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segunda-feira, março 02, 2009

Um pouco mais de rigor, sff

A semana passada, no dia em que oficialmente acabava o período de saldos, ouvi na rádio (TSF ou RCP, não me lembro) uma pequena reportagem sobre como, do ponto de vista dos comerciantes de algumas lojas de Lisboa, com maior ou menor sucesso, aquele tinha decorrido. As opiniões variavam, mas aqueles a quem o negócio não tinha decorrido de acordo com as legítimas expectativas queixavam-se da falta de dinheiro “das pessoas”, opinião corroborada pela jornalista - repórter. Algum rigor, por favor.

Sejamos claros. Para as famílias que conseguem manter o emprego, o rendimento disponível aumentou, e é esta uma das características específicas da actual crise e à qual as pessoas não estavam habituadas (até aqui, crise significava essencialmente aumento de salários inferior à inflação). A inflação baixou para níveis muito inferiores aos previstos mantendo-se os níveis de aumento salarial e as taxas de juro (uma maioria da população activa urbana tem pelo menos um empréstimo a pagar) baixaram substancialmente. Isto significa que em zonas onde o nível de emprego não sofreu forte alteração (Lisboa será um dos casos) não existem razões reais e efectivas, do lado do rendimento das famílias, para uma diminuição da procura.

A questão é bem outra, e prende-se mais com a gestão de expectativas e com razões emocionais. Temendo o futuro em situação de incerteza, mesmo quem tem emprego garantido (como os funcionários públicos), ou quem não tenha razões para fortes suspeitas de que ele se não mantenha, pelo menos no curto prazo, tende não só a optar pela poupança ou por investimentos de rentabilidade assegurada, diminuindo o consumo, como a decidir adiar consumos, esperando mais e maiores certezas ou que os preços baixem. Claro que isto só pode gerar ainda mais crise, levando à diminuição do nível de actividade económica e a mais desemprego.

Talvez fique assim bem clara - com esta explicação prosaica - uma das razões porque uma diminuição dos impostos - independentemente de outras consequências que não são agora para aqui chamadas - possa não ter como resultado imediato um correspondente aumento do investimento e do consumo, logo, talvez não constituindo a receita mais eficaz para resolver ou atenuar a crise.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

José Pacheco Pereira e o "Horst Wessel Lied": uma pequena contribuição

Hino do NSDAP - nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei
Naquilo que reputo de uma feliz coincidência que muito me honra, José Pacheco Pereira tem incluído no seu excelente “Vírus”, no RCP (dias úteis, 09.15h), algumas canções revolucionárias (na sua génese, os nazi-fascismos eram movimentos políticos revolucionários, auto-intitulando-se de anti-capitalistas e anti-comunistas) que por aqui já passaram, tais como “Cara Al Sol”, hino da Falange, e o “Horst Wessel Lied" (aka “Die Fahne Hohe”), hino do partido nazi alemão (NSDAP - nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei). Como disse, por aqui fizeram companhia a outras canções do mesmo tipo, tais como o belíssimo "Le Temps des Cerises", uma canção da Comuna de Paris, ou "El Ejercito del Ebro", talvez mais conhecido por "Ai, Carmela", tema republicano da Guerra Civil de Espanha.

Quando se referiu ao "Horst Wessel Lied", JPP mencionou-a como sendo uma "canção de cervejaria", relacionando esse ambiente popular e barulhento, promíscuo, das cervejarias alemãs, atulhadas de gente já um pouco ébria, com as características arruaceiras - de lutas de rua contra os "inimigos" comunistas, sindicalistas e sociais-democratas (e outros) - presentes na génese do NSDAP e, principalmente, das suas Sturmabteilung (SA). Tem razão. No entanto, gostaria de acrescentar algo.

