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domingo, dezembro 05, 2010

Não é melhor decidir já que foi atentado?

Confesso não fazer a mínima ideia se Sá Carneiro, Amaro da Costa e restantes passageiros e tripulantes do avião que os vitimou morreram em virtude de atentado, avaria mecânica do Cessna ou azelhice dos pilotos, e assim ficarei até que indiscutível prova produzida por autoridade imparcial e competente decida, inequivocamente, num sentido ou noutro. Confesso também o assunto me merece um interesse muito relativo, não perdendo sequer escassos minutos da minha vida a pensar ou discorrer sobre tal coisa. E, claro, escusado será dizer que não tenho convicções, nem me parece isto seja tema onde tal coisa tenha algum interesse ou, pior ainda, “faça fé”. Mas devo acrescentar entendo que os que estão ou estiveram perto, pessoal e/ou politicamente, das duas personalidades políticas então desaparecidas tendam, por razões emocionais e pelos dividendos políticos que poderiam advir de uma morte não acidental, a fazer prevalecer a tese do atentado, tivesse ele como objectivo o então primeiro-ministro (primeira tese), o ministro da Defesa (tese posterior) ou quem quer que fosse a bordo.

Mas o que já entendo mal é que o Estado português, depois de seis ou sete comissões de inquérito parlamentar (que, infelizmente, neste como em outros casos, todos sabemos valem o que valem – muito pouco ou nada), não sei quantas investigações oficiais com recurso a peritos internacionais ou tidos como tal e decorridos 30 anos sobre o acontecimento, se prepare, a pedido dos que querem fazer o país acreditar na tese do atentado do mesmo modo que o Tribunal do Santo Ofício a todos obrigava a crer nos dogmas da Santa Madre Igreja, para gastar mais tempo e dinheiro dos contribuintes em mais uma comissão de inquérito que valerá, uma vez mais, aquilo que valeram as anteriores: destaque mediático para algumas personalidades, com o ubíquo Ricardo Sá Fernandes à cabeça, e como resultado credível e indiscutível muitas dúvidas ou coisa nenhuma .

É preciso reduzir a despesa pública, o número de deputados, etc, etc? Talvez não fosse mau começar a reduzir a despesa por aqui e a tentar não ocupar os que elegemos para São Bento em assuntos inúteis.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Sá Carneiro

A RTP apresentou ontem - não sei se em repetição - mais um documentário, com cenas ficcionadas, sobre a morte de Sá Carneiro. Sobre o documentário, acrescento foi mais uma contribuição para a hagiografia do líder fundador do PPD do que propriamente uma peça jornalística interessada em contribuir para a análise e conhecimento mais profundos de um período agitado da vida recente do país. Centrado nos depoimentos dos que lhe são mais próximos, apenas com as excepções de Eanes e Mário Soares, mais adversários conjunturais do que opositores políticos “de fundo”, sem qualquer intervenção de quem se tem dedicado recentemente ao estudo desse período histórico, a peça, nas suas cenas ficcionadas, chega ao cúmulo de nunca mostrar a cara do actor que interpreta Sá Carneiro (foca apenas um seu reflexo no vidro do avião fatal), um pouco como acontecia com Jesus Cristo em algumas produções da Hollywood de antanho. Conversados, pois.

Mas todo este arrazoado serve fundamentalmente de introdução para duas questões de natureza política que, baseando-me numa passagem do documentário, gostaria de salientar: a concepção de democracia de Sá Carneiro e os seus erros políticos. Quando Sá Carneiro, no rescaldo do 25 de Novembro, faz afirmações na RTP implicitamente pedindo a ilegalização do PCP ou, numa interpretação muito minimalista, pelo menos a sua marginalização política, demonstra, em contraste com Melo Antunes, não só uma noção de democracia claramente restritiva (um dos valores fundamentais da sociedade democrática reside em aceitar no seu seio os próprios inimigos), como labora num enorme erro político: sem uma integração do PCP e da esquerda radical, de pleno direito, no Estado democrático, dificilmente o caminho seguido na construção de uma democracia liberal e de uma sociedade aberta e tolerante se teria efectuado sem sobressaltos de maior e sido tão bem sucedido.

Digamos, enfim, que nada disto é novidade. Se no activo de Sá Carneiro se pode contabilizar a sua intervenção na “ala liberal” da ditadura de Caetano (de onde, no entanto, saiu derrotado, note-se) e a coragem da atitude assumida na sua vida pessoal e afectiva, a sua intervenção no chamado “golpe da Manutenção Militar”, o seu apoio declarado ao caudilhismo Spínolista e a candidatura de Soares Carneiro à Presidência da República – para não falar no seu exílio durante o PREC, justificado por questões de saúde – são suficientes para demonstrar a essência do seu projecto político e os demasiados erros cometidos no percurso.

Mas entende-se o objectivo dos seus: tendo chegado tarde à luta democrática e não tendo, por isso, o passado político de luta contra o regime de Soares ou Cunhal (Sá Carneiro nem sequer era a personalidade mais carismática da “ala liberal” caetanista, cedendo o passo a Miller Guerra, Balsemão e Pinto Leite), a infelicidade da sua morte acabou, finalmente, por dar à sua área política a oportunidade de construção do herói e mito de que sempre tinha carecido.