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sábado, outubro 11, 2014

Ferro Rodrigues, impostos e Estado Social

Finalmente, um dirigente de primeira linha do PS, Ferro Rodrigues, vem dizer o que apenas já tinha ouvido a João Galamba: não se pode nem deve esperar que um partido que se reclama da social-democracia se proponha reduzir significativamente os impostos tendo como contrapartida o sacrifício do Estado Social, isto é, baixando a qualidade dos serviços por este prestados, quer se trate do Serviço Nacional de Saúde, do ensino público ou das prestações sociais, onde se concentra uma boa parte da despesa pública. Reduzir de modo significativo a despesa nestas áreas significa, na prática, agravar impostos para aqueles que delas mais dependem e/ou a elas mais recorrem, nomeadamente os mais pobres e uma parte maioritária da classe média, o que, para além de ser mais recessivo (a propensão para o consumo é maior nas classes de menores rendimentos), não se pode nem deve esperar de quem se reclama da social-democracia ou da defesa consequente do Estado Social. 

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Ferro Rodrigues, a "arrogância", o PS e o governo

Confesso não deixar de me sentir perplexo quando assisto a apreciações à actuação dos políticos e dos governos centradas nas manifestações de “arrogância” ou “humildade”, com as quais se define a “bondade” ou não da sua actuação, como se esses mesmos políticos e governos devessem ser julgados pelas suas características comportamentais e não pelas suas opções políticas estratégicas e capacidade para as implementar. Sim, eu também sei que essa perplexidade não deveria ter razão para existir, pois tendo nascido e vivendo neste país de “brandos costumes” (às vezes) sei bem da hipocrisia que está implícita nessas apreciações e o que verdadeiramente elas representam: são apenas um efeito de uma causa mais escondida: da falta de frontalidade e do horror ao confronto que caracteriza Portugal enquanto país dependente e periférico, onde todos dependem demasiado de todos e de tudo. É que "nunca se sabe o dia de amanhã", não é assim?

Por isso, em vez de se afirmar uma discordância fundamental e demonstrar as razões dessa discordância, ou apresentar os resultados da eventual ineficiência das medidas aplicadas (quando isso é possível), fala-se do acessório, principalmente quando as críticas vêm da mesma área de quem se critica, não vá o diabo tecê-las. Principalmente, falar da arrogância fica sempre bem num país em que, pelos motivos já citados, as convicções e quem as tem são sempre olhadas com desconfiança e a “humildade”, tantas vezes disfarce da incapacidade e da dependência, da insegurança, é tão frequentemente incensada como qualidade dos cidadãos da mãe-pátria, numa repescagem, também ela tímida e pouco assumida, da cegarrega salazarista dos “pobrezinhos mas honrados”. É ver o caso de José Mourinho, por exemplo, a quem, fruto da impossibilidade de se contestarem resultados, é sempre assacado o ónus, o “mas”, da sua atribuída arrogância, como se essa autoconfiança assumida não fizesse parte integrante e não fosse factor importante dos resultados obtidos.

Claro que isto vem a propósito das afirmações de Ferro Rodrigues, mas não só, tanto mais de criticar quanto ele nos habituou (fui seu contemporâneo de faculdade e considero-o pessoa estimável) ao risco e à frontalidade (mas aí não seriam de esperar benesses do regime, pois não?). Mais do que falar em “arrogância” ou em “humildade” (se o governo está convicto da razão das suas opções políticas deve implementá-las com convicção e isso contribuirá, por sua vez, para o fortalecimento da sua capacidade política), o que se esperaria de Ferro Rodrigues, político experiente e com ideias próprias, era uma crítica fundamentada a alguma, ou algumas, das opções do governo e do PS, de que eventualmente discordasse (e haverá algumas, certamente – nenhum deles lhes está imune), e não o “mais do mesmo” já escutado vindo de outros, oriundos da mesma área e de quem, ao contrário de Ferro Rodrigues, não seria de esperar muito mais. Desse modo contribuiria melhor, estou certo, para minimizar um dos problemas que foca e tudo me leva a crer seja verdadeiro: a falta de debate político no seio do partido e a sua redução a uma espécie de corpo moribundo nas ideias e na alma.