Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
quarta-feira, abril 25, 2012
Os cravos e o governo
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (6). "Fraque" e camisa
terça-feira, julho 19, 2011
Ainda o "dress code" da UC
sábado, junho 25, 2011
"Económica" ou "executiva"? Uma questão política
- As viagens oficiais de membros do governo assumem sempre um carácter de representação de Estado. É por essa mesma razão - de dignidade de representação - que as viaturas oficiais dos membros do governo são carros com um certo estatuto, pintados de cor sóbria, e não Fiats Punto ou descapotáveis pintados de cor de rosa ou "azul cueca"; que existe um "dress code" determinado para o seu trabalho diário e actos oficiais; que não se serve "Porta da Ravessa" ou Teobar nas refeições oficiais e assim sucessivamente. Enfim, que existe uma certa coisa que dá pelo nome de "protocolo de Estado". Já agora, não sei se viajando em "económica" os membros do governo também terão de abdicar dos "batedores", da sala VIP da Portela, do "executive lounge", terão de esperar pela bagagem ou irem para a "bicha" no "check in" se o não fizeram na "net.
- Para não falar dos membros de governos de outros Estados-membros da UE - que obviamente viajam em "executiva" - a grande maioria dos executivos, directores e administradores das principais empresas viajam em classe executiva, o que coloca os membros do governo numa posição de inaceitável subalternidade perante eles.
- Mesmo na Europa, em voos de relativa curta duração, as viagens são frequentemente aproveitadas para trabalhar (consultar relatórios, trocar impressões, preparar reuniões futuras, etc). Só quem nunca viajou poderá ser de opinião que tal é possível na balbúrdia da "económica".
- Por muito que seja impopular dizê-lo, os membros do governo trabalham muito e têm agendas carregadas. Uma viagem, por muito curta que seja (duas ou três horas), pode muitas vezes ser aproveitada para uns minutos de descanso e descontração, uma refeição, leitura da imprensa, etc. Afigura-se difícil tais tarefas possam ser realizadas numa classe económica a abarrotar.
- Por último, e como aqui já afirmei, viajar em classe económica constitui uma inaceitável cedência à demagogia populista mais rasteira dominante nas opiniões expressas pelos sectores menos intruídos e mais retrógrados dos portugueses nos "fóruns de opinião" e nas caixas de comentários. Ora não é isso que espero de um governo democrático de um país civilizado. Pelo contrário: espero elevação e bom senso na escolha das políticas e uma atitude pedagógica no modo como são explicadas aos cidadãos.
terça-feira, setembro 15, 2009
"Gato Fedorento": um José Sócrates sem "panache"
E que poderia eu então exigir a José Sócrates? Bom, algum sentido de humor, uma dose certa de ironia, um mínimo de "panache", até talvez mesmo, aqui e ali, conseguisse chegar a ser um pouco cáustico. No fundo, que não estivesse tanto na defensiva; que, sem perder pose de estado, percebesse que estava num programa de humor – onde era um dos participantes – e não, qual "Vasquinho da anatomia", sujeito a um qualquer exame oral do qual, se tudo decorresse com normalidade e se portasse como vem nos livros, sairia com um suspiro de alívio e a estafada frase “vamos embora Bobby que já enganámos mais estes...”
Por exemplo - e para entrar nos casos concretos que ajudarão e entender o que digo - que tivesse tido o à vontade e grandeza de espirito suficientes para entrar no jogo quando Ricardo Araújo Pereira lhe pediu uma “cunha” para conseguir lugar para o carro. Aí, por exemplo, José Sócrates deveria ter aproveitado a "deixa" para brincar com a situação e as analogias a que se prestava, inclusivamente, fazendo em directo, e em tom de brincadeira, o pedido a Clara de Sousa, talvez mesmo usando de algum “charme” e fazendo reverter, com ironia e algum "non-sense", a situação a seu favor. No fundo, pedia-se a José Sócrates aquilo que ele e a maioria da sua geração de políticos não tem: uma certa concepção aristocrática do mundo e da política que não se adquire nas “jotas” mas vem do “berço”, do mundo, da cultura e da vida. Que o diga Mário Soares, não é assim?
