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quarta-feira, setembro 16, 2009

A morte de José Manuel de Mello, a CUF e o século XX português

"O Bairro da CUF" - documentário da autoria de Isabel Teixeira e Rui Durão da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha.
A propósito da morte do empresário José Manuel de Mello, deixo aqui, em repetição, um "post" e um vídeo publicados a 14 de Outubro de 2008 neste "blogue", tentando, entre os elogios de alguns e os insultos de outros, visíveis nas caixas de comentários de alguns jornais "on-line", mostrar que, felizmente, o mundo (e Portugal) não é - nem era - a preto e branco.

"A RTP exibiu há um par de semanas um excelente documentário sobre a CUF (que, penso, passou um pouco esquecido), o que significa também uma igualmente excelente visão sobre uma realidade incontornável do século XX português e, que me lembre, sobre o único dos grandes grupos económicos, do período anterior ao 25 de Abril, que nasceu e cresceu ancorado numa base eminentemente industrial e muito em função das necessidades de crescimento e consolidação dessa sua base, mesmo tendo-se estendido rapidamente à banca, seguros, navegação, etc. A CUF correspondia a um modelo daquilo que Alvin Toffler denominava de "segunda vaga industrial", característico da primeira metade do século XX. Foi um conglomerado de empresas que cresceu e se desenvolveu com a ditadura, o corporativismo e o “condicionamento industrial”, e que o final destes – com a liberdade empresarial e a abertura de mercados - veio a pôr em causa, por muito que as nacionalizações e o período conturbado pós 25 de Abril possam também ter dado - e deram - o seu contributo, em minha opinião não mais do que um acelerador conjuntural e acessório. À CUF e ao modelo empresarial que consubstanciava está também ligada uma parte da história do Barreiro e do PCP (este era a outra face de uma mesma moeda), das lutas operárias do Portugal do século passado, da oposição democrática e das eleições de 1958. Por isso mesmo, muito mais do que uma empresa ou um grupo económico, a CUF foi, mais do que qualquer outro ou de qualquer outra coisa, um modo de vida que cresceu, teve o seu apogeu e declínio e depois morreu, deixando em muitos a saudade do tempo de uma vida cheia. Morreu como morreram a Marinha Grande, a cintura industrial de Lisboa - quer a de Belém/Alcântara/Marvila quer a posterior de Venda Nova a Vila Franca - como desapareceu o proletariado agrícola do Couço ou de Albernoa, as operárias conserveiras de Olhão. Mas com uma diferença: a CUF, com os seus bairros operários, a sua despensa, as colónias de férias, as escolas e hospitais, o desporto, a formação de operários e quadros, mas também a repressão e as lutas, deixou por certo uma saudade que não é só memória da juventude perdida: é que era mesmo o fulcro de toda uma vida. Dizê-lo é a melhor forma de homenagear todos aqueles que a fizeram: fundadores, accionistas, dirigentes e trabalhadores.

O “Gato Maltês” foi descobrir no "You Tube" este pequeno e excelente documento (trabalho final de curso) realizado por Isabel Teixeira e Rui Durão, alunos da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, sobre “O Bairro da CUF”, que ilustra bem o que acima digo. Com a devida vénia o apresento."

terça-feira, outubro 14, 2008

A CUF

"O Bairro da CUF" - documentário da autoria de Isabel Teixeira e Rui Durão da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha
A RTP exibiu há um par de semanas um excelente documentário sobre a CUF (que penso passou um pouco esquecido), o que significa também uma igualmente excelente visão sobre uma realidade incontornável do século XX português e, que me lembre, do único dos grandes grupos económicos do período anterior ao 25 de Abril que nasceu e cresceu ancorado numa base eminentemente industrial e muito em função das necessidades de crescimento e consolidação dessa sua base, mesmo tendo-se estendido à banca, seguros, navegação, etc. A CUF correspondia a um modelo daquilo que Alvin Toffler denominava de "segunda vaga industrial", característico da primeira metade do século XX, um conglomerado de empresas que cresceu e se desenvolveu com a ditadura, o corporativismo e o “condicionamento industrial” e que o final destes, a liberdade empresarial e a abertura de mercados veio a pôr em causa, por muito que as nacionalizações e o período conturbado pós 25 de Abril possam também ter dado o seu contributo, em minha opinião não mais do que conjuntural e acessório. À CUF e ao modelo empresarial que consubstanciava está também ligada uma parte da história do Barreiro e do PCP (eram a outra face de uma mesma moeda), das lutas operárias do Portugal do século passado, da oposição democrática e das eleições de 1958. Por isso mesmo, muito mais do que uma empresa ou um grupo económico, foi, mais do que qualquer outro ou de qualquer outra coisa, um modo de vida que cresceu, teve o seu apogeu e declínio e depois morreu, deixando em muitos a saudade de quando se tem a vida cheia. Morreu como morreram a Marinha Grande, a cintura industrial de Lisboa, quer a de Belém – Alcântara – Marvila quer a posterior da Venda Nova a Vila Franca, como desapareceu o proletariado agrícola do Couço ou de Albernoa, as operárias conserveiras de Olhão. Mas com uma diferença: a CUF, com os seus bairros operários, a sua despensa, as colónias de férias, as escolas e hospitais, o desporto, a formação de operários, mas também a repressão e as lutas, deixou por certo uma saudade que não é só memória da juventude perdida: é que era mesmo toda uma vida. Dizê-lo é a melhor forma de homenagear todos que a fizeram, fundadores, accionistas, dirigentes e trabalhadores.

O “Gato Maltês” foi descobrir no "You Tube" este pequeno e excelente documento (trabalho final de curso) realizado por Isabel Teixeira e Rui Durão, alunos da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, sobre “O Bairro da CUF”, que ilustra bem o que acima digo. Com a devida vénia o apresento.