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segunda-feira, fevereiro 13, 2012

A "manif"

Em Portugal, parece que o êxito ou fracasso de uma manifestação se mede apenas pelo número de participantes que consegue reunir, gerando-se assim discussões intermináveis sobre o rigor dos números apresentados. Uma estupidez, pois o êxito ou fracasso de uma manifestação mede-se, fundamentalmente, pela sua capacidade para conseguir alcançar os objectivos a que se propõe (ou contribuir decisivamente para tal) e se tal depende, em parte, do número de participantes, está muito longe de se esgotar nesse ponto. Depende, também, da capacidade para mobilizar gente fora do habitual círculo do PCP e CGTP, tal como aconteceu, por exemplo, nas manifestações de professores durante o Governo de José Sócrates ou, até, da "Geração À Rasca". Da conjuntura política e das fragilidades do governo (se a manifestação for contra este) na área que é especialmente visada. Dos apoios, explícitos ou implícitos que consegue granjear no aparelho de Estado (foi importante para os organizadores o apoio do PR à "manif" da "Geração À Rasca"). Do sector que se mobiliza (uma manifestação da Função Pública, por habitual, terá sempre menor impacto que uma outra de um conjunto de empresas do sector privado). Do modo como decorrer a manifestação e do respectivo impacto mediático - e tal depende muitas vezes de acontecimentos imprevisíveis. Etc, etc, etc.

Por isso mesmo me parece inútil saber se na manifestação do último sábado estiveram presentes 100 000, 200 000 ou 300 000 pessoas. Restringido o seu âmbito aos habituais CGTP, PCP e BE, sem nenhuma novidade mobilizadora na sua organização e sem grandes apoios visíveis fora desse sector bem definido, sem objectivos tangíveis alcançáveis no curto-prazo, enfim, sem qualquer novidade no seu conteúdo, estejamos a falar de 100 000 ou 300 000 pessoas, limitou-se a mostrar a já conhecida capacidade de mobilização dos seus organizadores e apoiantes e a manter nestes a "chama viva". Parece-me bem que por aqui pode estar o governo descansado.

sexta-feira, dezembro 09, 2011

O BE, a Ruptura/FER e os talibãs

Já seria suficientemente desastroso para o "Bloco de Esquerda" que o grupo dissidente Ruptura/FER resolvesse informar a opinião pública da sua defesa de posições como "a exigência do fim das portagens em todas as autoestradas" ou a "suspensão do pagamento da dívida". Mas enfim, embora fosse difícil entender como o partido podia suportar tal gente no seu seio, pelo menos tais posições não só não eram as da sua direcção, como não foi a sua divulgação iniciativa dos orgãos oficiais do BE.

Mas que a Mesa Nacional do Bloco, órgão máximo do partido entre congressos (acho), venha agora divulgar, em defesa das suas posições e no ataque à dissidência, que a Ruptura/FER se propunha apelar "à constituição de brigadas para apoiar os talibãs no Afeganistão" (talvez nelas integrando Ana Drago, Joana Amaral Dias e Marisa Matias, acrescento como sugestão) penso destrói de vez qualquer credibilidade que ainda pudesse restar no partido, apesar da presente depuração aparentemente o fortalecer, e vem dar o golpe definitivo na imagem de respeitabilidade reformista, democrática e parlamentar que o BE tanto se esforçou por construir. RIP.

segunda-feira, agosto 08, 2011

Contestação em Setembro?

Oiço e leio frequentemente que a ausência de contestação a algumas medidas do governo se ficará a dever ao período de férias. Tenho algumas dúvidas, embora não descarte sejam as férias pouco amigas da contestação. Parece-me mais evidente que essa ausência de tal contestação se ficará mais a dever ao facto de, até agora, não terem sido atingidos de modo notório, específico e exclusivo os interesses de algumas das corporações dominantes e que estiveram na vanguarda das acções contra o anterior governo, tais como, por exemplo, professores, autarcas, magistraturas, forças de segurança, camionistas, médicos, etc. Enquanto tudo se resumir a uns cortes salariais e das transferências sociais, mais ou menos universais pelo menos para quem vive ou sempre viveu do seu trabalho, a contestação, mesmo chegado Setembro, ficará reduzida apenas a umas poucas e institucionais manifestações do costume a cargo dos organizadores habituais, CGTP, PCP e BE. Digamos que pelo menos neste ponto a gestão do governo tem sido inteligente.

