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quinta-feira, fevereiro 07, 2013

BPN: a "Grande Reportagem" da SIC

Em vez de optar pela sobriedade e pelo rigor, mais de acordo - acho - com o tema em análise, a Grande Reportagem da SIC sobre o caso BPN (acabei agora de ver o segundo episódio) envereda por um estilo sensacionalista, conspirativo, com peças, como a entrevista com Gilberto Madaíl, sem qualquer relevância (estava lá porque é conhecido e o futebol é financeiramente sempre suspeito?), optando assim por um "piscar de olho" ao populismo e às audiências que acaba por retirar alguma credibilidade à peça jornalística, talvez porque esta também pouco ou nada acrescente ao que já se sabia sobre o caso. Digamos que em termos de conteúdo a reportagem é mesmo bastante "fraquinha" e a forma adoptada limita-se a tentar mascarar essa sua quase vacuidade. É pena, porque o caso marca uma época, é revelador de um período político (basicamente, o chamado "cavaquismo") e, por isso, é suficientemente grave e importante para merecer bem melhor em termos jornalísticos. 

domingo, janeiro 09, 2011

Erros e contradições na campanha de Alegre

Ao centrar os seus ataques a Cavaco Silva, no caso SLN/BPN, fundamentalmente em questões de ordem circunstancial (a quem comprou e a quem vendeu; quais os preços na altura praticados; forte valorização sofrida pelas acções negociadas; sabia ou não das desconfianças suscitadas pelo modo como o Banco era gerido, etc), tendo como objectivo lançar a desconfiança sobre a honorabilidade do candidato adversário e assim abdicando de o fazer de um ponto de vista político mais global e sustentado (o negócio só se torna possível pelo estreito relacionamento construído entre os homens da SLN/BPN e Cavaco Silva durante os governos deste e quando o Estado, com a conivência tácita do então primeiro-ministro, foi utilizado por grupos emergentes pouco escrupulosos como trampolim para a ascensão social e para negócios nas margens da licitude, em vez de o ter sido para a efectivação das reformas necessárias ao desenvolvimento de um país mais competitivo e de uma estrutura empresarial mais moderna e autónoma), a candidatura de Manuel Alegre comete dois erros e evidencia uma das suas contradições fundamentais.
  1. Em primeiro lugar, não fora a provinciana arrogância moral de Cavaco Silva e a sua pouca frontalidade de carácter e mediocridade enquanto político o terem conduzido a uma gestão desastrosa do assunto (autênticamente “com os pés”), como aliás já tinha acontecido nos casos das “escutas”, do Estatuto dos Açores e, até, no modo como se comportou para com a oposição numa das suas visitas à Madeira, e Alegre teria ficado rapidamente com algo vazio entre mãos. Para tal, bastaria Cavaco Silva tivesse respondido com naturalidade às perguntas colocadas, e cujas respostas já eram conhecidas através de investigação do jornal Expresso”, assumindo que poderia ter sido mais cuidadoso quando da efectivação do negócio, etc, etc. Não lhe sendo conhecidos outros “telhados de vidro” do género, o assunto morreria por aí. Mas, parafraseando José Mário Branco, “pode alguém ser quem não é?” Neste ponto, foi essa a sorte de Alegre.
  2. Em segundo lugar, sendo Alegre um político muito experimentado e nunca tendo assumido, nem de perto nem de longe, responsabilidades políticas no país semelhantes às de Cavaco Silva, podendo, por tal razão, apresentar-se como quase isento de responsabilidades pelo “estado a que isto chegou”, era nesse terreno (o político) que a discussão lhe seria sempre mais favorável. Assim , ao atacar Cavaco Silva em questões de honorabilidade e carácter, possibilitou que a candidatura adversária lançasse o seu contra-ataque baseada em questões idênticas (campanha BPP), onde Alegre manifestamente poderá ter cometido uma pequena ilegalidade (um deputado não pode participar em campanhas publicitárias) e onde se explicou “metendo os pés pelas mãos”. É um caso de pouca ou nenhuma gravidade, mas não se livrou de assunto ter sido lançado pela candidatura e pelos “media” favoráveis a Cavaco Silva (e são quase todos...) como “equivalente” perante a opinião pública - e o facto de se tratarem de duas entidades bancárias ajuda à confusão.
  3. Por fim, a candidatura de Alegre evidencia também aqui uma das suas contradições essenciais. Para atacar politicamente Cavaco Silva pela quase ausência de reformas significativas efectuadas no decurso dos seus mandato como chefe do governo, no sentido de tornar o país mais competitivo e dotado de uma estrutura empresarial mais moderna e de um empreendedorismo mais autónomo e dinâmico, Manuel Alegre não poderia estar, como está, refém de quem se opõe a esse mesmo livre empreendedorismo, por um lado, e, por outro, daqueles que sempre se manifestaram contra questões como o aumento da idade da reforma, mudança no sistema de cálculo das pensões e, no primeiro governo de José Sócrates, às reformas que ministros como Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues tentaram levar a cabo para salvaguarda do essencial do Estado Social, pelo qual o candidato se diz bater e eu próprio considero um avanço civilizacional. Para tal, seria necessário uma candidatura que partisse da esquerda moderada ou do centro-esquerda, agregando, a partir daí, toda a esquerda e até alguns sectores menos conservadores do centro-direita. Coisa que a candidatura de Manuel Alegre positivamente não é nem consegue fazer. Uma lástima...

