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sábado, maio 24, 2014

O "Gato Maltês" e a "Biografia do Ié-Ié"


Texto do autor deste "blog", publicado no "Gato Maltês" no dia 1 de Abril de 2007, que Luís Pinheiro de Almeida teve a gentileza de incluir no seu novo livro "Biografia do Ié-Ié",  acabado de editar pela Documenta e que hoje é apresentado, pelas 17h, no Cine-Teatro da Encarnação. Ficam a referência e os meus públicos agradecimentos.

"No dia 1 de Abril de 1965, um pouco depois das sete horas da tarde, Pedro Castelo anunciava, após alguns acordes do instrumental “Revenge”, dos Kinks, na frequência modulada (uma novidade) do Rádio Clube Português, “Em Órbita”: “um programa feito por nós e dito por mim”. Não sei se a frase foi dita logo na abertura do primeiro programa, ou mais tarde por Cândido Mota, o seu apresentador nos anos subsequentes, mas sei que se tornou frequente, ao longo dos anos, e é isso que importa. Uma frase que funcionava como se de uma assinatura, uma síntese se tratasse, encapsulando em si um novo conceito ou parte dele: não estávamos perante um programa que promovia “estrelas da rádio” (muito comuns na época), quer fossem os seus autores ou o apresentador (na altura dizia-se “locutor”), mas anunciava, isso sim, uma certa radicalidade, um corte com a tradição de falsa intimidade com o ouvinte, tantas vezes expressa, pelos chamados “locutores da voz doce” e suas companheiras de emissão, no “amigos ouvintes, muito boa noite; somos a vossa companhia durante estes próximos minutos”.


Radicalidade, intransigência, fidelidade aos princípios definidos pelos seus autores (Jorge Gil, João Manuel Alexandre – falecido no dia 29 de Setembro de 1969 num desastre de automóvel -  e Pedro Albergaria, entre outros) sem qualquer tentativa de ir “ao encontro do gosto do público”, era este o conceito, o que só era “permitido” por se tratar da rede de frequência modulada, algo que, ao tempo, era uma novidade que só um número limitado de receptores possuía, o que a tornava numa frequência elitista, e o custo da respectiva emissão, e da publicidade que a mantinha, substancialmente mais baixos e acessíveis a um maior número de anunciantes. Aliás, até no caso da publicidade o “Em Órbita” foi de certo modo pioneiro, pois, se bem lembro, tinha um patrocínio único seleccionado pelos próprios autores do programa com “spots” adaptados ao seu “mood and tone”, o que, longe de ser um acaso, era essencial à apresentação da sua unidade conceptual.



Mas a sua marca mais identificativa foi o facto de ter sido o primeiro programa de rádio a apenas “passar”, de modo consistente e intransigente no gosto, música popular anglo-americana, "rock & roll", a música que mudou o mundo e era considerada na altura, no Portugal ultraconservador da ditadura, como “música e batuque de pretos” (sim, no Portugal “multirracial”), pecado original que conduzia directamente à depravação dos costumes, diluição da moral e delinquência juvenis. Aliás, o que era curioso verificar era o facto da esquerda comunista e a ditadura salazarista terem perante o "rock & roll" uma atitude idêntica, embora com propostas diferenciadas: a música de variedades, para o regime, e a canção de texto francesa para a esquerda comunista.



Essa radicalidade, esse “desprezo” (chamemo-lhe assim) pelo gosto das maiorias substituído pelo gosto dos seus autores, essa “arrogância” assumida (sim, não há mal nenhum nisso) ajudou a formar e a formatar o gosto musical (e não só) de uma geração, mas foi muito para além disso: contribuiu para a criação, em muitos adolescentes de então, onde felizmente me incluo, de uma personalidade e um novo modo ver e entender o mundo. Foi esta “atitude” que levou Jorge Gil a abrir uma excepção para chamar a atenção para José Afonso, ainda no tempo das baladas de Coimbra, e a “passar” a “Lenda de El-Rei D. Sebastião”, do Quarteto 1111, na altura uma pedrada no charco da música portuguesa. Foi também essa atitude que levou o “Em Órbita" a eleger, num dos seus anos de emissão, “Strangers In The Night”, de Frank Sinatra, um dos temas mais “passados” nesse ano nos vários programas de rádio, como a pior canção do ano, para grande escândalo da maioria e gozo dos autores do programa e dos seus indefectíveis."

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Cinema e Rock n' Roll (21)


"Cherchez L'Idole" (1963)

Este é talvez o filme-arquétipo do movimento Ié-Ié, com uma intriga suficientemente idiota para ser rapidamente esquecida em favor daquilo que efectivamente importava: vender a França de Johnny Halliday, Sylvie Vartan e uma panóplia restante de vedetas para agradar aos copains e às copines do respectivo "Salut": Les Chaussettes Noires – com Eddie Mitchel (por favor, ler êdi mitchél), Les Surfs e Charles Aznavour, para impor um pouco de ordem e respeito e também agradar aos mais velhos (no filme, canta "Et Pourtant"). Ah!, e também se vendia a França do general De Gaulle, pois claro, uns anos depois de este ter arrumado a questão argelina para desgosto de muitos dos que o tinham ido buscar. Mal sabiam!...

Mas pronto, para mim e outros tantos como eu valia mesmo só para ver Sylvie Vartan, por quem todos tínhamos uma verdadeira paixão assolapada na verdura da nossa adolescência que nos impelia sempre, ou quase sempre, ao bom gosto. E, claro, ela interpretava esse canção-rainha das festas de garagem, durante a qual só mesmo as muito feias ficavam sentadas: “La Plus Belle Pour Aller Danser”, que eu e alguns mais versados na língua de Moliére resolvemos “trocadilhar” apelidando-a de “La Poubelle (trad.: caixote do lixo) Pour Aller Danser”. Mas apesar da poubelle, eram mesmo - a canção e Vartan - de partir todos os corações... O meu deve ter caído em cacos no cinema Alvalade, onde me lembro vi o filme numa sessão (chamava-se matinée) de sábado à tarde.

Curiosamente, na sequência do filme passada no Olympia podem ver-se na plateia figuras como Françoise Sagan, Juliette Gréco, Jean Marais e Marie Laforêt. Mas eu não dizia que o objectivo era mesmo vender a França?