numa sala de chat? Como incutir-lhe códigos de linguagem que não são habitualmente os seus, deles diferindo dramaticamente? Mais ainda, como conseguir tudo isto através de professores que, também eles, se proletarizaram e para os quais muitos destes valores, se não estranhos, são, pelo menos, práticas pouco comuns e habituais na sua vida fora da escola, nas suas famílias? Para quê maçarem-se muito se, muitos deles, já escolheram o ensino porque assumiram, à partida, a sua incapacidade ou desinteresse perante a competitividade a que seriam obrigados numa outra profissão, no “mundo exterior”? Mais uma vez, a Escola não pode constituir - porque não só “não pode” como isso não é possível de acontecer - algo de exterior à sociedade que a compõe e onde se insere, onde vivem os seus agentes, alunos, professores e funcionários.

Significa isto “atirar a toalha” e capitular perante este estado de coisas? Claro que não, e é absolutamente necessário, de imediato, definir e fazer cumprir um plano de crise que inclua algumas regras básicas de comportamento, até porque, para além da questão do aproveitamento escolar, isso é indispensável ao papel da Escola como instituição integradora na sociedade. Mas a sua resolução global e de fundo parece-me ser bem mais complicada do que o simples regresso à “boa ordem” do antigamente, por muitos demagogicamente agitada como panaceia para todos os males do mundo.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

"Trivia": "dress code" e "teleponto"

Falta de assunto sério, dediquemo-nos a trivialidades, antes que corra o risco de falar de assuntos tão importantes como o dos “grandes portugueses” da Srª D. Elisa, que, pelo vistos, ocupa a mente e os bites de muitos portugueses cultos e ilustres.

Pois no “Público” de hoje (não "linkável", claro), Rui Ramos escreve sobre o QREN. Mas não, não é essa a trivialidade de que vou falar, até porque não só não o é como subscrevo, na generalidade – mais “coisa” menos “coisa” -, o que RR diz sobre o assunto. Vou, isso sim, falar de dress codes e “telepontos”. Trivialidades, pois claro, reconheço-o perfeitamente. E que têm RR e o QREN a ver com tudo isto? Bom... é que RR começa hoje assim o seu artigo: ...”O primeiro-ministro põe o seu melhor fato e o seu melhor “teleponto”, blá, blá blá...” e isso traz-me à memória não só que os portugueses escarnecem, em geral, dos dress codes como também o uso de teleponto, por parte de José Sócrates, foi repetidamente glosado em termos jocosos por uma boa parte da comunicação social, pelo menos no início do seu mandato. E mal! Ou seja, nem os portugueses têm razões para escarnecer dos dress codes nem a comunicação social para "gozar" com a utilização do “teleponto” por parte de José Sócrates. Ora senão vejamos, e vamos por partes.

Os dress codes estão, hoje em dia, bastante aligeirados, mas independentemente de questões práticas (não dá jeito nenhum ir para a praia de fato e gravata ou jogar ténis de sobretudo), eles têm permitido, ao longo dos anos, marcar a importância e solenidade dos acontecimentos. Vestimo-nos de modo mais formal para um casamento ou um enterro, por exemplo, porque são considerados, cada um de seu modo, acontecimentos únicos e solenes, e o próprio traje utilizado contribui para essa solenidade, conferindo-lhe, inclusivamente, um mood and tone adequados. Vestimos fato e gravata para trabalhar, em certas profissões, porque estamos num terreno de relações formais, mas se essa profissão se exercer numa área onde o relacionamento é mais informal (nas áreas “criativas”, por exemplo) o nosso dress code acompanha essa maior informalidade, dispensando o fato completo e gravata. Do mesmo modo, o dress code é mais conservador, e formal, na banca e na advocacia, porque estamos em terrenos tradicionalmente considerados mais “sérios”, onde os negócios têm a ver com o dinheiro e a liberdade (ou a sua restrição) e onde, por isso, devemos inspirar confiança e “solidez” e não “ir com a moda do momento”. Noutra vertente, é um valor assumido que a solenidade dos acontecimentos aumenta com o decorrer do dia, por isso, em termos gerais, é comum um dress code mais formal para um jantar do que para um almoço, o mesmo acontecendo para uma festa à noite se comparada com um cocktail ao fim da tarde. Isto são as questões de base que permitem entender os dress codes, não sendo aqui tempo e local para aprofundamentos e detalhes. Mas, voltando ao primeiro-ministro, se vestiu o seu melhor fato para a apresentação do QREN, fez muito bem, pois embora eu também duvide da eficácia do “dito” QREN, tratou-se seguramente de um momento importante para o governo e para o país.

Quanto ao “teleponto”, ele não é - longe disso - um método “para enganar o pagode”, fingindo que se fala de improviso quando, na realidade, se está a ler. Ou uma manifestação de impotência oratória. O “teleponto” permite, isso sim, que se fale com o rigor conferido por um texto, que está escrito, olhando de frente o público a quem nos dirigimos, o que aumenta a eficácia da comunicação. Permite, também, com alguma facilidade e pouco treino, combinar eficazmente o “à vontade” de um improviso com o rigor de um texto, melhorando assim a comunicação, e facilita a ligação dessa intervenção com a utilização de outros meios audiovisuais (música, slides, filmes, etc). Antes da sua existência e vulgarização, no “dia a dia”, a alternativa era ler um texto ou falar de improviso. No primeiro caso havia a tendência para o discurso; no segundo, ficava-se demasiado na dependência das qualidades de cada um, enquanto orador, e como o melhor improviso é o que foi bem treinado, do tempo disponível para as exercitar.

Dress code e “teleponto” têm assim algo em comum: ambos contribuem para conferir algum rigor e método à nossa vida, algo que, pelos vistos, não agrada lá muito a outros tantos portugueses.