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Pedro Santos Guerreiro e a "aristocracia" cavaquista

Ao mencionar, no seu editorial de hoje do “Jornal de Negócios”, a “decadência da aristocracia cavaquista de há 20 anos”, Pedro Santos Guerreiro comete um erro - ou, pelo menos, uma imprecisão. Porquê? Porque o que caracteriza, em termos sociais, o período do chamado “cavaquismo” é o fim da influência dominante da aristocracia – do seu modo de vida, do seu “gosto”, dos valores e comportamentos privados, pessoais e nos negócios – quer directamente quer através da sua assimilação burguesa (Salazar e Caetano comportavam-se como aristocratas, Mário Soares e Cunhal “idem” e Alfredo da Silva casou a filha com um), na política, na economia e nos negócios, substituída por uma nova burguesia emergente sem passado - ou com passado suspeito – e, principalmente, na sua maioria boçal – “com muita terra ainda debaixo das unhas” - e sem grandes ou pequenos escrúpulos. Aliás, é contra essa emergência e dominância do “dinheiro novo”, que atropelava tudo e todos no seu caminho para o “sucesso” e riqueza, tão bem expressa na frase de Manuel Dias Loureiro “pai, já sou ministro!”, que, à direita, Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso combatem nas páginas do “Independente”. Esquecia, no entanto, Manuel Dias Loureiro algo de essencial: ao afirmar a sua nova condição de membro do governo do modo como o fez, estava ele próprio a desprestigiar o cargo a que tinha ascendido e, por extensão, a anunciar o fim de uma era em que, mesmo após o 25 de Abril, o cargo ministerial ainda tinha o peso e o prestígio do “jaquetão preto e calças de fantasia”, do Grémio Literário ou da Círculo Eça de Queiroz”.

Claro que entendo ao que Pedro Guerreiro se queria referir ao falar da “decadência da aristocracia cavaquista”. Mas se faz algum sentido falarmos de uma “aristocracia” quando nos referimos a grandes famílias burguesas como os Espírito Santo, os Kennedy ou os Rostchild, será que, salvaguardadas algumas distâncias e diferenças, podemos utilizar os mesmos termos para todo e qualquer outro género de “famílias”, na política, nos negócios ou em ambos?

quarta-feira, janeiro 05, 2011

BPN/SLN: as responabilidades políticas - friso: "políticas" - de Cavaco Silva

"O moralista é normalmente um pecador. A moral vivida não se prega" (Vergílio Ferreira - "Aparição").

Quem se dá ao trabalho de acompanhar este “blog” sabe que não contribuo para o peditório da discussão “da” política (o que é diferente da “discussão política”) baseada em “casos” e em questões de ordem moral, ambas dominantes ao tempo do PSD m-l de Ferreira Leite e Pacheco Pereira. Para além de ambas as questões esconderem normalmente a ausência de ideias e projectos, ou o seu oportuno encobrimento, os “casos” são assuntos que compete à justiça resolver, e até trânsito em julgado de sentença proferida por tribunal competente todos são inocentes. Este é um princípio basilar do Estado de Direito Democrático do qual não abdico. Para além disso, por detrás e na base da política feita de “casos” esconde-se, na grande maioria das vezes, o populismo mais rasteiro. Quanto à “moral”, ou questões dessa ordem como “a verdade”, quando tende a dominar a vida política estamos a meio caminho (ou mais do que isso) do totalitarismo mais perigoso. Lembram-se da “superioridade moral dos comunistas” ou da subordinação da liberdade aos “superiores interesses da Nação” (assim mesmo, com maiúscula) e à “moral cristã?”.

Bom, exactamente por estes motivos saudei e admirei as atitudes de Luís Marques Mendes (o mais competente líder do PSD dos últimos anos) ao colocar a questão das “grandes obras públicas” no centro do debate político e ter definido o afastamento de alguns autarcas, envoltos em “casos”, não por via de qualquer lei ou princípio geral e abstracto mas usando de critérios puramente políticos. Do mesmo modo, saudei e soltei um "uff!.." de alívio quando, após a eleição de Pedro Passos Coelho e não deixando de manifestar as minhas concordâncias ou discordâncias com o que ele propunha, a política e a discussão de ideias tornaram a assumir o posto de comando no PSD e, por arrasto, na vida pública. Falando do PS e do governo anterior, estive-me completamente “borrifando” para o facto do primeiro-ministro José Sócrates ter ou não falado verdade ao país no “caso” PT, tendo na altura salientado, desde início, não necessitar de tal coisa para saber que um negócio com essas características e nessas condições, num país como Portugal, nunca poderia ser concluído sem o aval do Estado – e quem manda no Estado é o governo eleito pelos cidadãos. Mais ainda, acrescentei que muito mal andará um político que não saiba mentir ao seu povo sempre que necessário e as circustâncias políticas assim o exijam. Pobre Churchill, se nunca tivesse mentido!

