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sexta-feira, setembro 19, 2008

Será que um vírus do "Gato Maltês" infectou José Pacheco Pereira?

Qualquer semelhança entre o "Vírus" de hoje, de José Pacheco Pereira, no RCP, e este post da passada 2ª feira, 15 de Setembro, aqui no "Gato Maltês", do qual reproduzo de seguida um excerto, é seguramente uma feliz coincidência de que este blog, dada a dimensão intelectual de JPP, só se poderá orgulhar.
"Esses hinos têm hoje apenas um valor simbólico institucional (é perfeitamente demagógico identificar no século XXI a adesão aos valores nacionais com saber ou não cantar o hino), servindo fundamentalmente para marcar e definir momentos protocolares, não sendo de admirar que a sua função original lhes seja principalmente restituída pelo desporto, onde no campo, frente a frente, estão os adversários/inimigos que se vão degladiar. É também por isso, e não por serem mais patriotas ou sentirem mais a camisola, que os jogadores da selecção portuguesa de rugby o cantam com tanto entusiasmo. O rugby é um desporto de combate, de conquista de terreno, e o hino funciona aqui como um cântico guerreiro, tal como o “Haka” neo-zelandês."

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Aqui se explica a JPP porque para o "bom povo" (e não só) a licenciatura do 1º ministro e as suas casas tipo "maison" não são bem a mesma coisa

Ontem, na “Quadratura do Círculo”, Pacheco Pereira interrogava-se com estranheza sobre as razões pelas quais uma investigação bem fundamentada, publicada pelo jornal “Público”, sobre os projectos assinados por José Sócrates para a Câmara da Guarda teria obtido uma repercussão bem menor do que se esperaria, bem longe da conseguida com o caso da sua licenciatura. As razões são muito simples; tão simples que custa a crer Pacheco Pereira, ao interrogar-se, não tenha alcançado rapidamente as conclusões.

Em primeiro lugar, para o “povo” uma licenciatura “comprada” ou “de favor” - licenciatura para muitos inatingível e que corresponde ao passaporte para uma vida mais desafogada e para a ascensão social - é algo só ao alcance dos ricos e poderosos, daqueles a quem o dinheiro ou o relacionamento social, cuja obtenção é muitas vezes vista como ferida de ilicitude, concederam esse privilégio. Mais ainda, é olhada como uma concorrência desleal por quem, por ausência de meios ou de capacidade, não tem possibilidades de a obter, ou tendo-as, constata uma dualidade entre os sacrifícios por si feitos, em seu favor ou dos filhos, e as facilidades concedidas a outrém. Portanto, o “esquema” que parece transpirar do processo de licenciatura do primeiro-ministro é algo que os fere no mais íntimo do seu ser, perante o qual sentem uma mal contida repulsa epidérmica.

Já na questão dos “projectos” a realidade é bem diferente: trata-se de um pequeno estratagema, como tantos outros, algo nas margens da legalidade mas a quem todos já recorreram ou sabem um dia poder vir a ter de recorrer para lhes resolver um qualquer problema na Câmara, na “Junta”, na “regedoria” se ainda a houvesse. É algo do dia-a-dia, com quem têm uma relação de proximidade e sabem é comum e tacitamente aceite. Que faz parte da sua vida, que também lhes pertence. Aliás, basta olhar para as fotografias das casas para perceber isto mesmo, como isto faz parte do seu pequeno mundo, tal como também o faz a pequena corrupção local, nas Câmaras e nas “Juntas”, mas de que são também elemento essencial e tantas vezes beneficiários para “ultrapassar a burocracia desses gajos lá de Lisboa que nunca aqui vieram e não conhecem a realidade do país”.

É claro que a um outro nível, o das elites urbanas e educadas, o facto de o jornal ser propriedade de quem é e isso, verdade ou mentira, poder pressupor pressões e desígnios “insondáveis” (mesmo que se esteja a ser injusto no julgamento) também em nada ajuda á valorização da notícia, como não ajuda o facto de ser a segunda investigação ao passado do primeiro-ministro com idêntica origem, mesmo que ambas sejam, como de facto o são, peças jornalísticas de qualidade e bem fundamentadas que em nada se confundem com o sensacionalismo tablóide.