É que o ar “à vontade” e descontraído não é só dado (muito longe disso!) por um “dress code” informal e uma pequena anedota ensaiada sobre Berlusconi. Há, muito para além disso, o “saber estar” em qualquer situação. José Sócrates não sabe (não soube), e quando o quer fazer soa a falso. Não terá talvez perdido votos, mas, sem que desse por isso e até pensando o contrário, também não terá ganho foros de estadista.
terça-feira, agosto 25, 2009
Da ideologia das cores: das bandeiras aos "dress codes"
Que as cores do vestuário tenham também esse significado, ou mesmo uma conotação de classe, era algo que desconhecia. Aqui há uns tempos, e a propósito de “dress-codes”, escrevi por aqui que achava curioso os homens do Bloco de Esquerda o assumissem (ao “”dress-code) de modo muito estrito: na permanente ausência de gravata; naquele segundo botão da camisa tão inesteticamente apertado. Mas, concluí, também naquela horrível paleta de cores oscilando entre o “beige” e o castanho, o cinzento e o verde azeitona, tudo muito pouco contrastante e a tresandar àquilo que a minha mãe denominaria de “encardido”. Percebi então que no PCP a paleta de cores pouco diferia, com excepção – honra lhe seja feita - daquela gravata berrante, de um encarnado bem proletário, ostentada orgulhosamente por um Jerónimo de Sousa com quem, divergências à parte, apetece ir ver o “glorioso”, beber umas imperiais” e petiscar uns carapaus de escabeche. Confesso, nunca percebi a razão para tais cores “encardidas”, até porque, durante muito tempo, mais propriamente até aos anos 60 do século XX, os burgueses da cidade e os operários das fábricas pouco variavam e se distinguiam na cor taciturna dos trajes (as distinções de vestuário eram outras), pertencendo aos camponeses ricos em festa o colorido dos cromos das “Raças Humanas” da minha infância.
Finalmente fez-se luz ao ler, em um dos últimos exemplares do “Público”, que algo que muito atraía os cidadãos da extinta RDA no ocidente, mais propriamente na RFA, era, para além dos sacrossantos jeans Levi’s, a variedade de cores vivas disponibilizadas no vestuário, algo inexistente do lado de lá do muro onde o colorido se limitava á tal paleta entre os “beige” e os castanhos, o “terra-sena” e o verde tropa. A questão, claro, nada tinha a ver com a ideologia, mas, isso sim, concluí utilizando uma linha de pensamento bem marxista, com questões económicas e de produção: na fabricação em série de uma economia planificada, seria bem mais económico produzir apenas meia dúzia de cores de cada peça e, por isso, tal como a comida dos aviões não é boa nem má mas apenas desenxabida para poder ser tragável por todos, o ideal era que as cores também o fossem, dando origem àqueles tons mais ou menos “encardidos”, como se toda a roupa fosse lavada em conjunto na máquina de debotasse, o que, last but not least, também serviria às mil maravilhas para acentuar o carácter igualitário das gentes e do regime.
Se sempre tinha dado uma boa quota-parte de razão a Marx quando este afirmava que o económico é determinante em última instância, esta constatação veio corroborar dessa minha quase certeza: eis senão quando, algo que tinha apenas que ver, na sua origem, com questões de racionalização da produção - um pouco como uma lição tardia aprendida da corriqueira história do modelo “T” de Henry Ford - se tinha rapidamente transformado em bandeira ideológica e de agitada pertença de classe. Por mim, se o BE se quisesse mesmo afirmar na sua essência como pós-moderno, bem mais gostaria de ver Louçã e companheiros de cores e trajes bem garridos, multicolores e até um pouco ousados, bem ao espírito gay pride ou do saudoso flower power. Caso contrário, isto é, caso insistam nas suas actuais cores insípidas, não me parece a sua conversão ideológica possa ser levada demasiado “à séria”. Haverá, no "Bloco", sempre uma RDA de má memória que espera por nós...
quinta-feira, maio 21, 2009
O "Bloco" e os "dress codes".
O mais estranho disto tudo é que se olharmos para a bancada no Bloco de Esquerda na Assembleia da República, e também para outros dos seus dirigentes excepção feita a alguns do sexo feminino, deparamos com aquilo que parece ser um “dress code” estrito e monocórdico: na ausência de gravata em qualquer situação; nas cores do vestuário sempre oscilando entre uns “beije” que parecem ter sido indevidamente adquiridos na máquina de lavar, uns verdes do tipo camuflado militar e uns castanhos e cinzentos um pouco desbotados que tingem uns fatos que parecem ter pertencido ao irmão mais gordo; naquele 2º botãozinho da camisa sempre apertado a sentir saudades do primeiro e da gravata que nunca usam. Daqui que se depreende facilmente que o problema do “Bloco” poderá não ser com os “dress codes”, com algumas práticas sociais que teimam em ser pouco libertárias, mas com a adopção de comportamentos diversos daquele que determinaram como sendo o seu estilo e gosto. Oficial, pois claro!