Como é óbvio, não mudo de ideias por estar agora em causa, no chamado “caso” BPN, uma personalidade política pela qual nutro – e não o escondo – clara antipatia, e do qual me afastam concepções de vida (do seu conservadorismo, da superioridade moral que gosta de assumir, do ascetismo que gosta de evidenciar e do seu perfil de quem carrega aos ombros o peso do mundo) e políticas: sendo, gostaria de pensar que como ele, defensor da democracia, do Estado Social e da economia baseada na livre iniciativa, considero Cavaco Silva, e já por aqui, neste “blog”, tratei de explicar as razões, certamente um dos maiores responsáveis pelo modelo económico que nos conduziu “ao estado a que isto chegou”, pedindo a frase emprestada ao saudoso capitão Salgueiro Maia. Por isso mesmo, pouco ou nada me interessa a quem o actual Presidente comprou as acções da SLN e a quem as vendeu - desde que o tenha feito legalmente, claro - nem de tal necessito para tirar ilações políticas – friso: “políticas” – do assunto. E, assim sendo, quais serão elas? Bom, o que o caso BPN /SLN vem, mais um vez, evidenciar e trazer à discussão é aquela que foi uma das principais e mais nefastas características do chamado período “cavaquista”, seja, o assalto ao Estado e aos negócios por uma nova burguesia emergente e sem escrúpulos protegida e acolitada pela “nomenklatura” de então. Foi o “regabofe” do novo riquismo, da sociedade emergente em que o sucesso era apresentado com um fim que justificava todos os meios (lembram-se do Valentim Loureiro que levou o Boavista F.C. à bancarrota,do Isaltino autarca modelo e de muitos outros que continuam hoje a acoitar-se da “Comissão de Honra” do candidato Cavaco Silva?) tudo isto ancorado numa conjuntura nacional e internacional favorável, no legado do governo Soares/Hernâni Lopes (o melhor governo da democracia) e na abundância e esbanjamento dos fundos estruturais. São estas as responsabilidades políticas de Cavaco Silva que o assunto MPN/SLN veio trazer à luz do dia para quem andava distraído ou tem a memória curta, e é sobre elas, e não sobre a quem comprou ou vendeu as tais acções (desde que o tenha feito legalmente, repito), que deve ser questionado e responder politicamente, assumindo todas as suas responsabilidade. E digamos que a carga será bem pesada...

segunda-feira, julho 20, 2009

A propósito do BPN e, agora, de Arlindo Cunha: o "cavaquismo" como projecto de sociedade ao qual quase ninguém escapa ileso

Sejamos claros, uma vez mais. O que está em causa no caso BPN (agora que atingiu Arlindo Cunha) é muito mais do que o ilícito de alguns administradores, ex-dirigentes do PSD e antigos membros de um governo deste partido. Muito mais do que a qualidade de supervisão do Banco de Portugal, as virtudes, os erros ou os excessos do chamado neo-liberalismo. O que está verdadeiramente em causa tão pouco é um partido (o PSD). Em julgamento está aquilo que para o futuro ficou conhecido como "cavaquismo": um modelo de desenvolvimento, um projecto de sociedade baseado nas grandes obras tangíveis mesmo que inúteis, na “obra feita”, nas “novas centralidades”, na subversão (mais do que isso: na inversão) de uma hierarquia de valores até aí socialmente aceites, no desenvolvimento de uma classe empresarial e de uma nova burguesia nascida e fortalecida na corrupção à sombra do Estado protector e apontada mediaticamente como exemplo a seguir.

É o falhanço do projecto de sociedade cuja denúncia fez os dias de glória do “Independente”: o Portugal do dinheiro novo, da sociedade afluente inculta e boçal, da glorificação dos “empresários” e do "sucesso" e do escárnio dos intelectuais, das minorias cultas, do trabalho organizado e do "saber". Um projecto, sejamos claros mais uma vez, a que o actual Presidente da República deu cobertura (daí a sua incomodidade) e a que o próprio PS, principalmente ao nível autárquico, esteve longe de ficar imune e impune. Tudo isto perante um PCP prisioneiro dos seus fantasmas ideológicos e um CDS em desagregação, incapaz de perceber a diferença entre o oiro durável e o pechisbeque de ocasião. Como no filme, infelizmente, ninguém sai ileso e é esse o drama. Ainda hoje.