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segunda-feira, julho 20, 2015

A proposta Hollande/Valls

Esta proposta de François Hollande significa que, no fundo, não existe uma diferença fundamental entre o que a França e a Alemanha propõem para os países menos ricos do euro, desde que a França possa partilhar o poder e não deixar a Alemanha à rédea solta. É o regresso, depois da unificação alemã e para os que têm a memória curta, da velha rivalidade franco-germânica (ou melhor, franco-prussiana) de domínio sobre o continente europeu. Talvez também ao isolacionismo britânico e ao reforço das suas ligações aos USA.

A Portugal e a outros países periféricos restaria a subserviência (ou a servidão) ou saírem da zona euro para salvaguardarem o que ainda possa restar de democracia. António Costa que se modere, pois, nos elogios a Hollande, já que se prova, caso tal ainda fosse necessário, que a grande divisão europeia é nacional, isto é, entre "ricos e menos ricos" e não entre o PPE e a social-democracia.

quarta-feira, junho 13, 2012

A mulher de César (ou de Hollande)

A propósito deste "post", acho que a Ana Matos Pires tem razão num ponto e está fora dela em dois. Tem razão quando diz que não percebe como o "twitter de Valerie Trierweiler não pode ser entendido apenas como "duas cabeças (ela e a de Hollande) que pensam de modo diferente". Seria normal e desejável que assim fosse e em condições normais assim deveria ser. Mas... Não tem razão, primeiro, quando diz, criticando, que "gaja que é gaja defende ou fica calada quando o namorado tem determinada posição". E não o tem porque a questão de género não é para aqui chamada, isto é, se fosse ao contrário, "gaja" político e "gajo" cônjuge (ou gaja/gaja ou gajo/gajo, tanto faz), nada leva a crer a questão também não fosse levantada de modo semelhante. Em segundo lugar, também não tem razão porque sendo Ségolène Royal a anterior mulher de Hollande e Valerie a seguinte, o caso não pode deixar de dar lugar a interpretações que não terão muito a ver com a política. Correcta ou incorrectamente é o que menos importa, pois trata-se de uma mera questão de facto. E é exactamente por isso, e não por qualquer outra razão de género ou de autonomia intelectual, que mandaria o bom senso Valérie Trierweiler tivesse sido bem mais discreta no legítimo apoio político concedido ao adversário da ex-mulher de Hollande.

terça-feira, maio 08, 2012

Atenção aos "cristão novos"

A ideia do "crescimento", como alternativa ou complemento à "austeridade", tem vindo paulatinamente a fazer o seu caminho e ganhou agora novo fôlego com e eleição de Hollande. Veremos no que dá e como se materializa o que para já é apenas uma ideia demasiado difusa, mas entretanto não será grande surpresa ver a tentar saltar para o comboio do "crescimento" aqueles que sempre se mantiveram irredutíveis na defesa das políticas recessivas. Para melhor travarem o seu andamento? É possível, e até mesmo muito provável. Mas também porque para muitos é sempre bem melhor apanharem aquela que pensam a cada momento ser a boa onda. Ou o comboio certo. Bem vindos a bordo? Hum...

Nota: em Portugal, o ministro Vítor Gaspar é o grande derrotado com a eleição de Hollande. Estejamos atentos ao que se possa vir a passar.

segunda-feira, maio 07, 2012

O PS francês, a V República e os seus presidentes

Tenho ouvido e lido por aí que Hollande é apenas o segundo socialista a ser eleito Presidente durante a V República, tendo François Mitterand sido o primeiro. Não deixa de ser verdade, mas para compreender tal coisa num país onde sempre existiu uma esquerda forte (e até um governo de Frente Popular entre 1936 e 1938) não deixa de ser importante acrescentar o seguinte:
  1. O Partido Socialista Francês, na sua actual forma, foi apenas fundado em 1969 (a fundação da V República data de 1958). Antes disso, a esquerda socialista francesa dividia-se numa confusão de pequenos partidos e organizações, entre revolucionárias e reformistas ou até, por vezes, colaborantes com ideias e políticas conservadoras (a SFIO apoiou a guerra da Argélia), frequentemente conflituais e defendendo ideias e políticas antagónicas entre si. Para além disso, a V República e a sua Constituição foram desenhadas à imagem e semelhança de De Gaulle, que abandona o poder, na sequência de um referendo sobre a reforma do Senado, exactamente no ano da fundação (ou refundação) do PS.
  2. Até 1978 o Partido Comunista foi o maior partido da esquerda francesa. Só nesse ano o PS conseguiu melhores resultados do que o PCF nas eleições legislativas. Três anos depois François Mitterand seria finalmente eleito presidente com 51.75% dos votos e tendo como base o Programa Comum da Esquerda.

