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quarta-feira, outubro 08, 2014

Desta vez vale a pena ler José Manuel Fernandes

Raramente estou de acordo com José Manuel Fernandes, um dos mais radicais defensores do actual governo e integrante da "vanguarda ideológica" que o colocou no poder e o sustenta. Mas tenho de reconhecer que JMF, desta vez, e de um modo geral, tem razão e põe o dedo na ferida; e a ferida é o eterno problema, este ano lectivo catastrófico, da colocação de professores. 

No que diz respeito a questões de educação, afasta-me de JMF, entre outras coisas, a questão fundamental da "soit disant" "liberdade de escolha". Mas quanto ao que aqui enuncia sobre a colocação de professores tem, de um modo geral, a minha concordância. Indispensável ler.

segunda-feira, abril 14, 2014

Para quem não me segue no "Twitter"

Para quem não é meu "amigo" no Facebook ou não me segue no Twitter, um "post" do saudoso João Pinto e Castro, de Agosto de 2004, sobre a "educação de excelência" dos tempos da ditadura, tão elogiada por Durão Barroso. Também fui episodicamente aluno do Liceu Camões, pelo que posso confirmar o que diz João Pinto e Castro, se tal fosse necessário.

quarta-feira, setembro 18, 2013

"Do you speak english" lá das docas, Mr. Crato?

Quem, como eu, fez a maior parte do seu percurso profissional em empresas multinacionais, habituou-se a conhecer bem dois problemas que afectam os trabalhadores portugueses, principalmente quadros médios, mas também quadros superiores e até alguns executivos, no seu relacionamento internacional, por comparação com os seus homólogos dos países do norte da Europa: menor fluência no inglês e dificuldade em expor, de modo claro e estruturado, as suas ideias em público. Por isso mesmo, saudei e achei de importância decisiva a introdução, com carácter obrigatório, do inglês no 1º ciclo do ensino básico, como medida indispensável para aumentar a competitividade das empresas e trabalhadores portugueses num mundo globalizado. Sou mesmo de opinião que o castelhano deveria tornar-se obrigatório nos 2º e 3º ciclos: digamos que quem for fluente em português, castelhano e inglês trabalha em qualquer empresa e em qualquer parte do mundo.

Exactamente por isso, foi sem surpresa (deste governo há que esperar tudo) mas com alguma raiva mal contida que tomei conhecimento do fim da obrigatoriedade do ensino do inglês no 1º ciclo, decretado pelo ministro Crato. Mas, no fundo, e pensando bem, trata-se de uma medida coerente: se o objectivo é "empobrecer" e reduzir salários como estratégia de competitividade empresarial, para que serve saber falar e escrever inglês, para além da meia dúzia de palavras, mal pronunciadas, necessárias para servir umas "imperiais" aos turistas ou "engatar umas bifas"? A pergunta que faço é, no entanto, mais séria: como é que os portugueses (trabalhadores, empresários, gestores) aceitam tudo isto sem um sobressalto cívico digno desse nome? Sem esse sobressalto cívico, e digo-o com tristeza, acabam por ter o que merecem.

quarta-feira, junho 05, 2013

Algumas perguntas sobre a gestão escola pública

Um "post" publicado neste "blog" no dia 19 de Maio de 2009 e que me parece vir agora, em tempo de luta sindical de professores, bem a propósito recuperar por quem, como eu, defende a escola pública.

  • "Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que os professores sejam avaliados pelos orgãos de gestão das escola e progridam na carreira de acordo com o seu desempenho medido por essa avaliação?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que os professores, dentro de certos parâmetros, ganhem em função do seu efectivo desempenho, mediante avaliação pela hierarquia competente?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que a nota de um curso, muitas vezes completado há 20, 30 ou 40 anos, juntamente com a antiguidade não sejam os únicos ou fundamentais critérios para a colocação de um professor?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que o valor das licenciaturas dos professores não seja todo ele idêntico, para uma mesma nota final de curso, mas ponderado em função do prestígio e grau de exigência da universidade onde se obteve essa licenciatura?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que um professor colocado numa escola em zona problemática ou responsável por uma turma com mais dificuldades de aprendizagem seja melhor remunerado do que um outro colocado numa zona urbana privilegiada ou leccionando turmas compostas maioritariamente por alunos oriundos da classe média?
  • Alguém me explica porque um professor de matemática, português ou inglês, disciplinas básicas na formação de um aluno e que normalmente exigem maior esforço didáctico e mais empenho, não possa ter melhores condições de remuneração do que um outro leccionando “Trabalhos Oficinais ou “Estudo do Meio”?
  • Alguém me explica porque se convencionou não ser de esquerda conceder maior autonomia às escolas na sua organização e na contratação dos seus docentes, desde que cumpridos certos padrões universais?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda pretender que, dentro de certos limites definidos pelo ministério da educação, uma escola, se o pretender, não possa ter um certo grau de liberdade na gestão do seu orçamento, inclusivamente remunerar ou formar melhor os seus recursos humanos ?
  • Alguém me explica porque não é de esquerda exigir que um professor, para além das suas funções pedagógicas (preparar e dar as aulas), tenha o seu papel obrigatório na melhoria da organização e desenvolvimento da estrutura escolar, incluindo ligação à comunidade e angariação de fundos junto desta de modo a permitir melhorar as condições oferecidas aos alunos?
  • Enfim, alguém me explica porque todas estas medidas, essenciais à melhoria da escola pública, objectivo que defendo e é suposto a esquerda também defender, são atacadas por sindicatos e partidos que se dizem de esquerda? Serão mesmo de esquerda?"

