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sexta-feira, janeiro 07, 2011

Pedro Santos Guerreiro e a "aristocracia" cavaquista

Ao mencionar, no seu editorial de hoje do “Jornal de Negócios”, a “decadência da aristocracia cavaquista de há 20 anos”, Pedro Santos Guerreiro comete um erro - ou, pelo menos, uma imprecisão. Porquê? Porque o que caracteriza, em termos sociais, o período do chamado “cavaquismo” é o fim da influência dominante da aristocracia – do seu modo de vida, do seu “gosto”, dos valores e comportamentos privados, pessoais e nos negócios – quer directamente quer através da sua assimilação burguesa (Salazar e Caetano comportavam-se como aristocratas, Mário Soares e Cunhal “idem” e Alfredo da Silva casou a filha com um), na política, na economia e nos negócios, substituída por uma nova burguesia emergente sem passado - ou com passado suspeito – e, principalmente, na sua maioria boçal – “com muita terra ainda debaixo das unhas” - e sem grandes ou pequenos escrúpulos. Aliás, é contra essa emergência e dominância do “dinheiro novo”, que atropelava tudo e todos no seu caminho para o “sucesso” e riqueza, tão bem expressa na frase de Manuel Dias Loureiro “pai, já sou ministro!”, que, à direita, Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso combatem nas páginas do “Independente”. Esquecia, no entanto, Manuel Dias Loureiro algo de essencial: ao afirmar a sua nova condição de membro do governo do modo como o fez, estava ele próprio a desprestigiar o cargo a que tinha ascendido e, por extensão, a anunciar o fim de uma era em que, mesmo após o 25 de Abril, o cargo ministerial ainda tinha o peso e o prestígio do “jaquetão preto e calças de fantasia”, do Grémio Literário ou da Círculo Eça de Queiroz”.

Claro que entendo ao que Pedro Guerreiro se queria referir ao falar da “decadência da aristocracia cavaquista”. Mas se faz algum sentido falarmos de uma “aristocracia” quando nos referimos a grandes famílias burguesas como os Espírito Santo, os Kennedy ou os Rostchild, será que, salvaguardadas algumas distâncias e diferenças, podemos utilizar os mesmos termos para todo e qualquer outro género de “famílias”, na política, nos negócios ou em ambos?

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O Presidente e Manuel Dias Loureiro (capítulo II)

O Presidente da República fez em tempos saber ao país que confiava na palavra do conselheiro de estado Manuel Dias Loureiro, por si nomeado. Perante os novos factos revelados recentemente que põe em causa as afirmações do conselheiro de estado perante a Assembleia da República, os portugueses esperariam um qualquer sinal de Cavaco Silva, por pequeno e subtil que fosse, que permitisse a estes entender que o Presidente pelo menos tem dúvidas ou, até, se terá porventura enganado. Isso teria como consequência que esses mesmos portugueses pudessem continuar a confiar nas suas escolhas e opções (dele, Presidente). Pelo contrário, na ausência desses sinais os portugueses entenderão que a confiança de Cavaco Silva no conselheiro de estado Manuel Dias Loureiro se mantém. Com todas as suas consequências...

