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domingo, março 24, 2013

Estará o PS a agir correctamente?

Não sei se António José Seguro o fez ou não. Mas antes de ter enveredado por atitudes mais radicais no modo como faz oposição, para logo de seguida efectuar uma espécie de semi-retirada escrevendo cartas ao FMI e instituições europeias, numa atitude que os portugueses terão alguma dificuldade em compreender, teria sido avisado fazer um estudo de mercado tentando perceber as verdadeiras razões pela quais uma maioria dos portugueses não consegue ver no PS uma verdadeira alternativa ao actual governo. Serão questões relacionadas com o perfil e personalidade do seu líder? Com o modo como tem feito oposição? Por acreditarem na situação actual a margem de autonomia de qualquer governo é quase inexistente? Por acharem "quem manda" é mesmo a chaceler Merkel e as instâncias internacionais? Por atribuírem grandes e fundamentais responsabilidades ao PS na génese da crise actual? Por ainda não terem vislumbrado no PS uma opção programática e estratégica consistente? Por qualquer outra razão? E qual? Claro que o tipo e peso das respostas a cada uma destas perguntas teria de dar origem, por parte do PS e de Seguro, a respostas, em termos de opções e comportamentos políticos, diferenciadas. Caso contrário, funcionando apenas a "sensibilidade" e a "intuição", pode estar o PS "a dar tiros no escuro" e a gastar inutilmente os seus recursos.  

terça-feira, janeiro 18, 2011

O "Público" e o estudo da GFK: como ler.

Afirma o “Público” que, segundo um estudo realizado pela GFK, “metade dos portugueses diz que o país está pior do que antes do 25 de Abril”. Algumas notas.

  1. No texto verificamos logo que não se trata de metade mas sim de 46%, o que é bem menos do que metade. Há que ser rigoroso no modo como se titula.
  2. Para o estudo ter alguma validade, os interrogados deveriam estar em plena vida activa há 40 anos. Deveriam ter, portanto, mais de 18 anos em 1971, o que significa 58 anos actualmente. Se é esse o universo do estudo - o que seria o correcto - apenas se pode falar em 46% dos portugueses com mais de 58 anos e nunca em 46% dos portugueses. Se não o é, estamos perante um disparate total (acho). Ora, por muito que tenha procurado no texto do "Público", o estudo nada nos esclarece sobre o assunto.
  3. Quem tem hoje mais de 58 anos seria, como vimos, adolescente ou jovem adulto em 1971. Ora a vida, por muito dura que tivesse sido, é sempre bem mais risonha quando se é jovem e quase todos os sonhos são permitidos. Este é um dado habitual quando se realizam inquéritos sobre o passado longínquo ("a escola era risonha e franca" e o tempo apaga as mágoas deixando apenas as gratas recordações). Quem tiver dúvidas veja o sucesso de "Conta-me Como Foi".
  4. Quem responde a este tipo de inquéritos tem sempre tendência a “pintar” a actual situação (qualquer que ela seja) com cores mais negras, funcionando a resposta muito como uma queixa “a quem de direito” para tentar a sua vida melhore. Uma maioria dos inquiridos parte sempre do princípio que de nada serve salientar os aspectos positivos, já que nada ganham com isso sendo esses sempre considerados como um direito adquirido. Há que ter isso em conta.
  5. Por último, um estudo como este não é “neutro”, e quem o encomendou e publica, não sendo muito difícil conhecer ab anteriori, de um modo geral, as suas principais conclusões, pretende com ele atingir um objectivo bem preciso e definido. Longe de mim estar a pretender com esta afirmação exercer qualquer pressão censória. Nada disso: total liberdade à execução e publicação deste tipo de estudos. Mas convém o cidadão que os lê saiba como o fazer, o que os pode influenciar e o que está em causa. Politicamente, claro!

segunda-feira, março 01, 2010

Dos limites dos estudos de opinião: o caso de André Freire e José M. Viegas

Existem duas situações clássicas que normalmente desaconselham o investimento num estudo de mercado ou de opinião, por inútil: quando sabemos nada vão acrescentar ao que já conhecemos sobre o universo do estudo; quando existe uma quase certeza de que as suas conclusões nunca, ou dificilmente, poderão ser transformadas em planos de acção consequentes destinados a resolver os problemas encontrados. Penso ser este o caso do estudo conduzido por André Freire e José Manuel Viegas, pelo menos (e ressalvo isso) face às conclusões aqui referidas.

Vejamos o primeiro ponto (conclusões):

Para concluir que os portugueses “têm reservas quanto ao monopólio dos partidos”, que gostariam de “participar mais”, que estão insatisfeitos com a qualidade da democracia, que desconfiam das maiorias absolutas (aqui há que ter em atenção a conjuntura), que o país tende maioritariamente para a esquerda e vê os partidos como estando reféns dos respectivos líderes será preciso investir num estudo deste tipo?

Vejamos o segundo ponto (planos de acção):

Que é possível fazer? Abrir as eleições legislativas a “listas de cidadãos”, ao estilo Fernando Nobre? Avançar para uma democracia referendária reproduzindo o populismo latino-americano? Adoptar os círculos uninominais, num país onde não existe essa tradição, com o risco do caciquismo e o pequeno “caudilhismo” de província se impor? Adoptar uma lei eleitoral que dificulte a obtenção de maiorias absolutas de um só partido com a séria hipótese de tornar o país ainda mais dificilmente governável?


    Espero a leitura do estudo completo seja mais esclarecedora sobre as conclusões e essas permitam, pelo menos aqui e ali, a definição de planos de acção exequíveis. Caso contrário...