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quinta-feira, dezembro 12, 2013

Da notoriedade mediática de Alexandre Soares dos Santos


Infelizmente, e apesar do desassombro - que saúdo - do artigo de Daniel Oliveira, a questão da enorme exposição mediática de alguém que, sendo um excelente empresário, é também um iletrado político, acumulando nesta área afirmações disparatadas, não se restringe ao crescimento dos extratos bancários dos jornalistas ou às oportunidades de carreira que um empresário como Soares dos Santos pode oferecer. Aliás, seria bem mais simples se assim fosse, embora saiba e admita tal terá o seu peso, não sendo, como o não são, os jornalistas "virgens vestais". O problema é mais vasto e tem a ver com o modo como a ideologia ultraliberal impregnou todo o pensamento político (?) e sobre a política - desvalorizando-os bem como ao papel do Estado - e fazendo, em sua substituição, das empresas e da sua gestão exemplos e modelos que apenas se tornaria necessário copiar e ampliar para a escala de um país e/ou de uma sociedade para que ambos pudessem ser tão bem sucedidos quanto um grupo empresarial. Assim sendo, nada como, sob a capa de um saber baseado no sucesso competitivo, dar voz política (repito: política) a empresários, apresentado-os e às suas propostas e soluções, credibilizadas por esse sucesso empresarial, como modelos que os países deveriam seguir e adoptar para que igual êxito lhes batesse à porta. O que dizem pode ser um "chorrilho" de disparates? Na maior parte dos casos é isso que acontece, mas como as afirmações servem  ou estão próximas do "pensamento dominante", lá estão jornalista e "meio" para lhe concederem a credibilidade necessária. Aliás, as analogias não se ficam por aqui e é frequente também assistirmos, principalmente quando se fala do chamado "ajustamento", à comparação entre as opções de natureza económica a tomar pelo Estado e pelas "famílias", em situações que nos são apresentadas como semelhantes, no que constitui mais um exemplo do pensamento redutor. Onde estão, neste e noutros casos, os arautos tão anti-igualitários" do "tratar de modo diferente o que é diferente? 

Concordando ou discordando do que escrevem e/ou do posicionamento político e ideológico de cada um deles, é o combate a esta "ideologia dominante", ao "pensamento único" de desvalorização e da autonomia da política, que se deve saudar em gente tão díspar nas suas ideias como o são, entre os comentadores, Daniel Oliveira, Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes e poucos mais; e, entre os políticos, retirados ou no activo, nomes como Mário Soares, Pacheco Pereira, Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite e Adriano Moreira, que lá vão fazendo um esforço para tornar o espaço mediático num lugar um pouco mais recomendável. Valha-nos isso e , no momento actual, convenhamos que já não é pouco.

quinta-feira, maio 09, 2013

Exames do 4º ano: "stress" ou política?

Colocar o foco da oposição aos exames do 4º ano na "stress" que isso possa causar às crianças parece-me errado, e os defensores do governo nos "media" e na "blogosfera", já o tendo percebido, agarram-se à contestação de tal ideia, onde até podem ter alguma razão e recolher apoio popular, como lapa a rocha. Por algum "stress" que os exames possam causar, e não sendo eu pedopsiquiatra nem tendo conhecimentos relevantes sobre a matéria, não me parece tal seja de molde a originar, na generalidade, grandes problemas a alunos de nove anos, e não será também esse o sentimento dominante no país. Ao invés, a contestação devia estar focada, isso sim, na demonstração do facto de o país estar a alocar recursos e esforços a uma acção dirigida no sentido errado e que, por isso mesmo, nada contribui para a melhoria da formação e desenvolvimento das crianças e alunos. Essa, sim, é uma questão política, e como tal deveria ser ela  o centro da contestação ao populismo "cratista". Como muito bem o faz Daniel Oliveira.

