Nota: não está em causa o profissionalismo de Dalila Rodrigues ou a veracidade das afirmações de JRS: tudo leva a crer este esteja a descrever a realidade do dia a dia das televisões, e não só da pública (lembram-se da TVI e dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa?). O que está em causa, isso sim, é um determinado tipo de comportamentos e procedimentos que subvertem completamente os modelos organizacionais pelos quais se tem de reger uma empresa, seja ela pública ou privada. Apenas isto e nada mais. O resto – e não faltará agora aí quem venha falar de democracia em risco e restrições à liberdade - é poeira atirada para os olhos.
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
terça-feira, outubro 09, 2007
José Rodrigues dos Santos
Nota: não está em causa o profissionalismo de Dalila Rodrigues ou a veracidade das afirmações de JRS: tudo leva a crer este esteja a descrever a realidade do dia a dia das televisões, e não só da pública (lembram-se da TVI e dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa?). O que está em causa, isso sim, é um determinado tipo de comportamentos e procedimentos que subvertem completamente os modelos organizacionais pelos quais se tem de reger uma empresa, seja ela pública ou privada. Apenas isto e nada mais. O resto – e não faltará agora aí quem venha falar de democracia em risco e restrições à liberdade - é poeira atirada para os olhos.
Da "Segurança" a propósito do "Prós e Contras"
Sendo Portugal, comprovadamente, um dos países da Europa e do Mundo mais seguros – falando de criminalidade e potencial actividade terrorista” - não vou ao extremo de dizer que o tema “segurança” é um "não-tema”, mas ocupa seguramente mais espaço e tempo (também recursos?) do que seria desejável em função dessa mesma importância real na vida e resolução dos principais problemas do país. Por exemplo, a questão da hipotética célula, ou existência de actividades da ETA em Portugal atingiu as raias do ridículo. E essa sobre-importância só acontece por um conjunto de razões, algumas das quais são mais ou menos óbvias:
- É um assunto que “lida” com aquilo que é considerado ”de mais sagrado” na vida das pessoas, seja, o património e a vida, em relação aos quais tudo tem tendência para ser exacerbado, criando mitos, ansiedades e fantasmas onde, se a racionalidade “mandasse”, isso não se justificaria. Acresce que o atraso da sociedade portuguesa, a pouca educação da maioria dos seus habitantes e a sua ainda demasiada ligação a um meio rural – a sociedade cosmopolita e urbana é ainda algo que funciona um pouco como uma “agressão” - favorecem a criação desse mesmo clima, facilitam a emergência desse sentimento tal como acontece com o temor reverencial face à morte e à doença, esta, muitas vezes, referida através de eufemismos (não se tem uma neoplasia ou um cancro, mas “uma doença má” e morre-se de “doença prolongada”.
- Por outro lado, tudo isso torna a questão da “segurança” facilmente “mediatizável” e, pior, “tabloidizável”, algo “simples” em que o povo se vê reflectido e que “faz ouvir a sua voz”. Uma parte significativa da criminalidade mais violenta tem ainda que ver com dramas passionais, traições, amores e desamores resolvidos em vinganças ou, então, questões relacionadas com o tráfico ou roubo por via de questões de droga, um inimigo recente que está na “porta do lado” e com o qual ainda não se aprendeu suficientemente a conviver ou eficazmente a combater, o que aumenta o medo, o tal temor reverencial.
- Last but not least, demasiada gente e corporações poderosas, de algum modo, vivem ou estão dependentes, directa ou indirectamente, da “segurança”, desde o aparelho judicial às polícias, da advocacia aos “media”, o que funciona como um elemento catalizador do tema.