As "canções de cervejaria" (as cervejarias são um espaço público popular na Alemanha – o putsch de Munique teve a sua génese numa cervejaria) são, na sua essência e origem, canções populares, levadas e cantadas nesses locais de reunião, conraternização e comemoração. Nesse sentido, pouco as distingue das canções de "pub" inglesas, para além das especificidades culturais e de local (o ambiente de um "pub" é diferente do de uma cervejaria alemã) que dão origem a formas musicais e mood and tones um pouco diversos. São esse tipo de canções, muitas vezes com "letras" adaptadas á situação que se vive no momento, que também vemos, por vezes, serem cantadas nas messes dos oficiais da RAF, nos intervalos dos seus duros combates como pilotos durante a WWII, acompanhadas ao piano, frequentemente já influenciadas pela sua apropriação pelas classes altas das universidades britânicas e também por hinos religiosos, eles próprios formas musicais populares. Aliás é muito interessante verificar que essas canções populares de confraternização e união, cantadas á volta do álcool, são frequentemente comuns às classes situadas nos dois extremos opostos da hierarquia social. Também se estivermos atentos, verificaremos que o muito lisboeta fado - canção popular urbana por excelência -, nas suas versões de contestação política que se vieram a perder tais como o "fado repúblicano" ou o "fado operário", também era cantado nas tabernas dos bairros populares pelos trabalhadores e carbonários que por aí se juntavam e conspiravam. Já sem canções, muitas das frustradas revoluções "reviralhistas" contra o "Estado Novo" foram discutidas e pensadas em cafés (existe mesmo a expressão "revolucionário de café"), locais de confraternização e convívio da pequena e média burguesia lisboeta.

Bom, mas voltemos ao "Horst Wessel Lied", ou "Die Fahne Hohe" ("bandeira ao alto"). O tal Horst Wessel, autor da letra em 1929 (a música era baseada num tema popular – lá está), era um relativamente destacado militante nazi dos primeiros tempos, em Berlim, morto por um membro do partido comunista alemão no ano seguinte. Daí até o partido dele ter feito mártir vai (foi) um pequeno passo. Parece, no entanto – pelo menos o partido comunista nunca assumiu o assassinato como uma questão política –, que a altercação que lhe deu origem terá sido mais uma questão de dinheiro ou de saias do que propriamente política (diz-se), até porque foi um acto isolado que nada teve a ver com qualquer das rixas de rua na altura frequentes. Nunca saberemos a verdade efectiva, mas o que é um facto é que o mal afamado Dr. Joseph Goebbels não deixou escapar tamanha oportunidade e o "Horst Wessel Lied" tornar-se-ia o hino do partido, tocado em todas as cerimónias oficiais em conjunto com a versão de então do Deutschlandlied, o Hino Nacional da Alemanha. Claro - escusado será dizer - que tanto essa versão do Deutschlandlied como o "Horst Wessel Lied" estão priobidos na Alemanha de hoje.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Será que um vírus do "Gato Maltês" infectou José Pacheco Pereira?

Qualquer semelhança entre o "Vírus" de hoje, de José Pacheco Pereira, no RCP, e este post da passada 2ª feira, 15 de Setembro, aqui no "Gato Maltês", do qual reproduzo de seguida um excerto, é seguramente uma feliz coincidência de que este blog, dada a dimensão intelectual de JPP, só se poderá orgulhar.
"Esses hinos têm hoje apenas um valor simbólico institucional (é perfeitamente demagógico identificar no século XXI a adesão aos valores nacionais com saber ou não cantar o hino), servindo fundamentalmente para marcar e definir momentos protocolares, não sendo de admirar que a sua função original lhes seja principalmente restituída pelo desporto, onde no campo, frente a frente, estão os adversários/inimigos que se vão degladiar. É também por isso, e não por serem mais patriotas ou sentirem mais a camisola, que os jogadores da selecção portuguesa de rugby o cantam com tanto entusiasmo. O rugby é um desporto de combate, de conquista de terreno, e o hino funciona aqui como um cântico guerreiro, tal como o “Haka” neo-zelandês."

sexta-feira, setembro 07, 2007

O RCP e a "Festa do Avante"

O “Clube de Opinião” desta manhã, no RCP (todos os dias úteis pelas 9.30h, normalmente um espaço de análise política e de sociedade interessante), foi totalmente preenchido por um dirigente do PCP (peço desculpa por não me lembrar do nome) e da “Festa do Avante” fazendo a propaganda da dita e transformando o dito “clube” num espaço de “Tempo de Antena” sem a obrigatória identificação enquanto tal. Isto perante a complacência do jornalista do RCP (Nuno Domingues?) que se limitava a “dar as deixas” para a promoção da festa. Sobre algumas presenças vindas do estrangeiro e “incómodas” para o PCP - como as FARC, por exemplo, para me ficar apenas por aqui -, assunto que tem vindo a ser, e bem, denunciado na "blogosfera”, nem uma pergunta ou interrogação. Jornalismo ou problemas de consciência de Luís Osório?