Maria Guinot - "Silêncio e Tanta Gente"
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
Mostrar mensagens com a etiqueta música ligeira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta música ligeira. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, abril 24, 2013
E o "nacional-cançonetismo" também produziu alguma boa música, embora pouca
Maria de Fátima Bravo - "Vocês Sabem Lá" (Nóbrega e Sousa - Jerónimo Bragança)
Simone de Oliveira - "Sol de Inverno" (Nóbrega e Sousa - Jerónimo Bragança)
sexta-feira, outubro 08, 2010
Portugal-Dinamarca ("agora é que não falha, nove a zero"!)
Beatriz Costa e Nascimento Fernandes - "Canção do Futebol". Do filme "O Trevo de Quatro Folhas", de Chianca de Garcia (1936)
domingo, março 01, 2009
"Doce": "Portugal goes pop"
"Doce" - "Amanhã de Manhã"
Quando se inicia a década de oitenta do século XX, os ecos do PREC são cada vez mais longínquos, e o rescaldo do 25 de Novembro está em fase de dissipação. O tempo em que as dissenções políticas tinham divido famílias e destruído amizades, forjando outras talvez menos duradouras e mais ditadas pela conjuntura, em que a proximidade vivêncial não era ditada por personalidades, classes sociais ou formação educacional e intelectual, mas pela afinidade ideológica e partidária, caminhava para o seu fim.
A nível político, a direita da AD tinha alcançado o poder e a inabilidade política de Sá Carneiro propunha um general politicamente “suspeito” como candidato presidencial, talvez pensando que os tempos em que Melo Antunes tinha salvo, com apenas uma frase, um regime plenamente democrático já não se repetiriam. Eanes renovou o seu mandato, pôs a tropa nos quartéis e a revisão constitucional de 1982 (Soares, uma vez mais) abriu caminho à CEE.
A música que tinha marcado uma década (a de setenta), a chamada de “intervenção”, dos “pais fundadores” da música popular portuguesa, e a da revolução na música ligeira protagonizada nos Festivais da Canção por muitos nomes ligados, conjunturalmente ou não, ao PCP, como Ary dos Santos, Tordo, etc, estava em refluxo. A chamada música “pimba”, num país ainda com grandes manchas de ruralidade, restringia-se, envergonhadamente, às feiras de província e às cassetes pirata. Num país com televisão a “preto e branco”, aquela que tinha sido, talvez, a última manifestação de cultura de massas e, simultaneamente, de combate político no rescaldo da revolução de Abril (“A Visita da Cornélia”), entre a esquerda de “Pitum” e José Fanha (entre outros) e a direita de Gonçalo Lucena e Rui Guedes, tinha obrigado a RTP a contorcer-se para dar a vitória a um “moderado” que não deixou rasto nem nome. Em 1980, a televisão a cores anunciava um novo Portugal e uma nova era, mais moderna, cosmopolita, urbana e suburbana. Uma sociedade mais aberta e interclassista. Mais europeia, enfim.
É este “caldo de cultura” que irá gerar a emergência de novas realidades a nível tanto da música popular como da música ligeira, e até uma maior fusão entre elas. A formação e autonomização de uma cultura suburbana - um pouco á semelhança do acontecido com o movimento “mod” londrino dos anos 60 - protagonizada pelos filhos dos seus primeiros habitantes, já nascidos junto à cidade ou já sem memórias do mundo rural dos seus pais, irá fazer nascer aquilo que ficou conhecido como o “novo rock português”, onde a influência anglo-saxónica do movimento “punk” – mas não só – é notória. A emergência do embrião daquele que viria a ser o movimento LGBT, assumindo uma certa marginalidade urbana, gera um dos nomes mais interessantes da música popular portuguesa de sempre e a sua morte prematura, vítima de AIDS, um movimento de culto. A nível “mainstream”, perante o quadro acima descrito e a chegada à adolescência de quem, então criança, não tem memórias de Abril, estão criadas as condições políticas e sociais para que a música “pop”, despretensiosa e tendo como único objectivo ganhar dinheiro através do puro divertimento (sem mais), mas já com um profissionalismo e rigor marcados pela chegada de Portugal ao capitalismo concorrencial e à modernidade europeia, faça o seu caminho e preencha o espaço que em muitos países é o seu. Nada de surpreendente que esse lugar seja ocupado pelas “Doce”, talvez, em Portugal, o primeiro grupo concebido e criado por um produtor (tal como as Chiffons, Cookies, Crystals, etc, vinte anos antes nos USA) na base de um conceito que tinha a ver com as condições da época e vai marcar a imagem do grupo: abertura europeia, degelo político, televisão a cores, disseminação do erotismo e dessacralização do sexo. Será a conjugação de todas estas condições que vai proporcionar o nascimento do grupo e potenciar o seu enorme e merecido sucesso.
