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sexta-feira, janeiro 06, 2012

"In Memoriam" de um clube que se dizia de elite e de um jornal em tempos de referência


Esta notícia do "Público" prova duas coisas (pelo menos):
  1. Que o SCP adoptou oficialmente a iconografia das suas claques, caucionando assim comportamentos, entre os quais se inclui o recente incêndio provocado na bancada do Estádio da Luz, que não são indissociáveis dessa iconografia. Está pois explicada, se necessário ainda fosse, a reacção tíbia (no mínimo) da direcção do clube aos desacatos provocados pelos seus adeptos no ainda recente SLB-SCP.
  2. Que não sendo o acontecimento que o "Público" descreve de hoje ou dos dias mais recentes, mas comprovadamente mais antigo, ao revelá-lo apenas hoje o jornal presta um inestimável serviço ao clube de Pinto da Costa na tentativa de criar um clima de hostilidade à volta do jogo de amanhã, clima esse onde o FCP se costuma movimentar como peixe na água. Nada de novo, portanto, conhecidas que são as linhas de orientação da sua secção de desporto e as ligações do jornal ao FCP. 

quinta-feira, agosto 11, 2011

UK: ordem pública e política

Li ontem, num daqueles rodapés informativos das televisões, que a polícia britânica estaria a ser acusada de pouca eficácia, pelo menos num primeiro momento, na repressão dos motins. Admito o tenha sido, mas também sou levado a pensar que tal se pode ter ficado a dever àquele que é, tradicionalmente, o "way of doing the things" da Polícia Metropolitana e que não terá muito a ver com o que se passa noutros países quando estes enfrentam situações semelhantes (v.g. França)

De qualquer modo, e como por aqui já afirmei, se no curto-prazo estamos perante uma questão aguda de alteração violenta da ordem pública, a que é preciso pôr cobro e rapidamente, não é indiferente para a prevenção futura e resolução no longo-prazo deste tipo de problemas, evitando o ressurgimento das suas manifestações mais agudas e violentas, o modo como o reestabelecimento dessa ordem pública possa ser conseguido. Estamos pois, também, perante uma questão política, e é indispensável que tal seja levado em linha de conta nos processos e meios utilizados para repor a ordem e punir os responsáveis. Assim sendo, recorrer ao exército, transformando-o em verdadeira força de ocupação e de subversão do Estado de Direito, seria a pior das soluções, arriscando transportar para algumas cidades inglesas o ambiente militarizado e bélico da irlandesa Belfast, com o risco de transformar algumas das suas áreas em atoleiros semelhantes. Para bem de todos, espero mesmo não passe de uma ameaça e não se ofereça de mão-beijada aos desordeiros essa vitória.

À atenção da PSP, GNR e populismo ultra-securitário


Suzella Palmer, criminologista e especialista em gangs, crime e juventude na Universidade de Bedfordshire.

Nota: vale a pena ler a entrevista na íntegra.

quarta-feira, agosto 10, 2011

David Cameron

Contrariamente ao que David Cameron afirma, o problema não é "existirem partes da sociedade que estão doentes". Trata-se de um diagnóstico errado e a seguir por esse caminho Cameron não chegará a parte alguma: repetirá os mesmos erros que nos trouxeram - a todos - a esta situação explosiva. O que existe, isso sim, é um modelo de desenvolvimento que gerou nos últimos 20 ou 30 anos uma sociedade pouco saudável, se quisermos, doente no seu todo. 

Claro que é agora indispensável reprimir e restaurar a ordem pública rapidamente; defender a propriedade, pessoas e seus bens. Levar desordeiros perante a Justiça que não deixará de os responsabilizar pelos seus actos. Mas o próprio modo como isso for feito, sem que o que digo possa ser interpretado como apelo a qualquer tipo de brandura ou capitulação mas apenas como necessidade de se respeitar, ao impor o primado da lei, a letra e o espírito do Estado de Direito Democrático britânico, não é indiferente para se mostrar a todos, prevaricadores e vítimas,  que se percebeu o que está em causa e que se saberá agir também a montante dos problemas para evitar uma sua qualquer repetição. É esta, agora, a tarefa fundamental de David Cameron e do seu governo.  

terça-feira, agosto 09, 2011

Motins de Londres: à atenção das autoridades portuguesas

O que vou dizer é óbvio, mas em ocasiões complexas e difíceis existe sempre tendência para entrar em análises profundas (o que também é necessário) e esquecer esse mesmo óbvio.
  1. Mesmo nas maiores desgraças há sempre algo a aprender. No caso dos motins londrinos, seria bom que as autoridades portuguesas (Governo, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia e outras) tentassem perceber como se chegou a tal ponto, agindo enquanto é tempo de modo a evitar qualquer coisa de parecido à escala portuguesa. É que já existiram uns "ameaços"... Não há qualquer desculpa para a repetição das mesmas asneiras, e tal repetição costuma dar origem aos mesmos desastrosos resultados.
  2. Seria também ocasião indispensável para as forças de segurança perceberem como devem lidar com situações semelhantes, quer preventivamente (a PSP e a GNR costumam ter dedo demasiado pesado no gatilho e pouca sensibilidade para lidar com algum tipo de marginalidade, mas também com algumas minorias étnicas), quer no caso, que esperemos não aconteça, de se verem forçadas a recorrer à repressão por alteração da ordem pública. Pede-se profissionalismo.

