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quarta-feira, agosto 27, 2014

O que o presidente da FPF não disse

O que Fernando Gomes deveria ter dito e não disse - e  bem, porque, como presidente da FPF, não lhe compete enveredar, pelo menos publicamente, por esse tipo de afirmações e análises no campo técnico-táctico - é que com Cristiano Ronaldo em condições físicas muito deficientes, Pepe expulso e Coentrão lesionado ambos logo no primeiro jogo, com o erro estratégico de Paulo Bento em querer jogar com os futuros campeões do mundo "olhos nos olhos" (o Brasil "levou" sete) e a mediania (para ser simpático) da maioria dos restantes jogadores portugueses, muito dificilmente a selecção poderia ter feito melhor no último Mundial, fosse com este seleccionador (apesar do erro que lhe aponto), fosse com quem fosse ou a estagiar na Patagónia. O resto, incluindo os comentários e críticas que por aí oiço e leio, é conversa da treta. Dispensável, claro, por isso passemos adiante. É que para "silly season" já bastam (e sobram) as notícias sobre "contratações", "vendas", a novela Enzo Perez, Quaresma-suplente e o "penalty" de Nani.

segunda-feira, julho 14, 2014

E no fim?... Ganhou mesmo a melhor equipa, que até foi a Alemanha

A Argentina deu ontem uma lição táctica de como se deve jogar contra esta Alemanha: "bloco" baixo, linhas juntas, fecho de todo e qualquer espaço e saídas rápidas a jogar, neste caso através da rapidez e técnica de Messi e Lavezzi, principalmente, com a sua capacidade de aceleração com a bola colada aos pés e superioridade no "um para um". Foi isso que Portugal deveria ter feito, neste caso aproveitando a capacidade de Cristiano e Hugo Almeida para ganharem vantagem nos "sprints" longos e para caírem nas costas dos defesas contrários. Foi o contrário disso o que o Brasil fez, desposicionando-se defensivamente com invulgar frequência (e é nos equilíbrios e transições defensivas que melhor se vê o dedo do treinador) e, mesmo sem Neymar, não aproveitando a capacidade de condução de bola de jogadores como Óscar e Willian. 

Não chegou, e ainda bem, pois não só ganhou a melhor equipa do Mundial, como eu tenho esta eterna mania de, salvo muito raras excepções, torcer sempre pelos "meus" europeus contra qualquer tipo de intromissão de gringos". A Argentina até teve as melhores oportunidades? Sim, talvez, mas quem, como eu, vê futebol e tem o bom hábito de o discutir quase desde que nasceu, está farto de grandes exibições e superioridade em oportunidades de golo, para, no fim, a maior parte das vezes, ganhar a melhor equipa, a mais concentrada, mais "madura", a mais fiel aos seus princípios e ideias (e a Argentina teve de abdicar de alguns dos seus) e, por fim, no conjunto, aquela com melhores jogadores. E não foram os alemães quem, por inépcia e desconcentração, falharam dois ou três golos em frente de Manuel Neuer.

Nota. Já agora, e a propósito de Manuel Neuer, perceberam bem a diferença entre um grande guarda-redes, de classe mundial, e uns daqueles de "engate", que por lá apareceram em equipas menores, a dar espectáculo e que deixaram quase toda a gente boquiaberta, com ar de papalvos?

domingo, julho 13, 2014

Scolari, o hino e as emoções

Penso que nada reflecte melhor aquilo que foi a selecção do Brasil neste Mundial do que aquela idiotice de continuar a cantar o hino (numa sua versão mais longa) após a instalação sonora do estádio ter terminado a sua difusão. Está ali tudo: a importância desmesurada dada às emoções, em detrimento da racionalidade técnico-táctica; o populismo expresso num ultra-nacionalismo que se reflecte em um dos "símbolos da pátria" (em Portugal tínhamos tido as bandeiras); a busca de uma ligação entre a equipa, a assistência nas bancadas e o "povo" em geral (as desculpas ao "povo" pelas derrotas foram recorrentes), baseada apenas num primarismo emocional e não na qualidade e eficácia do futebol praticado; e, por fim, a opção por um comportamento em campo demasiado frenético, com muitas correrias e passes longos despropositados que fomentavam essas mesmas emoções, tornando assim impossíveis quaisquer críticas ao "querer", à "garra" e à "atitude" dos jogadores e da equipa, críticas também elas populistas e que fazem habitualmente parte do cardápio de quem nada percebe do jogo e se limita a criticar os jogadores usando argumentos de natureza semelhante aos que usa para vilipendiar os que considera  "ricos e poderosos".

