sexta-feira, outubro 05, 2007

O discurso do PR e o "Público"

O “Público” on-line titula a propósito do discurso do 5 de Outubro do Presidente das República o seguinte: “Cavaco Silva propõe “novo olhar sobre a escola”, com figura do professor prestigiada”, o que, tendo em atenção o habitual discurso das estruturas sindicais da classe, pode, de imediato, suscitar uma leitura crítica à actuação do governo e do ministério da educação e uma defesa das posições mais radicais dos sindicatos dos professores e da FENPROF. Se verificarmos com mais atenção, o que Cavaco Silva efectivamente também disse foi o seguinte: “em larga medida, a dignidade da função docente assenta no respeito e na admiração que os professores são capazes de suscitar na comunidade educativa junto dos colegas, pais e alunos”, o que dá ao seu discurso um significado completamente diferente e pode ser interpretado como uma crítica a algumas dessas posições corporativas assumidas pelo respectivos sindicatos.
Assim se (des) faz uma notícia...

quinta-feira, outubro 04, 2007

The History Of British Rock (2)

As "reformas" de Luís Filipe Menezes

Segundo o RCP (Rádio Clube Português), Luís Filipe Menezes irá apresentar ao congresso do PSD algumas propostas de alteração constitucional. Independentemente da opinião que possamos ter sobre essas mesmas propostas, e a minha é diversa - por exemplo, estou de acordo com que sejam expurgadas da constituição algumas referências ideológicas sem qualquer aplicabilidade actual, tenho muitas e sérias dúvidas sobre a redução do número de deputados e os círculos uninominais, sou frontalmente contra a regionalização e a eleição directa dos presidentes de câmara, neste caso um “frete” à base de apoio de LFM (deve seguir-se um sistema semelhante ao da eleição da AR sendo o leader do partido mais votado eleito presidente com a obrigatoriedade dos vereadores serem deputados municipais) bem como em relação ao reforço dos poderes presidenciais (acho que o regime se deve tornar tendencialmente parlamentar depois de cumprido o mandato e o período de reeleição do actual PR) e, embora favorável em teoria ao aprofundamento das autonomias insulares, não tenho opinião formada sobre este caso concreto -, repito, independentemente da opinião que possamos ter sobre essas mesmas propostas, elas têm um denominador comum: são populistas (basta ouvir nos diversos fóruns a opinião sobre os políticos e o papel dos deputados, a descentralização, a imagem – sempre positiva – da instituição presidencial, etc) e nenhuma delas é relevante para a resolução dos principais problemas da sociedade portuguesa, sejam, a sustentada estabilização orçamental, a redução da despesa corrente e a definição do papel do estado, a reforma da administração pública, a melhoria de competitividade e aproveitamento no sistema de ensino, as condições oferecidas ao investimento estrangeiro, a definição e implementação de um modelo de desenvolvimento que ponha fim ao ciclo do betão e das obras públicas, a mudança progressiva do padrão das nossas exportações no sentido de uma maior incorporação tecnológica e valor acrescentado e, por fim, a justiça. “Much ado about nothing” ou – vamos lá falar português em época de vindimas – “muita parra para muito pouca uva”. Porque será? Respondeu que o objectivo é mesmo este? E se tivesse razão?...

Oscar Cardozo e o "meu" Benfica


Oscar Cardozo, o nº7 ponta de lança do “meu” Benfica, é demasiado lento. Pronto, não é por aí: com aquele perfil morfológico é normal que o seja e se não o fosse talvez valesse trinta milhões e não jogasse no Benfica. Ainda compro essa. Tem, salvo erro, 1,93 mas é medíocre no jogo de cabeça. Tem boa compleição fisico-atlética mas não tem poder de choque, dificilmente ganhando um despique na luta “corpo a corpo”. Certo, tem boa técnica de remate com o pé esquerdo, mas precisa de tempo e espaço para a aplicar, coisas que aqui pela Europa, por rarearem, se vendem ao preço do caviar “Beluga” ou do oiro em pó. Ah, e também não tem demonstrado ter poder de desmarcação para aplicar o esse seu remate. Pergunta: alguém o viu jogar – “com olhos de ver” – antes de se a resolverem contratá-lo por 9 milhões? É que, ou muda muito ou arrisca-se a ser um dos maiores flops do Benfica no últimos anos, e sabe deus que lá pelas bandas da Norton de Matos, nesses últimos anos, isso tem sido bem menos raro do que o espaço e o tempo para chutar - ou que o caviar “Beluga”!

* agradeço a José Pacheco Pereira, que até nem gosta de futebol, e ao seu "Abrupto" a ideia do símbolo "de pernas para o ar"

terça-feira, outubro 02, 2007

"Gato Maltês" no "Público" de hoje

Este blog viu um excerto deste seu post transcrito no "Público" de hoje. Aqui fica a menção com os meus agradecimentos.