O socialismo democrático e as várias eleições de ontem

Penso que foi ao Pedro Adão e Silva que ouvi em tempos a seguinte e certeira constatação: "se, na Europa, a austeridade vai varrendo do poder os partidos que a ela aderem, isso acontece de modo mais gravoso com o socialismo democrático e a social-democracia" (cito de cor). Nada de admirar, claro, se nos lembrarmos que, uma vez vencida a direita europeia democrata-cristã e substituída esta por uma espécie de versão serôdia dos "neo-cons" americanos, a política de austeridade, se pouco ou nada tem a ver com os partidos que estiveram na génese da Europa do pós-guerra, tem-no, de entre estes, ainda menos com os que se reclamam da herança reformista da Internacional Socialista. Lembrei-me disto ontem ao ver os resultados das eleições na Grécia e em França, não deixando de deitar um olho para o que se passou no Estado federado alemão de  Schleswig-Holstein. É que, de facto, depois do PS português e do PSOE terem sofrido profundas e históricas derrotas nas eleições legislativas dos respectivos países e do PASOK grego ter passado a terceira força política, a Nova Democracia grega e a CDU de Fraü Merkel, apesar das perdas, conseguem mesmo assim ganhar as eleições a que concorreram ontem. Digamos que, em medidas diferentes, se aguentaram. Ah!, dir-me-ão, e Hollande? Pois... mas o facto é que, apesar de conjugar em si a austeridade, uma personalidade antipática e um seguidismo em relação ao governo de um país contra o qual a França disputou as suas últimas três guerras, nos últimos 150 anos, (franco-prussiana e WWI e II), Sarkozy consegue ainda assim o "feito" de uma derrota "à justa". Digamos que mais do que saudar a, mesmo assim importante, vitória de Hollande, é nisto que a social-democracia e o socialismo democrático - e, por maioria de razões, António José Seguro - devem pensar. Olhando para França? Sim, não direi que não, mas muito principalmente para a Grécia do Syriza e de uma tal "Aurora (muito pouco) Dourada".

segunda-feira, abril 23, 2012

As eleições francesas e algum desconforto dos "media" portugueses

Pareceu-me sentir algum desconforto da maioria da cena mediática portuguesa face ao resultado de Sarkozy na primeira-volta das eleições francesas. Não por Sarkozy, lui-même, mas porque, de facto, Sarkozy é o candidato do governo português, aquele cuja vitória mais convém à ideologia e prática políticas actualmente dominantes na direita cá do sítio. Por isso, prefere-se colocar em destaque o resultado de Marine Le Pen, como se não se soubesse que nele está contido muito voto de protesto, anti-sistema e típico de uma primeira volta, voto esse criado exactamente pelas opções da política europeia dos últimos anos e da qual Merkel e Sarkozy são expoentes. E depois fazem-se contas estúpidas, somando os votos de esquerda, de um lado, e direita, do outro, como se a segunda volta, a dois, não se traduzisse em mais do que uma soma aritmética dos votos da primeira, e assim se concluir de imediato que Sarkozy sairá na frente. Se assim fosse, não seria necessária uma segunda-volta, bastando tal exercício matemático para se eleger o presidente, poupando-se tempo e dinheiro. Bem melhor fizeram os "media" franceses, realizando sondagens para determinar quais seriam as transferências de intenções de voto na eleição do próximo dia 6 de Maio.

Com a ressalva de que o rigor de sondagens para aferir as intenções de voto numa segunda-volta realizadas antes de uma primeira-volta e, principalmente, no dia dessa mesma primeira-volta deixará algo a desejar, o que é facto que até hoje nenhuma sondagem dá Sarkozy à frente, variando a vantagem de François Hollande entre 4 e 6 pontos percentuais. São pois estas - as sondagens sobre o resultado de dia 6 e sobre as possíveis transferências de voto - as únicas contas válidas para aferir como partem os candidatos para mais quinze dias de campanha e são elas que irão condicionar o seu comportamento. Hollande gostaria a segunda-volta fosse já amanhã, e tentará conservar a vantagem jogando na defensiva, isto é, ao centro, tendo garantidos à partida quase o pleno dos votos da esquerda (são as sondagens que o dizem). Sarkozy terá de recuperar o terreno perdido jogando à sua direita, onde, também segundo as sondagens, a transferência de voto não é tão avassaladora (na casa dos 60%). Mas ao fazê-lo poderá também perder alguns ao centro, terreno dos eleitores de Bayrou. Digamos que a posição de Hollande é bem mais confortável (só tem de não cometer erros), mas jogar ao ataque e à direita é o terreno de eleição de Sarkozy. Prognósticos? Esses só mesmo no fim do jogo.