Nada disto é novo em Scolari, e se usado com parcimónia até consegue por vezes obter bons resultados nas selecções nacionais, que pouco ou nenhum tempo têm para treinar princípios e modelos de jogo e com uma ligação popular quantitativa e qualitativamente diferente do que acontece com os clubes. Funcionou bem em Portugal, excepto quando, como contra a Grécia, no Europeu, os problemas muito específicos colocados pela selecção de Otto Rehhagel exigiam uma abordagem mais centrada na racionalidade técnico/táctica e no estudo criterioso do adversário. Mas a questão que se deve colocar agora, quando é demasiado fácil "bater" em Scolari, é se sem essa sua abordagem emocional e populista (que, note-se, pessoalmente abomino), quando da sua passagem por Portugal, a selecção nacional teria mesmo conseguido chegar à decisão final com a Grécia, onde o treinador brasileiro falhou então redondamente. Mas  aí entramos já na pura e simples especulação.

quarta-feira, julho 09, 2014

3 notas 3 sobre a goleada de ontem

  1. O Brasil-Alemanha de ontem foi quase um "copy paste" do Portugal-Alemanha: ambas as equipas (Portugal e Brasil) pensaram que poderiam jogar contra este Bayern travestido de "Mannschaft" "de igual para igual", "olhos nos olhos", e duas ou três jogadas iniciais, criando relativo perigo, ainda mais os convenceram. Pagaram cara a ousadia ainda dentro do primeiro quarto de hora e, a partir daí, ficaram "perdidos na tradução", sem saberem se deviam recuar e juntar linhas, evitando a goleada, ou manter o plano inicial. Sem cabeça, o Brasil de ontem optou por tentar recuperar "à maluca" (é mesmo o termo), sofrendo as consequências. Podiam ter sido dez.
  2. A semelhança vai até ao ponto de ambas as equipas dependerem demasiado de um jogador: Cristiano Ronaldo, no caso português, e Neymar, no caso do Brasil. Acontece que o primeiro jogou inferiorizado e o segundo nem sequer jogou. Fatal. Se, no caso de Portugal, ainda se compreende tal dependência de Cristiano (havia demasiados "pernas de pau" na equipa), no caso do Brasil, com bons jogadores para dar e vender (excepção ao tal Fred que nem na selecção portuguesa teria lugar), tal dependência é incompreensível. Ou melhor, revela uma total ausência de ideias e de plano de jogo.
  3. Muito mais do que Thiago Silva, David Luiz é bem o "capitão" de Scolari e símbolo desta equipa do Brasil: pouca ou nenhuma cabeça, indisciplina táctica total e muito mais emoção do que razão. Como foi possível ver os jogadores alemães trocarem três e quatro passes em plena grande-área brasileira até fazerem golo? 

quarta-feira, junho 25, 2014

Devem jogar sempre "os melhores"?

Numa selecção devem sempre jogar "os melhores", aqueles que, a cada momento, estejam em melhor forma? Bom, independentemente do carácter subjectivo e redutor (os melhores para fazerem o quê, para jogarem de que modo?)  subjacente à definição de "os melhores" (e já não é pouca coisa), convém lembrar que uma selecção quase não tem tempo para treinar e é no treino que se implementam princípios e modelos de jogo; "automatismos", se quisermos utilizar o termo mais habitual. Ora isso é impossível se, a cada momento, o seleccionador optar por esses tais "melhores", a não ser que, em vez de uma equipa, prefira ter um amontoado de 11, 14 ou 23 jogadores num conjunto sem qualquer nexo. Por isso, em qualquer selecção com um mínimo de ambições existe sempre um "núcleo duro", que forma a estrutura da equipa, ao qual, "au fur et à mesure", se vão juntando alguns, poucos, que vão dando provas de qualidade de jogo e maturidade competitiva para poderem constituir uma opção que comprovadamente possa acrescentar valor ao colectivo. Aliás, não é por acaso que as selecções que assentam a sua estrutura num clube - no modo como esse clube joga -, como foi o caso da Espanha nos últimos ano e é agora o caso desta Alemanha, um género de Bayern "reforçado", têm normalmente maiores possibilidades de êxito. O mesmo aconteceu, aliás, no já muito longínquo 1966 com a selecção portuguesa, formada na base do SLB, e, em menor escala, com a selecção de 2004, baseada no FCP de Mourinho.

