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quinta-feira, abril 17, 2008

Mais um "post" sobre o Boavista F. C.

Já agora que o assunto é actual, mais um post arrancado aos arquivos do "Gato Maltês" sobre a família Loureiro e o Boavista F. C., escrito há um ano, no dia 23 de Abril de 2007

"No “Mais Futebol”, Luís Sobral escreve um artigo interessante sobre a actual decadência do Boavista F. C., poucos anos depois de se ter sagrado campeão nacional e ter chegado à segunda fase da “Champions League” e às meias-finais da Taça UEFA. Não vai, no entanto, ao fundo da questão. Vejamos. O Boavista foi, nas décadas de 80 e 90, o instrumento fundamental da ascensão ao poder de Valentim Loureiro, tal como o FCP o foi para o poder económico, empresarial e político emergente no Grande Porto após a normalização democrática do 25 de Novembro de 1975. Essa afirmação política e empresarial de Valentim Loureiro passou, em primeiro lugar, pela “lavagem” de imagem depois dos seus problemas com a justiça militar na fase final da ditadura, que nada tiveram que ver com a política mas sim com o seu comportamento e actuação enquanto oficial de Administração Militar. O ter ascendido a presidente do Boavista possibilitou, pois, não só a “lavagem” dessa imagem (tornando-o conhecido e permitindo-lhe o acesso fácil aos "media"), como, com a habitual complacência da normalmente subserviente e pouco dada a críticas e investigações imprensa desportiva, mostrar “obra feita” no clube, credibilizando-o e criando para si próprio uma imagem de “fazedor”, empreendedor e gestor competente. Foi alicerçado na imagem e poder assim conseguidos que teceu a sua teia de relações e tráfico de influências, que lhe permitiram a sua ascensão política e desportiva, levando-o a vice-presidente do PSD, autarca, administrador do Metro do Porto e presidente da Liga de Futebol Profissional (e por aí fora...). Mas, se foi a presidência do Boavista F. C. a base, o ponto de partida para a criação deste seu poder, foi esse mesmo poder, criado numa teia de relações que passou inclusivamente pelas ligações à Guiné Bissau, que lhe permitiu levar o Boavista F. C. a campeão nacional, investindo o suficiente no futebol do clube, quando isso foi indispensável para a prossecução dos seus objectivos, e dominando as estruturas de decisão desportiva, desde o ministro (José Lello) ao dirigente máximo da arbitragem (Pinto de Sousa), passando pela sua própria eleição como presidente da Liga. Foi esta estrutura, a teia gigante assim construída durante anos, que inclusivamente passou por ser o único dos “não grandes” a cometer a loucura de construir um estádio de 30 000 lugares (raramente mais de 5 000 estão ocupados) para o Euro 2004, que levou o Boavista F. C., mesmo com um treinador medíocre e iletrado (que a partir daí acumulou despedimentos e fiascos por todo o sítio por onde passou), a campeão nacional, cumprindo mais um passo no percurso traçado, para si mesmo, por Valentim Loureiro no seu projecto de poder pessoal. Uma vez conseguidos os objectivos fundamentais, de imediato o clube desinvestiu, pois nada no projecto indiciava sustentabilidade, e basta comparar, a preços constantes, os orçamentos dos seus anos dourados com os orçamentos actuais. Sobreveio, com a entrada na “zona euro”, a perda de poder do “norte”, a nível político e empresarial, e o “Apito Dourado”, retirando-lhe poder no seu partido, no futebol e nos "media", foi uma machadada decisiva neste seu projecto.É uma história exemplar do Portugal das últimas décadas."

terça-feira, junho 26, 2007

Rui Moreira: a imagem de um novo Porto?

Rui Moreira é a estrela ascendente do norte (leia-se Porto), tentando veicular a imagem de uma cidade e uma região que, esgotado o modelo exportador e de substituição de importações de baixo valor acrescentado, sem marca ou com marca do comprador, tenta encontrar a sua oportunidade no mundo do Portugal da UE e da globalização. Foi um modelo que encontrou uma base de sustentação nas condições políticas e de mercado do período entre o 25 de Novembro de 1975 e o início dos anos noventa, e o seu cimento ideológico na luta entre o Porto, cidade “portuguesa”, honesta e franca, capital do trabalho, e a “capital” “estrangeirada”, puramente administrativa e portanto gastadora, que ignorava o país real. Foi o modelo que teve em Fernando Gomes e, principalmente, Pinto da Costa as suas figuras mais mediáticas, e no FCP a instituição mais emblemática de uma cidade que convivia paredes meias com o campo, provinciana, com “quinhentinhos”, “guarda Abel” e “casas de alterne”. Foi todo um modelo que as privatizações, a UE, a globalização e, nomeadamente, a integração ibérica puseram em causa – e que, se quisermos, tem o seu epílogo simbólico no caso “apito dourado” e na derrota de Belmiro de Azevedo na OPA sobre a PT - tendo o Porto passado quase sem dar por isso de 2ª cidade portuguesa a (para aí) 10ª ou 15ª da península, situação que está também na base da cada vez maior atracção da cidade pelo noroeste peninsular.

Basta ter tido a oportunidade de visitar frequentemente o Porto e contactar com os meios empresariais da cidade nos últimos anos (eu tive essa chance na primeira metade da actual década), para sentir algum vento de mudança e prever alguns cenários futuros, dos quais Rui Moreira é a imagem. Sintomática, também, a sua ligação ao futebol e ao FCP, fruto da convicção de que nenhuma mudança significativa passará ao lado daquela que foi a indústria sustentadamente de maior sucesso e a instituição mais aglutinadora e que melhor veiculou a ideologia de um projecto e de uma cidade.

Mas como old habits die hard, veremos se e de que modo as mentalidades e os velhos hábitos, tão difíceis de mudar mesmo nas sociedades não democráticas (com campos de reeducação e tudo), serão capazes de se adaptar ao novos tempos. Para já, lendo e ouvindo o que por aí se vai dizendo e escrevendo, mormente em alguns blogs nortenhos, as coisas parecem estar a ser bem complicadas. É que, por vezes, a “coisa” faz-me lembrar aquela história do portuense que, para não lhe perguntarem, sempre que abria a boca para falar, se era do Porto, decidiu perder o sotaque. Quando novamente veio a Lisboa, agora falando como qualquer alfacinha de quinta geração que se preze, ao repetirem-lhe a pergunta estranhou e perguntou porquê, tendo o interlocutor respondido: “ah, é esse toquezinho piroso”!!!