sexta-feira, fevereiro 03, 2012

O "Sol" do primeiro-ministro

Pergunta nada ingénua: o facto de, neste momento específico, o primeiro-ministro ter escolhido o semanário "Sol" para uma sua entrevista "de fundo" não significa um apoio e reforço explícitos ao controverso programa da RTP1 emitido de Luanda, ao afastamento de Pedro Rosa Mendes da Antena1e um apelo ao investimento da ditadura e cleptocracia angolana nos "media" portugueses? Por mim, só o posso interpretar desta maneira, o que é preocupante. É que isto de coincidências...

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (3). Em louvor do "loden"

Aí por meados dos anos oitenta do século passado (isto de dizer o "século passado" acaba por dar uma certa "patine"), Portugal foi invadido por uma epidemia de sobretudos verdes que a campanha presidencial de Freitas do Amaral ajudou a popularizar. De repente, como acontece com todas as modas, os tais sobretudos verdes sumiram-se tão rapidamente como tinham surgido e não me consta a derrota de Freitas do Amaral para tal tenha contribuído.

E, no entanto, o "loden" (e é disso que estamos a falar) está muito longe de ser uma peça de vestuário "de moda", constituindo, antes pelo contrário, um clássico mais ou menos intemporal. Trata-se, originalmente, de um casaco de caça austríaco de textura relativamente grosseira e fabricado com uma mistura de lãs virgens de carneiro a alpaca (grande número dos que se viram em Portugal eram imitações mais baratas), bastante quente, com alguma resistência à água e que pelo seu "corte" largo permite grande liberdade de movimentos, característica necessária aos caçadores mas que dá muito jeito a todos. Face a este conjunto de características que o tornam tão prático, admiro-me como desapareceu do mapa em Portugal, sendo, hoje em dia, raro cruzar-me com alguém com um vestido. No que me diz respeito, mantenho o meu, velhinho de uns vinte e cinco anos, ainda em uso, com todos os cuidados de manutenção para ficar para a eternidade. Nos dias mais frios como o de hoje, é de utilidade a toda a prova. Tem o "loden" contudo (opinião pessoal) um "contra": Pelo seu peso, volume e comprimento, é pouco prático para o "veste/despe quando se anda de carro.

Mas atenção: ao contrário do que vejo muitas vezes, nada de o usar com fatos mais formais ou até com "blazer", que é um casaco de clube. Pelas suas origens campestres e alpinas, o "loden" é para usar com um casaco de "tweed", com calças de bombazina ou flanela, ou então, pura e simplesmente, por cima de um "pullover" ou de uma daquelas camisolas grossas de lã "shetland".  

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Depois de ler isto apanhei um susto e gelou-se-me o sangue

"Quem alguma vez trabalhou no sector público (seja qual for) aprende, à entrada, duas ou três coisas. Por exemplo:

- Quando se recebe uma indicação de um superior hierárquico com a qual não se concorda ou sobre a qual se têm dúvidas quanto à pertinência, justiça, adequação, etc., o subordinado tem duas hipóteses: ou concorda e executa; ou não concorda e, neste caso, pede que a indicação lhe seja dada por escrito acompanhada da devida justificação e das duas uma:

a) as dúvidas que possui são esclarecidas, aceita a indicação e comunica também por escrito ao superior hierárquico essa sua posição;

b) as justificações do superior hierárquico não o convencem. Responde-lhe então, também por escrito, informando-o e justificando a recusa em aceitar a indicação. Apresenta simultaneamente a demissão de todos os cargos que desempenha, solicitando o regresso à situação anterior à nomeação para os cargos que desempenha."

Este texto foi retirado de um "post" escrito por Estrela Serrano sobre o caso Pedro Rosa Mendes/RDP. Mas não é sobre o "post" da autora (pessoa por quem, aliás, tenho apreço) nem sobre o tal caso de alegada censura que pretendo agora pronunciar-me. A minha questão é muito simples e resume-se na seguinte pergunta: face ao que acima transcrevo, acham que alguma empresa ou organização (uma qualquer) pode funcionar eficazmente dentro daqueles parâmertos e obedecendo a tal metodologia? Acham mesmo? Confesso que, nunca tendo trabalhado no sector público mas não tendo qualquer "parti pris" ideológico ou de outra ordem contra ou a favor do Estado, acho que tal não é possível. E ponto final.