Junte-se a tudo isto, mesmo sem ser preciso agitar demasiado, os ultra-securitários de “última hora”, isto é, os do pós 11 de Setembro (não estou a minimizar a questão, mas, neste caso, estamos a falar de uma faceta da "segurança" ininteligível para 99% da população portuguesa), mais a gritaria habitual de PCP e “Bloco” contra a ridícula extrema-direita do PNR e aí está o resultado esperado: “much ado about (almost) nothing”.
segunda-feira, outubro 08, 2007
A Polónia e José Manuel Fernandes
Pois estava eu deprimido, triste e macambúzio sem saber que destino dar hoje ao “Gato Maltês”, quando, de repente e graças ao “Público”, companheiro fiel que nunca me deixa ficar mal, dou com este suculento naco de prosa assinada por, nem mais nem menos, o seu director, José Manuel Fernandes (JMF), e sobre uma sua visita à Polónia. Como se dizia em tempos, passo a citar:
“Mais: o crescimento económico e a emigração quase acabaram com o desemprego e, para construir as auto-estradas que a UE financia, há empresas a recorrer a imigrantes asiáticos. Como é isto possível? Talvez porque poucos povos sofreram como os polacos nos últimos dois séculos, e nenhum sofreu tanto na II Guerra, que dizimou um quinto da população. Só que também poucos se reergueram tantas vezes, e nenhum o fez de forma a abrir a brecha que faria ruir o mundo comunista. Terem atravessado tantos "vales de lágrimas" e de novo estarem a mostrar que estão vivos, inquietos e determinados, fazendo com que vozes tão distintas os vejam como exemplo a seguir, permite aos polacos terem, pelo menos, direito a que lhes concedamos o direito de tratar dos seus problemas políticos, sem pressões externas.”
Bom, passemos ao lado da prosa estilo “fazer chorar as pedras da calçada” e da análise sobre a história polaca capaz de ter sido escrita, ou dita, referência à queda do comunismo à parte, como é óbvio - a não ser que tivesse dons de pitonisa -, por qualquer dona de casa burguesa dos anos cinquenta ou sessenta, versada em piano e em francês, depois de uma leitura rápida do "Paris Match" e no intervalo do chá e da canasta com as amigas. Passemos, pois.
Mas mais difícil será passar ao lado de outras duas afirmações de JMF. Em primeiro lugar, quando afirma que “o crescimento e a emigração quase acabaram com o desemprego”. Pois é, isto de crescimento económico por via da construção de auto-estradas (e outras obras públicas) também já tivemos por cá e, a mim, leitor atento de JMF, não me consta que nos tenha conduzido muito longe nem que JMF esteja muito satisfeito com o resultado. É que já o li, e bem, a contestar o novo aeroporto de Lisboa e o modelo de desenvolvimento que está na sua base... Mais ainda, solucionar o problema do desemprego com recurso à exportação de cidadãos também não só não me parece ser lá grande ideia (os ditos cidadãos talvez não gostem lá muito) como também já se viu por cá, nos anos sessenta, acrescentando-lhe ainda a guerra colonial para dar uma ajuda a essa mesma exportação (os que iam para a guerra e os que não queriam ir). Ah, e também já se viu na Irlanda, no século XIX, e por aí fora. Qual a perspectiva histórica de JMF sobre o assunto?
Mas pior, pior ainda, é quando JMF pede que se atribua aos polacos o direito de tratarem dos seus problemas políticos sem pressões externas, leia-se, serem estado-membro da União sem “Tratado Constitucional Europeu”, sem” Dia Europeu contra a Pena de Morte” e com o seu ultra atlântismo militante – e tudo o mais. Sabemos bem das posições políticas de JMF face à UE, e por aí fora, mas será que JMF conhece algum estado, algum mesmo (não vale dizer St. Kitts and Nevins – e mesmo assim...), que tenha direito a tratar dos seus problemas políticos sem pressões externas? Ainda por cima, quando se é membro de uma instituição como a UE – ou a NATO, ou a OCDE, ou, ou... Mas digam lá, não era isso mesmo que pediam os comunistas, cá do burgo e de outros burgos, quando bramavam contra as “interferências do imperialismo” durante o PREC? Ou será que JMF também não quer sujeitar a pressões os presidentes Hugo Chavez, Fidel Castro e etc? Ou o Estado de Israel, que até é uma democracia, para que reconheça os direitos dos palestinianos? Mau exemplo este último: é que, em face das suas posições, se calhar não quer mesmo!