Por isso mesmo, mais do que "os melhores", devem jogar aqueles que "dêem mais garantias" a quem os dirige, isto é, aqueles que, pela sua qualidade técnica, maturidade e capacidade competitiva, pela sua experiência em determinado contexto colectivo e competitivo, melhor e de forma mais qualificada possam pôr em prática uma ideia de jogo previamente definida a assimilidada. Ora se Paulo Bento cometeu erros na abordagem dos jogos com a Alemanha e com os USA - e já aqui e aqui os nomeei, depois do primeiro jogo e antes do segundo - não se poderá alguma vez dizer que não seguiu, na lógica das suas convocatórias, um padrão adequado ao que acima descrevo, tendo juntado ao tal "núcleo duro" jogadores que tinha vindo a integrar gradualmente, tais como William Carvalho, André Almeida, Éder e Rafa e tendo incluído na lista dos 30 alguns outros nomes (João Mário, André Gomes, Ivan Cavaleiro, Anthony Lopes, etc). O resto, o que se diz por aí, com algumas notáveis excepções como esta, é um misto lamentável e explosivo de ignorância e do populismo do mais desbragado. "Vão-se catar"!

segunda-feira, junho 23, 2014

Paulo Bento: voltemos à convocatória

Como a minha paciência é infinita e o combate à estupidez não pode ter tréguas, vamos lá tentar analisar a convocatória de Paulo Bento focando os nomes mais badalados "que deviam lá estar e não estão". Mas vamos tentar fazê-lo com "cabeça, tronco e membros", tendo em atenção duas questões fundamentais:
  1. Estamos restritos a um grupo de 20 jogadores - retirando os três guarda-redes - o que significa para entrar A tem de sair X, para entrar B tem de sair Y e assim sucessivamente, coisa que vejo demasiadas vezes esquecida.
  2. Uma fase final de um Mundial, tal como uma revolução, não é propriamente um "picnic" e, portanto, temos de considerar gente com alguma experiência do "grande futebol", seja ao nível de selecções, seja de clubes.
Tendo isto em atenção, vamos lá analisar os nomes mais "badalados": Cédric, Antunes, Adrien e Quaresma.
  1. Cédric. É um razoável defesa-direito e fez uma boa época. Mas quem sairia? André Almeida, que não faz pior o lugar e tem as vantagens de ser polivalente e ter experiência de Champions League e Liga Europa? Um dos quatro centrais, sendo que Ricardo Costa tem a vantagem de também fazer as "laterais", jogar num campeonato mais competitivo e ter grande experiência internacional, no seu clube e na selecção? Amorim, que alia à maturidade e experiência internacional o facto de fazer também "6" ou "8"? Impossível.
  2. Antunes. Para além de Coentrão, é o único defesa-esquerdo "canhoto" com um mínimo de capacidade para jogar na selecção. Quem sairia? André Almeida? Mas tal obrigaria a encontrar mais uma solução para a direita, já que isto é como um cobertor: tapa de um lado, destapa do outro. Alguém de um meio-campo que sempre me pareceu deficitário em termos de número de jogadores convocados (já lá vamos)? Além do mais, Antunes faz apenas um lugar: com esse "handicap", tem a categoria-extra suficiente para justificar a convocação?
  3. Adrien. Ora aqui está um ponto: com o "déficit" de gente a meio-campo, em boas condições físicas, eu teria convocado Adrien, apesar da sua escassa experiência internacional. Retirando quem? Em minha opinião, um ponta de lança, já que, teoricamente, Postiga e Hugo Almeida seriam suficientes uma vez que Cristiano também pode ser utilizado na posição. Mas percebo Paulo Bento: Adrien é exclusivamente um "8" e tanto Meireles, como Moutinho e Amorim fazem bem a posição. Ironicamente, prova-se a posteriori e em face das lesões ainda bem Paulo Bento levou três pontas de lança. E se o preterido tivesse sido Rafa? Era outra opção e sobre Rafa, que nunca vi jogar "com olhos de ver", não me pronuncio. Mas Adrien é talvez a minha única discordância com Paulo Bento, embora não veja como a sua inclusão no grupo dos convocados poderia, por si só, mudar alguma coisa que se visse.
  4. Quaresma. Contrariamente ao que tenho lido, tenho quase a certeza a não opção por Quaresma nada tem a ver com questões do foro disciplinar ou semelhantes, mas sim com a sua incapacidade para entender o jogo e a sua total falta de sentido colectivo. Ricardo Quaresma é uma firma em nome individual, um jogador por conta própria, que, fazendo de vez em quando (muito de vez em quando, note-se) os seus números de ilusionismo, dificilmente pode ter lugar numa equipa que faça do colectivo a sua arma principal, como acontece no futebol moderno. E não se trata apenas de "defender ou não defender", mas de entender o jogo, uma equipa e as suas movimentações. Aliás, um dos sintomas da fraqueza do FCP 2013/14 foi exactamente a dependência da equipa desses "números" de Quaresma e a preponderância que o jogador veio a ter nos melhores resultados da equipa.
Estamos conversados?