É esta a realidade, mais do que qualquer tentativa governamental de desvalorizar e calar o assunto - que, claro, tudo leva a crer também exista. Uma injustiça, talvez, mas como seria o mundo sem elas? Provavelmente, sem qualquer tipo de “charme”.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A "noite" do Porto...

Na “Quadratura do Círculo” de ontem (SIC Notícias), Pacheco Pereira afirmou que os recentes acontecimentos na “noite” do Porto estão de certo modo ligados ao que ele sugeriu serem as relações espúrias entre alguma actividade económica (construção civil, por exemplo) e claques de futebol (mormente FCP), promiscuidade essa especialmente fomentada no tempo em que o PS era dominante na Câmara do Porto e à qual Rui Rio veio, de certo modo, pôr termo. Mais ainda, afirmou Pacheco Pereira ser um fenómeno específico da cidade do Porto (peço desculpa se o rigor não é total mas penso consegui exprimir, na generalidade, o que pensa e disse JPP) e que é sintomático que o filme “Corrupção” tenha por cenário a cidade.

Em primeiro lugar a minha “chapelada”: JPP consegue condensar numa frase, que é também um programa político, a defesa do seu amigo Rui Rio e o ataque a dois dos seus principais inimigos de estimação: a “futebolite” (a expressão é dele) e o Partido Socialista. Mas tem razão! Tem mesmo toda a razão, só que as suas afirmações se limitam a ser uma mera, embora verdadeira e tocando onde mais dói, constatação da realidade, e há que levar a análise um pouco mais longe, tentando encontrar as razões profundas dessa – vamos chamar-lhe assim – especificidade portuense. Pois vamos a isso, começando por afirmar que nada me liga ao Porto, cidade onde me desloquei maioritariamente por questões profissionais, onde nunca vivi e com a qual não mantenho laços familiares ou de excepcional afectividade.

Algumas pessoas do Porto costumavam dizer-me que Lisboa era uma cidade aristocrática e o Porto uma cidade burguesa, o que, podendo à primeira vista ser considerado uma versão do lugar comum “Porto, capital do trabalho” (todas as cidades portuguesas são, hoje em dia, capitais de qualquer coisa – até as Caldas da Rainha...?!), contém em si algo de verdadeiro: historicamente, Lisboa, capital do império, sempre foi a cidade da Administração, da Banca e dos grandes grupos económicos ligados ao capital financeiro e à aristocracia (Alfredo da Silva, por exemplo, casou a filha com o conde do Cartaxo, D. Manuel de Melo) e o Porto do empreendorismo burguês, mais individualista, mercantil e exportador. A própria localização das duas cidades parece não ser alheia a estes modelos, sendo que para as fábricas da zona de Lisboa emigram os proletários agrícolas do Alentejo e Ribatejo, sem terra, ou até camponeses das Beiras que pela distância perdem mais facilmente as suas ligações às “terras” de origem, e o Porto recruta a sua mão de obra no minifúndio circundante, onde essa ligação à terra se mantém e os proventos dela retirados ajudam à manutenção dos baixos salários numa indústria de pouco valor acrescentado. Também nas mulheres, fruto de uma indústria considerada mais “vocacionada” para a mão-de-obra feminina (têxteis, etc) e onde o salário assume muitas vezes a forma de um complemento ao rendimento familiar. É isto que, em traços muito gerais e grosseiros, o 25 de Abril vai encontrar, tendo como resultado uma muito maior implantação do PCP e "esquerda revolucionária" naquilo que passou para a história do PREC, e não só, como a “Cintura Industrial de Lisboa”. Mas como, com este “arrazoado” mais ou menos histórico, queremos chegar aos homicídios da noite portuense? Vamos ver...

