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terça-feira, fevereiro 08, 2011

O "Prós & Contras" e o Egipto

Sejamos claros: não me parece existir em Portugal gente suficientemente conhecedora e qualificada nas áreas de política internacional e de geoestratégia para discutir com seriedade, rigor e profundidade os problemas do Egipto e das revoltas em alguns países árabes. Ou se existe está-se nas tintas para a televisão. O “Prós & Contras” de ontem foi disso prova evidente, e com excepção do general Loureiro dos Santos, que me pareceu minimamente competente e com alguma preocupação de rigor, muito pouco dali saiu. Joshua Ruah foi patético (Esther Mucznik não preencheria melhor a “quota” de Israel?), Miguel Portas lírico e Ângelo Correia palavroso e a gostar demasiado de si próprio - como sempre. E quando a “Drª Fátima”, que não a filha do profeta, decidiu dar a palavra a uns pandegos que estavam na plateia, o melhor teria sido mesmo fugir para a tal Praça do Cairo. É que me parece não basta ter vivido ou trabalhado no Egipto, ou até mesmo ser egípcio, para discutir o assunto

O problema é que não percebo a razão pela qual a RTP não dedicou o seu “P&C” de ontem ao 4 de Fevereiro e ao início da guerra colonial. Trata-se de algo que nos toca de perto e faz parte da nossa História recente, condicionou a vida de uma geração (em muitos casos destruiu) e do regime político, existem muitos estudos (alguns recentes), obras publicadas e documentação sobre o assunto, muitos dos actores e fautores estão ainda vivos, etc, etc. Ou será que o “serviço público de televisão” achou que com o excelente “A Guerra”, de Joaquim Furtado, teria feito a sua obrigação e o tema estava esgotado? Ou que ao tratar o tema do Egipto ia “dar uma de cosmopolitismo”? Uma tristeza...

É que cerca de hora e ½ antes, Mário Crespo (por vezes faz coisas bem feitas) tinha optado por uma pequena mas excelente e interessante entrevista a Carlos Matos Gomes (conheci-o na tropa, era eu alferes miliciano e ele capitão ou major dos comandos, não me lembro bem), autor de algumas obras de cariz histórico e outras de ficção (sob o pseudónimo da Carlos Vale Ferraz) sobre essa mesma guerra colonial. De pé (muito) atrás, fico agora à espera de Dezembro e do modo como a RTP assinalará a data da invasão do chamado “Estado Português da Índia”. "Que parvo que sou"...

domingo, dezembro 30, 2007

"A Guerra", de Joaquim Furtado e da RTP, o acontecimento do ano em Portugal

O “Gato Maltês” não gosta de entrar nessas futilidades de nomeações e eleições das personalidades do ano que passou e do ano que virá. Muito menos de se arvorar em justiceiro ou pitonisa. Não gosta dessa personalização da vida pública, normalmente razão para que, consoante o quadrante político, se promovam uns e denigram outros, à medida das necessidades e agenda política desses uns e daqueles outros.

Mas o “Gato Maltês”, sem abdicar desse seu princípio, não gosta de ser injusto, e acha o já terá sido muitas vezes e o será de certeza ainda muitas mais, se a vida e a morte o permitirem. Se o for menos uma vez, fica desde já muito feliz. Por isso, quer desde já deixar aqui bem expresso que considera o acontecimento do ano em Portugal a exibição pela RTP dos primeiros episódios do documentário “A Guerra”, da autoria de Joaquim Furtado (o seu a seu dono). A começar pelo tema, arvorado até aqui em quase tabu ou tratado de forma parcelar e parcial, acho que menos por pudor mas mais por falta de fôlego e capacidade para o analisar na sua globalidade. Mas também pelo rigor histórico, pela abordagem global, pelo trabalho exaustivo de documentação que lhe está na base, pela independência, pela qualidade documental, pela realização depurada, pelo facto de ser exibido em horário nobre. Querem melhor exemplo da sua qualidade? O silêncio sepulcral que se seguiu à sua exibição, ao contrário da “peixeirada” gerada por um concurso idiota e sem qualquer representatividade que deu a vitória a Salazar.

Muito bem, pois!

quinta-feira, outubro 18, 2007

A "Guerra" de Joaquim Furtado

Do que gostei mais e menos na “Guerra” de Joaquim Furtado:

+ Um certo despojamento como “mood & tone” da série. Será assim que imaginamos a guerra, crua, sem lugar a artifícios, directa e brutal. Sem footage para “preencher” tempo. Os depoimentos são directos, tanto quanto possível, apresentando os depoentes contra um fundo neutro, indiferente, que acentua e enfatiza apenas o que é dito.

+ Talvez pela primeira vez, de forma bem explícita foi focada a interferência directa dos USA no levantamento da UPA, o que era bem conhecido mas pouco mencionado. Penso igual enfoque irá ser dado ao relacionamento MPLA/URSS.