Nota: Devo pedir desculpa pela má qualidade do vídeo aqui apresentado, mas, pelo que acima afirmei, acho que as “Doce” são indissociáveis da imagem e o facto de se tratar de uma sua presença no “Tal Canal”, outro elemento da “cultura de massas” que simbolizou a passagem de Portugal à era da modernidade, tornava-o incontornável.
A nível político, a direita da AD tinha alcançado o poder e a inabilidade política de Sá Carneiro propunha um general politicamente “suspeito” como candidato presidencial, talvez pensando que os tempos em que Melo Antunes tinha salvo, com apenas uma frase, um regime plenamente democrático já não se repetiriam. Eanes renovou o seu mandato, pôs a tropa nos quartéis e a revisão constitucional de 1982 (Soares, uma vez mais) abriu caminho à CEE.
A música que tinha marcado uma década (a de setenta), a chamada de “intervenção”, dos “pais fundadores” da música popular portuguesa, e a da revolução na música ligeira protagonizada nos Festivais da Canção por muitos nomes ligados, conjunturalmente ou não, ao PCP, como Ary dos Santos, Tordo, etc, estava em refluxo. A chamada música “pimba”, num país ainda com grandes manchas de ruralidade, restringia-se, envergonhadamente, às feiras de província e às cassetes pirata. Num país com televisão a “preto e branco”, aquela que tinha sido, talvez, a última manifestação de cultura de massas e, simultaneamente, de combate político no rescaldo da revolução de Abril (“A Visita da Cornélia”), entre a esquerda de “Pitum” e José Fanha (entre outros) e a direita de Gonçalo Lucena e Rui Guedes, tinha obrigado a RTP a contorcer-se para dar a vitória a um “moderado” que não deixou rasto nem nome. Em 1980, a televisão a cores anunciava um novo Portugal e uma nova era, mais moderna, cosmopolita, urbana e suburbana. Uma sociedade mais aberta e interclassista. Mais europeia, enfim.
É este “caldo de cultura” que irá gerar a emergência de novas realidades a nível tanto da música popular como da música ligeira, e até uma maior fusão entre elas. A formação e autonomização de uma cultura suburbana - um pouco á semelhança do acontecido com o movimento “mod” londrino dos anos 60 - protagonizada pelos filhos dos seus primeiros habitantes, já nascidos junto à cidade ou já sem memórias do mundo rural dos seus pais, irá fazer nascer aquilo que ficou conhecido como o “novo rock português”, onde a influência anglo-saxónica do movimento “punk” – mas não só – é notória. A emergência do embrião daquele que viria a ser o movimento LGBT, assumindo uma certa marginalidade urbana, gera um dos nomes mais interessantes da música popular portuguesa de sempre e a sua morte prematura, vítima de AIDS, um movimento de culto. A nível “mainstream”, perante o quadro acima descrito e a chegada à adolescência de quem, então criança, não tem memórias de Abril, estão criadas as condições políticas e sociais para que a música “pop”, despretensiosa e tendo como único objectivo ganhar dinheiro através do puro divertimento (sem mais), mas já com um profissionalismo e rigor marcados pela chegada de Portugal ao capitalismo concorrencial e à modernidade europeia, faça o seu caminho e preencha o espaço que em muitos países é o seu. Nada de surpreendente que esse lugar seja ocupado pelas “Doce”, talvez, em Portugal, o primeiro grupo concebido e criado por um produtor (tal como as Chiffons, Cookies, Crystals, etc, vinte anos antes nos USA) na base de um conceito que tinha a ver com as condições da época e vai marcar a imagem do grupo: abertura europeia, degelo político, televisão a cores, disseminação do erotismo e dessacralização do sexo. Será a conjugação de todas estas condições que vai proporcionar o nascimento do grupo e potenciar o seu enorme e merecido sucesso.
Nota: Devo pedir desculpa pela má qualidade do vídeo aqui apresentado, mas, pelo que acima afirmei, acho que as “Doce” são indissociáveis da imagem e o facto de se tratar de uma sua presença no “Tal Canal”, outro elemento da “cultura de massas” que simbolizou a passagem de Portugal à era da modernidade, tornava-o incontornável.
domingo, janeiro 11, 2009
Nóbrega e Sousa e a "música ligeira"
Mª de Fátima Bravo - "Vocês Sabem Lá"
(Nóbrega e Sousa-Jerónimo Bragança)
Simone de Oliveira - "Sol de Inverno"
(Nóbrega e Sousa-Jerónimo Bragança)
Convém notar, no entanto, que tal como existia boa "música ligeira" no mundo antes do advento do "rock and roll", isso também acontecia por cá - embora raramente, acrescente-se. Mas também verdade se diga que o movimento Ié-Ié pouca coisa digna de nota e qualidade produziu aqui pelo rectângulo, apesar do esforço de alguns pioneiros: o país era pobre e o material era caro, a classe média urbana – mercado preferencial - quase não existia, o regime era ditatorial e conservador e a nova música considerada batuque de “pretos” e cultura de marginais, fonte das piores preversões. Não havia um circuito de bares e espectáculos de música ao vivo e a impossibilidade de profissionalização não permitia o desenvolvimento das capacidades que alguns poderiam evidenciar. Tudo se reduzia às festas e bailes de finalistas, gratuitamente ou mediante magra compensação. E nas gravações, a falta de qualidade em comparação com a concorrência da música de origem anglo-saxónica e francesa ainda emagrecia mais o mercado.
