Confesso nunca ter entendido muito bem porque existe em português uma cor a que se dá o nome de "azul marinho". Que eu saiba, nem o mar se apresenta sempre azul, aos nossos olhos, como, mesmo quando o vemos dessa cor, pode ter tonalidades várias. Ou será que se resolveu trocar o género a "navy blue" (azul da marinha) que assim terá passado à categoria LGBT? Sinais dos tempos?
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
quinta-feira, dezembro 02, 2010
And the winner is... Russia (e faz todo o sentido...)
Se um dos objectivos principais da FIFA, nos últimos anos, tem sido o fomento do futebol no terceiro-mundo e em países relativamente periféricos – e tem-no conseguido com grande sucesso, acrescente-se -, a vitória da candidatura russa para a organização do Mundial 2018 faz todo o sentido: a Rússia nunca organizou um Europeu ou Mundial, necessita de desenvolver infraestruturas para o Mundial 2018 que ajudarão ao fomento do futebol na Federação (aliás, foi isto que esteve na base da atribuição, pela UEFA, do Euro 2004 a Portugal), tem enorme potencial futebolístico, alguns dos seus clubes, financiados pelos novos-ricos do pós-URRS, têm vindo a (re)afirmar-se nas competições europeias e a sua selecção, nos últimos tempos com resultados débeis, necessita de um impulso que a traga para a ribalta do grande futebol. Por último, politicamente, a organização do Mundial poderá ajudar a aproximar a Rússia do centro europeu e promover uma sua maior integração no ocidente.
Em contrapartida, Espanha e Portugal são países futebolisticamente maduros (tal como a Inglaterra, a Bélgica e a Holanda), com resultados de sucesso obtidos pelos seus clubes e selecções, com infraestruturas já construídas (em Portugal em excesso – faltam, no entanto, estádios modernos de pequena dimensão - e com Espanha a necessitar de remodelar alguns dos seus estádios ou construir outros) e com enorme entusiasmo pelo futebol em todo o seu território, bem visível nas escolas de futebol, a funcionar em instalações de qualidade, espalhadas um pouco por toda a Península. Politicamente, são democracias sólidas inseridas nas principais instituições europeias e mundiais. Em função disto, seria dificilmente expectável e até mesmo pouco aceitável qualquer outra decisão.
O que se perde? Para mim, uma excelente oportunidade de aprofundar ainda mais a cooperação entre os dois países e as várias nações ibéricas, dando, talvez para sempre, um pontapé no anti-castelhanismo provinciano ainda demasiado dominante em alguma elite portuguesa. Mas, francamente, ganhou o futebol.
Em contrapartida, Espanha e Portugal são países futebolisticamente maduros (tal como a Inglaterra, a Bélgica e a Holanda), com resultados de sucesso obtidos pelos seus clubes e selecções, com infraestruturas já construídas (em Portugal em excesso – faltam, no entanto, estádios modernos de pequena dimensão - e com Espanha a necessitar de remodelar alguns dos seus estádios ou construir outros) e com enorme entusiasmo pelo futebol em todo o seu território, bem visível nas escolas de futebol, a funcionar em instalações de qualidade, espalhadas um pouco por toda a Península. Politicamente, são democracias sólidas inseridas nas principais instituições europeias e mundiais. Em função disto, seria dificilmente expectável e até mesmo pouco aceitável qualquer outra decisão.
O que se perde? Para mim, uma excelente oportunidade de aprofundar ainda mais a cooperação entre os dois países e as várias nações ibéricas, dando, talvez para sempre, um pontapé no anti-castelhanismo provinciano ainda demasiado dominante em alguma elite portuguesa. Mas, francamente, ganhou o futebol.
quarta-feira, dezembro 01, 2010
Alienigena
No programa da TSF “Jogo Jogado”, da passada 2ª feira, o comentador João Rosado afirmou que a candidatura conjunta Portugal/Espanha à organização do Mundial 2018 “não faz qualquer sentido” já que Portugal poderia ser, individualmente, um candidato à organização de um Mundial. A pergunta que deixo é a seguinte: esta gente vive em que mundo? No mesmo em que eu vivo não é com certeza!