quinta-feira, abril 04, 2013

Daniel Oliveira e o voluntarismo da esquerda radical

Ontem, em acção de "zapping", dei com um tal canal Q, que confesso nem sabia que existia. Mas como vi por lá entrevistavam Daniel Oliveira, alguém que respeito, com quem estou frequentemente em desacordo, mas que sabe pensar e de quem me habituei a ouvir algumas coisas interessantes, deixei-me por lá ficar durante alguns minutos. O suficiente para ouvir Daniel de Oliveira, questionado sobre a impossibilidade de um acordo de governação entre o PS e os partidos à sua esquerda, fazer uma afirmação que se tornou um quase-dogma no Bloco de Esquerda, partido que Daniel abandonou há pouco. E diz esse quase-dogma que "a crescente degradação social tornará viáveis acontecimentos hoje em dia julgados impossíveis" (cito de modo livre). Ora estamos perante uma afirmação voluntarista e perigosa. Voluntarista porque faz dos desejos realidade, não tendo em conta a situação no terreno, a natureza do PCP e as relações de força existentes: nada nos leva a acreditar, apesar do desastre governativo, numa deterioração extrema da situação social que leve a uma agudização dos conflitos e a uma erupção da violência até ao ponto de colocar em causa o chamado "normal funcionamento das instituições". Perigosa porque joga tudo nessa mesma deterioração e explosão social, indesejáveis, pois apenas desse modo Daniel Oliveira vê possibilidade de transformar os seus desejos em realidade. No fundo, esta afirmação remete-me para o período do PREC, quando a extrema-esquerda era de opinião que a radicalização do processo revolucionário, das "massas", acabaria por subalternizar e ultrapassar "na rua" as posições reformistas e revisionistas do PC. Que raio!, já era tempo de terem memória e com ela aprenderem alguma coisa. 

segunda-feira, março 21, 2011

Daniel Oliveira, a "moral" e a "política"

Daniel Oliveira elenca no “Arrastão” as razões que tornam, segundo ele, a intervenção na Líbia diferente da que aconteceu no Iraque. Tudo bem: apesar das minhas enormes dúvidas sobre a possibilidade de se estabelecerem democracias nos norte de África e nos países árabes, não estou, em termos gerais, em desacordo frontal com o Daniel. Excepto numa coisa: quando ele afirma que “o apoio a uma acção que defenda os líbios da loucura de Kadhafi é uma obrigação moral e política”. Política? Enfim, compreendo e até não me custa aceitar. Agora, moral? É que de cada vez que vejo a “moral” - as razões "morais" - misturada com a “política” habituei-me a puxar logo pela pistola!

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O voluntarismo de Daniel Oliveira e um dos dramas da sociedade portuguesa


“Há uma forma de vencer o desespero: dar esperança. E para isso é preciso que as pessoas acreditem que há alternativas e que elas podem vencer. Ninguém se arrisca a troco de coisa nenhuma. Duas condições para que isso seja possível: credibilidade no que se propõe e uma ação política que se dirija a uma base social maioritária. Programa exequível e alianças alargadas

Estou a falar do Bloco de Esquerda, do PCP e dos muitos eleitores e militantes do PS que ainda acreditam que o poder pode ser mais do que gestor da desgraça. Estou a falar dos sindicatos, dos movimentos sociais, de quem tem espaço na comunicação social.”

Este pensamento de Daniel Oliveira, que embora sendo militante do “Bloco de Esquerda” (digamos em seu abono que pouco "ortodoxo"), tenho como democrata sincero e empenhado, constitui, de facto, um dos dramas da sociedade portuguesa: a existência, à esquerda, de um grupo significativo de defensores das instituições democráticas que, honestamente, ainda pensam qualquer acordo alargado (a velha “frente”...) que inclua o PCP, o BE e o actual sindicalismo conservador pode constituir uma alternativa democrática, não radical, solidária e modernizadora da sociedade portuguesa. Mais ainda, que é estrategicamente possível, para além de iniciativas tácticas localizadas, qualquer aliança entre o PCP, “vanguarda da classe operária”, e o BE ou quaisquer outras “forças” sem a hegemonia de quem se assume como “vanguarda” da classe a quem cabe um um papel histórico no derrube do capitalismo. Pior, que tal coisa é possível no quadro da UE ou não implicando o abandono desta, com todas as suas consequências.

Na realidade, as propostas voluntaristas de Daniel Oliveira, pela sua inexequibilidade já por várias vezes provada, muitas delas de forma trágica, acabam por demonstrar exactamente o contrário do que ele pretende: não existe qualquer alternativa democrática não radical e, portanto, não anti-capitalista (e o capitalismo é condição sine qua non da democracia política, note-se), modernizadora da sociedade portuguesa, geradora a prazo de maior justiça social (mesmo que com o dramático sacrifício actual de uma geração) que possa ser protagonizada pelo PCP, BE e o actual sindicalismo. Trazer quem neles se revê e acredita em soluções por si protagonizadas para o campo da democracia liberal e da economia baseada na livre iniciativa, lutando, neste campo gerador de desigualdades, por uma sociedade mais justa e solidária, mais aberta e tolerante, mais igual apesar das desigualdades que necessariamente gera, é uma tarefa de todos os que se revêm na democracia e no progresso social. Assim sendo, espero um dia seja possível dar as boas-vindas ao Daniel Oliveira. Digamos que já estivemos mais longe...