Bom, posto isso que mais posso dizer em jeito de moral da história, que todas elas a devem ter mesmo que não em jeito de fábula? Apenas isto: no dia em que eu vir na bancada do “Bloco” alguém vestido com o bom gosto inglês e aristocrático de um Paulo Portas, o “panache” europeu continental de José Sócrates, a sóbria elegância de executiva de Manuela Ferreira Leite ou o alegre contraste de gravata encarnada e fato azul escuro de Jerónimo de Sousa, ostentado com o orgulho da classe operária a que pertence, acho poderei finalmente acreditar que o “Bloco” optou pela pluralidade e não pelo monocromatismo, pelo campo libertário em vez do da moral repressiva e, para o partido, a questão dos “dress codes” passou finalmente do campo da religiosidade a algo tão mais comezinho como os usos e costumes de cada um. A acontecer, não deixarei de saudar tal evento, está bem de ver.
sexta-feira, abril 10, 2009
Ainda os "dress codes": o bom exemplo da Loja do Cidadão
Inclusivamente, naquelas organizações cujas instalações são múltiplas e se distribuem geograficamente por um ou vários países e onde existe o hábito de se efectuarem reuniões periódicas com todos esses colaboradores, é habitual, com o programa de viagem, de trabalho e social, indicar-se o “dress code” aconselhado para cada ocasião, desde o “smoking”, “fato escuro” e “fato e gravata”, até ao informal e informal elegante (“smart casual”), passando pelo intermédio “casaco e gravata”. Tudo isto tem por função conferir uma certa “unidade” ao grupo, evitar que quem não conheça tão bem as regras de etiqueta ou venha de uma região onde elas sejam diferentes se sinta deslocado, contribuir para que se gerem menos equívocos e embaraços. Também, claro, algumas indicações sobre os hábitos mais comuns do país onde se efectua a reunião, com o objectivo de se evitarem mal entendidos ou atitudes consideradas ofensivas para a cultura e hábitos locais.
No caso de funcionários que tenham contacto com o público, o “dress code”, normalmente sóbrio e tanto quanto possível elegante ou normalizado com recurso a farda, acentua uma imagem de seriedade e evita que se possam ferir susceptibilidades naqueles com quem se contacta: brancos, pretos e mestiços; portugueses ou estrangeiros; católicos, hindus ou muçulmanos; ricos ou pobres; bem ou mal nascidos; cultos ou analfabetos; da cidade ou da província. Um pouco como a tão mal afamada comida dos aviões, normalmente pouco condimentada e sensaborona para que, independentemente de existirem opções vegetarianas ou kosher, seja “tragável” pela grande maioria, evitando reclamações e problemas.
Que algo deste tipo, que se pretende implementar numa loja destinada a servir os cidadãos, visitantes e imigrantes que acolhemos e que sempre tem sido apontada – e bem – como um caso de sucesso, possa ser considerado como notícia relevante para os “media”, objecto de comentários chocarreiros para certos comentadores, apenas revela o provincianismo e atraso civilizacional ainda característicos da sociedade portuguesa e o estado deprimente, direi mesmo alarve, a que terá chegado a cena mediática.
Poupem-nos!
"Dress codes", uma vez mais
Tendo dito isto, e mesmo correndo o risco de me chamarem conservador ou elitista, até talvez arrogante que é o pior insulto que pode vitimizar um português, alguém me explica porque fui hoje atendido na Repartição de Finanças aqui do bairro por um funcionário de jeans? Eficiente, até mesmo simpático e colaborante, mas envergando uma muito proletária camisa aos quadrados e um algo coçado par de jeans? Será assim tão difícil, já não digo exigir fato e gravata, um casaquito de tweed, vá lá, que os há a preço bem módico, pedir aos senhores das Finanças que, se não se importarem, deixem os jeans para os seus fins de semana em família, com sogra, canário e cão?
terça-feira, setembro 16, 2008
O discurso do PR no Supremo Tribunal
A propósito do discurso do Presidente da República na cerimónia comemorativa dos 175 anos do Supremo Tribunal de Justiça, que subscrevo top to bottom sem qualquer hesitação, repito um post recente e bem a propósito, publicado no dia 3 de Setembro último.