É esta estrutura empresarial e social que faz com que a luta contra a hegemonia do PCP no pós 25 de Abril se venha a “centrar” no norte, muitas vezes com recurso a algum bas fond da região para determinado tipo de acções mais marginais, nas margens da legalidade mas, por necessidade, reconhecidas e incentivadas. É também este tipo de estrutura empresarial e estes acontecimentos históricos que vão dar origem a uma hegemonia económica do norte nos tempos subsequentes, tendo como ponta de lança e cimento ideológico o Futebol Clube do Porto na sua luta, também ela nem sempre clara e muitas vezes recorrendo a métodos mais ou menos subterrâneos, contra a “capital”, e constituindo a sua principal claque, com as suas ligações espúrias, uma “tropa de choque” (SturmAbteilung) disponível. É a partir da estrutura política do Partido Socialista no Porto e em aliança com ela, aliança começada a forjar durante o PREC e na luta contra o PCP por si maioritariamente dirigida (muitos futuros dirigentes do PS portuense, como Fernando Gomes, nascem aí), que este “modelo” alcançou força e influência políticas. É o empreendorismo e individualismo do norte, o seu espírito de iniciativa fundado em razões históricas e tão presente na sua estrutura empresarial onde a pequena empresa é elemento constitutivo essencial - e exemplo do sucesso desse esforço individual - que fomenta a livre iniciativa e ânsia de enriquecimento rápido, o que tendo muito de positivo, claro, também impele, numa região onde a formação escolar é tradicionalmente baixa, ao recurso a expedientes e actividades facilmente lucrativas mas nem sempre legítimas, muitas vezes ilegais ou, pelo menos, situadas na área da economia subterrânea. Por fim, é o menor cosmopolitismo do Porto ou até mesmo um certo provincianismo social, um certo novo-riquismo com raízes já fundas e moldado por esta estrutura, que tornará o negócio “da noite”, com características que bem o diferenciam de Lisboa, especialmente apetecível e lucrativo, porque muito frequentado e também ao abrigo de um estatuto de alguma impunidade estabelecido pelas cumplicidades ao longo dos anos forjadas e pelas interdependências tecidas.

Pois voltemos então ao princípio: tem razão José Pacheco Pereira (um portuense) quanto às especificidades da “noite” do Porto. Foi este o “caldo de cultura”, este entrelaçar de vários tráficos de influência e cumplicidades várias forjadas ao longo de anos, que, aqui traçado na forma de um esboço ligeiro, esteve e está na base dos acontecimentos recentes, o que torna o caso bem mais melindroso e de resolução complexa e prova, uma vez mais, como se isso fosse necessário, que tudo tem duas faces: muito do que jogou a favor da democracia, em determinado tempo e contexto históricos, joga agora contra ela. “Cruel dilema”, como diria Vasco Santana!

quarta-feira, outubro 31, 2007

Pacheco Pereira, o tratado e o PSD

José Pacheco Pereira até poderá ter razão nas críticas dirigidas ao projecto político de Luís Filipe Menezes; em minha opinião até tem, maioritariamente. Não pode – ou melhor, pode mas não lhe fica muito bem – é fazer essas críticas, fundamentais e demasiado directas para as tradicionais águas turvas nacionais, e, simultaneamente, oferecer-se como convidado para estar presente no Conselho Nacional saído do último congresso - isto é, apoiante maioritário do projecto e da direcção de Menezes - para prestar esclarecimentos sobre a questão do tratado europeu. Penso que os estatutos permitem esse tipo de convites – e acho que bem -, mas existem questões de ética e bom senso que deveriam sobrelevar todas as outras; e ao fazer essas críticas - justas, acrescento - JPP colocou-se completamente à margem do actual PSD. Infelizmente, existem alguns assuntos perante os quais JPP parece perder um pouco essas suas normais qualidades de inteligência e bom senso. Mais uma vez: é pena!