quinta-feira, maio 09, 2013

Exames do 4º ano: "stress" ou política?

Colocar o foco da oposição aos exames do 4º ano na "stress" que isso possa causar às crianças parece-me errado, e os defensores do governo nos "media" e na "blogosfera", já o tendo percebido, agarram-se à contestação de tal ideia, onde até podem ter alguma razão e recolher apoio popular, como lapa a rocha. Por algum "stress" que os exames possam causar, e não sendo eu pedopsiquiatra nem tendo conhecimentos relevantes sobre a matéria, não me parece tal seja de molde a originar, na generalidade, grandes problemas a alunos de nove anos, e não será também esse o sentimento dominante no país. Ao invés, a contestação devia estar focada, isso sim, na demonstração do facto de o país estar a alocar recursos e esforços a uma acção dirigida no sentido errado e que, por isso mesmo, nada contribui para a melhoria da formação e desenvolvimento das crianças e alunos. Essa, sim, é uma questão política, e como tal deveria ser ela  o centro da contestação ao populismo "cratista". Como muito bem o faz Daniel Oliveira.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

José Manuel Fernandes tenta comprar lã mas sai tosquiado

Tentando provar que em Portugal se gasta demasiado em educação com resultados medíocres, José Manuel Fernandes faz publicar hoje no "Blasfémias", sem quaisquer comentários, o "mapping" que acima reproduzo. Deixando de lado, por comodidade de raciocínio, embora esteja longe de ser irrelevante, o ponto de partida de cada país (Portugal no início do século XX tinha cerca de 85% de analfabetos), a condição socio-económica, muito diferente em cada país, e a evolução nos últimos anos (estamos perante uma análise estática), coisas determinantes mas pelas quais JMF passa como "cão por vinha vindimada" apenas porque tal não convém à tese que pretende demonstrar, saliento o seguinte: não sendo, com certeza, objectivo para o país passar para o quadrante "despesa reduzida com maus resultados", sendo o salto para o quadrante "despesa reduzida com bons resultados" um passo demasiado grande no curto-prazo, portanto impossível de realizar, cabe a Portugal fazer um esforço para conseguir "saltar" para o quadrante "despesa elevada com bons resultados", aquele que mais parece ao alcance do país, aumentando assim, por via da melhoria dos resultados conseguidos, a eficácia do seu investimento nesta área. Ora não só não me parece seja essa a política actualmente prosseguida pelo ministro Nuno Crato - e que JMF defende - como é fácil concluir, olhando para o passado recente, que terão sido, em termos gerais, as políticas e reformas tentadas e/ou implementadas no consulado de Maria de Lurdes Rodrigues as mais adequadas para que o país conseguisse dar esse salto. Infelizmente, por cedência ao conservadorismo sindical, foram interrompidas demasiado cedo e agora abandonadas e, em certos casos, revertidas por este governo.

quarta-feira, junho 20, 2012

"O passado é um país estrangeiro"

Entrei há pouco, para uma compra rápida, num daqueles cafés "de muita gente e ainda mais barulho" e de relance vi que a televisão transmitia um daqueles programas para "donas de casa" e viúvas com mais de oitenta anos. Não sei qual o canal, mas pareceu-me ver Manuel Luís Goucha. Pela "nota de rodapé" percebi também se discutia o "ensino de hoje e o de ontem", o que teve como consequência saísse ainda mais apressado. 