Aristocratas da política

Gostei de ouvir ontem Mário Soares, na SIC Notícias, afirmar a Mário Crespo que tinha com o dinheiro uma relação puritana, algo que só é possível acontecer a quem já nasceu com o suficiente para nisso sequer não pensar. É uma afirmação que remete para uma relação aristocrática com a vida e com a política, esta vista como actividade lúdica mas também como um “dever de classe”, nunca como um “trabalho” ou “profissão” – muito menos um sacrifício – categorias destinadas a quem, fora do círculo restrito dos “cavalheiros”, tem necessidade de ganhar a vida, o que os afasta, à partida, de qualquer desígnio de grandeza. Foi como se, de repente, tivessem passado por mim homens como Churchill, De Gaulle, Franklin D. Roosevelt, John Kennedy ou, em Portugal, Sá Carneiro e o próprio Mário Soares (para não falar do próprio Álvaro Cunhal, com a especificidade da sua vinculação ideológica). Por alguma razão, concordâncias e discordâncias à parte, deles se fez a História.

Pois, chamem-me o que quiserem...mas gostei de ouvir...

segunda-feira, outubro 01, 2007

As Capas de Cândido Costa Pinto (35)

Capa de CCP para "O Príncipe Joga e Ganha", de John Creasey, nº 77 da "Colecção Vampiro"

PSD, debate político e liberalismo

Marcelo Rebelo de Sousa, na sua “charla” de ontem na RTP1, pôs em causa as directas do PSD com a argumentação de que quando o leader era eleito em congresso se discutia política e nas directas isso não acontece. Duas questões prévias antes de ir ao âmago do problema. A primeira que é “feio” e pouco democrático este tipo de reacção à posteriori, pós-eleições, na fronteira do “se o povo não vota em nós, então muda-se o povo”. A segunda, uma lição para o futuro, que a demagogia e o populismo sempre favorecem quem neles melhor se movimenta (o senhor de La Palisse não diria melhor) e, assim, Marques Mendes ao correr a convocar as directas sentindo a sua liderança em crise, como se uma vitória nessas directas a pudesse fortalecer, limitou-se a actuar como qualquer aprendiz de feiticeiro ainda mal iniciado nas práticas.

Mas vamos ao cerne do assunto. MRS tem alguma razão de base naquilo que diz: em teoria, é mais fácil falar de política num Congresso com 1 000 delegados eleitos, portanto “subindo na pirâmide”, melhor preparados do que os 60 000 militantes que neles delegaram, do que em directas. O problema é que MRS sabe que na prática nem sempre isso acontece, sendo os delegados demasiado frequentemente eleitos por mor de outras “razões” que não as do seu saber político ou capacidade para o debate. É pena, mas é assim. Portanto, a simples eleição do leader em Congresso não assegura, por si só, uma prioridade ao debate das ideias, assim como a inversa não é verdadeira: as directas não significam obrigatoriamente a menorização desse debate e, ao cair na esparrela lançada por Luís Filipe Menezes de afastar os temas políticos da primeira linha da discussão, Marques Mendes começou aí mesmo a perder as “directas”. O que me parece ser o problema de fundo é, no entanto, bem outro.

Já aqui o disse, o espaço em aberto para ser ocupado pelo PSD, enquanto partido e oposição, é o que se situa no campo liberal, à direita, muito na linha das propostas do “Compromisso Portugal” e do “Forum para a Liberdade de Educação”: aquilo que na gíria se chama de propostas neo-liberais, embora a denominação tenda a vulgarizar-se e seja, por PCP e “Bloco”, hoje em dia abusivamente utilizada para nomear quaisquer propostas políticas menos estatizantes. O problema é que Portugal não é o norte da Europa ou os USA, países influenciado pelas religiões da “reforma” - é um país católico, conservador, estatista, de pouca e incipiente iniciativa individual, com uma classe média ainda pouco preparada e de criação recente e, o que não é de somenos, sem instituições efectivamente independentes que possibilitem um funcionamento claro e justo da liberdade individual – daí a distância que vai entre a simples enunciação dessas propostas por parte de quem não tem responsabilidades políticas e a capacidade e possibilidade efectiva de as pôr em prática, por parte de um partido e de um governo, arcando com todas as suas consequências políticas, sociais e económicas. É isto, quanto a mim – o medo em encarar de frente uma reforma de fundo na sua linha política, o medo do desconhecido e a apreensão face aos resultados que a sua simples enunciação e aplicação podiam gerar (com alguma razão, note-se) - que tem gerado a timidez e tibieza com que o debate político sério tem sido encarado no seio do PSD e de si mesmo para o exterior. Com certeza que existem “gradações” e que quase todas as pessoas bem intencionadas e com bom senso qb não se excluem de algumas medidas liberalizantes (só para dar um exemplo, é possível dar maior liberdade de escolha ao aluno e capacidade de competição às escolas sem chegar ao limite da adopção de “cheque-ensino”), mas o problema de fundo é que qualquer avanço neste sentido choca não só com a realidade-país como também com a lógica de funcionamento das bases do PSD, ou não se auto-denomine este “o partido mais português de Portugal”. Exactamente por isso, se com Marques Mendes ainda se vislumbraram alguns pequenos passos nesse sentido, pelo menos ao nível da reformulação programática - e sabemos o que valem os programas -, com Menezes eles estarão, claro está, ausentes e qualquer discussão política, com ou sem directas, tenderá a ficar bloqueada. É que uma coisa é “desestatizar”, tal como foi feito nos anos oitenta e noventa e em período de generosa distribuição de fundos europeus e política de obras públicas; outra, bem diferente, é “liberalizar”, ainda por cima em período de “vacas magras”, de aperto orçamental e quando se questiona, e bem, a "bondade" do investimento público.