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sexta-feira, agosto 17, 2012

Pussy Riot: "old habits die hard"

Em Portugal, durante a ditadura e até mesmo já depois da democracia institucionalizada ("old habits die hard") muitos actos de censura foram tentados e muitos outros perpetrados sob a alegação de os acontecimentos ou assuntos em questão "ofenderem gravemente as convicções religiosas da grande maioria do povo português". Eu sempre me senti ofendido, nas minhas profundas convicções de não-crente, com tal argumentação, como também acho interessante nunca argumento semelhante tenha sido usado em relação às convicções culturais, estéticas, literárias, desportivas, e assim sucessivamente, da maioria do povo português. Por exemplo, os dislates e "dotes" declamatórios do Sr. Pinto da Costa ofendem gravemente as convicções desportivas e culturais da grande maioria do povo português, e nunca ninguém se lembrou de o mandar calar nas suas diatribes ou de o impedir de declamar Régio, nem mesmo a Srª Dona Maria Barroso ou os eventuais descendentes de João Villaret, que teriam toda a razão para o fazer invocando a decência e o bom-gosto. A questão é que o apelo à religiosidade, remetendo-nos para o além e para a morte, infunde sempre um certo temor reverencial, enquanto o ateísmo é coisa bem mais das lides terrenas. Por outro lado, essa coisa da separação entre a Igreja e o Estado foi de gestação lenta e dolorosa, feita de avanços e recuos, a cuja habituação muitos ainda teimam a recusar-se.

O que talvez já não esperasse, mas bem vistas as coisas não me cause talvez assim tanto espanto, é ver uma juíza de um país governado durante uns bons setenta anos por um partido comunista, por definição inimigo da religião e da Igreja, oficialmente ateu, fazer apelo, apenas uns vinte e picos anos após a queda do regime, aos supostamente ofendidos "sentimentos religiosos dos crentes" para justificar a pena de prisão infligida a umas simpáticas raparigas membros de um grupo "punk-rock". Não sei se a ideia terá sido de uma qualquer Zita Seabra que por lá exista (que las hay!...), mas, independentemente das razões da juíza e também da "tenebrosa ameaça" que as raparigas podiam constituir para a ditadura de Putin/Medvedev ou que esta terá tido oportunidade de invocar num país onde a independência do poder judicial deverá assemelhar-se a uma espécie de ficção, será caso para reafirmar que, também por lá, ou agora especialmente por lá já que por cá bem nos custaram democracia e liberdade, "old habits die hard". Mesmo.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Lello, Ferreira Leite, Geórgia e Kosovo

Manuela Ferreira Leite foi recebida pelo Presidente da República, a seu pedido e com carácter de urgência, para falar sobre a questão do Kosovo, ou seja, para mau entendedor sobre a questão do seu reconhecimento. Recorde-se que Portugal, entalado entre a tradicional subserviência à política externa americana (o que não tem necessariamente a ver com o facto de ser membro da NATO – por exemplo, a Espanha também o é), a quem o reconhecimento por parte de mais um membro da Aliança Atlântica sempre dava algum jeito, e a posição anti-reconhecimento da Espanha mesmo aqui ao lado e nosso principal parceiro económico, tem fechado os olhos, tapado os ouvidos e assobiado para o lado. Ou seja, não sei, não vi e tenho horror a quem me vier maçar com o assunto. Muito português.

Agora, o “sempre pronto” José Lello - ex-colega dos Loureiros nos Orgãos Sociais do Boavista - no meio de algumas declarações hilariantes bem ao estilo que nos habituou, vem lá da Geórgia, ecos longínquos, afirmar uma sua posição fundamental e fundamentalista anti-russa, de modo a não deixar quaisquer dúvidas, o que significa, claro está, um alinhamento pelas posições pró-americanas mais radicais (recorde-se que a Geórgia não é membro da NATO, infelizmente, pois talvez isso tivesse evitado que desatasse a brincar às guerras com o Sr. Putin e com a Gazprom). Se juntarmos dois mais dois, que é exactamente para isso que o nosso cérebro foi feito, a entrada em cena de Luís Amado não é nada surpreendente, e parece que Portugal estará prestes a reconhecer mais um estado e a fazer mais um frete. Muito português, também.