Paulo Bento? Pensemos com o cérebro, sff.

Paulo Bento chegou à FPF pouco depois do início do apuramento para o Europeu de 2012, em situação muito difícil para uma selecção que tinha conseguido apenas um ponto em seis possíveis (empate em casa com Chipre e derrota na Noruega). Qualificou a equipa para a fase final e, depois, num grupo de extrema dificuldade, com Alemanha, Holanda e Dinamarca, todos eles ex-campeões europeus (e da era moderna, não dos tempos da "bola quadrada"), chegou aos quartos-de-final e meias-finais, sendo eliminado na marcação de "pontapés da marca de grande penalidade" pela campeã do Mundo, da Europa e futura bi-campeã, que golearia a Itália na final (4-0). Foi um excelente resultado obtido com o pior conjunto de jogadores dos últimos 25 anos. Terei de recuar aos "seabrinhas", do período pós-Saltillo, para encontrar pior plantel.

Depois viria a conseguir o apuramento para o actual Mundial, naquilo que podemos considerar "serviços mínimos", um "suficiente menos", mas mesmo assim um resultado que cumpria com os objectivos. Não vai agora a selecção portuguesa cumprir os tais "serviços mínimos" apurando-se para os 1/8 de final num grupo que até nem era dos mais complicados, mas o mesmo acontecerá com a Espanha, a Inglaterra (ambos apurados para o Mundial sem recurso ao "play-off") e os que, entre os europeus, mais adiante ainda veremos. E o mesmo aconteceu com a França, campeã do Mundo em título, em 2002 (um empate e duas derrotas com zero golos marcados). Aliás, convém aqui lembrar a tradicional dificuldade das selecções europeias nos Mundiais disputados fora do seu continente, onde apenas a Espanha ganhou numa competição quando os efeitos "jet lag" e climatérico não estavam presentes (África do Sul).

Responsabilidades de Paulo Bento? Sim, numa má abordagem ao jogo com a Alemanha, tentando jogar "de igual para igual", com "pressão alta" e a linhas demasiado subidas, quando a constituição da equipa e o adversário recomendariam o contrário. Sem essa má escolha talvez a derrota tivesse sido menor ou até o empate tivesse sido possível. Má escolha de jogadores? Mas alguém é capaz de afirmar, com honestidade e pensando com o cérebro e não com outras partes do corpo menos adequadas a tal função, que Adrien, Cédric e Quaresma (os habitualmente citados; não me lembro de mais ninguém) poderiam ter feito a diferença? Responsabilidade nas demasiadas lesões musculares e numa deficiente adaptação às condições climatéricas? Sou leigo na matéria, mas penso o mesmo acontecerá com 99.999% dos que por aí oiço com opinião definitiva sobre o assunto. Aguardo as equipas médica e técnica da selecção se pronunciem. 

