Se a empresa privada que encomendou o estudo sabia de antemão os resultados que iria obter (o desfasamento entre a percepção de segurança e a efectiva segurança é idêntico ao de anos anteriores, agravado pela crise e pela tabloidização crescente dos “media”, e, salvo acontecimentos excepcionais, estamos perante uma realidade estrutural, que, como tal, pouco se altera no curto-prazo) e mesmo assim decidiu encomendá-lo é porque esses resultados, com a caução que um estudo de opinião lhes confere, irão permitir que essa mesma empresa tenha perspectivas de ver crescer o seu negócio (“equipamentos de segurança”, como se verificou). É essa a sua expectativa, aliás legítima, e por isso mesmo conseguiu que o “Fórum TSF” dedicasse hoje o seu tempo a debater as conclusões de um estudo privado que tem como objectivo o crescimento de um negócio também ele privado. Aliás, sabe também de antemão a empresa que encomendou o estudo que o tema é suficientemente popular e populista para ter repercussão mediática assegurada. Muito bem, quem na empresa ou na respectiva agência de comunicação tinha por missão sensibilizar os “media” para tal, fez o seu trabalho bem feito. O que está então errado? Mais uma vez, vejamos.
O que está errado é que responsáveis políticos de partidos com representação parlamentar (PS, PSD e CDS – PCP e BE não o fizeram e alguma vez soaria a sua hora de terem razão), um Director-Geral de um ministério e o General Garcia Leandro, em nome da OSCOT (Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo) tenham decidido vir a público comentar o tema “segurança” na base das conclusões de um estudo com estas características e conhecido o proponente e seus interesses. O que está errado é que o Director-Geral da Administração Interna e o presidente do OSCOT, cujo objectivo deveria ser a prossecução do bem comum nas áreas que se propõem dirigir e “observar”, estejam presentes na apresentação deste estudo, dando caução aos seus objectivos. O que está errado é que o OSCOT comece logo por propor como panaceia ou solução milagrosa, por voz do general Garcia Leandro e já não é a primeira vez que o faz, o aumento da vidio-vigilância que, como sabemos, para além dos problemas de intrusão na vida privada que lhe são inerentes (e já não é pouco...), está longe de constituir um método eficaz de dissuasão da grande criminalidade (os assaltos mais graves ou mais mediáticos têm acontecido em zonas sob video-vigilância). Por fim, o que está errado é que um tema que, bem ou mal, com razão ou sem ela, preocupa os portugueses e onde se corre permanentemente o risco de ferir algo tão sensível como os direitos, liberdades e garantias e princípios essenciais do Estado de Direito Democrático seja tratado deste modo, isto é, com rigor mais do que questionável, subordinando o público ao privado e tendo como um dos seus porta-voz com maior influência alguém cuja fidelidade a esses princípios, por muito que tenha sido militar do 25 de Abril, tem deixado, por gestos, palavras e atitudes dos últimos tempos, muito a desejar, contribuindo para um ambiente catastrofista de finis patriae.
Por fim e também por último: o que está errado é ter de ser um modesto “blogger”, e não o jornalismo dito “de referência”, a escrever sobre estas coisas. Ponto final!