segunda-feira, julho 25, 2011

Violência e sociedades

Quando acontecem atentados e, principalmente, massacres em países como a Noruega, imediatamente lemos e ouvimos expressões de incredulidade por tais acontecimentos poderem ter lugar em países pacíficos, sociedades abertas e tolerantes, como se tal violência pudesse ser exclusiva de países e sociedades que nos habituámos a associar, bem ou mal, a uma tradição de violência e radicalismos intolerantes, mesmo que democráticas. Convém talvez lembrar que se o comunismo surgiu na violenta Rússia dos "czars" e a América que nos habituámos a associar aos massacres escolares, embora pátria da democracia, se fundou na violência, no segregacionismo, na escravatura e em alguns fundamentalismos religiosos, o nazismo nasceu, cresceu e implantou-se na nação mais culta da Europa, pátria de Beethoven e Schiller, berço do romantismo e de nomes fundamentais da literatura, da filosofia e da música. Ah!, dir-me-ão, mas também do militarismo prussiano. Pois... mas a esses limitar-me-ei a lembrar a História para lhes dizer que o relacionamento entre os militares prussianos e o nazismo foi sempre tudo menos pacífico, para não dizer mesmo conflitual, algumas vezes ao ponto da ruptura.

terça-feira, março 23, 2010

A violência das "claques"

Toda esta conversa que se gerou na última semana sobre a violência das “claques” no futebol é perfeitamente inútil e não leva a parte alguma. Ou melhor, leva a que tudo fique exactamente na mesma até que novos acontecimentos, idênticos ou piores, relancem a discussão. Se efectivamente existe vontade de acabar com tal coisa, o que duvido, basta pura e simplesmente ver como no Reino Unido, pátria do “hooliganismo”, terminaram com tais práticas em menos de um par de anos e transformaram o futebol num pacífico passatempo familiar. Depois, basta copiar com as necessárias, mas muito poucas, adaptações (mesmo muito poucas, para não estragar) à realidade local. É que a roda, meus senhores, já foi inventada há muito tempo.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Srs. ministro Rui Pereira, Director-Geral da PSP e Inspector Geral da Administração Interna:

Que comentários fariam a esta afirmação deixada na caixa de comentários deste blog por um anónimo que se diz membro da PSP:
"eu sou PSP e também tenho uma criança em casa de três anos que não merece ficar sem pai. Nem eu ganho para isso, se foi uma acção justificada tanto dá se tem 14 ou 55, é a nossa vida que está em risco."
É esta a vossa polícia?

PSP à rédea solta

Se alguém quer saber donde realmente vêm as ameaças à democracia, às liberdades, ao estado de direito e de que se compõe o verdadeiro caldo de cultura “fascizante”, populista e securitário que está na base de tudo isso, basta ler a maioria dos comentários, locais e na blogosfera linkada (nota adicional: ou aqui na caixa de comentários), a esta notícia do “Público”. Responsabilidades? Claro está, acima de tudo do governo que não hesita, por um prato de lentilhas (ou seja, um punhado de votos), em dar o mau exemplo louvando, do modo e no grau em que o fez, acções como as da PSP quando do assalto ao BES de Campolide, longe das normas pelas quais se deve reger qualquer polícia de um país civilizado e assim definindo os standards para casos futuros. Gostava de saber o que o ministro Rui Pereira tem a dizer sobre o assunto.

Nota: A uma criança (pois de uma criança se trata) de 14 anos nem sequer pode ser imputada responsabilidade criminal. Foi punida com a pena de morte por decisão de um polícia incompetente.

domingo, agosto 31, 2008

A "vaga de crimes" e o "malade imaginaire"