segunda-feira, outubro 15, 2007

Pacheco Pereira e o referendo ao Tratado Europeu

Pacheco Pereira afirma no "Abrupto" a propósito do novo tratado europeu: "Houve tempo em que o referendo não era decisivo, hoje é. Hoje é, por que, todas as vezes que se leva um documento aprovado pelos governos a voto referendário, ele ou passa à tangente, ou é recusado." Não poderia, pois, ser mais claro, Pacheco Pereira, embora isso já se revelasse completamente desnecessário: para ele, como para os restantes partidários do referendo europeu, não existe uma posição política de fundo, em termos gerais e abstractos, sobre o instituto do referendo, e referendar o novo tratado só é decisivo porque acham que, assim, ele poderia esperançadamente vir a ser recusado.
É pena, mas Pacheco Pereira - cujo modelo de comentários me habituei a apreciar em contraponto áquele que é aceite como padrão em Portugal, o de Marcelo Rebelo de Sousa - está a tornar-se, cada vez mais, um analista (ou comentarista) político de causas, normalmente perdidas. Foi assim com Savimbi, foi assim com Bush, é assim no seu combate contra o aprofundamento político da União. É pena, é demasiado inteligente para isso - e também para a servidão a tão ruins causas.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Um "post" ainda mais "silly"

Sim, eu sei que é mesmo silly season. Mesmo muito silly – e a PJ nunca mais “deslinda” o caso McCann e a agitação no Benfica durou pouco (pelo menos, até ver). Mas será que temos mesmo de ocupar o nosso tempo de veraneio com os ataques e contra-ataques dos defensores do governo e da oposição (leia-se PSD) tendo estes últimos como pretexto uns idiotas que destruíram um hectare de milho transgénico e aqueles outros uns financiamentos, do tipo “rabo escondido com gato todo de fora”, de uma empresa ao PSD, do tipo “mas sou só eu, cadê os outros”? E será que José Pacheco Pereira e Vital Moreira, “pontas de lança” das respectivas equipas na "blogosfera", não têm mesmo mais nada com que se entreter? Livra!...

segunda-feira, julho 23, 2007

Pacheco Pereira e a crise dos partidos

Um pequeno comentário – que é mais um acrescento, se ele me permite – ao artigo de José Pacheco Pereira no “Público” de sábado: “O PSD e a crise dos partidos na democracia portuguesa”.

Um dos problemas gerados pela necessidade rápida de implantação, em todo o território nacional, dos partidos que se opunham ao PCP no pós 25 de abril foi o seu crescente domínio pela província e, assim, por gente, por um lado, talvez bem intencionada mas mal preparada politicamente e, por outro, por arrivistas que viram aí uma oportunidade única de se afirmarem social e financeiramente, numa sociedade com uma classe média frágil em número e “educação”, tão mais frágil quanto mais caminhamos para a base da pirâmide afastando-nos daqueles que eram – e ainda são, apesar de tudo – os centros onde mais se concentram as elites (Lisboa e Porto). Esse domínio, moldando a cultura e o way of doing the things partidário, foi apenas mais uma das razões que contribuiu para “expulsar” os melhores e mais bem preparados politicamente, com uma visão mais “larga”, estratégica e cosmopolita da “coisa pública”, tal como... o próprio José Pacheco Pereira.

quarta-feira, maio 23, 2007

A estratégia de oposição ao governo e os direitos, liberdades e garantias

Está a tornar-se muito claro que a estratégia de oposição ao governo, quer à esquerda quer à direita, passa, conjunturalmente, pela denúncia e agitação de alguns casos que, alegadamente, podem reflectir uma tentativa de combate à pluralidade de opinião e às liberdades e garantias dos cidadãos. As características de personalidade do primeiro-ministro e a necessidade de “forçar” a implementação de algumas medidas que afectam os chamados “direitos adquiridos” fornecem o supporting evidence que sustenta essa estratégia. Situam-se neste campo a campanha sobre o controle da informação (que José Pacheco Pereira tem vindo a conduzir desde há já algum tempo), a questão da TVI e, mais recentemente, o caso do professor afastado por alegados insultos a José Sócrates e a lista de grevistas a ser elaborada por cada serviço do estado. Independentemente das razões ou não razões que possam assistir a cada caso, individualmente considerado, e de considerar que qualquer atentado aos direitos, liberdades e garantias (o “santo dos santos” da democracia) deve ser severamente denunciado e combatido, só trazendo também à luz o acima exposto se pode analisar e compreender cabalmente cada uma das questões em causa. Caso contrário, correremos sérios riscos de concluir de forma errónea e parcial. Logo, injusta.