domingo, junho 26, 2011

A esquerda radical e Paulo Macedo

Não sei se Paulo Macedo virá ou não a ser um bom ministro da Saúde. Por mim, que sou um defensor do Estado-Providência, espero que proceda a uma racionalização do SNS de modo a que este consiga prestar cada vez com maior eficácia os seus serviços a todos (repito: todos) os cidadãos, e será em função disso que farei a minha avaliação. Mas o que acho lamentável é o processo de intenções que lhe está já a ser movido, vindo de sectores da esquerda radical, pelo facto de ter trabalhado na Médis e, para tal gente (da esquerda radical), isso significar que, enquanto ministro, irá defender os grupos privados de saúde, em geral, e a Médis, em particular. No limite, e levado este raciocínio às últimas consequências, tal significaria que ninguém poderia mudar de emprego para uma empresa concorrente, nos sectores público, privado ou entre ambos, sem carregar consigo a suspeição de o fazer sempre para defender os interesses da sua anterior entidade empregadora. Sobre o que este raciocínio revela de sectarismo, mentalidade mesquinha e persecutória, "ódio de classe" e estreiteza de vistas, não vale a pena acrescentar o que quer que seja. Haja pachorra.

sexta-feira, junho 10, 2011

Das razões da derrota do BE ao futuro do centro-esquerda

Em entrevista a uma das televisões (não me lembro bem qual, peço desculpa), José Manuel Pureza, ex-líder do grupo parlamentar do BE, afirmou, mais ou menos em jeito de explicação para os fracos resultados eleitorais do partido, que o discurso sobre as questões económicas tinha assumido o papel principal do debate político. Nada de que devesse surpreender quem quer que fosse, acrescentarei, e numa pequena nota no "twitter" mencionei não ter o BE não sabido dar resposta a tal mudança. Ora vejamos...

O segredo do êxito do Bloco de Esquerda residiu, fundamentalmente, na sua capacidade para responder a um país que se "urbanizou", que se terciarizou; aos problemas de muitos portugueses, urbanos e com algum grau de instrução, pós-modernos (chamemos-lhes assim por comodidade de raciocínio) que não se reviam numa sociedade conservadora, de raiz rural e ainda muito influenciada por essa mesma ruralidade. Mais ainda, soube responder também a uma sociedade pós-industrial e que, por isso mesmo, também já não se revia nos métodos e projecto pelo PCP. Não é por acaso - é antes bem sintomático - que essa resposta tivesse passado também por gente como Miguel Portas, Ana Drago e Joana Amaral Dias, oriundos de uma classe social média-alta, instruída e com uma imagem de grande sofisticação na qual muitos jovens, e também alguns menos jovens, urbanos se reviam. Foi esta a "oportunidade de negócio" (vamos chamar-lhe assim) inicial do BE, potenciada por uma deriva conservadora nos costumes assumida pelo PS do católico António Guterres.