terça-feira, novembro 25, 2008

Os erros, ou as opções, de Cavaco Silva

Na sequência daquilo que por aqui já afirmei, o que me causa alguma, para não dizer, total perplexidade é a nomeação de alguém como o perfil de Manuel Dias Loureiro para conselheiro de estado por parte de uma personalidade, como é o caso de Cavaco Silva, que sempre fez do rigor e credibilidade parte do seu património político e pessoal. Principalmente, se tivermos em conta o que isso representa de contrastante com os restantes quatro conselheiros de estado por si nomeados. Esse é, de facto, o seu erro político original, que está a pagar caro e não soube, não pôde ou não conseguiu corrigir, antes pelo contrário, com as suas intervenções posteriores. Se, também como aqui já disse, a nota emitida a propósito do BPN é despropositada e, porque não dizê-lo, acaba, ao contrário do que se pretendia, por gerar um efeito comprometedor ou, pelo menos, lançar a suspeição onde ela não existia, as afirmações da tarde de ontem, remetendo para uma lei cuja interpretação está muito longe de ser consensual, arriscam-se a ser lidas como uma opção em duas possíveis, seja, um puro e simples gesto de confiança em Dias Loureiro. Acresce ainda que ao receber pouco depois o conselheiro de estado dando azo a que este afirme, após a audiência, que não vê razão para apresentar a sua demissão, Cavaco Silva sujeita-se a que seja essa sua opção, de confiança em Dias Loureiro, a confirmar-se e fazer caminho junto da opinião pública. Exagero? Talvez nem tanto, já que nos últimos tempos, mormente no caso da Madeira, o Presidente da República, sob a capa da “cooperação estratégica”, não tem esbanjado qualquer oportunidade para demonstrar onde residem, de facto, as suas lealdades políticas e pessoais.
Nota: Já depois de publicado este post, li que o Presidente da República saiu publicamente em defesa de Dias Loureiro, não dando sequer azo a quaisquer dúvidas interpretativas sobre a audiência de ontem e posteriores afirmações do conselheiro de estado. Abre assim caminho a todas as especulações.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Dias Loureiro: um conselheiro contrastante

Quando releio o nome dos Conselheiros de Estado designados por Cavaco Silva (Marcelo Rebelo de Sousa , Leonor Beleza, João Lobo Antunes, Anacoreta Correia e Manuel Dias Loureiro) algo atrai de imediato a minha atenção. Pelo seu perfil pessoal e carreiras política e profissional, pelo bruaá (uma vez mais, a expressão pertence-lhe) sempre associado ao seu nome, pelo trajecto percorrido no mundo dos negócios por si confirmado na entrevista à RTP1, Manuel Dias Loureiro aparece como alguém que se diferencia claramente dos restantes quatro conselheiros, quase como se tratasse de um nome “contra-natura”. Apenas uma curiosidade...

domingo, novembro 23, 2008

O Presidente da República, Dias Loureiro e o BPN

Nos últimos tempos, o Presidente da República parece demonstrar alguma dificuldade no modo como utiliza os meios de intervenção e influência de que dispõe. Nos casos em que se esperaria, e requereria, uma intervenção pública, como nos casos da Madeira, terá optado, e preferido, exercer a sua influência de modo mais discreto. Noutras, em que talvez esse modelo resguardado se revelasse preferível, como, por exemplo, na questão do estatuto dos Açores, preferiu o dramatismo encenado de uma comunicação ao país. Agora, quando ninguém questiona, nem nunca questionou, séria e credivelmente, a sua honestidade, e teria sido bem melhor para si e para o país utilizar a sua influência discreta para conseguir a renúncia de Dias Loureiro ao cargo de conselheiro de estado, onde este chegou por sua indicação, resolveu emitir um comunicado desmentindo qualquer eventual ligação ao BPN. Ao preço a que andam os desmentidos, seria bem melhor para todos que se tivesse mantido em silêncio.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Manuel Dias Loureiro

Há frases assassinas, que se colam a quem um dia as pronunciou acompanhando-o para sempre, definindo uma personalidade. Manuel Dias Loureiro pronunciou um dia uma dessas frases (“pai, já sou ministro!”), anunciando de imediato ao que vinha e ao que ia, e a sua vida política e profissional posterior, para quem estava atento aos “bruáá” (a expressão é sua, na entrevista a Judite Sousa), nada mais fez do que confirmar aquilo que essa frase tinha “alto e bom som” anunciado. A entrevista de hoje à RTP1, ou melhor e para começar, a pura e simples necessidade da sua existência e, depois e para terminar, o contraste entre a ingenuidade que pretendeu assumir e a demonstração simultânea de como se negoceia e enriquece à sombra do estado e do serviço público, mesmo quando de forma legal, nada mais fez do que prolongar essa primeira imagem de há tantos anos. Em última análise, louve-se-lhe a coerência.