Este artigo de José Manuel Fernandes, no "Observador", é bem sintomático de qual a posição da direita radical portuguesa sobre a crise grega e que membros do governo como Passos Coelho e Maria Luís não têm coragem para publicamente assumirem: para eles, a solução é mesmo a segregação e expulsão da Grécia do euro, independentemente das consequências negativas que tal pudesse vir a gerar para a UE e para os próprios gregos, pois estes, representados pelo Syriza, partido ao qual deram maioritariamente o seu voto, "não comungam dos valores que presidem à União Europeia". No fundo, quem recupera em proveito próprio o velho conceito marxista de "luta de classes" é José Manuel Fernandes, adaptado-o às circunstâncias e acrescentando-lhe o conceito leninista da eterna luta, dentro do "partido" (neste caso as instâncias da União Europeia), entre a "linha vermelha" (a "justa" e "pura", representada pelos que querem a Grécia fora do euro) e a "linha negra", "capitulacionista" ou "revisionista". Aguardemos, pois, que José Manuel Fernandes, à semelhança do que defendeu nos seus tempos de dirigente da UDP e o do PC(R), venha um destes dias propor a criação de uma UE(R), ou seja, uma União Europeia (Reconstruída), expurgada dos seus elementos mais vacilantes e favoráveis a uma conciliação com os seus "inimigos de classe": os gregos do Syriza. Já terá faltado menos...
Eu sou o Gato Maltês, um toque de Espanha e algo de francês. Nascido em Portugal e adoptado inglês.
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terça-feira, junho 23, 2015
domingo, janeiro 25, 2015
Uma nota sobre a direita portuguesa nos 50 anos da morte de Winston Churchill
Agora que decorrem as comemorações dos 50 anos da morte de Winston Churchill, convém dizer que a maioria dos que agora, na direita portuguesa, o homenageiam teriam por certo estado contra ele durante a sua vida política e perante muitas das opções que então tomou. Pondo de parte alguns dos hábitos política e socialmente incorrectos que hoje em dia dificilmente seriam aceites pela direita portuguesa, mas que não vêm agora ao caso, Churchill arrastou o Reino Unido para uma guerra contra os desejos de uma esmagadora maioria da aristocracia (a sua classe social de origem) e do conservadorismo britânicos (da "direita" de então, digamos assim), partidários da política de "apeasement". Uma guerra que, se com enorme contribuição dos USA acabou por derrotar os nazi-fascismos, teve também como consequência imediata a ascensão do comunismo na Europa, a subsequente divisão desta e, a prazo, o fim do império britânico, o declínio do Reino Unido enquanto potência mundial e o fim do domínio da aristocracia na vida económica e política britânica, já de certo modo em causa desde o final da guerra de 14-18. "Last but not least", uma guerra que acabou por abrir caminho ao governo trabalhista de Clement Attlee, talvez o governo "mais à esquerda" da História do UK e aquele que deu início ao que hoje designaríamos por "descolonização". Digamos, pois, que não me parece a direita portuguesa mais radicalmente conservadora, como a do "Observador" e do "Blasfémias", tenha muita legitimidade para se reclamar do legado de um estadista com a dimensão de Winston Churchill. Mas lá que lhes dá jeito...
terça-feira, dezembro 02, 2014
O PS e os votos do "centro"
Para ganhar folgadamente as eleições e conseguir aproximar-se ou conquistar a maioria absoluta o PS terá de conquistar votos ao centro? "Pescar" naquele milhão de votos que ora vota PS ora PSD? Sem dúvida que sim e estou certo António Costa (pelo menos ele) reconhece tal coisa. Só que num país radicalizado, contra e favor de um governo também ele radical e que pouco ou nada se confunde com os valores do PSD tradicional, também face às políticas implementadas nestes últimos anos e perante a provável surgimento de partidos populistas, "fora do sistema", para conquistar votos ao centro o PS terá de ter um discurso diferente do habitual, menos centrista, e mostrar que pode oferecer uma real alternativa, pelo menos em alguns aspectos e numa ideia geral de governação, à continuidade oferecida pela coligação PSD/CDS. Caso contrário, esse "centrão" optará pela abstenção, pelo populismo ou pelo voto de protesto, afastando os socialistas de qualquer veleidade de maioria absoluta e enfraquecendo a sua posição negocial. No fundo, é isto que pretende o "Observador", representante do sector mais extremista e vanguardista da coligação no poder.
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