terça-feira, dezembro 11, 2007

O "Arrastão", o "europeísmo" e José Pacheco Pereira

Pergunta a Daniel Oliveira a propósito deste seu post: a sério, Daniel, que v. não se sente mesmo um nadinha incomodado, um frémitozinho ligeiro, que seja, por ver Miguel Portas concordar na substância com a argumentação eurocéptica (só?) de José Pacheco Pereira, o mais inteligente, bem preparado e consequente ideólogo em Portugal da doutrina "neocon" e dos interesses da administração Bush? Nem um bocadinho, mesmo? Sim, eu sei que Sérgio Sousa Pinto e Gomes Cravinho estiveram muito mal – poderiam ter estado melhor, sendo quem são e valendo o que valem? – e quase se poderia dizer que foram escolhidos a dedo pelos defensores do anti-europeísmo mais extremo para que MP e JPP brilhassem, mas essa está longe de ser a questão essencial, não é assim? Voltando ao que afirmei em outro post: estamos aqui perante a versão pós moderna do Pacto Germano-Soviético - salvaguardadas as devidas distâncias, evidentemente – ou face a uma ressureição da teoria do social-fascismo? Como quero ser benevolente, acho que se trata apenas de um “Ensaio Sobre a Cegueira”.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Daniel Oliveira e as posições europeias do "Bloco"

Daniel Oliveira retoma hoje no seu “Arrastão”, e a propósito das convicções anti referendárias de Vital Moreira, a explicação sobre as posições europeias do “Bloco de Esquerda”. Árdua tarefa, pois, como bem diz hoje no “Público” o próprio Rui Tavares, “a sua posição simultaneamente anti-Tratado e pró-Europa não vai ser fácil de explicar”. Pois não! Aliás, parece-me que no seio do “Bloco” a questão talvez seja bem pouco consensual, e esta aparente “quadratura do círculo” corresponda mais a uma “fuga” e a uma qualquer “coisa nenhuma”, capaz de realizar a síntese dialética entre posições contrárias, do que a qualquer posição “de fundo”, estrategicamente assumida. Ou então... Sim, eu sei que “todo o mundo é composto de mudança”, mas seria interessante, a este propósito, revisitar as opiniões de UDP e LCI quando da adesão à então CEE. Adiante...

Bom, coloquemos também agora de parte a questão das democracias plebiscitárias e referendárias, em termos gerais e abstractos, e vamos directos ao assunto.

Critica Daniel Oliveira em Vital Moreira a afirmação de que “quem é contra este tratado é contra a UE”. Não o direi de forma tão fundamental, mas sem dúvida que votar “NÃO” a este tratado, neste momento e não em qualquer outro tempo abstractamente definido, significa colocar a ideia UE em sérias dificuldades e levantar graves entraves ao seu aprofundamento político. Este é o resultado - e foi isso que aconteceu com os referendos em França e na Holanda - e não o reforço da Europa social, independentemente das motivações do voto de cada um, e é exactamente este o desígnio político da direita eurocéptica e atlântista, aliada conjuntural do PCP qual pacto germano-soviético dos tempos pós-modernos. Aliás o “Bloco” bem podia ter aprendido um pouco com o que aconteceu em França - e abandonar o papel de “idiota útil” - onde o voto “NÃO” de alguma esquerda “basista”e blasé, com as lutas internas a servirem de catalizador, acabou por fazer mergulhar a UE na sua maior crise de sempre e fazer recuar alguns anos a ideia de uma futura Europa federal que Daniel Oliveira diz defender. Não é ainda a Europa das ambições do “Bloco”? Admito que não - felizmente para uns e infelizmente para outros, não importa - mas a pergunta que o BE deve colocar a si próprio é a seguinte: “porque, e em nome de que valores, é que, votando contra um Tratado que continua a manter a Europa como o espaço político democrático onde a protecção e os direitos sociais são os mais elevados e onde posso continuar a bater-me com toda a liberdade pelas minhas ideias e convicções, me vou a aliar a sectores conservadores e nacionalistas, uns, ultra liberais e atlântistas, outros, e “estalinistas”, os restantes, na recusa de um aprofundamento político da União? Será, mais uma vez, a velha e relha ideia do social-fascismo, que deu no que deu? Ou apenas um pouco diáfano manto que cobre uma posição anti europeísta e isolacionista que o Bloco sabe poder correr o risco de colher pouca simpatia em meios jovens e urbanos, formados no "inter-rail" e no "Erasmus", do seu eleitorado? Sem esperança, aguardo resposta.