"Por alguma razão os julgamentos adoptam um certo ritual e não se realizam, por exemplo, sentando todos os intervenientes à volta de uma mesa redonda, cada um pedindo a palavra quando lhe aprouver. A disposição da sala está sujeita a um planeamento pré-definido, concedendo aos juizes, que administram a justiça em nome do Estado, única entidade que o pode fazer, um lugar de proeminência face a todos os outros intervenientes; sujeitando estes e advogados a um dress code específico (“toga” e “”beca”); todos os presentes a um grau elevado de decoro e respeito, que vai desde as formas de tratamento à ocasião própria para usar da palavra passando pela atitude de respeito, levantando-se, quando se inicia e encerra a sessão com a entrada e saída dos juizes, etc, etc. Tudo isto não acontece por acaso ou meramente por tradição, mas no sentido de conceder solenidade a um acto em que o Estado administra justiça em nome de todos os cidadãos, podendo dispor, em nome desses mesmos cidadãos, de todos nós, do indivíduo, da sua liberdade, do seu património, julgando da licitude ou ilicitude dos actos praticados.
Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.
Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?
Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham."
quarta-feira, setembro 03, 2008
Juizes, jornalistas, rituais e normas
Por isso me interrogo - se queremos, enquanto cidadãos, que tudo o que acima descrevi tenha de facto um conteúdo (e eu acho que deve ter) e não se trate apenas de mero folclore justificado pela tradição – se, para lá da sala de um tribunal, estas normas, relativamente restritivas, que contribuem para conceder aos juizes a necessária respeitabilidade enquanto administradores da justiça em nome de todos nós e a necessária solenidade ao acto de julgar devem dar lugar a uma total ausência de regras acabando isso, na actual sociedade mediatizada, por anular ou minimizar o objectivo pretendido com a ritualização dos julgamentos.
Tudo isto, claro está, vem a propósito de algumas imagens que me foram ontem dadas a ver pelas televisões a propósito do caso Paulo Pedroso. A primeira pergunta será esta: deve um jornalista estar autorizado a perseguir um juiz (estou a falar de Rui Teixeira), de microfone em punho, á porta do tribunal ou em qualquer outro local? Deve este, ou qualquer outro juiz, estar autorizado a apresentar-se de "t-shirt", ténis, jeans e camisa desportiva aos quadrados durante o seu dia de trabalho (mesmo que na pausa para almoço) e não estar sujeitos a um dress code específico (fato e gravata, por exemplo)? Deve um juiz estar autorizado (estou neste caso a referir-me a Rui Rangel) a estar presente num estúdio de televisão comentando com o pivot de serviço o “tema do dia” (uma decisão de um tribunal) mesmo que sem se referir a casos concretos?
Sim, eu sei que vão dizer que se tratam apenas de pormenores, faits divers, se comparados com o facto dos juizes, orgão de soberania, terem o seu próprio sindicato e exporem publicamente as suas reivindicações. Certo. Mas... o rigor e a seriedade começam e acabam, na maioria das vezes, por se verem nas muito pequenas coisas. Perguntem, por favor, a Elizabeth II e ao pessoal do Palácio de Buckingham.
segunda-feira, maio 12, 2008
"Dress codes" e as Finanças cá do bairro
quinta-feira, abril 03, 2008
Juizes
Como prova, hoje de manhã o Fórum TSF resolveu questionar os portugueses sobre a decisão do Conselho Superior da Magistratura de não permitir aos juizes comentários públicos sobre as decisões e acordãos dos seus pares, algo que, perante o que se passou nos últimos casos mais mediáticos (Mc Cann, Casa Pia, etc), deveria ser de um linear entendimento, evitando que dos juizes florescessem, repentinamente, uma plêiade de Moitas Flores de toga. É que, para memória futura, já me bastou um juiz de T-shirt e ténis saltitando no passeio, alegremente, a caminho do ginásio na sua hora de almoço. Mesmo que à hora de almoço, mas num dia de trabalho, terá ele ouvido alguma vez falar em dress code?
sexta-feira, março 21, 2008
Indisciplina na escola e comportamentos sociais
Tentação fácil responsabilizar a política “facilitista” do Ministério da Educação, nos últimos decénios, pelo clima de indisciplina e violência nas escolas. Tentação fácil responsabilizar os professores e a sua má ou inexistente preparação pela incapacidade de lidar com ela. Tentação também fácil apelar ao regresso impossível de uma disciplina “pura e dura”, do “antigamente é que era”, como solução para o problema. Significa isto que o Ministério e a dita política “facilitista”, os professores e a sua incompetência fruto de uma preparação inexistente, não terão a sua quota parte de responsabilidade neste estado de coisas? Claro que têm. Significa isto que regras mais rígidas de disciplina (por exemplo, deixar o telemóvel identificado em local apropriado à entrada de cada aula) não serão indispensáveis e bem vindas? Claro que sim. Mas a questão é um pouco mais funda e assim deve ser analisada.