O problema é que resolvida uma parte importante destas questões de costumes, onde o BE teve papel relevante forçando o PS a tomá-las como suas, quando as "tais" questões de carácter económico passaram a dominar, a ortodoxia do BE, ou das suas organizações fundadoras, não conseguiu dar resposta àquele que tinha passado a constituir-se como o seu "grupo-alvo". Porquê? Porque me parece bem que se os jovens e até os "não assim tão jovens" urbanos e suburbanos se preocupam bastante com a precariedade e, principalmente, com a falta de oportunidades para as suas qualificações, são, também e simultâneamente, gente liberal e individualista, anti-autoritária, sem o grande sentido colectivista que o trabalho na indústria ou como assalariado rural moldava "in illo tempore". Na prática, parece-me ser gente para quem pouco importa a CP, a TAP, ou a RTP sejam públicas ou privadas, para os quais a questão da segurança social pública ou privada (muitos são precários e nunca tiveram sequer acesso a subsídio de desemprego) ou do SNS são questões, para já, não excessivamente mobilizadoras, para os quais a passagem pelo ensino público - para os que não frequentaram o privado - não terá deixado grandes saudades e para quem as ideias de Marx e Lénin nada dizem e o anti-capitalismo é imediatamente relacionado com sociedades autoritárias e claustrofóbicas nas quais não se reconhecem e onde nunca gostariam de viver. Daí que as propostas do BE no área económica, a sua aproximação ao PCP e até o seu apoio ao "conservador" Manuel Alegre possa ter sido mal compreendido e aceite com desconfiança. Daí que alguns dos votantes do BE, em eleições passadas, tendo rejeitado o conservadorismo de Ferreira Leite, se possam mesmo ter sentido atraídos pelos auto-proclamados ultra-liberalismo de Passos Coelho, que até foi casado com uma das Doce e em tempos se tinha manifestado a favor da adopção por casais homossexuais.

Claro que o actual BE marxista-leninista, anti-capitalista do PSR e da UDP, nunca poderá abandonar os seus ortodoxos princípios de base em matéria económica, o que prevejo possa conduzir ao seu quase desaparecimento. Mas seria bom que militantes oriundos da Política XXI e outros, como Daniel Oliveira, Miguel Portas e até a sempre demasiado sectária Joana Amaral Dias, perdessem (ou ganhassem) alguns minutos do seu tempo a pensar sobre estas questões. Aliás, quer-me mesmo parecer que qualquer possibilidade futura, a prazo mais ou menos longo, de um novo governo de centro-esquerda, liderado pelo PS, passará muito pelo que acontecer na área política actualmente ocupada pelo BE.

terça-feira, junho 07, 2011

A questão-chave do BE

Contrariamente ao que afirmam Daniel Oliveira e Joana Amaral Dias, os problemas do "Bloco de Esquerda" não se reduzem a opções meramente tácticas, como ter ou não apoiado Manuel Alegre, apresentado uma "moção de censura" ou ido ou não à reunião com a "troika". A questão é mais funda e é estratégica, podendo resumir-se na seguinte frase: qual o posicionamento político e ideológico que um partido "entalado" entre a social-democracia europeia clássica e o comunismo ortodoxo de raiz soviética pode assumir para conseguir ser bem sucedido de forma sustentada. É esta a questão-chave, o problema que o BE terá que resolver a prazo se não se quiser condenar ao insucesso.

Condicionado por uma ideologia marcada pela inserção do PSR na IV Internacional e por uma "frente" (UDP) dirigida por um partido marxista-leninista, duvido muito existam no BE condições para uma reflexão deste tipo.

terça-feira, abril 19, 2011

PCP e BE nunca sequer saíram do PREC

Mário Soares escreveu no seu habitual artigo de opinião no DN que PCP e Bloco de Esquerda "parece que querem voltar a um novo PREC". Com a devida vénia e ainda maior respeito por Mário Soares, acho que PCP e BE nunca verdadeiramente de lá (do PREC) saíram. Como partidos, na sua essência, marxistas-leninistas, que actualmente e na sua acção prática quase parecem Dupont e Dupond, limitaram-se a dar o passo atrás na perspectiva que novos tempos lhes venham a permitir dar os dois passos em frente, aplicando o velho e bem conhecido conceito "toda a flexibilidade táctica e nenhuma flexibilidade estratégica".

E se o PCP pode contar para as suas acções com um número de votantes fiel e uma base autárquica e sindical consistente, quer-me parecer que, na conjuntura, o mimetismo táctico e de imagem para que tende o BE arrisca a saldar-se por um considerável desastre partidário.

segunda-feira, abril 04, 2011

O Bloco de Esquerda, o PCP e a IV Internacional


Será que poderemos afirmar que as várias correntes trotskistas estão em alta no BE em detrimento da facção m-l, ligada à UDP? Ou que dentro da IV Internacional a facção Ruptura/FER (secção portuguesa da Liga Internacional dos Trabalhadores) está em crescendo? Ou que existe neste momento uma coincidência de pontos de vista entre a corrente maioritária da IV Internacional e a Liga Internacional dos Trabalhadores?

