Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
quarta-feira, abril 24, 2013
E o "nacional-cançonetismo" também produziu alguma boa música, embora pouca
domingo, janeiro 11, 2009
Nóbrega e Sousa e a "música ligeira"
Na chamada música ligeira, de entretenimento, o caso era diferente: existia a Emissora Nacional, estação oficial do regime, vivendo do orçamento de um Estado a quem interessava esse tipo de música mais em consonância com os valores conservadores a promover e com o mercado tradicional, ainda muito marcado pela ruralidade. E os “Serões Para Trabalhadores” da FNAT, o circuito da emigração e, depois, os espectáculos para os soldados asseguravam a sobrevivência de autores e intérpretes. Por isso mesmo, à sombra da E.N. e do seu Centro de Preparação de Artistas da Rádio (o nosso Actor’s Studio) acabaram por surgir uma plêiade de compositores e intérpretes variados, na sua grande maioria também de qualidade inferior mas que – alguns deles - iriam estar na base, fruto da estratégia habitual do PCP de se infiltrar nas estruturas do regime, de um certo movimento de renovação da "música ligeira" portuguesa no final da década de 60, centrado nos “Festivais TV da Canção” e num certo movimento de renovação da “Revista à Portuguesa”, talvez o seu último fôlego.
Convém, no entanto, assinalar que já antes desse movimento de renovação ter tido lugar se tinha produzido algo do melhor que a "música ligeira" portuguesa, de entretenimento, nos tinha legado no pós-guerra, por razões conjunturais injustamente esquecido e remetido para o baú das velharias imprestáveis do chamado “nacional-cançonetismo”, já que estava “fora” e “contra a corrente” do que “estava a dar”: o Ié-Ié, o nascimento de novas formas de música popular – com base do fado de Coimbra - e o tal “movimento de renovação da música ligeira”. Estou a referir-me a Nóbrega e Sousa – com uma carreira longa e muito irregular - que, em parceria com Jerónimo Bragança, foi autor de dois dos melhores temas que a música ligeira portuguesa alguma vez nos legou: “Vocês Sabem Lá”, gravado por Maria de Fátima Bravo, e “Sol de Inverno”, apresentado por Simone de Oliveira no Festival RTP da Canção de 1965.
domingo, março 23, 2008
Simone de Oliveira
Não fora o caso de lhe ter calhado em sorte interpretar “Desfolhada”, uma canção emblemática do período de renovação da música ligeira portuguesa do final dos anos sessenta proporcionado pela “primavera” marcelista e pela tradicional infiltração do PCP em algumas organizações e estruturas do regime, onde e quando isso era possível, Simone de Oliveira não teria passado de mais um produto do “Centro de Preparação de Artistas da Rádio”, do maestro Motta Pereira e da Emissora Nacional, aquilo a que João Paulo Guerra chamou de “nacional-cançonetismo”. Talvez o melhor desses produtos – “Sol de Inverno”, de Nóbrega e Sousa, continua a ser o seu melhor tema e a sua melhor interpretação - também beneficiado pelo afastamento precoce de Maria de Fátima Bravo e, certamente, bem melhor do que a “Tonicha” daquele inenarrável “Menina”, com um poema a puxar ao folclorismo bucólico qual versão erótica de uma ilustração de Milly Possoz.
No período de todos os radicalismos do pós 25 de Abril, o ter sido a intérprete de “Desfolhada” permitiu a Simone passar relativamente incólume e, honra lhe seja feita, soube tomar as opções partidárias acertadas em função do ambiente geral do país e do seu perfil e passado: tão à esquerda quanto credível, tão “intelectual” quanto interessava; sem se deixar resvalar para o oportunismo dos compagnons de route de ocasião, para uma direita que a não reconheceria pela sua vida privada e passado artístico ou para o campo da canção “política”, de “intervenção”, ao qual não pertencia e onde não era reconhecida. Opção inteligente teve-a também no modo como geriu a sua vida privada, não se deixando tentar pela devassa nem pela opacidade total, libertando a informação necessária, e do modo e pelos meios que lhe interessavam, para “vender” a imagem de mulher independente e de coragem num país onde, por dependências várias e cobardias muitas, esse tipo de comportamento, que deveria ser o padrão e a normalidade, ainda embasbaca muita gente. Tê-lo-á sido ou não - se o foi ainda bem - mas essa é a imagem que fez sua e a ajudou na construção da carreira. Tudo isso esteve uma vez mais bem presente na entrevista que concedeu a Judite Sousa e que hoje repete na RTP1 a propósito dos seus cinquenta anos de carreira, mas se formos verificar quem a acompanha no espectáculo desses mesmos cinquenta anos, que a mesma RTP hoje proporciona a quem estiver disposto a vê-lo (a RTP e não a SIC ou a TVI, o que faz toda a diferença e serve para caucionar uma imagem "nacional" de respeitabilidade e "qualidade"), a visão é deprimente: Anabela, Carlos Quintas, Mariza Pinto, Dulce Pontes, Madalena Iglésias, Vítor de Sousa e Wanda Stuart (cito do “Público”) pertencem ao pior de Portugal ou são o Portugal no seu pior, o que nem a presença de um mais aceitável Pedro Abrunhosa consegue fazer esquecer. É este, no fundo, o Portugal que gerou Simone e que ela cauciona. Um Portugal do qual, por também lhe pertencer e lhe ter dado sempre um certo jeito (à carreira, claro), nunca conseguiu ou terá querido descolar.