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terça-feira, novembro 10, 2009

5 estórias fúteis 5 do tempo do "muro" (5)

Hungria (não me lembro em que ano, mas talvez em 1977).

Atravesso de carro a fronteira entre a Jugoslávia e a Hungria e descubro me tinha esquecido de comprar “after-shave” (na “liberal” Jugoslávia, com sorte, era possível ter alguma escolha). Pânico - se existe algo que contribua para me enervar é a questão da barba – já que pensei comprar um “after shave” na Hungria exigiria dons talvez não ao meu alcance. Chego a Budapeste e lá me dirijo a um armazém, assim tipo Rua dos Fanqueiros ou “Paga Pouco”. Surpresa!: havia duas marcas à disposição. Uma assim ao estilo “Floyd” dos anos 50, que presumo tivesse um cheiro nauseabundo a condizer. Mas outra, ali mesmo à mão de semear (ou de comprar), com ar ocidental e a marca Elizabeth Arden - que não conhecia, nunca tinha usado e nunca mais voltei a encontrar (desde que há Nivea que por aí me fico) - a desafiar a minha compra. Agarrei no frasco com força, como se fosse a primeira pepita de oiro descoberta por garimpeiro. Até hoje, acho foi a melhor compra que fiz na vida!

5 estórias fúteis 5 do tempo do "muro" (4)

Checoslováquia, ainda em 1988. Quase toda a gente andava na rua transportando sacos de “oleado” ou napa. Normalmente vazios. Confesso, ao princípio não percebi bem qual a ideia. Perguntei a alguém “de confiança”. Muito simples: nunca se sabia quando aparecia algo de primeira necessidade para comprar (produtos frescos, fruta, o que quer que fosse). Por isso mesmo, era melhor estar prevenido!

5 estórias fúteis 5 do tempo do "muro" (3)

Estive, se bem me lembro, umas quatro vezes na Hungria, antes e depois da queda do “muro”, uma das quais quando fui a Viena ver a última final em que o “glorioso” participou (e perdeu...).

Na maioria dos países “ditos” socialistas (a muito específica Jugoslávia era excepção) as taxas de câmbio eram oficialmente fixadas muito acima do seu valor real, pelo que a solução óbvia era trocar dinheiro, a um câmbio muito mais favorável, no mercado negro (havia um ou outro país, não me lembro bem qual ou quais, onde era obrigatório trocar uma determinada quantia por dia, mas sempre inferior ao que um português da classe média gastaria, principalmente se fosse de carro e tivesse, portanto, de meter gasolina). Como na Hungria se comia bem e havia vinho Tokay e discos e CDs na Hungaroton, de música erudita, para comprar, recorria frequentemente ao expediente. A “coisa” passava-se assim: alguém nos abordava na rua, combinava-se o câmbio, entrava-se no primeiro vão de escada e o negócio estava feito. Claro que todos sabíamos os cuidados a ter e tomávamos as devidas precauções. Tudo foi correndo bem, até que numa das últimas vezes, talvez porque facilitasse já me achando o maior em tais práticas ilícitas, acabei mesmo por ser vigarizado. Nada de importante, diga-se, pois no cômputo geral, das várias ocasiões, acabei por sair com um saldo bem favorável.

5 estórias fúteis 5 do tempo do "muro" (2)

Checoslováquia, na mesma viagem.

Não gosto de comer nos hotéis onde fico alojado, a não ser quando o cansaço a isso obriga; faz parte das viagens descobrir a gastronomia, a cultura e ambiente locais. Antes de, para aí ao terceiro dia, descobrir o restaurante do centro de cultura soviético, onde se comia razoavelmente, bebia um vinho búlgaro aceitável e um excelente caviar a preços de um refeição média de Lisboa, tinha de procurar restaurante, locais difíceis de lobrigar (excepto nos hotéis) em alguns países “do lado de lá”, utilizando uma expressão cara ao meu pai. Como gosto de descobrir as cidades a pé, lá me punha ao caminho e, depois de me informar, descobria finalmente um restaurante. Sempre vazio ou quase. Quando pedia uma mesa para duas pessoas, resposta imediata: “tem marcação”? Como a ”Coca Cola” do Pessoa, ao princípio estranhava e respondia: “mas o restaurante tem imensas mesas vagas; porque é preciso marcar”? Mas rapidamente percebi: a comida era apenas comprada em função das reservas feitas previamente. Não havia reserva, não havia comida!

Foi a partir daí que descobri a minha salvação no regime soviético e no abençoado restaurante do seu centro cultural onde não só não se exigia marcação (privilégios?) como, acrescente-se, durante todo o tempo era um “corrupio” de empregados a atender o telefone do local. Nunca soube das razões, mas presumo não tivessem telefone em casa.

5 estórias fúteis 5 do tempo do "muro" (1)

Checoslováquia, 1988.

Chego ao aeroporto de Praga vindo de Viena. Apanho um táxi para o hotel, perto do centro da cidade. Estávamos em Junho e disputava-se a fase final do Europeu de futebol, aquele que a Holanda ganhou com o célebre golo de Van Basten. Primeira preocupação, claro, já que estava em turismo e, portanto, tinha todo o tempo livre: saber se poderia ver na TV os jogos mais importantes. Tento junto do taxista, que “arranhava” algum inglês. Resposta: “sim, pode ver no seu hotel”. “Eu vou ver num Sony a cores. Só meu!”. Percebi logo uma coisa: como era taxista conseguia divisas para comprar produtos importados nas lojas exclusivas. Minutos depois tive a confirmação: quando chego à porta do hotel e lhe pergunto o preço da “corrida”, diz-me um preço em coroas (a moeda local). Mas, ao ver que tinha na carteira “shillings” austríacos, de imediato acrescenta: “olhe, mas se me der essa nota (ao câmbio oficial, um valor significativamente inferior) também serve.”

No hotel, de 4 estrelas, percebi logo a excitação da Sony a cores - só dele: apenas no "lounge" existia um aparelho de TV a cores. Nos quartos, o preto e branco era a norma. Mas lá vi o golo de Van Basten, e espero o mesmo tenha acontecido com o meu simpático taxista.