Enfim... para perceber o que se passa no BE talvez não seja má ideia seguirmos com atenção o que se passa com a luta entre as várias tendências trotskistas representadas na IV Internacional.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O voluntarismo de Daniel Oliveira e um dos dramas da sociedade portuguesa


“Há uma forma de vencer o desespero: dar esperança. E para isso é preciso que as pessoas acreditem que há alternativas e que elas podem vencer. Ninguém se arrisca a troco de coisa nenhuma. Duas condições para que isso seja possível: credibilidade no que se propõe e uma ação política que se dirija a uma base social maioritária. Programa exequível e alianças alargadas

Estou a falar do Bloco de Esquerda, do PCP e dos muitos eleitores e militantes do PS que ainda acreditam que o poder pode ser mais do que gestor da desgraça. Estou a falar dos sindicatos, dos movimentos sociais, de quem tem espaço na comunicação social.”

Este pensamento de Daniel Oliveira, que embora sendo militante do “Bloco de Esquerda” (digamos em seu abono que pouco "ortodoxo"), tenho como democrata sincero e empenhado, constitui, de facto, um dos dramas da sociedade portuguesa: a existência, à esquerda, de um grupo significativo de defensores das instituições democráticas que, honestamente, ainda pensam qualquer acordo alargado (a velha “frente”...) que inclua o PCP, o BE e o actual sindicalismo conservador pode constituir uma alternativa democrática, não radical, solidária e modernizadora da sociedade portuguesa. Mais ainda, que é estrategicamente possível, para além de iniciativas tácticas localizadas, qualquer aliança entre o PCP, “vanguarda da classe operária”, e o BE ou quaisquer outras “forças” sem a hegemonia de quem se assume como “vanguarda” da classe a quem cabe um um papel histórico no derrube do capitalismo. Pior, que tal coisa é possível no quadro da UE ou não implicando o abandono desta, com todas as suas consequências.

Na realidade, as propostas voluntaristas de Daniel Oliveira, pela sua inexequibilidade já por várias vezes provada, muitas delas de forma trágica, acabam por demonstrar exactamente o contrário do que ele pretende: não existe qualquer alternativa democrática não radical e, portanto, não anti-capitalista (e o capitalismo é condição sine qua non da democracia política, note-se), modernizadora da sociedade portuguesa, geradora a prazo de maior justiça social (mesmo que com o dramático sacrifício actual de uma geração) que possa ser protagonizada pelo PCP, BE e o actual sindicalismo. Trazer quem neles se revê e acredita em soluções por si protagonizadas para o campo da democracia liberal e da economia baseada na livre iniciativa, lutando, neste campo gerador de desigualdades, por uma sociedade mais justa e solidária, mais aberta e tolerante, mais igual apesar das desigualdades que necessariamente gera, é uma tarefa de todos os que se revêm na democracia e no progresso social. Assim sendo, espero um dia seja possível dar as boas-vindas ao Daniel Oliveira. Digamos que já estivemos mais longe...

sábado, fevereiro 19, 2011

A moção" do "Bloco" e o seu texto

Depois de se ter assegurado da abstenção da direita parlamentar, não fosse a sua "moção de censura" poder vir a provocar a queda do governo, o "Bloco de Esquerda "suavizou" as referências ao PSD no respectivo texto. Partindo do princípio que os exercícios de hipocrisia fazem parte integrante da vida política, assumindo mesmo nela um papel essencial, não posso deixar de assinalar que a "coisa" foi bem feita. Mas à atenção do "Bloco": depois não se queixem se forem vistos como um partido igual aos outros!

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Um agradecimento ao "Bloco de Esquerda" - ou, para ser mais exacto, ao papel que assumiu em defesa do regime e da democracia liberal

Nos dias que se seguiram ao anúncio da sua “moção de censura”, o “Bloco de Esquerda” foi transformado, e com razão, numa espécie de “pushing ball” do regime, saco onde todos, até alguns dos seus dirigentes e simpatizantes mais mediáticos, trataram de acertar uns bons “swings”, “directos” e “uppercuts”. Bem merecidos, direi eu. Mas, nestes tempos complicados para a vida do mais jovem partido português do “arco parlamentar”, talvez seja justo lembrar algo em seu benefício e no do regime que tem ajudado a consolidar (calma, já vão ver porquê...).