Dei por mim a pensar porque não se comparam com igual frequência, exaltando os mesmos valores do passado, a medicina de hoje e de ontem, a ciência "idem, idem", a qualidade de vida das crianças de hoje e no tempo da "revolução industrial, o saneamento básico nas cidades de hoje e no tempo do "lá vai água", etc, etc. Talvez porque nada evoque tanto a nossa juventude como a escola; talvez porque, no fundo, quem faz normalmente este tipo de comparações nas áreas do ensino, filtradas pelo olhar benigno com que se olha sempre a juventude, seja quem "no seu tempo" já tinha acesso aos seus escalões mais elevados, olhando com igual desvelo e culto para um passado privilegiado retratado nas séries de época da BBC onde se evidencia sempre o "glamour". Francamente, também sinto por vezes igual nostalgia por um colégio onde nos tratávamos pelos apelidos e as professoras da primária eram "senhoras donas"; um passado onde as "criadas" tratavam as "patroas" por "minha senhora" e traziam galinhas e coelhos da terra. Mas quando resvalo demasiado para a visão  nostálgica de um qualquer passado, próprio ou alheio, vivido ou imaginado, faço logo um esforço para me lembrar, como certeira e metaforicamente disse Woody Allen no seu "Midnight in Paris", que não existiam antibióticos. Pois...

quinta-feira, março 22, 2012

A avaliação das escolas

Diz o "Público" que na avaliação externa das escolas, no parâmetro "Liderança" 53.6% foram classificadas com "Bom" e 33.8% com "Muito Bom". Para quem é mau em contas, isto dá um total de 87.4% classificadas com "Bom" ou "Muito Bom". Acresce que 70% das escolas obtiveram a classificação de "Bom" no parâmetro "prestação do serviço educativo". Se isto correspondesse a qualquer realidade, estaríamos no melhor dos mundos, claro.

Espero a partir de agora todos percebam para que servem as quotas e aceitem que sem a sua introdução não existe qualquer possibilidade de uma avaliação honesta do que quer que seja.

quarta-feira, julho 20, 2011

Matemática e Português

Não sou nem nunca fui professor, e por isso a minha experiência didáctica é necessariamente muito limitada. Mas, apesar disso, interrogo-me sobre se a falta de aproveitamento nas disciplinas de matemática e português tem assim tanto que ver com o número de tempos lectivos das disciplinas em causa, e, por isso, se resolve com o aumento do número de horas lectivas das matérias, como decretou agora o ministro Nuno Crato retomando uma ideia que, tanto quanto julgo saber, já vem de Mª de Lurdes Rodrigues, se as suas origens são bem diferentes e diversas, devendo o problema ser encarado de forma mais abrangente, que integre ou não esse aumento da carga horária. Por mim, opinião de quase-leigo, ligo mais a falta de aproveitamento na disciplina de português à ausência de hábitos de leitura (nenhuma novidade, aqui) e na matemática ao facto de ser uma disciplina que, para além de um trabalho diário, sistemático e muitas vezes repetitivo, exige uma capacidade de concentração bem maior do que qualquer outra. Como isto se resolve? Integra tal resolução o aumento da carga horária e constitui esta elemento-chave? Francamente, não sei. Mas, muito mais do que decisões que me parecem mais ou menos avulsas embora caiam sempre bem, gostaria de conhecer qual a estratégia do governo para ajudar a resolver tal problema.

segunda-feira, junho 20, 2011

"Felizmente Há Luar" e os exames do 9º ano

"Felizmente Há Luar" é uma das boas peças de teatro do século XX português e constituiu também um mais importantes panfletos políticos da literatura portuguesa contra a ditadura de Salazar e Caetano. A pergunta que já tenho feito muitas vezes - e que repito - é se, estando o conteúdo da peça muito ligado a um período complexo da História de Portugal (pós-Guerra Peninsular e regência de Beresford, sendo também um género de pré-anúncio do liberalismo) e sendo Gomes Freire de Andrade personalidade que pode ser considerada controversa ("maçon" e combatente nas fileiras do exército napoleónico) os alunos do 9º ano (e respectivos professores de Português e História, acrescente-se) estarão minimamente preparados para entenderem o seu enquadramento e "mensagem". Tenho sérias dúvidas, mas seria uma boa oportunidade para aprenderem um pouco de História. A sério, não como no meu tempo. 

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

"Livre escolha"?

Uma pergunta aos defensores da “livre escolha” do estabelecimento de ensino: reportando-me apenas a Lisboa, como exemplo (é a cidade onde vivo e onde vive a maioria das pessoas das minhas relações), quantas famílias com rendimento suficiente para pagar um estabelecimento de ensino particular para os filhos conseguem efectivamente escolhê-lo? Já alguém que não tenha frequentado algum dos colégios mais emblemáticos de Lisboa ou não tenha uma “valente cunha” (“valente”, mesmo) conseguiu que os filhos fossem neles admitidos? Ou que não tenha ascendentes da nacionalidade ou venha do ensino estrangeiro conseguiu ser admitido no Liceu Francês, Colégio Alemão, Instituto Espanhol, etc, etc?