Quando eu andava no Liceu os liceus eram frequentados por uma elite (a não-elite ficava na 4ª classe ou ia para a Escola Técnica) e os professores constituíam, eles próprios, uma outra elite respeitada enquanto tal. Era por isso relativamente fácil manter alguma disciplina nas escolas, já que ela era, em certa medida e variando de família para família, um prolongamento como que natural dos valores de ordem e disciplina, de “respeito”, vigentes na sociedade, mesmo para quem nasceu, cresceu e viveu numa família relativamente liberal, como foi o meu caso. Para além das saudáveis manifestações de irreverência e rebeldia, tanto no Liceu como em casa, era absolutamente natural os alunos levantarem-se quando entrava o professor, porque também em casa, na maioria das famílias, nos levantávamos quando chegava ou cumprimentávamos alguém mais velho. Era também natural ir de gravata para o liceu (em alguns liceus isso era obrigatório), pois esse era o dress code habitual fora do período de brincadeira, quer fosse para ir “à baixa”, ter com o pai ao escritório ou até ao cinema. Não era nada forçado pedir ao professor licença para entrar na sala de aula, se também pedíamos aos mais velhos para nos levantarmos da mesa no final do jantar. Para os professores a questão era igualmente fácil de gerir, pois também eles provinham da mesma elite que formava o grupo de alunos e, enquanto tal, eram respeitados de acordo com os valores vigentes na época. A ditadura “ajudava”, claro, mas, com ou sem ela, estes eram os padrões de comportamento, que só começaram a alterar-se, lenta e conroladamente, na segunda metade dos anos sessenta. A Escola, o Liceu, não estava, como não poderia nunca estar, desfasada daquilo que era a sociedade de então, pelo menos da sociedade que a frequentava e constituía.
A democratização da Escola, ajudada pela democratização e massificação da sociedade (o fim da sociedade de classes, estanque como a conhecíamos) alterou todo este estado de coisas, do lado dos alunos e do lado dos professores. Mesmo sem a desautorização destes e o “facilitismo” das políticas do Ministério (que são e foram reais), como explicar e fazer aceitar por um aluno, sem que este se sinta demasiado violentado nos seus valores e direitos, sem que este considere a sua imposição como uma arbitrariedade, determinadas regras de conduta que ele nunca seguiu na sua vida fora da escola e que lhe são completamente estranhas, e até anómalas, no seu dia a dia na família e no “bairro”? Como explicar-lhe que não deve usar boné ou capuz na sala de aula se isso é comum na sua casa e no seu ambiente familiar? Como explicar que não pode usar o seu telemóvel na mesma sala de aula se, provavelmente, o faz permanentemente durante as refeições em família – se é que, eventualmente, algo de semelhante existe na sua em casa – ou se fecha no quarto horas a fio a enviar SMS’s ou numa sala de chat? Como incutir-lhe códigos de linguagem que não são habitualmente os seus, deles diferindo dramaticamente? Mais ainda, como conseguir tudo isto através de professores que, também eles, se proletarizaram e para os quais muitos destes valores, se não estranhos, são, pelo menos, práticas pouco comuns e habituais na sua vida fora da escola, nas suas famílias? Para quê maçarem-se muito se, muitos deles, já escolheram o ensino porque assumiram, à partida, a sua incapacidade ou desinteresse perante a competitividade a que seriam obrigados numa outra profissão, no “mundo exterior”? Mais uma vez, a Escola não pode constituir - porque não só “não pode” como isso não é possível de acontecer - algo de exterior à sociedade que a compõe e onde se insere, onde vivem os seus agentes, alunos, professores e funcionários.