De facto, o BE veio ocupar um espaço político (o seu crescimento comprova-o) deixado vago pelo PCP com a dissolução do “proletariado urbano”, com a substituição das cinturas industriais por uma pequena burguesia suburbana e culturalmente autónoma e por aquilo que se pode chamar, embora de modo demasiado redutor, de deriva centrista do PS: um eleitorado mais jovem (mas nem sempre), pós-moderno e radical, relativamente marginal face ao “status quo”, demasiado liberal e individualista, desalinhado, para se reconhecer no conservadorismo tradicional, no monolitismo e ortodoxia comunistas ou na disciplina e cinzentismo dos grandes partidos de poder.

Foi portanto esta, e de modo muito genérico, a base de crescimento do BE, e cuja contestação ao regime ou puro e simples afastamento da política institucional o partido ajudou a enquadrar e institucionalizar, conduzindo-a ao “redil” do sistema (lembram-se da “ovelha negra” do PSR?) e forçando mesmo o PS a cedências em muitas das emergentes questões de “costumes”. Sem o enquadramento desses cidadãos, que o BE em “boa hora” levou a cabo, sem a institucionalização, que realizou, desse potencial de contestação, convenhamos que algumas das manifestações populares da crise poderiam (sabe-se lá?!...) assumir expressões e formas bem mais violentas e de difícil controle. O regime e todos nós, os que nos revemos numa democracia liberal e numa sociedade aberta e progressiva, não conservadora e cosmopolita, devemos ao “Bloco” este agradecimento; e o anúncio de apresentação da sua "moção de censura" nada mais representa do que mais um passo no cumprimento desta sua tarefa histórica. Malgré lui, provavelmente!

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

A moção

Duas coisas serão curiosas de analisar na moção de censura ao governo que o “Bloco de Esquerda” irá apresentar na Assembleia da República:

  1. Em primeiro lugar se a sua redacção será de molde a “piscar o olho” à direita parlamentar, única hipótese de a moção ter alguma eficácia e de deixar esta em maus lençóis face a uma sua mais do que provável abstenção, pelo menos da parte do PSD. Caso não o seja, optando o BE por uma formulação mais radical “à esquerda”, isso significa que o partido não tem qualquer intenção de derrubar o governo e apenas pretende “marcar a agenda política” e, assim, capitalizar o descontentamento popular face às medidas de austeridade. Passaria a ser uma questão apenas a dois, entre BE e PCP.
  2. Em segundo lugar ver qual a opção do PCP, que ou irá atrás do BE ou terá que se explicar muito bem aos seus militantes. E atenção: o PCP não costuma brincar em serviço. Mas, de facto, perdeu aqui a iniciativa política, embora o partido, pela sua própria natureza, costume recuperar bem destas situações de algum desconforto parlamentar.

Mas, para já, parece-me que será o PSD o partido mais incomodado com esta iniciativa “bloquista. Se optar pela mais do que provável abstenção desagrada ao anti-sócratismo mais populista e radical, que, quer queiram quer não, constitui, neste momento, uma boa parte da sua base eleitoral e, principalmente, da “vanguarda” da opinião publicada; e a não aprovação de uma moção de censura será sempre assinalada como uma vitória do governo e do primeiro-ministro. Se votar a favor tal será recebido com desconforto por uma boa parte do mundo empresarial e dos negócios, e o PSD não escapará à acusação, pelo PS, de actuação “aventureirista”, “anti-patriótica”, “causadora de instabilidade” e por aí fora, sendo obrigado a enfrentar eleições sob o peso deste anátema . Mas penso que, entre estas duas opções, o PSD optará pela “responsabilidade”.