História(s) da Música Popular (192)


Marty Wilde - "Bad Boy"

Marty Wilde - "Rubber Ball"
British Rock n' Roll (III)
Confesso que acho Marty Wilde (sim, é o pai de uma tal Kim Wilde) qualquer coisa assim a modos que para o mauzote. Mas não só é incontornável quando se fala do rock n' roll britânico, como, para mim, tem um valor estimativo: a primeira versão que ouvi do original de Bobby Vee "Rubber Ball" foi a dele, andava eu para aí pela pré-adolescência. Apesar de não gostar particularmente de Bobby Vee e o tema ser apenas mais um, nunca me esqueci, e, depois de chegada a adolescência e a idade adulta e travado conhecimento com o original de Vee, lá fui em romagem de saudade à procura da versão de Wilde (1961). Digamos que não fica a dever muito ao original, o que para o caso não será grande elogio.
Wilde, como muitos dos primeiros "rockers" britânicos, especializou-se em "covers" e a sua primeira gravação foi mesmo uma versão de um original de Jimmie Rodgers, "Honeycomb" (1957). Sem história. Mas andei a vasculhar e descobri - imaginem lá! - que o seu primeiro original, "Bad Boy" (não conhecia), foi editado apenas em 1959, tendo-se Wilde entretido pelo caminho com versões de Phil Philips (gosto muito do original de "Sea Of Love" mas a versão de Wilde é um desastre), Ritchie Valens, Dion e por aí fora. Mas oiçam "Bad Boy" e digam-me lá se não tem qualquer coisa do Cliff Richard "rocker", dos tempos do 2'is Coffee Bar, de "Serious Charge" e "Expresso Bongo", e se a guitarra dos Wildecats (a banda de suporte de Marty) não vos faz lembrar... Hank Marvin, do tempo em que os Shadows ainda se chamavam Drifters e Jet Harris era o seu profeta.

Sebastião Rodrigues (5)

Capa da revista Panorama, editada pelo SNI (1959)

O momento do Sporting Clube de Portugal

Quando da construção dos estádios para o EURO 2004 sempre fui favorável, por questões de racionalidade económica, à opção por um único estádio em Lisboa, municipal, que substituísse os do SLB e SCP. Reconheço tal seria complicado, pois mais de 100 anos de uma História - a dos dois maiores clubes da capital - feita de rivalidades (umas saudáveis, outras nem tanto) teria certamente, como veio a ter, o seu peso na decisão. A História dos povos e das instituições, aquilo que os mantém vivos e projecta o seu futuro, tem também muito a ver com este tipo de questões não tangíveis, e devemos-lhes esse respeito. Por outro lado, não se tendo colocado idêntica opção na cidade do Porto, dificilmente, dado o estado das relações entre SLB e FCP, tal não teria também impeditivo de uma solução municipal em Lisboa, uma vez que tal colocaria os clubes da capital numa situação óbvia de inferioridade patrimonial e, principalmente, no conjunto dos tais valores não tangíveis que são indispensáveis a uma instituição ou marca. Portanto, hoje reconheço que a solução encontrada, se terá sido a pior de todas em termos de racionalidade económica, foi, não só a possível, como também a mais adequada face às condições existentes.