Uma questão fundamental na “actual vaga de crimes violentos” é que, a existir (por exemplo, o número de assaltos a bancos diminuiu em relação a 2006, menos 31 casos, e apenas se registaram mais 10 casos do que no já longínquo ano de 1994), trata-se de uma situação conjuntural para a qual dificilmente existe uma resposta do mesmo tipo, mas apenas estrutural. Expliquemo-nos. No caso de uma vaga de incêndios é sempre possível actuar conjuntural e pontualmente com alguma eficácia, colocando rapidamente mais meios no combate e prevenção dos fogos, nem que seja recorrendo a militares e aluguer de material. Mais ainda, é possível actuar à posteriori, isto é, enviando esses meios adicionais para o local do sinistro tornando mais eficaz o seu combate. Isso contribui para, de imediato, apaziguar o sentimento de insegurança e alarme dos cidadãos, reforçando a confiança destes no seu governo. Já no caso do crime violento essa actuação conjuntural revela-se mais complicada na sua eficácia imediata, já que não se formam mais polícias de um dia para o outro (e o seu número parece ser já suficiente), só se melhora a eficácia da investigação a médio/longo prazo, não se pode colocar vigilância imediata em todos os locais onde o crime possa ser possível, vai sendo – felizmente - impossível alterar as leis ou as decisões dos tribunais “custom made” e, por fim, quando a polícia possa chegar ao local já, na esmagadora maioria dos casos, nada é possível fazer para evitar o crime ou minorar as suas consequências. Acresce que este tipo de criminalidade é um fenómeno urbano, e não rural como os incêndios, um meio sentido como mais “agressivo” para quem nasceu ou ainda tem fortes ligações à “terra”. Como, deste modo, o alarmismo dos cidadãos tende a manter-se e a confiança nos orgãos de governo a desvanecer-se, por não se verem acções imediatas como o “povo da SIC” pretende, o estado tende a virar-se para acções de “grande instrumental”, de grande mediatismo mas eficácia perto de nula. É o que se passa com estas mega-operações policiais a que estamos a assistir, em que são utilizados “grandes meios” que o output final das operações está longe de justificar. Quando muito, apanham-se alguns pilha-galinhas: condutores com excesso de álcool, um ou outro pequeno traficante de droga, meia dúzia de carros roubados, uma faca e, com sorte, uma pistola ou outra. "Much ado about nothing"! Talvez o “povo da SIC”, sempre tão célere a protestar contra os salários dos gestores e dos jogadores de futebol sem colocar a questão da respectiva produtividade; talvez os sectores mais conservadores e securitários da sociedade, sempre a protestar contra a ineficácia do estado (às vezes, mas nem sempre, com alguma razão – não toda), não ficassem muito agradados com o deve e haver deste tipo de actuações em que o dinheiro dos contribuintes é investido com poucos ou inexistentes resultados. Mas injecções de água destilada sempre acabam por originar algumas melhoras em doentes imaginários, não é assim? Enquanto os doentes forem pagando e achando que melhoram...

quinta-feira, março 27, 2008

A "Stôra" Adozinda Cruz

Dois conselhos dirigidos à “Stôra” Adozinda Cruz (aka “a velha”), professora do Carolina Michaëlis vítima de um grave acto de indisciplina durante uma aula que era suposto ser por si dirigida e que qualquer formação específica, que pelos vistos não teve ou rapidamente esqueceu porque dela não precisava para progredir na “carreira”, lhe devia ter explicado:

Ao deixar que os alunos mantivessem o telemóvel ligado durante a aula, está a infrigir uma fundamental "lei de Murphy": “o que pode correr mal, corre mal”. Claro está, correu!

Ao deixar a cada aluno, individualmente considerado, a iniciativa, está a abdicar de dirigir o grupo, acabando, como é evidente, por perder totalmente o seu controle.

Significa isto que não pode, se isso se justificar, dar uma aula, digamos assim, “aligeirada”? Claro que pode, se não se esquecer das regras básicas que deveriam presidir á condução de um grupo e à sua actividade profissional, isto é, se não abdicar de dirigir e controlar a aula. Falta de "vocação"? Não, total ausência de formação e do mais elementar profissionalismo!

segunda-feira, março 24, 2008

Ainda a violência escolar e as atitudes desculpabilizadoras

"Não podemos diabolizar uma aluna, uma professora, uma turma. Seria injusto para as pessoas que protagonizaram a cena que foi filmada".
Ana Tomás de Almeida, docente do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, 24-03-2008 - In "Público"

Podemos encontrar muitas causas, umas próximas outras mais remotas, para o acontecido no Liceu Carolina Michaelis. Podemos procurar explicações (tentei fazê-lo aqui), mais gerais ou particulares, circunstâncias agravantes e elementos atenuantes, outros acontecimentos ainda mais chocantes acontecidos no passado e outros que até nós não chegaram por falta de relato, também situações, por antagonismo, de excelência. Tudo isso, descartada a demagogia das primeiras reacções, ajudará a encontrar soluções alternativas, caminhos, para que, no futuro, cenas semelhantes sejam cada vez menos frequentes.

O que não podemos é adoptar a atitude desculpabilizadora e capitulacionista que a afirmação de Ana Tomás de Almeida parece querer enquadrar, na senda das que assumem existir sempre uma sociedade, um contexto, um ambiente e um passado que tudo justificam, mesmo o injustificável. Independentemente de tudo o que possa ter conduzido à situação que conhecemos (e sabemos do muito, com responsabilidades várias e partilhadas, que a pode ter ajudado a gerar), existiu uma aluna que se comportou de modo incorrecto e desrespeitador, no limite da violência física e certamente para lá dos limites da agressão psicológica, uma professora que não soube, ou não foi capaz, de demonstrar a capacidade necessária para gerir um problema do âmbito e no exercício da sua actividade profissional e uma turma que demonstrou uma total incapacidade para se comportar de acordo com as mais básicas regras da disciplina escolar. Esta é, para já e no curto prazo, a questão básica a resolver, o que significa que sem uma total responsabilização dos agentes envolvidos - , aluna, turma e professora – nunca será possível, finalmente e de “cara lavada”, partir para a resolução daquilo que lhe estará na essência.