Pois...

sábado, julho 31, 2010

Chumbos...

Peço muita desculpa, mas devo ser o único português que não tem uma opinião formada sobre a questão dos “chumbos” no ensino: nunca fui professor e os meus conhecimentos pedagógicos julgo não serem suficientes para formar juízo abalizado. No entanto, diz-me o bom senso, essa coisa tão importante para o vulgar cidadão como o são as “little grey cells” para o belga Hercule Poirot, que talvez seja avisada e asisada a rejeição de duas posições radicais: aquela que defende, à semelhança do que acontecia nos meus já muito longínquos tempos de aluno do liceu nos tempos do ditador Salazar, que aluno com dificuldades é deixado a elas entregue e se não sabe “chumba” e acabou-se; e uma outra, que, de tão absurda, acredito nunca verdadeiramente tenha existido fora do arremesso político e da exploração mediática, que pretende “passa tudo minha gente”, ignorante ou não.

E se - perguntar-me-ão - para além da recusa destas posições radicais admito não ter opinião formada sobre o assunto, porque venho para aqui “mandar palpites” em vez de me remeter a um prudente e avisado silêncio? Por uma razão muito simples: espanta-me o populismo e a demagogia, a ligeireza de raciocínio e a ignorância com que um assunto tão sensível e complexo, que afecta directamente o presente e o futuro de milhões de portugueses e do próprio país, é tratado entre partidos políticos e cena mediática. Mais ainda: é que ao ler e ouvir a pobreza de raciocínio e argumentação, o primarismo dos defensores do “têm dificuldades, não sabem, chumbam”, o tal bom senso que acima invoquei quase me leva a concluir que as ministras Mª de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada até são bem capazes de ter razão...

quarta-feira, julho 21, 2010

Onde se demonstra que a lógica de Nicolau Santos é uma batata...

Ontem à noite, na SIC Notícias, Nicolau Santos salientava a injustiça que, segundo ele, constituía o facto de os cidadãos com maiores rendimentos acabarem por pagar duplamente saúde e educação: através dos seus impostos e dos custos de acesso ao ensino e cuidados de saúde privados, a que maioritariamente recorriam. Esquece, ou omite, Nicolau Santos alguns factos, como veremos de seguida.

  1. Em primeiro lugar, que os impostos têm uma função redistributiva, isto é, quando cada cidadão os paga não está apenas a financiar os serviços públicos a que, em média, se espera que aceda ao longo da sua vida, mas os de toda a sociedade e, principalmente, daqueles que auferem menores rendimentos e, por isso mesmo, com pouco ou nada podem contribuir para esse mesmo financiamento. É uma questão de solidariedade nacional.
  2. Em segundo lugar, que todos podem aceder aos serviços públicos disponibilizados, em iguais circunstâncias, e que preferir os serviços privados é apenas uma questão de opção, aliás legítima numa sociedade democrática e baseada na livre iniciativa. Pois, dir-me-ão, mas o ensino público e os cuidados de saúde disponibilizados pelo Estado são genericamente deficientes. Bom, essa está longe de ser uma verdade universal e insofismável, dependendo das circunstâncias: eu próprio, consoante essas mesmas circunstâncias, já recorri a ambos na educação dos meus filhos e nas poucas vezes em que, felizmente, tenho necessitado de alguns (também poucos) cuidados de saúde. Mas um outro exemplo. O Estado – e muito bem - subsidia largamente os transportes públicos com o dinheiro dos impostos de todos os portugueses. No entanto, um número significativo, senão mesmo uma maioria destes, desloca-se com frequência, na sua liberdade de escolha, utilizando transporte próprio privado. Alguém se lembra - Nicolau Santos, por exemplo - de aplicar aqui a mesma lógica? Claro que não, porque os transportes públicos, ao contrário do que sucede com o ensino e a saúde, não são (ainda?) sectores atractivos para o investimento privado.
  3. Mas ainda há mais... Partindo do principio - absurdo - de que o ensino público e os cuidados de saúde prestados pelo Estado são sempre, em quaisquer circunstâncias, maus ou, no mínimo, deficientes (já vimos que nem sempre isto corresponde à verdade), porque será que os sectores políticos onde Nicolau Santos se integra - aliás, numa espúria aliança com os "idiotas úteis" do PCP e BE - se revelaram sempre tão diligentes no ataque a quem, nos últimos anos, mais pugnou pela sua melhoria efectiva, reformando-os, racionalizando-os, reorganizando-os e libertando-os de custos excessivos e desnecessários? Sim, estou a falar de Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues, e a partir de agora talvez tudo fique bem mais claro.