Na chamada música ligeira, de entretenimento, o caso era diferente: existia a Emissora Nacional, estação oficial do regime, vivendo do orçamento de um Estado a quem interessava esse tipo de música mais em consonância com os valores conservadores a promover e com o mercado tradicional, ainda muito marcado pela ruralidade. E os “Serões Para Trabalhadores” da FNAT, o circuito da emigração e, depois, os espectáculos para os soldados asseguravam a sobrevivência de autores e intérpretes. Por isso mesmo, à sombra da E.N. e do seu Centro de Preparação de Artistas da Rádio (o nosso Actor’s Studio) acabaram por surgir uma plêiade de compositores e intérpretes variados, na sua grande maioria também de qualidade inferior mas que – alguns deles - iriam estar na base, fruto da estratégia habitual do PCP de se infiltrar nas estruturas do regime, de um certo movimento de renovação da "música ligeira" portuguesa no final da década de 60, centrado nos “Festivais TV da Canção” e num certo movimento de renovação da “Revista à Portuguesa”, talvez o seu último fôlego.
Convém, no entanto, assinalar que já antes desse movimento de renovação ter tido lugar se tinha produzido algo do melhor que a "música ligeira" portuguesa, de entretenimento, nos tinha legado no pós-guerra, por razões conjunturais injustamente esquecido e remetido para o baú das velharias imprestáveis do chamado “nacional-cançonetismo”, já que estava “fora” e “contra a corrente” do que “estava a dar”: o Ié-Ié, o nascimento de novas formas de música popular – com base do fado de Coimbra - e o tal “movimento de renovação da música ligeira”. Estou a referir-me a Nóbrega e Sousa – com uma carreira longa e muito irregular - que, em parceria com Jerónimo Bragança, foi autor de dois dos melhores temas que a música ligeira portuguesa alguma vez nos legou: “Vocês Sabem Lá”, gravado por Maria de Fátima Bravo, e “Sol de Inverno”, apresentado por Simone de Oliveira no Festival RTP da Canção de 1965.
Na chamada música ligeira, de entretenimento, o caso era diferente: existia a Emissora Nacional, estação oficial do regime, vivendo do orçamento de um Estado a quem interessava esse tipo de música mais em consonância com os valores conservadores a promover e com o mercado tradicional, ainda muito marcado pela ruralidade. E os “Serões Para Trabalhadores” da FNAT, o circuito da emigração e, depois, os espectáculos para os soldados asseguravam a sobrevivência de autores e intérpretes. Por isso mesmo, à sombra da E.N. e do seu Centro de Preparação de Artistas da Rádio (o nosso Actor’s Studio) acabaram por surgir uma plêiade de compositores e intérpretes variados, na sua grande maioria também de qualidade inferior mas que – alguns deles - iriam estar na base, fruto da estratégia habitual do PCP de se infiltrar nas estruturas do regime, de um certo movimento de renovação da "música ligeira" portuguesa no final da década de 60, centrado nos “Festivais TV da Canção” e num certo movimento de renovação da “Revista à Portuguesa”, talvez o seu último fôlego.
Convém, no entanto, assinalar que já antes desse movimento de renovação ter tido lugar se tinha produzido algo do melhor que a "música ligeira" portuguesa, de entretenimento, nos tinha legado no pós-guerra, por razões conjunturais injustamente esquecido e remetido para o baú das velharias imprestáveis do chamado “nacional-cançonetismo”, já que estava “fora” e “contra a corrente” do que “estava a dar”: o Ié-Ié, o nascimento de novas formas de música popular – com base do fado de Coimbra - e o tal “movimento de renovação da música ligeira”. Estou a referir-me a Nóbrega e Sousa – com uma carreira longa e muito irregular - que, em parceria com Jerónimo Bragança, foi autor de dois dos melhores temas que a música ligeira portuguesa alguma vez nos legou: “Vocês Sabem Lá”, gravado por Maria de Fátima Bravo, e “Sol de Inverno”, apresentado por Simone de Oliveira no Festival RTP da Canção de 1965.
Subscrever:
Mensagens (Atom)