+ A grande preocupação de rigor e neutralidade, que o referido despojamento acentua, embora por vezes essa preocupação acabe, ironia, por se revelar parcial: por muito que nos custe admitir, não são iguais, para a maioria dos espectadores portugueses, depoimentos de angolanos pretos, ligados aos movimentos de libertação, expressos num português menos perfeito aos nossos ouvidos, e de portugueses ou angolanos brancos, perfeitamente perceptíveis num português sem sotaque. Também os mortos não serão todos iguais...

? Estranho, uma vez que se escolheu a apresentação dos acontecimentos através da cronologia, a ausência de referências ao 4 de Fevereiro (ataque às prisões de Luanda por militantes do MPLA, para libertação dos presos políticos). É um acontecimento de importância relevante, que acaba por impor à UPA a necessidade de agir rapidamente para não ser ultrapassada no terreno pelo MPLA, ligado à URSS e dirigido pela elite política e cultural angolana, negra, formada em Portugal e pelo PCP. O assunto pode vir a ser eventualmente focado quando a série se debruçar sobre o início da actividade de guerrilha deste movimento, não sei.

- A preocupação de restringir os depoimentos aos intervenientes na guerra, de um e outro lado, deixa de fora a oposição portuguesa, republicana e comunista, que no regime ditatorial de então não poderia ter qualquer intervenção directa nas operações e na diplomacia, abdicando assim de um ponto de vista relevante. Não sei se será assim em próximos episódios, e também se, enquanto directamente intervenientes na guerra, se dará voz a desertores e prisioneiros de ambos os lados.

- Mesmo deixando de fora, por motivos lógicos, as chamadas “guerras de pacificação”, travadas em Moçambique e na Guiné nos finais do século XIX e início do século XX (que provam que Portugal não impôs o seu domínio de forma pacífica), a guerra colonial começa, de facto, com os movimentos “satyagrahis” no “Estado da Índia” nos anos cinquenta do século XX, prenunciando a invasão de Dezembro de 1961. Teria sido interessante uma referência, até porque a questão é premonitória do que espera Portugal nas suas colónias - o que põe a nú a incúria do regime -, e não pode ser separada do enquadramento político internacional da época, que é referido na série.

- No primeiro episódio faltou enquadramento social e histórico que permita melhor explicar os contornos da revolta e da violência dos massacres, bem como o facto das diferentes etnias terem nele participado de forma desigual. Como viviam (e conviviam) as várias etnias angolanas e os colonos? Como era a estrutura colonial? Qual o estatuto de cada uma? No fundo, percebemos contra quem se revoltaram alguns angolanos, mas porquê esses e não outros, e o que justificava tanta violência?

Aguardemos, com expectativa, os próximos episódios... mas saudemos desde já o primeiro. Em conjunto com a série de António Barreto e Joana Pontes "Portugal - um retrato social", é, desde já, um dos "momentos" de televisão dos últimos anos.

terça-feira, outubro 16, 2007

A "guerra" do "Prós & Contras"

Ana Gomes tem razão. O programa “Prós e Contras” de ontem, sobre a guerra colonial, foi um péssimo serviço prestado pela RTP ao país. Ana Gomes aponta alguns erros, incluído a não participação activa das mulheres, independentemente de as ter havido, guerrilheiras de um lado e enfermeiras pára-quedistas do outro. O problema é mais vasto e radica, para além das más escolhas que Ana Gomes também menciona e do subsequente ridículo de muitas intervenções (mas as más escolhas são recorrentes no programa da “Drª Fátima”), na opção pela participação quase exclusiva de militares, combatentes, com a excepção (que me lembre) de Jaime Nogueira Pinto, pessoa estimável mas na altura elemento da ala mais radical do regime e confesso salazarista, e de antigos colonos “retornados” (caso para dizer: “mas que escolhas!...”), pese embora o esforço de um militar mais lúcido como Carlos Matos Gomes para dar um toque mais abrangente ao debate. Sejamos claros, a guerra (qualquer uma) é uma questão política, tanto como o é a paz, e restringir o programa aos militares, combatentes, alienando a participação dos políticos e, tratando-se de uma guerra iniciada há 45 anos e terminada há 33, dos historiadores, só poderia ter resultado naquele que se viu: uma análise parcial, pessoalista, distorcida, demasiadas vezes sem nexo e, por vezes, nas margens da reivindicação ou da psicoterapia e do “shrink” reservados às relações mal resolvidas. Portugal combateu uma guerra nas suas colónias porque a manutenção do império era indispensável à manutenção do regime. Eram indissociáveis. Sem império a única alternativa era a Europa, como o foi, e essa opção seria incompatível com a manutenção da ditadura. Por isso caíram os dois, a ditadura e o império, no mesmo dia. Ainda bem!