Significa isto “atirar a toalha” e capitular perante este estado de coisas? Claro que não, e é absolutamente necessário, de imediato, definir e fazer cumprir um plano de crise que inclua algumas regras básicas de comportamento, até porque, para além da questão do aproveitamento escolar, isso é indispensável ao papel da Escola como instituição integradora na sociedade. Mas a sua resolução global e de fundo parece-me ser bem mais complicada do que o simples regresso à “boa ordem” do antigamente, por muitos demagogicamente agitada como panaceia para todos os males do mundo.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
"Trivia": "dress code" e "teleponto"
Pois no “Público” de hoje (não "linkável", claro), Rui Ramos escreve sobre o QREN. Mas não, não é essa a trivialidade de que vou falar, até porque não só não o é como subscrevo, na generalidade – mais “coisa” menos “coisa” -, o que RR diz sobre o assunto. Vou, isso sim, falar de dress codes e “telepontos”. Trivialidades, pois claro, reconheço-o perfeitamente. E que têm RR e o QREN a ver com tudo isto? Bom... é que RR começa hoje assim o seu artigo: ...”O primeiro-ministro põe o seu melhor fato e o seu melhor “teleponto”, blá, blá blá...” e isso traz-me à memória não só que os portugueses escarnecem, em geral, dos dress codes como também o uso de teleponto, por parte de José Sócrates, foi repetidamente glosado em termos jocosos por uma boa parte da comunicação social, pelo menos no início do seu mandato. E mal! Ou seja, nem os portugueses têm razões para escarnecer dos dress codes nem a comunicação social para "gozar" com a utilização do “teleponto” por parte de José Sócrates. Ora senão vejamos, e vamos por partes.
Os dress codes estão, hoje em dia, bastante aligeirados, mas independentemente de questões práticas (não dá jeito nenhum ir para a praia de fato e gravata ou jogar ténis de sobretudo), eles têm permitido, ao longo dos anos, marcar a importância e solenidade dos acontecimentos. Vestimo-nos de modo mais formal para um casamento ou um enterro, por exemplo, porque são considerados, cada um de seu modo, acontecimentos únicos e solenes, e o próprio traje utilizado contribui para essa solenidade, conferindo-lhe, inclusivamente, um mood and tone adequados. Vestimos fato e gravata para trabalhar, em certas profissões, porque estamos num terreno de relações formais, mas se essa profissão se exercer numa área onde o relacionamento é mais informal (nas áreas “criativas”, por exemplo) o nosso dress code acompanha essa maior informalidade, dispensando o fato completo e gravata. Do mesmo modo, o dress code é mais conservador, e formal, na banca e na advocacia, porque estamos em terrenos tradicionalmente considerados mais “sérios”, onde os negócios têm a ver com o dinheiro e a liberdade (ou a sua restrição) e onde, por isso, devemos inspirar confiança e “solidez” e não “ir com a moda do momento”. Noutra vertente, é um valor assumido que a solenidade dos acontecimentos aumenta com o decorrer do dia, por isso, em termos gerais, é comum um dress code mais formal para um jantar do que para um almoço, o mesmo acontecendo para uma festa à noite se comparada com um cocktail ao fim da tarde. Isto são as questões de base que permitem entender os dress codes, não sendo aqui tempo e local para aprofundamentos e detalhes. Mas, voltando ao primeiro-ministro, se vestiu o seu melhor fato para a apresentação do QREN, fez muito bem, pois embora eu também duvide da eficácia do “dito” QREN, tratou-se seguramente de um momento importante para o governo e para o país.
Quanto ao “teleponto”, ele não é - longe disso - um método “para enganar o pagode”, fingindo que se fala de improviso quando, na realidade, se está a ler. Ou uma manifestação de impotência oratória. O “teleponto” permite, isso sim, que se fale com o rigor conferido por um texto, que está escrito, olhando de frente o público a quem nos dirigimos, o que aumenta a eficácia da comunicação. Permite, também, com alguma facilidade e pouco treino, combinar eficazmente o “à vontade” de um improviso com o rigor de um texto, melhorando assim a comunicação, e facilita a ligação dessa intervenção com a utilização de outros meios audiovisuais (música, slides, filmes, etc). Antes da sua existência e vulgarização, no “dia a dia”, a alternativa era ler um texto ou falar de improviso. No primeiro caso havia a tendência para o discurso; no segundo, ficava-se demasiado na dependência das qualidades de cada um, enquanto orador, e como o melhor improviso é o que foi bem treinado, do tempo disponível para as exercitar.
Dress code e “teleponto” têm assim algo em comum: ambos contribuem para conferir algum rigor e método à nossa vida, algo que, pelos vistos, não agrada lá muito a outros tantos portugueses.