Tendo isto em atenção, deve Paulo Bento continuar como seleccionador? Estando de fora, francamente, não vejo porque não nem onde a FPF poderá conseguir melhor opção: Del Bosque, com outras obrigações, e Roy Hodgson, podendo a FA contar com outros recursos financeiros, vão também eles continuar. Não sejamos "mais papistas do que o Papa" e preparemos racionalmente o futuro, deixando-nos de populismos e dos tradicionais "oito/oitocentismos" bacocos. Certo?

quinta-feira, junho 19, 2014

A crise de "La Roja"

Os êxitos recentes da selecção de Espanha foram reflexo directo dos sucessos do "tiki taka" do Barça, um modelo que, como qualquer mecanismo de relojoaria, não admite um grão de areia e só funciona quando tudo é perfeito. O seu insucesso neste Mundial resultado da crise do clube catalão e desse tal modelo que perfilha. Olha-se para esta "Roja" e não se vê ali uma ideia de jogo, mas sim uma crise de identidade. O resto (Casillas, Diego Costa, a idade de alguns jogadores) são questões menores ou subsidiárias. Não vale a pena ir mais longe procurar o que está mesmo à frente dos nossos olhos.

Sobreviverá o "tiki taka" a esta geração? Depende: como para o modelo ter êxito é preciso que tudo funcione na perfeição, apenas se for possível reunir um grupo de jogadores que nele encaixe a 100%, replicando os Iniesta, os Xavi e por aí fora. Veremos...

quarta-feira, junho 18, 2014

Joga o Manel ou joga o Joaquim? - ou a delícia dos "treinadores de bancada"

Continuando com estas coisas do Mundial, e agora falando do jogo contra os USA, devo dizer também estou farto de histórias do tipo "joga o Manel ou joga o Joaquim", "devia pôr o António já que o José está castigado/lesionado". Ora a primeira pergunta que se deve fazer antes de começar a atirar com nomes para a praça pública, é: "o que vai encontrar a selecção portuguesa nesse jogo"? "Que problemas vai defrontar e como pensa resolvê-los mantendo, no essencial, os seus princípios e ideia de jogo"? Ora partindo destas premissas e tendo em atenção o que vi no jogo dos norte-americanos contra o Gana (Paulo Bento e a sua equipa técnica terão visto muito mais jogos), o que vai a equipa portuguesa encontrar? Penso que uma equipa americana a jogar num bloco "médio-baixo", defendendo bem pelo meio e explorando o contra-ataque pelas alas (Dempsey, principalmente) e o passe longo para o substituto de Altidore (lesionado). Ora isto significa que a selecção portuguesa vai forçosamente ter mais bola; vai ter de a fazer circular no meio-campo adversário e jogar a toda a largura do terreno, para abrir espaços, assumir o jogo e ter paciência se o golo tardar. Muita paciência, mesmo. 

Assim sendo, Paulo Bento, entre o Manel e o Joaquim, o António e o José, terá de escolher aqueles que se sintam mais confortáveis neste processo e melhor possam interpretar o modo como a equipa terá de se comportar neste panorama que se "perspectiva". Quem? Não vejo os treinos, não falo com os jogadores, não conheço a sua condição técnica, física e psicológica, etc, etc. Mas, com todas estas ressalvas, quer-me parecer que, ceteris paribus, a fiabilidade e jogo aéreo de Ricardo Costa podem ser preferíveis à rapidez de Luís Neto; a capacidade defensiva de André Almeida, mesmo destro, talvez leve a melhor sobre a técnica de Veloso a colocar a bola à distância; talvez deva jogar no meio-campo quem tenha maior capacidade para cair rapidamente sobre as alas, quer nos movimentos defensivos, quer nos atacantes; Postiga cai como peixe na água neste panorama e, se a coisa se complicar, Vieirinha e Varela podem vir a ter uma palavra durante o jogo. Mas isto digo eu, treinador de bancada um pouco a contra-gosto, agradecendo desde já quem me conteste com argumentação a propósito.

terça-feira, junho 17, 2014

Portugal-Alemanha: ainda o equívoco - e também o jornalismo desportivo.

