Nos últimos vinte anos só dois treinadores portugueses têm exercido com continuidade a sua profissão no 1º mundo futebolístico: José Mourinho, com o sucesso reconhecido, e, ao nível mais modesto de uma 2º divisão europeia e sem grandes vitórias mas também sem inêxitos marcantes, Fernando Santos. Todos os restantes, com maior ou menor sucesso, dispersam-se pelos 3º, 4º e 5º mundos futebolísticos, dos Emiratos a África, do Vietnam a sabe-se lá mais onde. Experiências romenas e outras que tais revelaram-se esporádicas e acabaram sem honra nem glória para todos eles. Esta é a realidade do mercado e estes são os factos, e é neles que nos devemos basear para aquilatar da qualidade dos profissionais em causa.
Vai por aí uma onda (direi mais, um autêntico tsunami) em favor dos treinadores portugueses, falando da “especificidade do nosso futebol” , etc, etc. Nada mais falacioso. O futebol português não é nem mais nem menos específico que o espanhol, o inglês, o francês, o alemão e assim sucessivamente: todos apresentam características próprias, embora a globalização os tenha feito aproximar bastante nos últimos tempos. Isso não impede que treinadores espanhóis e franceses tenham sucesso em Inglaterra, holandeses em Espanha, na Alemanha e um pouco por todo o lado (Rússia, Coreia), italianos em Inglaterra, na Áustria e por aí fora. Portugal, por exemplo, na evolução do seu futebol e nos resultados alcançados, muito deve a um sueco (Eriksson), a um inglês (Robson), a um austro-húngaro (Guttmann), etc, etc. Aliás, foi a importação de treinadores de outras escolas uma das causas da evolução do futebol britânico, e é também essa uma das bases em que assenta o êxito da Premiership, longe do "kick and rush" de antanho. O resto nada mais é do que uma tosca tentativa de proteccionismo da parte de uma classe profissional (a dos treinadores portugueses) que não consegue ter êxito num mercado aberto e concorrencial.
Em Portugal raramente se analisam as causas específicas que podem estar na origem de um treinador conseguir bons resultados na época X no clube Y. Mal isso acontece o tal treinador é de imediato elevado à categoria de estrela em ascensão, de “it man" do momento. Aconteceu assim com Jaime Pacheco (lembram-se?), depois de ter “levado” o Boavista ao título de campeão nacional e a família Loureiro o clube à bancarrota. Nunca mais Jaime Pacheco conseguiu qualquer tipo de sucesso, por pequeno que fosse, o que só para os distraídos (prefiro chamar-lhes assim) poderá constituir uma surpresa. Outro exemplo? Alguém tenta analisar com seriedade e isenção o percurso de José Maria Pedroto (elevado á categoria de “mestre”), um treinador que estava no Vitória de Setúbal quando a região era a mais beneficiada com o “boom” económico da época e a “lei da opção” impedia as livres transferências de jogadores e no FCP quando a conjuntura política, social e económica estava reunida para “levar ao colo” o clube? Teria tido o mesmo sucesso (no V. de Setúbal ele foi muito relativo) em outros clubes? Num projecto diferente – o da selecção nacional – nunca o teve, o que deveria levar muita gente a interrogar-se.
Existem treinadores para clubes pequenos e outros para clubes grandes? Claro que, dito deste modo, isso não é verdade. Mas existem treinadores que “encaixam” num projecto, numa “cultura de clube”, num determinado tipo de mentalidade e "way of doing the things" e não encaixam noutro. Ou até projectos que, pela sua consistência, facilmente integram em si um qualquer treinador dentro de limites bastante alargados: será este o caso do FCP. O mesmo acontece nas empresas, com funcionários, gestores e executivos, onde o chamado “hire and fire” (contrata e despede) é normalmente visto como sintoma de que algo vai mal. Daí as empresas mais conceituadas serem extremamente criteriosas na contratação dos seus quadros. Um exemplo? Na situação actual do SCP, em função do enfoque na gestão financeira e numa política de recursos humanos que privilegia a formação, o que não lhe permite competir com orçamentos idênticos aos dos seus rivais, Paulo Bento é o homem certo no lugar certo. Sê-lo-ia em circunstâncias diversas, embora no mesmo clube?
Passemos ao meu clube. Luís Freitas Lobo afirma que o SLB necessita de um treinador português porque este entenderá melhor a grandeza e o passado do clube e, assim, perceberá melhor que tem de ganhar e não contentar-se com o segundo ou terceiro lugares. É o “rabo a abanar o cão”!, pois é o clube, as suas direcção e administração, que têm de fixar, de acordo com o treinador, seja ele português, espanhol ou do Burkina Faso, os objectivos finais e parciais e proporcionar condições para que eles sejam atingíveis. E é em função destes, e não do passado eventualmente glorioso, que tem de agir e gerir. O problema do SLB é exactamente o inverso: os objectivos são marcados e definidos por esse passado glorioso e não pelas condições concretas da actualidade, existindo portanto uma incompatibilidade entre objectivos e condições para os alcançar! É - tem sido - o desastre!
E, por último, vem o “it man" de momento, um tal Jorge Jesus com nome de Messias e com o qual Luís Filipe Vieira – dizem os jornais – tem falado, qual D. Camillo quando Peppone resolve causar-lhe preocupações de monta. Que percurso pode apresentar? Bom, uma boa época com o Belenenses, sem dúvida, e um percurso dentro das expectativas (nem acima nem abaixo) com o Sporting de Braga, face à dimensão e orçamento do clube. Lutar pelo 4º lugar com os clubes da Madeira e atingir os ¼ de final da UEFA seria o expectável face aos apoios e orçamento (o Sp. de Braga é, de facto, pertença da 3ª maior Câmara Municipal do país) de que o clube dispõe. Resta a pergunta: e o Belenenses? Será que o projecto de que foi rosto visível e bem sucedido no Restelo tem algo que ver com aquilo que vai encontrar no SLB e este pretende. Será que não foi apenas fruto de circunstâncias próprias e conjunturais que pouco terão a ver com a competência do treinador? Será que Jorge Jesus e a sua escassíssima experiência internacional “encaixam” na política de recursos humanos do clube? A personalidade e o perfil pessoal e profissional do técnico são as mais adequadas ao que vai encontrar? Perguntando de outro modo: um gestor ou executivo de uma multinacional pode ter igual êxito numa empresa de índole familiar, e inversamente? Pode gerir igualmente bem e com êxito semelhante em Nova Iorque ou em Antananarivo? Jorge Jesus até poderia (poderá?) vir a ser o homem certo, mas estas são algumas das questões que deveriam ser colocadas e, infelizmente, não vejo ninguém preocupar-se muito com o assunto.