domingo, outubro 07, 2007
Algumas recomendações sobre "Planet Terror"
Recomenda-se vivamente “Planet Terror” a “parte” de Robert Rodriguez do díptico “Grindhouse”. Até se recomenda mais do que a “parte” de Tarantino, eu acho. Mas também se recomenda o seguinte: se é muito impressionável – ou apenas impressionável “assim-assim” - recomenda-se fique em casa; mesmo não o sendo, condição indispensável para ousar ir vê-lo, recomenda-se vá longe da noite e, principalmente, bem longe da hora de jantar, evitando molhos e massas nesse mesmo jantar; ir acompanhado dá algum jeito, também se recomenda. Eu confesso sou “alguma coisa” impressionável e fechei várias vezes os olhos. Fui ver às duas da tarde e tento agora ganhar coragem para jantar lá para as nove, depois do “glorioso”. Estavam umas seis ou sete pessoas na sala, no Monumental, e resistimos três até ao fim – bem contadas. Confesso, várias vezes hesitei e pensei desistir. Fiz um esforço – o filme e eu merecemo-lo. Vá ver, recomendo, mas escolha bem a quem diz que a recomendação é minha. sábado, outubro 06, 2007
sexta-feira, outubro 05, 2007
"Madeleine McCann e o Caso do Polícia Falador"
- Infelizmente para todos, e por via do chamado “caso Joana”, os antecedentes recentes da PJ de Portimão e do inspector Gonçalo Amaral estão longe da reputação inatacável.
- Desde o seu início, desde a própria noite do desaparecimento de Madeleine McCann (não será necessário adiantar as razões: são de todos bem conhecidas) que o caso continha em si todos os ingredientes para se tornar de resolução difícil, mediático (pior, feito à medida dos tablóides ingleses) e com repercussões internacionais. Requereria, pois, o maior bom senso, sobriedade e rigor no seu tratamento por parte da PJ, seja, colaboração imediata da polícia britânica, com meios mais sofisticados e actualizados e larga experiência em casos semelhantes (basta ver com regularidade a Sky News e acompanhar algumas séries policiais inglesas que, ficção à parte, acabam por reflectir o que se passa na sociedade), preservação do local do crime, não subalternização de nenhuma hipótese ou potencial suspeito credíveis e, uma vez que estamos a falar de cidadãos de um outro país, com hábitos e cultura diferentes, e de um caso que envolve algo de sentimentalmente doloroso como o desaparecimento de uma criança, algum pudor nos comportamentos do “dia a dia” que, por exemplo, evitasse o triste espectáculo dos prolongados almoços com vinho e whisky que caíram como “sopa no mel” na voracidade dos tablóides ingleses - e não só.
- Como se sabe, a PJ de Portimão não só não actuou neste registo como, desde o princípio e através de comentadores ex-inspectores e outros Flores, nos tentou vender a tese da “cabala” e da conspiração, das pressões neste ou naquele sentido (não será tempo de os portugueses se convencerem, de uma vez por todas, que as ditas pressões fazem parte da nossa vida e saber trabalhar e decidir sob pressão é normalmente o que distingue os muito bons dos restantes?) que, normalmente, existam ou não, não são mais do que manifestação de impotência e capitulação face à resolução do projecto que se tem pela frente. A entrevista de Gonçalo Amaral foi apenas o último episódio dessa impotência.
- Também foi visível, durante todo o processo e com maior evidência quando elas pareciam tornar-se mais necessárias, a avareza com que governo, director da PJ e quem de direito prodigalizaram declarações de confiança e apoio à PJ de Portimão, seja por falta de confiança no seu trabalho ou por quaisquer outras razões. Para a opinião pública, a partir de determinado momento isso passou a ser um dado do problema; os operacionais da PJ ter-se-ão apercebido disso, por certo, bem mais cedo. Não me parece que tenham tido isso em atenção, e se o tiveram actuaram como não deviam.
- Independentemente da natureza do crime e de quem o cometeu, o que não vem agora ao caso, para a PJ de Portimão e para o inspector Amaral, por culpa própria, o caso só poderia acabar assim: uma vergonha e um enxovalho. Um atestado de incompetência.