A estupidez das pessoas não tem limites e a da grande maioria dos jornalistas e comentadores de futebol ainda menos. Pois não é que vejo por aí dominante a opinião de que a selecção portuguesa "até entrou bem no jogo", a "pressionar alto" e jogando "olhos nos olhos" com os alemães? Pois eu direi - e já o fiz aqui - que o problema começou aí mesmo, em querer jogar em "pressão alta" e de "igual para igual" com esta fortíssima selecção da Alemanha (um género de misto Bayern/Borussia, não sei se já perceberam), mais a mais com Hugo Almeida e Cristiano Ronaldo, jogadores muito mais adequados para explorarem, a partir de um bloco baixo, as transições rápidas e o eventual espaço deixado livre atrás da defesa contrária. Ao entrar do modo como entrou (que lhes terá passado pela cabeça, a jogadores e equipa técnica?), a selecção portuguesa pôs-se a jeito e a partir dos 11', em inferioridade no marcador, lá se foi qualquer possível hipótese de optar pelo plano que me pareceria mais adequado. Digamos que a jogar como o fez, a selecção portuguesa, em vez de optar pela estratégia anglo/lusa de Aljubarrota, resolveu fazer o papel da cavalaria francesa em Crécy, Poitiers e Azincourt, e a da franco/castelhana na mesma Aljubarrota. Desastre.

Quero dizer com isto que com a estratégia adequada os portugueses poderiam não ter perdido o jogo? Não me parece; não sou doido nem vou tão longe. Mas poderiam, pelo menos, ter evitado a goleada e o enxovalho, o que, sendo realista, era tudo o que se lhes pedia: uma derrota assim pelo tangencial ou, com uma dose cavalar de sorte e igual ajuda dos deuses e dos santos milagreiros, um empatezito providencial. Assim, puseram-se a jeito e foi o que se viu. 

segunda-feira, junho 16, 2014

Portugal - Alemanha: o equívoco

Como tinha dito aqui, quando a selecção portuguesa entrou em campo com Hugo Almeida no lugar de "ponta de lança" pensei iria jogar num bloco médio-baixo e tentar explorar as transições rápidas. Parecia correcto face ao poderio da selecção da Alemanha. Estranhamente, vi uma equipa adiantada no terreno a tentar jogar "olhos nos olhos" contra uma selecção que lhe era teoricamente bastante superior. Isso foi-lhe fatal e aos 12' viu-se a perder, com um "penalty" estúpido, deitando por terra qualquer possível estratégia baseada num "bloco baixo" e "transições rápidas" que, de qualquer modo, parecia esquecida na imatura e inexplicável excitação de "mostrar serviço"  logo nos primeiros minutos. Por isso mesmo, havendo que mudar algo na forma de jogar, já que os alemães recuaram um pouco no terreno, a lesão de Hugo Almeida e a sua substituição por Éder até poderia ter tido alguma utilidade. Mas a equipa portuguesa continuou a laborar no mesmo equívoco táctico e veio o segundo golo e a expulsão do desmiolado Pepe. O jogo acabou aí.

Pergunta: Cristiano Ronaldo está ou não em condições de dar o seu contributo à equipa com um mínimo de eficácia?

Onde a propósito do futebol se fala de Haydn

Joseph Haydn - Quarteto nº 62 em Dó Maior Op. 76 nº3
2º andamento - Poco adagio: Cantabile

Quando, daqui a pouco, ouvirem o hino da Alemanha (Das Liede der Deutschen) no início do jogo com a selecção portuguesa, talvez não saibam que é baseado neste 2º andamento de um dos quartetos de cordas mais famosos de Joseph Haydn (1732 - 1809), conhecido como "o do Imperador" porque dedicado a Francisco II do Sacro Império Romano-Germânico. A peça foi composta no ano de 1797 e foi um dos mais de 60 quartetos de cordas compostos por Haydn.

Postiga ou Hugo Almeida?

Ao contrário do que tenho por aí lido e ouvido, não me parece a opção de Paulo Bento entre Postiga e Hugo Almeida tenha que ver com a dimensão física do jogo nem, sequer, demasiado com a forma física de um ou outro jogador. O que me parece é que tudo vai depender muito mais da forma como o seleccionador português "perspectivar" (é assim que se diz agora em "futebolês") o jogo: se pensar vai ter de jogar durante largos períodos num bloco mais baixo e em transições rápidas, jogará o canhoto Hugo Almeida, mais à vontade nesse tipo de jogo, derivando com a propósito para a faixa esquerda desde terrenos recuados e arrastando assim um central contrário o que permite a entrada de Cristiano pelo meio e/ou o internamento de Coentrão. Se Paulo Bento achar que a equipa pode jogar um pouco mais "subida", com largos períodos "em posse" e fazendo circular a bola no meio-campo contrário, jogará Postiga, que entende bem melhor esse tipo de movimentos. 

