Desculpem lá se vou simplificar um pouco as coisas, mas se não nos importarmos muito com essa simplificação, talvez um pouco abusiva para os mais puristas, podemos dizer que a cena do pop/rock britânico dos anos 60 tem origem em dois grandes ramos da música popular: o chamado "merseysound", nascido em Liverpool e que deve o seu nome à região e ao seu rio homónimo, e o "rhythm & blues", que não se pode dizer tenha uma região ligada ao seu nascimento, mas em cuja génese Londres e os seus Marquee e Crawdaddy Clubs, este último em Richmond, nos subúrbios da capital, tiveram papel preponderante. Talvez, e também sem demasiado rigor, se possa dizer que o "skiffle" assume na génese do "merseysound" um papel que não teve no "rhythm & blues", onde a influência dos nomes do "blues" americano (John Lee Hooker, Muddy Waters e até um dificilmente classificável Bo Didley) foi decisiva. Claro que o "rock" americano se mistura em doses variáveis por ambos, como não podia deixar de ser, e claro também que isto foi no princípio e depois as coisas foram evoluindo e tornaram-se mais complexas ("mods", "psicadelismo", rock sinfónico, influências do "vaudeville", da música indiana, etc, etc), mas o que me interessa aqui são mesmo esses dois grandes ramos genéticos.
O que pretendo agora numa série de "posts" é pôr em evidência as diferenças entre os dois "estilos" iniciais, (digamos assim), mais "duro", mais gritado e menos melódico o ""rhythm & blues", com frequente recurso ao orgão, e o mais tendencialmente melódico e talvez com maiores ligações à música ligeira tradicional "merseysound". Claro que poderia começar por Beatles e Rolling Stones, no seu início os dois grupos mais emblemáticos destes géneros, mas preferi pôr em confronto a música dos Liverpudlians Searchers e dos Geordies (de Newcastle) Animals. No primeiro caso, a versão de um original de Sony Bono e Jack Nitzsche, "Needles And Pins", interpretado originalmente por Jackie DeShannon; no outro, "I'm Crying", um original de Alan Price e Eric Burdon, os dois principais membros dos Animals. Agora oiçam e vejam lá bem as diferenças!...
The Animals - "I Just Want To Make Love To You" (Dixon)
Muito graças à voz de Eric Burdon, já que Alan Price abandonou o grupo ainda cedo, em 1965, os Animals, apesar de Yardbirds, Manfred Mann, Them e alguns outros, foram talvez o grupo da "british invasion" que mais se manteve fiel ao "blue eyed soul" e ao "rhythm & blues". Um bom exempo é esta sua versão do tema de Willie Dixon que popularizou Etta James. Foi incluída numa reedição tardia do álbum Animalisms (1966), como "bonus track". O álbum original não vale muito a pena, (acho) e na minha discoteca a versão dos Animals de "I Just Want To Make Love To You" está incluída no CD "The Rhythm And Blues Collection", de 1987. Compre já.