È melhor passar à frente de "Schoolboy Crush", o lado "B" da primeiro "single" de Cliff e um original de americano Bobby Helms. Sem história, portanto. Mas o seu segundo "single", editado em Novembro de 1958, tem no lado "A" mais um original de Ian Samwell que vale bem a pena e chegou a #7 do "hit-parade", cimentando a posição de Cliff Richard como líder do "rock" britânico: "High Class Baby". Mas a vida tem destas coisas e, assim, devo dizer prefiro bem o lado "B" do mesmo "single", "My Feet Hit The Ground", também um tema de Samwell, neste caso em colaboração com alguém (Joseph Seener) que desconheço quem seja ou o que mais fez na vida. Ah!, parece que assinou também mais um ou outro tema de Cliff de parceria com Samwell, mas isso é já outra conversa.
Bom, há quem diga que "Move It" (Agosto de 1958 e tema escrito por Ian Samwell, guitarrista do primeiro "backing group" de Cliff na era que precede Hank Marvin, Jet Harris e etc) é o primeiro disco de rock n' roll britânico a ser editado. Exagero, claro, e já vimos por aqui que não terá sido bem assim, embora seja seguramente um dos primeiros. Certo e sabido, foi o lado "A" do primeiro "single" de Cliff Richard (esteve para ser o "B") e o seu primeiro êxito (#2 no UK).
Cliff é um dos muitos produtos da chamada "british skiffle craze" e do 2i's Coffee Bar, do Soho londrino. E, tal como aconteceu com Elvis Presley, a sua carreira como "rocker" e émulo britânico de Elvis foi relativamente curta, mas igualmente bem sucedida. No fundo, dura os anos de 58 a 60, meia dúzia de "singles" (talvez um pouco mais), igual número de EP's e, basicamente, um álbum e parte de outros dois. Ah!, e dois filmes: "Serious Charge" e "Expresso Bongo", ambos de 1959. Por muito que doa a muito boa gente que prezo, a partir daí Cliff adere ao "show business" e ao modelo "ídolo da juventude", em musicais de qualidade mais do que duvidosa e música ligeira "do antigamente". Desinteressante.
Mas é exactamente por prezar a carreira de Cliff Richard enquanto "rocker" - até pela influência que teve em Portugal - que abro aqui esta secção no capítulo dedicado ao "british rock & roll", onde tentarei passar os seus temas mais importantes desta fase, não esquecendo os Shadows. Ou melhor, os Drifters, nome pelo qual eram conhecidos nessa fase e que abandonaram para evitar confusões com o grupo norte-americano com o mesmo nome
Já agora, nem Hank Marvin, nem Jet Harris, nem nenhum outro dos futuros Shadows se fazem ouvir nesta gravação de "Move It": o primeiro disco de Cliff em que isso acontecerá será o seu quinto "single" ("Living Doll"/"Apron Strings"), já em Julho de 1959. Para a História deste primeiro "single" de Cliff Richard ficam associados o próprio Ian Samwell, Terry Smart e alguns músicos de estúdio.
Devo dizer que dos "rockers" britânicos que por aqui passaram ou vão passar, Vince Eager e Johnny Gentle são talvez os menos conhecidos. Para mim, sê-lo-ão com toda a certeza, já que, se Adam Faith, Billy Fury, Tommy Steele ou Marty Wilde, já não falando do Cliff (Richard) "rocker", me foram dados a conhecer ainda antes da adolescência (vantagem de ter primos mais velhos...), de Eager e Gentle só soube dessa mesma existência já quase na "meia-idade" - passe o exagero. Digamos que a perda não terá sido enorme, já que Gentle é mais um "teenage idol", na sequência de um Ricky Nelson ou dos irmãos Phil e Don Everly, e Eager uma "curiosidade". Aliás, ambos são mais conhecidos por questões relativamente "laterais", digamos assim: Eager por ter sido membro do Vagabonds Skiffle Group, do qual fazia parte Brian Locking, que viria a substituir Jet Harris nos Shadows, e Gentle por ter tido como banda de apoio numa digressão em Maio de 1960 os... Silver Beatles, com Lennon, McCartney, Harrison, "Stu" Sutcliffe e um tal Tommy Moore, de quem eu nunca tinha ouvido falar (mas o Luís Pinheiro de Almeida, aTeresa e o Abel Rosa é que são especialistas em Beatles).
Difícil seria entender que a aparecimento do "rock n' roll" em meados dos anos 50, na América, com nomes como Elvis Presley, primeiro, e Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, Eddie Cochran, Buddy Holly, Johnny Burnette e, do lado negro, Chuck Berry e Little Richard, além de outros, não tivesse influenciado enormemente a cultura britânica juvenil da década posterior à WWII, uma época ainda de enormes privações para a maioria dos seus habitantes. A ligação da metrópole à antiga colónia tinha sido fortalecida pela guerra e, apesar das fortes restrições, ou talvez por isso mesmo já que as importações não eram fáceis, os discos eram trazidos dos USA pelos marinheiros que aportavam a Liverpool, Southampton e outros portos da ilha. Não tardou a surgir, portanto, principalmente a partir de 1956, um movimento que, um pouco "assim ao género" copycat, tentava seguir os passos do que se passava nos USA. Com dificuldades acrescidas, claro, pois a cópia raramente é tão boa como o original e não existiam no Reino Unido editoras discográficas e estações de rádio independentes e de alcance regional, algo que se tinha revelado essencial no surgimento e difusão do "rock n' roll" americano. São pois desse período nomes quase desconhecidos em Portugal, tais como Billy Fury, Adam Faith, Tommy Steele, Marty Wilde (pai de Kim Wilde), Johnny Gentle e por aí fora. Mais conhecido se tornou Cliff Richard, na maioria dos casos pelas piores razões, pois após um curto período em que se afirmou como o "rocker" britânico número um, mesmo nas suas aparições no cinema ("Serious Charge" e "Expresso Bongo" - inéditos em Portugal), cedo enveredou, com os Shadows, pelo "easy listening", pela canção ligeira e pelo musical de entretenimento.
Local pioneiro e responsável por muita desta actividade foi o "2 I's coffee bar", no Soho londrino. Foi lá, por exemplo, que o Cliff (Richard) rocker foi descoberto. Por isso mesmo não admira que aquele que é considerado, talvez, o pioneiro do "rock n' roll" britânico, Wee Willie Harris, um género de êmulo inglês de Jerry Lee Lewis, tenha dedicado ao local o tema que ocupa o "A" side do seu primeiro disco, editado em 1957: "Rockin' At The 2 I's". Enjoy...