Mas tendo dito isto, tal solução (dois estádios) parece ter tido um perdedor óbvio, e ele chama-se Sporting Clube de Portugal. Sem a capacidade de endividamento e o potencial para gerar receitas do seu rival lisboeta (o meu "Glorioso"), sem as vitórias e palmarés europeus que estiveram na base do crescimento de SLB e FCP (para sua infelicidade, o seu triunfo na Taça das Taças de 1964 acabou por ser muito ofuscado pela década de oiro do SLB), a construção de um estádio próprio, mais a mais um pouco sobredimensionado (o projecto inicial previa 40 000 lugares), contribuiu de modo decisivo para a degradação financeira do clube, apressando o actual estado de coisas. E, pior do que isso, o problema é que, para além de uma situação financeira sombria (os rivais estarão apenas um pouco melhor), o clube, depois de ter tido assumido uma política consequente na primeira década deste século, e que lhe rendeu frutos indesmentíveis, encontra-se de momento sem estratégia, ou com uma estratégia nada consonante com a conjuntura do clube e do futebol português. Eu, benfiquista convicto e ferrenho, faço votos sinceros para que estejam connosco na próxima Champions League. Não resolve, mas sempre ajuda.

quarta-feira, fevereiro 01, 2012

Link Wray & Dick Dale (10)

Link Wray - "Ace of Spades"

Frivolidades ou "coisas de gajo" - "dress codes" (2)

Ora continuemos com a bombazina...

  • Se em vez de calças clássicas falarmos de "jeans", existe uma semelhança entre os "jeans" de bombazina e os tradicionais de "denim" (penso que o termo deriva da proveniência do tecido original, "de Nîmes"): ambos, se relativamente justos ás pernas, podem ser usados com botas de vários tipos  (pessoalmente, prefiro os modelos "Chukka", em camurça, ou os tradicionais botins de pele). Também com "monkstraps" ou outros sapatos de camurça e, se as raias do veludo forem bastante finas (e só nesse caso), "loafers" do tradicional modelo da Sebago, desta ou de outra marca, sempre em castanho ou "bordeaux" e nunca em preto. Pessoalmente, nunca uso "jeans" de bombazina com "loafers", mas admito o contrário, especialmente naqueles dias de Outono ou Primavera que não são "carne nem peixe".
  • Mas existe também uma diferença fundamental entre os "jeans" de bombazina e os de "denim": os primeiros nunca devem ser usados com ténis ou com os tradicionais "docksides" (sapatos de vela), já que não são calças de Verão ou de veraneio. Muito menos, e por isso mesmo, devem ser usados sem meias.

O empréstimo de Rúben Amorim

Sou dos benfiquistas que preferia a solução para o caso Rúben Amorim tivesse sido outra, possibilitando o jogador e sócio do "Glorioso" pudesse ter continuado a exercer a sua profissão no seu clube de sempre. Mas tendo dito isto, pergunto-me se o seu empréstimo ao SC Braga não tem também como objectivo contribuir para afastar o clube minhoto da órbita do FCP, por onde tem crescentemente andado nos últimos anos com evidente benefício deste clube e prejuízo do SLB. Se assim for, isso significa duas coisas: que o meu clube tem aprendido a movimentar-se nos bastidores sem infringir a lei (discordo da lei que permite o empréstimo de jogadores a clubes que disputam a mesma competição e gostaria de a ver revogada, mas ela existe e não podemos ser "totós"); que Rúben Amorim continuará a contribuir, agora no SC Braga e embora de outro modo, para o engrandecimento do clube de que é sócio. Desejo-lhe boa sorte.  

Noronha do Nascimento

Ao fazer ontem estas afirmações na abertura do ano judicial, não ignoro Noronha do Nascimento está também a defender a sua "quinta" para quando o Diabo as tecer. Escusado dizer que elas também não deixam de piscar um olho - ou, para ser mais correcto, acenar com ambos os braços - ao populismo justiceiro, atitude sempre presente quando o poder judicial decide imiscuir-se no jogo da política (e em Portugal a tentação é grande). Mas a questão-chave, essa, é mesmo saber até que ponto Noronha do Nascimento, com estas suas afirmações, não está também a alertar para o facto de estarem a ser postos em causa os princípios e o contrato em que tradicionalmente assenta o Estado Democrático (para já não falar da decência), tal como o conhecemos, e para isso recomendo oiçam o que disse Pedro Marques Lopes no início do "Fórum TSF" de hoje. Duvido alguém o possa dizer melhor.