domingo, novembro 21, 2010

Rui Tavares e as bolsas de estudo

Rui Tavares, deputado europeu do “Bloco de Esquerda”, decidiu doar uma parte do seu salário (penso que €1 500/mês), para bolsas de estudo. Pessoalmente, acho uma boa ideia, mas com não tenho do mundo e da vida uma concepção demasiado moralista (livra!), acharia igualmente boas muitas outras aplicações decididas por Rui Tavares para os seus €1 500 mensais, quer elas o beneficiassem essencialmente a si, ao seu bem-estar, quer a terceiros. Excepto, claro, e como tendemos a exportar para os outros os nossos próprios valores, se Rui Tavares decidisse gastar o seu dinheiro no bordel da esquina ou em coisas como acender charutos com notas de euro, forrar a oiro as torneiras lá de casa, investir no tráfico de droga ou no terrorismo internacional.

Tendo dito isto, o que não podemos esquecer é que Rui Tavares é deputado europeu, cargo que exerce em nome de um partido (neste caso o “BE” mas poderia ser qualquer outro) e por isso mesmo o seu gesto tem obrigatoriamente uma leitura e significado políticos, estando longe de ser inocente. Muito pelo contrário, neste tempo de enorme afastamento entre os cidadãos e os políticos, em que estes e executivos de empresas são vistos (demasiado frequentemente, com razão) como privilegiados e beneficiários de regalias e sinecuras consideradas inadequadas e imerecidas, situação exacerbada por uma comunicação social populista, a atitude de Rui Tavares irá sem qualquer dúvida funcionar em benefício da sua imagem enquanto político, mas também da do partido que representa e do alastramento de uma ideia populista que tende a entranhar-se na sociedade. Uma atitude, em si própria, com todas as características de um gesto altruísta, transforma-se assim numa decisão com um óbvio significado político e cujo altruísmo pode mesmo, por essa via, ser questionado. Para além disso, funcionando como exemplo, assume também um evidente significado moral, e se nada ou muito pouco me afectam os benefícios que o próprio e o “BE” podem retirar do gesto de Rui Tavares, já confesso o meu desconforto perante “exemplos morais” apontados à nação quais setas envenenadas, uma vez que na base de qualquer totalitarismo existe quase sempre uma ou outra ideia de superioridade moral.

Bom, dir-me-ão, assim sendo não teria sido bem melhor Rui Tavares não ter dado publicidade ao seu gesto, anulando assim qualquer potencial perversidade nele contida e evitando leituras políticas? Pessoalmente, acho teria sido preferível, em nome do altruísmo de uma ideia que considero positiva. No entanto, ao dar publicidade ao seu gesto Rui Tavares também potencia a possibilidade de o ver multiplicado a muitos níveis na sociedade, o que não deixa de ser benéfico para os que podem vir a necessitar de apoios desse ou de outro tipo.

Conclusão? Pois... Felizmente o mundo não é a “preto e branco” e entrincheirarmo-nos em ideias pré-concebidas nem sempre constitui a melhor opção para o compreender.

quinta-feira, julho 22, 2010

Louçã e a constituição

Já ouvi hoje, na TSF, Francisco Louçã afirmar que no PS só Manuel Alegre é confiável na “defesa da constituição”. É, por um lado, a posição conservadora, de ver a constituição como “vaca sagrada” na qual é sequer proibido tocar (existem disposições constitucionais obsoletas e outras melhoráveis que podem e devem ser eliminadas ou modificadas). Por outro lado, quando existe para o eleitorado potencial do BE a possibilidade de o PS começar a ser visto como o último reduto do Estado Social, Francisco Louçã teme isso se traduza numa derrota pesada do seu partido em futuras eleições. Compreende-se...

quarta-feira, junho 09, 2010

O BE "cantando e rindo"...

Quando a esquerda radical e que se pretende pós-moderna, a tal auto - intitulada “de confiança”, nada mais parece ter para fazer do que abespinhar-se por os alunos de uma qualquer ignota escola de província se vestirem de filiados da Mocidade Portuguesa para uma qualquer inocente e “naïf” recreação do passado, fica bem demonstrada a sua estreiteza e puritanismo ideológicos.

