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quinta-feira, maio 09, 2013

Acabou "A Guerra"


Foi ontem exibido o último episódio da série documental "A Guerra", realizada por uma equipa dirigida por Joaquim Furtado. Sobre a excelente qualidade da série já me pronunciei várias vezes, pelo que me parece desnecessário repetir o que escrevi. Mas deixo duas perguntas:
  1. Para quando o devido reconhecimento a Joaquim Furtado, por exemplo, e agora que se aproxima o dia 10 de Junho, com a entrega de uma mais do que merecida condecoração a si e à sua equipa? Ou um qualquer grau "honoris causa" concedido por uma Universidade prestigiada em função do trabalho histórico realizado?
  2. O que me espanta, depois de ter visto a série de "fio a pavio", foi pensar como foi possível a um país europeu e ocidental como Portugal, então o mais pobre da Europa, manter durante treze anos (treze!!!) uma guerra em três frentes que se sabia nunca poderia ser vencida (ou mesmo perdida) e que só poderia terminar como, de facto, terminou: com a queda mais ou menos abrupta do regime que a sustentava. Isto prova, mais uma vez, que mesmo um regime político que se pretendia elitista, governado por uma "soit disant" elite, como pretendia ser a ditadura de Salazar e Caetano, não está imune (ele, os seus dirigentes e seguidores) a ser tomado por um ataque crónico de demência ou um surto perene de loucura. Estranho é existir quem ainda defenda que o resultado poderia ter sido outro. Prova-se que isto da loucura é mais grave do que parece e atinge mesmo alguns que, à partida, poderiam parecer imunizados. À bon entendeur...

quinta-feira, novembro 22, 2012

Os portugueses e a História

Os portugueses não se interessam pela sua História, ou, tirando o "sua", pura e simplesmente não se interessam por História. Para além de meia-dúzia de "clichés", pouco ou nada a conhecem. Tal não deixará de ter a ver com o baixo nível de instrução da maioria, apesar do enorme progresso registado nas últimas décadas, com uma classe média muito recente e talvez ainda com a falsificação durante muito tempo (e ainda agora, embora em menor grau) ensinada nas escolas. Só assim se compreende o esquecimento a que os "media" votaram o ano de 2011, cinquentenário da invasão do chamado "Estado Português da Índia" e do "annus horribilis" da ditadura do Estado Novo. Só assim se compreende também um certo ostracismo a que está a ser votada a excelente série documental "A Guerra", de Joaquim Furtado, em exibição na RTP1. Teriam sido o tempo e local adequados para lançar alguns debates, mais alguns depoimentos, por exemplo, de quem esteve na Índia ao tempo da invasão, de ouvir historiadores sobre os assuntos. Mas nada. Valha-nos o documentário de Joaquim Furtado (pelo caminho que isto leva, qualquer dia será apenas conhecido como sendo o pai da Catarina) e a iniciativa da RTP de o ter posto no ar a horas decentes. Mas poderia ter feito bem melhor.  

quinta-feira, junho 17, 2010

"A Guerra" e António de Spínola

Excelente o episódio de ontem de “A Guerra”, de Joaquim Furtado e da RTP, focado quase exclusivamente sobre a figura de António de Spínola e demonstrando a inépcia política do general já antes do 25 de Abril e que tão exuberantemente iria demonstrar na sua breve passagem pela Presidência da República, com especial incidência nos episódios do chamado “golpe Palma Carlos ou da Manutenção Militar” e na “maioria silenciosa, abrindo caminho aos governos de Vasco Gonçalves e ao reforço do PCP e da chamada “esquerda militar” que lhe era afecta. Em segundo plano, também as ligações entre os oficiais “spínolistas” e a “ala liberal” da ditadura (que se manteriam no pós-revolução), mas também o impasse a que o projecto desta última tinha chegado num regime no qual a intransigência face questão colonial impedia qualquer evolução “por dentro”.