Sá Carneiro
A RTP apresentou ontem - não sei se em repetição - mais um documentário, com cenas ficcionadas, sobre a morte de Sá Carneiro. Sobre o documentário, acrescento foi mais uma contribuição para a hagiografia do líder fundador do PPD do que propriamente uma peça jornalística interessada em contribuir para a análise e conhecimento mais profundos de um período agitado da vida recente do país. Centrado nos depoimentos dos que lhe são mais próximos, apenas com as excepções de Eanes e Mário Soares, mais adversários conjunturais do que opositores políticos “de fundo”, sem qualquer intervenção de quem se tem dedicado recentemente ao estudo desse período histórico, a peça, nas suas cenas ficcionadas, chega ao cúmulo de nunca mostrar a cara do actor que interpreta Sá Carneiro (foca apenas um seu reflexo no vidro do avião fatal), um pouco como acontecia com Jesus Cristo em algumas produções da Hollywood de antanho. Conversados, pois.
Mas todo este arrazoado serve fundamentalmente de introdução para duas questões de natureza política que, baseando-me numa passagem do documentário, gostaria de salientar: a concepção de democracia de Sá Carneiro e os seus erros políticos. Quando Sá Carneiro, no rescaldo do 25 de Novembro, faz afirmações na RTP implicitamente pedindo a ilegalização do PCP ou, numa interpretação muito minimalista, pelo menos a sua marginalização política, demonstra, em contraste com Melo Antunes, não só uma noção de democracia claramente restritiva (um dos valores fundamentais da sociedade democrática reside em aceitar no seu seio os próprios inimigos), como labora num enorme erro político: sem uma integração do PCP e da esquerda radical, de pleno direito, no Estado democrático, dificilmente o caminho seguido na construção de uma democracia liberal e de uma sociedade aberta e tolerante se teria efectuado sem sobressaltos de maior e sido tão bem sucedido.
Digamos, enfim, que nada disto é novidade. Se no activo de Sá Carneiro se pode contabilizar a sua intervenção na “ala liberal” da ditadura de Caetano (de onde, no entanto, saiu derrotado, note-se) e a coragem da atitude assumida na sua vida pessoal e afectiva, a sua intervenção no chamado “golpe da Manutenção Militar”, o seu apoio declarado ao caudilhismo Spínolista e a candidatura de Soares Carneiro à Presidência da República – para não falar no seu exílio durante o PREC, justificado por questões de saúde – são suficientes para demonstrar a essência do seu projecto político e os demasiados erros cometidos no percurso.
Mas entende-se o objectivo dos seus: tendo chegado tarde à luta democrática e não tendo, por isso, o passado político de luta contra o regime de Soares ou Cunhal (Sá Carneiro nem sequer era a personalidade mais carismática da “ala liberal” caetanista, cedendo o passo a Miller Guerra, Balsemão e Pinto Leite), a infelicidade da sua morte acabou, finalmente, por dar à sua área política a oportunidade de construção do herói e mito de que sempre tinha carecido.
Mas todo este arrazoado serve fundamentalmente de introdução para duas questões de natureza política que, baseando-me numa passagem do documentário, gostaria de salientar: a concepção de democracia de Sá Carneiro e os seus erros políticos. Quando Sá Carneiro, no rescaldo do 25 de Novembro, faz afirmações na RTP implicitamente pedindo a ilegalização do PCP ou, numa interpretação muito minimalista, pelo menos a sua marginalização política, demonstra, em contraste com Melo Antunes, não só uma noção de democracia claramente restritiva (um dos valores fundamentais da sociedade democrática reside em aceitar no seu seio os próprios inimigos), como labora num enorme erro político: sem uma integração do PCP e da esquerda radical, de pleno direito, no Estado democrático, dificilmente o caminho seguido na construção de uma democracia liberal e de uma sociedade aberta e tolerante se teria efectuado sem sobressaltos de maior e sido tão bem sucedido.
Digamos, enfim, que nada disto é novidade. Se no activo de Sá Carneiro se pode contabilizar a sua intervenção na “ala liberal” da ditadura de Caetano (de onde, no entanto, saiu derrotado, note-se) e a coragem da atitude assumida na sua vida pessoal e afectiva, a sua intervenção no chamado “golpe da Manutenção Militar”, o seu apoio declarado ao caudilhismo Spínolista e a candidatura de Soares Carneiro à Presidência da República – para não falar no seu exílio durante o PREC, justificado por questões de saúde – são suficientes para demonstrar a essência do seu projecto político e os demasiados erros cometidos no percurso.
Mas entende-se o objectivo dos seus: tendo chegado tarde à luta democrática e não tendo, por isso, o passado político de luta contra o regime de Soares ou Cunhal (Sá Carneiro nem sequer era a personalidade mais carismática da “ala liberal” caetanista, cedendo o passo a Miller Guerra, Balsemão e Pinto Leite), a infelicidade da sua morte acabou, finalmente, por dar à sua área política a oportunidade de construção do herói e mito de que sempre tinha carecido.
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