Já agora, não sei que dirão dos que, na indústria cinematográfica, são contratados para papéis ou convidados como figurantes de soldados e oficiais SS, soldados japoneses em cargas “banzai”, prisioneiros judeus dos campos de extermínio (incluindo crianças), índios americanos, pioneiros soviéticos ou pretos submetidos à escravatura, hereges e carrascos nos tempos da Santa Inquisição...

E que tal, qual “talibans” da pedagogia, elaborarem uma lista do que pode ou não ser recreado? Talvez um novo código Hays, não?

quarta-feira, maio 05, 2010

Tretas...

Peço desculpa pelo plebeísmo, mas deixemo-nos de tretas, de brincar às virgens ofendidas... O que é menos importante no caso da candidatura de Manuel Alegre é se as suas posições políticas dos últimos tempos se têm oposto, normalmente, às do PS; se o candidato está mais perto do “Bloco de Esquerda”; como é que Louçã e José Sócrates poderão estar lado a lado no apoio ao mesmo candidato; como é que o partido do governo apoia um candidato que critica o PEC e etc, etc.

O que é efectivamente importante e o PS vai ter que determinar é se, e de que modo, a candidatura de Alegre serve ou não, neste momento específico e num futuro próximo, maioritariamente, os interesses do partido. Se o partido concluir pela positiva, e como desde Maquiavel a moral pouco ou nada tem a ver com a política, haverá sempre uns sapos bem conhecidos, quais tenras coxinhas de rã, prontos a serem deglutidos. Essa é que é essa!

segunda-feira, abril 05, 2010

Os escândalos de pedofilia e o combate político

Curioso na discussão que se tem gerado nos “media”, com especial incidência na "blogosfera", sobre os casos de pedofilia que envolvem a igreja católica é o facto de as suas duas vanguardas ideológicas opostas (vamos chamar-lhes assim) tenderem a ser constituídas fundamentalmente por não crentes: de um lado, a esquerda laica mais radical, muito polarizada em torno do “Bloco de Esquerda”, e, do outro, a direita ultra-liberal, ex-estalinista, neo-fascinada por Ratzinger e, na era de e pós W. Bush, pelo papel das religiões - neste último caso, o artigo de José Manuel Fernandes no “Público” de 6ª feira constitui peça relevante. Nada que possa constituir objecto de estranheza: estes são os sectores (ambos emergentes) que mais têm animado e quase monopolizado o combate político e ideológico nos últimos anos, encontrando aqui apenas mais um pretexto e um novo campo de batalha.

sábado, janeiro 23, 2010

O abraço de morte de Louçã a Alegre

Manuel Alegre terá que decidir se quer ser o candidato do “Bloco de Esquerda” à Presidência da República, sem quaisquer hipóteses de ganhar, ou se quer antes ser um candidato independente apoiado pelo PS e, eventualmente, por outros partidos, com algumas hipóteses de chegar a Presidente da República. Neste último caso, seria absolutamente necessário que começasse a demarcar-se do autêntico abraço de morte com que Louçã o vai tolhendo, mais interessado o “Bloco” em colocar problemas ao PS do que em ver Alegre eleito.

sábado, janeiro 16, 2010

Alegre, o "Bloco" e o PS

Vitalino Canas declarou que uma candidatura de Alegre à Presidência de República dividiria profundamente o PS. Entretanto, Francisco Louçã já tratou de anunciar o apoio do "Bloco de Esquerda" a Alegre. Claro como a água!

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Os professores e a "excelência"

Segundo notícia do “Público”, o Bloco de Esquerda argumentou contra o facto de, com a aplicação do modelo de avaliação de professores proposto pela actual equipa do Ministério da Educação, apenas 25% dos professores poderem ser considerados “muito bons” ou “excelentes”. Pois a mim, ao fim de mais de três dezenas de anos de trabalho em e com empresas onde se leva a sério a formação, avaliação e classificação dos seus colaboradores, o que me espanta é exactamente o contrário, isto é, que em qualquer profissão, e mais especificamente, pelo que vejo e oiço, na dos professores, possam existir 25% de profissionais que mereçam ser avaliados com tais classificações. Se me dissessem 5% acho andariam bem mais perto da verdade!