Ao pretender negociar com o PAIGC e com Amílcar Cabral por via da intermediação do presidente senegalês Leopold Senghor, Spínola esquecia algo de essencial e demonstrava desse modo a sua incapacidade de entender a política: que Cabral, enquanto presidente de um movimento de libertação representante de um futuro Estado independente e soberano, nunca aceitaria, e muito bem, negociações a não ser com o governo de Lisboa ou alguém por este oficialmente mandatado; e que Marcello Caetano e o governo de Lisboa, e também muito bem face ao que era a sua linha política, nunca poderiam aceitar uma “excepção Guiné” sem que isso constituísse um grave precedente para a sua política colonial global, tendo em conta principalmente Angola e Moçambique, preferindo uma derrota militar que lhe permitisse manter a coerência.

Por outro lado, nunca a “ala liberal” terá compreendido, ou se o entendeu não teria proposta alternativa, que a correlação de forças no regime nunca iria permitir uma candidatura à Presidência da República de alguém que, na Guiné, conduzia uma guerra quase por conta própria e já demonstrara ter claras ambições políticas numa linha, digamos que, pouco ortodoxa. Um outro Humberto Delgado, mesmo que mitigado pela impossibilidade de uma candidatura alternativa numa eleição que depois do “general sem medo” se tinha tornado indirecta, era algo a que a ditadura não se poderia permitir.

Já agora, não deixo, uma vez mais, de estranhar o silêncio a que os “media” têm remetido o excelente (todos os elogios são poucos) trabalho de Joaquim Furtado. Percebo: algo que prefere o rigor, a investigação histórica honesta e o trabalho sério ao ruído dos radicalismos e à discussão demasiado centrada em preconceitos e barricadas ideológicas acaba sempre por, à falta de argumentos para o combater, ser remetido ao silêncio.

Uma vez mais, parabéns, Joaquim Furtado!

sexta-feira, abril 10, 2009

Parabéns, Joaquim Furtado!

Na sua sobriedade, independência, no seu low profile, no seu rigor histórico, no seu despojamento e no modo como não cede a modas em questões formais, a segunda série de episódios de “A Guerra” (Colonial, de Libertação, do Ultramar), de Joaquim Furtado e da RTP, quase parece deslocada numa cena mediática onde a crítica se transformou em má-língua, a análise em sound byte, o fait divers em notícia de fundo e a parcialidade e o empenhamento politicos tomaram o lugar do jornalismo sério e isento. Um exemplo de profissionalismo, em suma.

Mas sobre ela parece ter caído o pesado silêncio destinado a fazer esquecer rapidamente o que incomoda mas não existe capacidade para enfrentar e, um dia destes, talvez cheguem os epítetos do costume; talvez digam que é demasiado intelectual, que parte de uma posição arrogante, que é demasiado elitista. Demasiado tudo, direi eu, mas para um Portugal “poucochinho”, invejoso, provinciano, inculto e mesquinho.

Parabéns, Joaquim Furtado!

domingo, dezembro 30, 2007

"A Guerra", de Joaquim Furtado e da RTP, o acontecimento do ano em Portugal

O “Gato Maltês” não gosta de entrar nessas futilidades de nomeações e eleições das personalidades do ano que passou e do ano que virá. Muito menos de se arvorar em justiceiro ou pitonisa. Não gosta dessa personalização da vida pública, normalmente razão para que, consoante o quadrante político, se promovam uns e denigram outros, à medida das necessidades e agenda política desses uns e daqueles outros.

Mas o “Gato Maltês”, sem abdicar desse seu princípio, não gosta de ser injusto, e acha o já terá sido muitas vezes e o será de certeza ainda muitas mais, se a vida e a morte o permitirem. Se o for menos uma vez, fica desde já muito feliz. Por isso, quer desde já deixar aqui bem expresso que considera o acontecimento do ano em Portugal a exibição pela RTP dos primeiros episódios do documentário “A Guerra”, da autoria de Joaquim Furtado (o seu a seu dono). A começar pelo tema, arvorado até aqui em quase tabu ou tratado de forma parcelar e parcial, acho que menos por pudor mas mais por falta de fôlego e capacidade para o analisar na sua globalidade. Mas também pelo rigor histórico, pela abordagem global, pelo trabalho exaustivo de documentação que lhe está na base, pela independência, pela qualidade documental, pela realização depurada, pelo facto de ser exibido em horário nobre. Querem melhor exemplo da sua qualidade? O silêncio sepulcral que se seguiu à sua exibição, ao contrário da “peixeirada” gerada por um concurso idiota e sem qualquer representatividade que deu a vitória a Salazar.