O que é que eu acho? Bom, acho que a primeira opção é a que tem mais probabilidades de se verificar, mas também que nenhuma equipa que não seja constituída por alienígenas será capaz de jogar 90' em Salvador da Baía, à uma da tarde e mesmo na espécie de Inverno que por lá agora vigora (devo dizer só lá estive em Dezembro/Janeiro, pleno Verão, pelo que as condições eram diferentes e substancialmente mais gravosas), em permanentes transições rápidas e, por isso, vai ter que saber, em alguns períodos, gerir o ritmo de jogo com bola. Quero com isto dizer que, se me parece Almeida será opção inicial, prevejo nenhum deles jogue os 90'. Veremos...

quarta-feira, junho 11, 2014

O que penso do Mundial

Devo dizer que estou longe e ser um "fanático" dos Mundiais. Em primeiro lugar porque estou longe de me entusiasmar com o futebol de selecções. Cada vez mais, o futebol é um confronto global de ideias e modelos de jogo e de treino, tácticas estudadas com máximo rigor, métodos de gestão e modelos de negócio, filosofias e culturas de organizações, estilos de comunicação e liderança, e é este conjunto de factores que vai contribuindo para que nos apaixonemos cada vez mais pelo jogo. Ora, no seu conjunto, isto está longe de acontecer em equipas (selecções) onde os jogadores são "pescados" em vários clubes (muitas vezes rivais entre si), cada um desses clubes com as sua própria cultura, quase não tendo oportunidade de treinar em conjunto e sem tempo para apreenderem o que quer que seja de novos modelos de jogo, organização e liderança - quando eles existam, o que não é fácil de acontecer em grupos formados de modo quase "ad hoc" e para períodos de tempo curtos. Apenas aqui e ali, quando a base de uma selecção é formada por jogadores maioritariamente oriundos de um só clube (ou tal aconteça com os seus jogadores-chave), como aconteceu com a Espanha/Barça ou, de forma um pouco menos evidente, com a Itália/Juve dos últimos anos, se torna possível fugir significativamente a esta lógica. Acresce que se há alguns anos os Mundiais constituíam oportunidade privilegiada para ver em acção alguns dos melhores jogadores do mundo, hoje em dia eles "entram-nos pela casa dentro" quase todos os dias da semana.

Por outro lado, com a sobrecarga dos jogos realizados durante a época, muitos dos melhores jogadores chegam aos Mundiais em má forma ou, por lesões motivadas por uma época longa, dele estão ausentes. Por último, e já não falando na histeria patrioteira que costuma grassar um pouco por todo o lado, com especial destaque para as televisões deste país, para ser franco e honesto muitos dos jogos, pelo menos na primeira fase, não interessam mesmo a quase ninguém, sendo esse quase composto exclusivamente pelos nacionais dos respectivos países. Por exemplo, alguém perde tempo a ver um México-Camarões, um Irão-Nigéria, um Costa do Marfim-Japão ou até um Suiça-Equador, para me ficar apenas pelos primeiros cinco dias? Pouca gente, mesmo, se excluirmos os respectivos nacionais. Compreendo, aceito e até concordo a FIFA, com os Mundiais de 32 selecções, tenha como intenção promover o futebol em alguns países onde ele esteja ainda numa fase de conquista de popularidade, mas para os espectadores do primeiro-mundo do futebol são estes jogos o preço a pagar. Mas adiante.

Posto isto, que dizer? Que lá irei ver os principais jogos, com interesse mas sem demasiada paixão, até mesmo com algum desprendimento, sendo claro que, adepto de Paulo Bento pela sua competência, sentido profissional e personalidade vincada, desejo a melhor sorte à selecção portuguesa, pela qual irei torcer. Mas sem exageros e longe, muito longe, do sofrimento, das palpitações e suores frios com que assisto a alguns jogos do meu "Glorioso". A época, essa começa a 10 de Agosto.