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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Onde a propósito do caso Freeport se recordam Timor, Paulo Pedroso e o casal McCann

Há alguns anos (tudo parece ter-se passado já há muito), o país parou por uma antiga colónia, sem um povo, língua ou cultura próprias excepto aquelas que o colonizador católico tinha legado a uma pequena elite, a que não faltaram algumas vagas noções políticas aprendidas nas universidades europeias, tudo muito de acordo com o “ar do tempo”. Os "media" construíram rapidamente heróis - como só nas histórias de cavalaria existem - e esse jovem quase-país rapidamente conseguiu atingir os seus objectivos, aqueles a que se propunha. Não valerá muito a pena falar sobre o destino de tais heróis e de tal povo e jovem país, não muito diferente de muitos outros jovens países que nós, europeus, contribuímos para criar e sustentamos. Quaisquer notícias que de lá cheguem – e por vezes até conseguem ir chegando algumas – pouco mais merecem do que um encolher de ombros resignado e, dos "media", um lugar de pequeno destaque, que só não o será menor por razões de memória e para provarmos a nós próprios quanto as emoções combinam mal com a política.

Uns anos mais tarde, um juiz com aversão a “dress codes” apropriados à função, qual ar de boxeur saído do ginásio, Belarmino aprés la lettre, entrou com ar triunfante naquela que deveria ser – e eu acredito que seja – a casa da democracia e levou consigo um deputado acusado de um crime hediondo, daqueles que a actual civilização mais veementemente condena. Preso e enxovalhado por muitos “media”, pelo “povo da SIC”, foi uns meses mais tarde libertado sem sequer lhe ter sido deduzida qualquer acusação, exigindo indemnização a quem foi mandatário da sua prisão e enxovalho. Sendo meu vizinho, por vezes cruzo-me com ele e família, sempre pensando que pensará ele de mim e de todos os outros, nossos concidadãos. Quais e quantos destes, com que na rua se cruza, o terão invectivado, deverá interrogar-se?

Em Maio de 2007 um frémito de comoção quase fez parar o país por uma criança. Por uns jovens pais despedaçados. Todos corremos a proteger melhor os nossos e a duvidar do vizinho. Semanas mais tarde, aqueles por quem muitos de nós chorámos passaram a ser considerados suspeitos; assobiados na rua; julgados pelo “povo da SIC”, em directo e ao vivo. As “provas” apresentadas nos “media”; detalhes, considerados escabrosos, da sua vida sexual e privada sugeridos mediaticamente, em público; ambos apresentados ao mundo como era uso e costume nas freak parades de antanho. Ficou uma investigação incompetente, um nojo de xenofobia, uma criança por encontrar e criminosos por julgar. Uma família para sempre sob suspeita. Um inspector que, tal como o “macaco de rabo cortado”, de polícia se fez escritor, de escritor se fez arguido, de arguido se quis fazer político só não se sabendo se, seguindo os passos do seu inspirador, ta-ran-tan-tan se vai embora para Angola (onde estes pormenores por certo pouca relevância terão, acrescento).

Perguntarão... “mas que tem isto a ver com José Sócrates e com o caso Freeport"? Apenas um pequeno aviso, um avivar de memórias, caso seja necessário.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Timor: depois da história sob a forma de epopeia talvez seja o tempo para a verdadeira história

Aqui há uns dias o Luís, do Ié-Ié, lembrava a inauguração do Apolo 70 e isso trouxe-me á memória o que alguém escreveu, in illo tempore, a propósito do filme que inaugurou o respectivo cinema, hoje já desaparecido: “Tell Them Willie Boy Is Here” (em português “O Vale do Fugitivo”) de Abraham Polonsky, uma das vítimas do tristemente célebre senador Joseph McCarthy e das sua Comissão das Actividades Anti-Americanas. O filme, um clássico do cinema liberal americano ("liberal" na América quer dizer “esquerda”), com um Robert Redford também conhecido pela sua militância, integrava-se naquilo que se convencionou chamar na altura o “anti-western” e a seu propósito – volto ao princípio – alguém escreveu, talvez Lauro António responsável nessa altura pela sua programação, que “os americanos depois de terem filmado o western sob a forma de epopeia tinha finalmente resolvido contar-lhe a história” (cito de, muito longínqua, memória).
Pois foi exactamente isto que me ocorreu quando, ontem, ouvi a notícia sobre o atentado em Timor contra Ramos-Horta: talvez seja tempo para os portugueses, depois de o terem feito sob a forma de epopeia, se dedicarem finalmente a contar de Timor a história. Bom, sobre aqueles a quem tradicionalmente coube o papel de “maus” (a ditadura indonésia de Suharto e a América de Kissinger), já quase tudo foi dito - e não sou eu que vou branquear o seu papel, desiludam-se. Falta talvez agora falar sobre os “bons” e, adoptando o verdadeiro conceito do “anti-western”, interrogarmo-nos sobre a sua bondade efectiva. E aqui cabe fundamentalmente toda uma elite mestiça formada pela potência colonial e a ela, de um ou outro modo, ligada, à qual a integração na Indonésia nada convinha e com a qual, dada a natureza da respectiva ditadura em tempo de Guerra Fria, muito se arriscariam a perder: desde a Igreja Católica, em terreno de maioria muçulmana e que foi cimento da identidade cultural do território, até à elite cultural e estudantil formada nas universidades portuguesas, sonhando com “os amanhãs que cantam”. Pelo meio, e sem menores responsabilidades, fica uma pequena-burguesia de negócios (como os Carrascalão, por exemplo), que se dividiu e hesitou perante a ocupação enquanto media e perspectivava com quem estariam as oportunidades futuras. Defendo assim a integração? Não, principalmente porque a ditadura de Suharto não era “flor que se cheirasse” e mal que se não desejasse apenas ao pior inimigo. Mas convém lembrar que menos de quinze anos antes Goa, Damão e Diu se tinham integrado na União Indiana de forma relativamente indolor. Sim, eu sei que Nehru não era Suharto, a Índia é uma democracia e a conferência de Bandung, ao tempo, “já era”, mas, mesmo assim, talvez existissem alternativas negociadas se os interesses imediatos, os sonhos e falta de bom senso não tivessem prevalecido. Claro, também sei que hoje é fácil falar do assunto e não se pode rescrever a História ou analisá-la na base da conjuntura e relações de forças actuais, mas, por vezes, é preciso que isso se faça para que não se diabolizem só uns e santifiquem (injustamente?) outros tantos. Talvez também aqui tenha chegado o tempo do “anti-western”.