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sexta-feira, agosto 26, 2011

Do "público" e do "privado" - sobre um texto de Fernanda Câncio

Penso neste seu texto do DN, publicado também no "Jugular", estar Fernanda Câncio a confundir duas coisas bem distintas. Por um lado, a tentativa dos poderes públicos (ou, pior, de alguns dos seus agentes) imporem a toda a sociedade uma sua concepção da moral, para o qual não estão mandatados nem têm qualquer cobertura legal. É o que acontece nos casos que cita da tentativa de apreensão de um livro por parte da PSP de Braga, do célebre e triste episódio Saramago/Sousa Lara e, tanto quanto sei, também no episódio do Museu Grão Vasco, que penso ser um espaço gerido pelo Estado ou pela autarquia. Serei - e tenho sido - dos primeiros a protestar e lutar contra tal coisa. Outra coisa, bem diferente, é o direito e a liberdade que uma instituição privada que patrocina, organiza e expõe em espaço próprio uma manifestação artística deve ter para decidir o que quer expor em função dos seus valores e objectivos que persegue. Inclusivamente, em função daquilo que entende serem os valores morais da instituição e da maioria dos seus "stakeholders" (não confundir com "stockholders").

Fernanda Câncio considera "hilariante" que a Companhia de Seguros Tranquilidade invoque os "valores tradicionais" da seguradora e pergunta: "além do fazer dinheiro, quais?" Bom, para além de "fazer dinheiro", desde que respeitando a legalidade e a ética, ser algo perfeitamente legítimo e necessário numa democracia liberal baseada na livre iniciativa, como o são as democracias ocidentais (é mesmo um dos princípios fundamentais em que estas assentam), as principais empresas, públicas ou privadas, são, na sua actividade, normalmente enquadradas por um conjunto de valores e regras que as definem, presidem aos seus negócios e lhes permitem ser bem sucedidas ("fazer dinheiro", mas também terem uma função social - as que a têm) nas sociedades e mercados onde actuam. Digamos que tal define a sua personalidade e o seu "way of doing the things". Nada estranho, portanto, que a Tranqulidade os invoque neste caso.

No seu texto Fernanda Câncio critica também o Secretário de Estado da Cultura por duplicidade de opiniões entre o caso de Braga e este agora da Companhia de Seguros Tranquilidade. Existem, certamente, boas razões para se criticar o governo, e eu próprio não tenho por aqui deixado escapar oportunidade quando tal se justifica. Mas, pelo que acima escrevo, pela necessidade clara de um distinção entre o que é da esfera "pública" e o que pertence ao foro "privado", essencial numa democracia liberal (não conheço outra), não me parece constituir este assunto razão para tal. Outras oportunidades não faltarão...

domingo, abril 12, 2009

A propósito de Fernanda Câncio

A jornalista Fernanda Câncio apresenta uma vantagem sobre muitos dos seus pares: o seu relacionamento com o primeiro-ministro José Sócrates é público e conhecido. Se nunca o confirmou, também nunca o desmentiu nem teria que o fazer. Por isso, não estando em causa a sua qualidade profissional, reconhecida, ao lermos o que escreve todos podemos considerar que pode, ou não, estar a ser influenciada por esse seu relacionamento e equacionar o modo como ele poderá, eventualmente, estar na base dos interesses e objectivos que defende. Mesmo no seu trabalho puramente jornalístico. Está pois, abertamente, sujeita a escrutínio público.

Num campo de relacionamento absolutamente diferente, mas inserindo-se na mesma lógica, está Marcelo Rebelo de Sousa: é conhecido e reconhecido como militante do PSD e já foi seu presidente. Ao escutarmos (quem se der ao trabalho) os seus comentários, sabemos que poderá ter uma agenda política própria e de que modo as suas lealdades políticas e partidárias poderão, ou não, influenciar o que afirma. Também aqui, no seu caso, tudo é claro.

Pelo contrário, relacionamentos e interesses vários de muitos jornalistas e comentadores não são conhecidos por quem os lê, mantendo-se o desconhecimento ou a dúvida sobre os reais interesses e objectivos que os movem e efectivamente prosseguem. Sobre o que, na realidade, determina as suas convicções de momento. Convém, para maior eficácia da sua acção, que esse secretismo assim se mantenha, que as suas ligações assim se estabeleçam. Alguns, mesmo, trabalham simultaneamente em orgãos de informação e, na sombra, mantêm ligações com agências de comunicação e outros, como Sandra Felgueiras, saltitam alegremente entre a assessoria (neste caso de sua mãe) e a televisão pública. Curiosamente, não me lembro de ver alguém pôr isso em causa.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Esclarecimento de Fernanda Câncio

A propósito deste post, a jornalista Fernanda Câncio teve o cuidado de me esclarecer que é alheia e repudia qualquer exploração e aproveitamento da sua imagem e vida privada, para fins políticos, por parte dos “media”. Aqui fica a devida nota.

O contra-ataque mediático de José Sócrates

“Flash”, “Lux” e “Vip” (falta a “Caras” do grupo Balsemão, claro) comandam o contra-ataque mediático de José Sócrates no “caso” Freeport. Exactamente em terreno semelhante àquele em que este foi fundamentalmente colocado: no do populismo e das emoções, dirigido para onde ele poderia fazer mais “mossa”, junto das chamadas “classes populares”. Neste contra-ataque jogam papel fundamental as mulheres de José Sócrates, a mãe e Fernanda Câncio, até aqui reservando-se um lugar discreto, principalmente esta última.

Quem ainda se permite duvidar da importância de uma boa estratégia de comunicação pode bem começar a converter-se. Chapeau!!!

quinta-feira, setembro 20, 2007

O "5 dias" e o regicídio

Em primeiro lugar, compete-me afirmar que não sou monárquico. Convém, neste país em que quase tudo se discute em função de posições apriorísticas e categorias pré definidas. Segundo, que não alinho no disparate completo que constitui valorizar os acontecimentos históricos à luz dos valores actuais e em função de categorias morais entretanto edificadas. Por isso, não considero o regicídio um acto terrorista – e é desonesto e propagandístico mencioná-lo desse modo - com a conotação e significado que hoje em dia se atribui a tais actos, o que não implica que o aprove enquanto forma de luta política e considere o assassinato do rei D. Carlos um acto legítimo. Afirmar, no sentido de uma sua defesa, como Fernanda Câncio o faz no 5 Dias, que não estávamos numa democracia e num estado de direito, mas em regime de tirania - em plena monarquia constitucional???!!! -, o que tornaria legítimo tal acto, vai um passo que só a ignorância histórica e/ou a má fé permitem dar. Os analfabetos e as mulheres não votavam? Era um dado adquirido e ainda não significativamente contestado nos regimes parlamentares: estávamos ainda longe, tal como durante a democrática I República, do one man (women)/one vote. João Franco governou, episodicamente, em efectiva ditadura? Um facto, mas foi apenas um episódio breve que duraria de 10 de Maio a 24 de Dezembro de 1907, sendo nessa data marcadas eleições para 5 de Abril de 1908. Quando se dá o regicídio estamos, portanto, a 65 dias das eleições. Ao colocar a questão neste plano, bem me parece que Fernanda Câncio está a conceder inestimáveis argumentos aos ultra-monárquicos e aos falsificadores da História, o que ela seguramente não quererá. Ou então o 5 Dias anda em maré de azar.