Muito bem, pois!

quinta-feira, outubro 18, 2007

A "Guerra" de Joaquim Furtado

Do que gostei mais e menos na “Guerra” de Joaquim Furtado:

+ Um certo despojamento como “mood & tone” da série. Será assim que imaginamos a guerra, crua, sem lugar a artifícios, directa e brutal. Sem footage para “preencher” tempo. Os depoimentos são directos, tanto quanto possível, apresentando os depoentes contra um fundo neutro, indiferente, que acentua e enfatiza apenas o que é dito.

+ Talvez pela primeira vez, de forma bem explícita foi focada a interferência directa dos USA no levantamento da UPA, o que era bem conhecido mas pouco mencionado. Penso igual enfoque irá ser dado ao relacionamento MPLA/URSS.

+ A grande preocupação de rigor e neutralidade, que o referido despojamento acentua, embora por vezes essa preocupação acabe, ironia, por se revelar parcial: por muito que nos custe admitir, não são iguais, para a maioria dos espectadores portugueses, depoimentos de angolanos pretos, ligados aos movimentos de libertação, expressos num português menos perfeito aos nossos ouvidos, e de portugueses ou angolanos brancos, perfeitamente perceptíveis num português sem sotaque. Também os mortos não serão todos iguais...

? Estranho, uma vez que se escolheu a apresentação dos acontecimentos através da cronologia, a ausência de referências ao 4 de Fevereiro (ataque às prisões de Luanda por militantes do MPLA, para libertação dos presos políticos). É um acontecimento de importância relevante, que acaba por impor à UPA a necessidade de agir rapidamente para não ser ultrapassada no terreno pelo MPLA, ligado à URSS e dirigido pela elite política e cultural angolana, negra, formada em Portugal e pelo PCP. O assunto pode vir a ser eventualmente focado quando a série se debruçar sobre o início da actividade de guerrilha deste movimento, não sei.

- A preocupação de restringir os depoimentos aos intervenientes na guerra, de um e outro lado, deixa de fora a oposição portuguesa, republicana e comunista, que no regime ditatorial de então não poderia ter qualquer intervenção directa nas operações e na diplomacia, abdicando assim de um ponto de vista relevante. Não sei se será assim em próximos episódios, e também se, enquanto directamente intervenientes na guerra, se dará voz a desertores e prisioneiros de ambos os lados.

- Mesmo deixando de fora, por motivos lógicos, as chamadas “guerras de pacificação”, travadas em Moçambique e na Guiné nos finais do século XIX e início do século XX (que provam que Portugal não impôs o seu domínio de forma pacífica), a guerra colonial começa, de facto, com os movimentos “satyagrahis” no “Estado da Índia” nos anos cinquenta do século XX, prenunciando a invasão de Dezembro de 1961. Teria sido interessante uma referência, até porque a questão é premonitória do que espera Portugal nas suas colónias - o que põe a nú a incúria do regime -, e não pode ser separada do enquadramento político internacional da época, que é referido na série.

- No primeiro episódio faltou enquadramento social e histórico que permita melhor explicar os contornos da revolta e da violência dos massacres, bem como o facto das diferentes etnias terem nele participado de forma desigual. Como viviam (e conviviam) as várias etnias angolanas e os colonos? Como era a estrutura colonial? Qual o estatuto de cada uma? No fundo, percebemos contra quem se revoltaram alguns angolanos, mas porquê esses e não outros, e o que justificava tanta violência?

Aguardemos, com expectativa, os próximos episódios... mas saudemos desde já o primeiro. Em conjunto com a série de António Barreto e Joana Pontes "Portugal - um retrato social", é, desde já, um dos "momentos" de televisão dos últimos anos.